domingo, 25 de julho de 2021

Karen Blixen e a África -sintonias


A escritora Karen Blixen escritora cujos livros muito aprecio- chamava-se realmente Karen Dinesen era de origem dinamarquesa e usou  vários pseudónimos Pierre Andrezél, Isak Dinesen e outros (1). Com o nome de 'Izak Dinesen' assinou ela os primeiros livros e  tornou-se conhecida.


Era uma mulher de cultura. Estudou Arte em Copenhague, Paris e Roma. Amava as viagens e a aventura, viajou pelo mundo até se fixar em África com o marido em 1913. 

Em 1914, compram uma plantação de café no Quénia que os dois vão dirigir com um irmão de Karen  mas a verdade é que era ela quem se ocupava da propriedade com o irmão, pois o Barão seu marido cedo se dedicou apenas a fazer "safaris" e a ocupar-se de outras distracções.

Quando se divorciam em 1921 ela vai continuar sozinha a explorar a sua plantação de café com o irmão e com Denys Finch Hatton por quem se apaixonara entretanto. 

Karen Blixen era uma mulher forte e amava profundamente a sua quinta em África. Ajudaram-na os seus empregados africanos que protegeram em todos os momentos, sobretudo quando fica sozinha e sem nada. Por essa quinta em África lutou, perdeu o dinheiro todo que tinha e se endividou - acabando por a perder no final com grande desgosto. 

De facto, em 1931, a descida em flecha do preço do café no mercado internacional - e a morte de Denys- levam a escritora a vender a plantação e a voltar à Europa. 

 

Para Karen Blixen a partida e deixar para trás parte da sua vida e dos seus amores é uma dor sem cura. Foi Farah Aden quem a ajudou a aguentar-se nesses momentos duros e sem esperança - tal como sempre ajudara com dedicação filial. Farah Aden vai ser uma das personagens mais interessantes de "Sombras no Capim", o fiel ajudante, o companheiro sempre presente, o braço onde se apoiou quando a vida começou a falhar-lhe.

 O primeiro livro, escrito na Dinamarca em 1934, chama-se Seven Gothic Tales, com o pseudónimo Izak Dinesen. É com esse nome que o livro é publicado nos Estados Unidos depois de ter sido recusado por editoras inglesas e dinamarquesas.  

A sua obra mais  conhecida é, contudo, o livro Out of Africa (2) que foi escrito em 1937 -  inspirado no amor por África e pelas suas gentes.

“Eu tive uma quinta em África”, assim escreve Karen Blixen. E eu identifico-me com o seu sentir, e entendo bem o que ela diz. Gosto de pensar também:

 "Eu tive uma casa em África. E amigos. E amei o cheiro da terra molhada, das flores e dos frutos. E o meu jardim, com árvores e plantas que nunca vira. A goiabeira, o arbusto do papiro, as rosas de porcelana, a flor branca da árvore do café. Ou o chá capim, o chá do Gabão ou 'citronelle', cuja planta tinha no meu quintal."

Em 1942 sai o livro Sombras no Capim, de que constam quatro contos. É escrito durante a ocupação nazi  da Dinamarca - e vai ser incluído em “Winter  Tales”. O livro Sombras no Capim é constituído por pequenas histórias que falam das suas saudades de África. 

O exemlar que posuuo foi comprado numa Feira do Livro em São Tomé. Nessa Feira encontrei (reencontrei) uma amiga de Portalegre, a Madalena Sampaio que organizara esse evento cultural.

Em 1944, Karen Blixen escreve um romance chamado As Vingadoras Angélicas com o pseudónimo Pierre Andrezel.

Muitos anos mais tarde, em 1957, sai a antologia de contos Anedotas do Destino que inclui o conto "A Festa de Babette", assinado outra vez com o pseudónimo Izak Dinesen outra vez (4).  
Dessa história vai o realizador dinamarquês Gabriel Axel criar um filme extraordinário - com o mesmo nome - que foi apresentado no Festival de Cinema de Veneza.

O livro Sombras no Capim comprei-o em São Tomé na 'Feira do Livro' de 1994 e custou-me 500 dobras e é dele que vou falar um pouco mais. Consta de quatro contos apenas - intitulados Farah, Barua a Soldani, O Grande Gesto e Ecos das Montanhas.

O conto "Farah" começa com esta evocação: “Ao retomar, após vinte e cinco anos, alguns episódios da minha vida em África, perfila-se no limiar de todas essas recordações uma bela figura erecta e verdadeira: a de Farah Aden, o meu criado Somali. (...) Ao longo de quase dezoito anos ele dirigiu a minha casa, os meus estábulos.”

Revela uma saudade e uma nostalgia dos tempos em que vivera feliz. E sente-se doçura naquela mulher aparentemente dura ao recordar.

Conhecera Farah Aden, em 1913, em Aden, antes da I Guerra. Era um “um senhor”- escreve a autora  - “uma figura nobre, de grande educação e respeito por si próprio, na grande humanidade”. Foi a sua humanidade e a semelhança de ambos que tornou forte a amizade que se criou.

Foi o confidente de todas as minhas preocupações como de todos os meus sucessos. Esteve a par de todos as minhas acções e todos os meus pensamentos."

São maravilhosas as figuras de Farah, de Kamante, de Sandoa o filho do chefe Masai e de Sirunga, “um palhacinho engenhoso que me seguia para todo o lado como uma sombra pequenina, negra e irrequieta.”

Fazem-me lembrar na saudade as histórias perdidas de São Tomé.  O senhor Semedo, meu companheiro de todos os dias, era “um senhor” como Farah, e ensinava-me coisas sobre o mar e sobre as sereias - as encantadas que assobiavam e cantavam com voz suave para atraírem os pescadores. 

o meu jardim de São Tomé

E contava o naufrágio perto da costa do Gabão onde se convenceu que ia morrer – “eu e todos, dôtôra.” E explicava  que "o mar dormia como as pessoas" e a lua não era sempre igual: umas vezes era 'para a pesca' ou era 'para plantar'.

Como Farah, ao despedir-se de Karen Blixen, que de repente vai desaparecendo no cais do comboio: "Quando me vi obrigada (...) a dizer adeus à África, ele acompanhou-me até Mombaça para me dizer adeus."

Recordo a noite em que voltámos para Lisboa definitivamente e o senhor Semedo quis acompanhar-nos ao aeroporto. Vestido com o fato branco que lhe oferecera e os sapatos novos que nunca usara antes, discreto e triste. Só o pude ver ao longe a fazer-nos adeus com a mão. Nunca mais o vi.

 Mas isso são outras histórias que contarei um dia.


(1) Karen Blixen - baronesa Karen Christenze von Blixen-Finecke  depois do casamento – nasceu a 17 de Abril de 1885 e morreu em 7 de Setembro de 1962

Shadows on the Grass”, 1960, traduzido com o título “Sombras no Capim”, Biblioteca de Bolso Dom Quixote, Lisboa, 1988 

(2) a dobra é  moeda de São Tomé.

(3) Em português “África minha”, Editora Europa-América. Em 2019 sai no Clube dos Autores

(4) “A festa de Babette”, filme do realizador dinamarquês  Gabriel Axel e que foi apresentado em 1987 na Biennale di Venezia, onde tive a sorte de o conhecer.