quarta-feira, 11 de maio de 2022

IRENE LISBOA E O DESENCANTO E A ESPERANÇA

Leio Irene Lisboa. Faz-me bem. É uma lufada de ar fresco, de lucidez, uma voz que fala sinceramente, mas que é - devo reconhecer -  uma alma dorida que por vezes nos desanima e angustia. (1)

No entanto, volto sempre a ela.

A sua poesia é bela, mesmo quando é triste e nostálgica. Os seus contos têm tanta vida e tanta verdade. O romance “Voltar atrás para quê?”que é tão doloroso e importante.   

Como não voltar a ela?

"Porque espreitais, lágrimas?

Viciosas, inoportunas, tão furtivas e tão repetidas.

Lendo, pensando...solícitas, solícitas !

Que é que se chora?

Nada, nem se sabe.

O que não foi e podia ter sido

O que foi sem ter sido...

O impreciso, tudo e nada, toda a vida!" (2)

Quem era Irene Lisboa? Foi professora, pedagoga e escritora.

Estudou em Lisboa na Escola onde fez o Magistério primário. Estudou Ciências da Pedagogia na Bélgica, na Suíça e em França. Licenciou-se em Ciências da Educação na Escola Normal Primária de Lisboa. (3)

Irene Lisboa trabalhou no ensino pré-primário e foi “orientadora” e “inspectora" do ensino primário.

Estudou na Escola Normal Primária de Lisboa (Escola Superior de Educação)  onde começou a mostrar os primeiros sinais de "inconformismo" e a sentir a necessidade de realizar "acções mais radicais" - e a sofrer as consequências da sua irreverência. 

Entra na Escola em 1911 e sai diplomada em 1914. Na Escola, em 1913, fundara o jornal, Educação Feminina, de curta duração, proibida pelo Conselho Escolar. Por essa altura em Portugal tinham aparecido já as novas ideias vindas da Europa sobre Educação, pedagogos e psicólogos que queriam revolucionar a educação existente.

Na Universidade de Coimbra, sob a a influência dos ensinamento de  Claparède, surgira uma lei que "considera a implementação da educação infantil" (ensino pré-escolar). 

Irene Lisboa é uma das inovadoras do "novo ensino" e a sua luta é persistente, verdadeira (3). Este primeiro jornal das normalistas publica literatura e textos que criticam as condições do edifício da escola, o ensino e a acção pedagógica dos professores. O seu lema era: verdade e justiça, franqueza e simplicidade.

Bolseira do Instituto de Alta Cultura continuou os estudos de Pedagogia na Suíça, Bélgica e França. Em Portugal especializou-se em Ciências da Educação. Escreveu várias obras sobre assuntos pedagógicos, assinadas com o seu nome ou com o pseudónimo Manuel Soares.

 

Deixo algumas passagens que achei importantes para o conhecimento de uma personalidade pouco conhecida do grande público.

Lembro-me dos seus livros – romances, contos ou poemas e noto a enorme insatisfação, desencanto, esperança e sonho, logo desilusão. E esperança outra vez. Peguei no seu livro “Apontamentos” (3) que é simultaneamente  um livro de crónicas em forma de Diário ou um “diário” onde se juntaram crónicas.

“Ando hoje farta e aborrecida de viver. Da vida é que se costuma dizer, mas eu digo antes: de viver, do acto mortal de me anular e reduzir permanentemente.

Não tenho um sonho, uma esperança, nada me dá gosto. Ter um sonho é uma infantilidade… Esta linguagem é antiga, desautorizada.

Toda a gente hoje conquista, cobiça, trafica, corre aventuras! Sabe-se, ouve-se… Subtiliza-se no comércio, na política e nas artes; dá mesmo vertigens. Estes à margem da guerra criaram a ebriedade de um viver de novo, sagaz e sem domínio. Não os invejo! Espanto-me da sua admirável adaptabilidade, da sua ambição impulsiva e premiada, versátil e quase alegre. Nunca se viu tanta gente satisfeita! Os que se estão a criar que moral virão a ter? Outra, certamente, porque esta não pode persistir. E terrivelmente egoísta.” (op.cit.pg102)

No lamento "hoje ando farta de viver" sentimos um pessimismo e uma desconfiança do mundo literário e das editoras. Como devia ser grande a sua solidão! 

 

 Livraria Galileu, Cascais
 
Quanto de verdade existe nas suas palavras. Até certo ponto tudo continua mais ou menos igual na “feira literária” por aqui e por ali. Excepto livreiros sérios e uma ou outra editora que procura a qualidade.

Continua actual o julgamento dela. Critica os livreiros que “fazem” autores que depois abandonam; no jogo que fazem na escolha  dos nomes premiados (que se vendem!); criticando a "actividade mercantil” de quem negoceia com a literatura; lamentando a vida difícil do escritor honesto.

“Virá alguma vez o dia em que se eleve e facilite a vida de quem escreve?”

E continua, desiludida: “A vida é um jogo! Os autores fazem-se e desfazem-se; é uma questão de jeito. O livreiro precisa de faro, de palpitar a sua época. Há uns que se exploram, outros que se evitam, outros que se afastam… Mas o verdadeiro negócio faz-se com o conhecido: os nomes premiados, as traduções…

A vida é isto! O comércio tem responsabilidades. Mas compreende-se que seja muito difícil uma aliança entre livreiros e autores. Tudo entre eles se tem de reduzir a negócio…

Virá alguma vez o dia em que se eleve e facilite a vida de quem escreve? Não o creio. A não ser que a literatura passe de mercantil a gratuita. E que o autor seja reconhecido de utilidade pública … Nunca, porém, assoldado ou subornado!

Quando a capitalização, a desleal valorização e exploração do espírito cesse.” (4)

É um desabafo sentido o da escritora. Queixa-se com razão. Penso que, no entanto, houve gente do seu tempo, gente excepcional que a entendeu.  

A revista “presença” muito a apoiou e José Régio era um seu admirador fiel. O seu pseudónimo João Falco (5) era um nome presente na revista.

Também a  revista “Seara Nova”, onde escrevia regularmente, lhe deu guarida.

Eram tempos difíceis e a ditadura “atava” bocas, fechava escolas – e Irene Lisboa uma Professora especializada no ensino infantil e primário.
 
Alguém que estudara em Bruxelas e fora bolseira do Instituto de Alta Cultura em Genève e que conhecera nomes famosos dos mestres da “Educação” moderna na Europa - na sua terra era depreciada e sua voz "abafada"...
 Mas como poderia Irene Lisboa ser “reconhecida” numa altura de ‘desprezo’ pela Cultura que foi  a do Estado Novo de Salazar?

 
Édouard Claparède

“Virá alguma vez o dia em que se eleve e facilite a vida de quem escreve? Não o creio. (...) Quando a capitalização, a desleal valorização e exploração do espírito cesse.”

 Graças ao bom trabalho de Paula Morão (5) que sempre procurou valorizar as escritoras (lembro Luisa Dacosta) e tem continuado a manter viva a lembrança de Irene Lisboa. 

Depois da abertura do Museu na Arruda dos Vinhos  - muita gente a procura e lê.

 Outras pessoas fizeram com igual dedicação o estudo e a divulgação da autora. No campo universitário, além de Paula Morão, refiro outros trabalhos como por exemplo a tese de doutoramento de Sara Barbosa (minha colega professora de Português).

 No entanto, talvez fosse necessária e muito útil a republicação das suas obras - muitas das quais se encontram apenas em alfarrabistas.

***

(1)Nasceu no dia 25 de Dezembro de 1892 em Arranhó, Arruda dos Vinhos, e morreu em Lisboa em 25 de Novembro de 1958. Foi escritora, professora e pedagoga (tendo escrito várias obras sobre assuntos pedagógicos, muitas vezes com o pseudónimo de Manuel Soares.

(2) João Falco, pseudónimo poético de Irene Lisboa, in "Outono havias de vir"

(3) A "Escola Normal Primária de Lisboa", fundada em 1862 pelo Rei Dom Luís I, foi encerrada em 1930 pelo Estado Novo e substituída por outro tipo de escola e de ensino. Depois do 25 de Abril, em 1979, foi 'recriada' com o nome de Escola Superior de Educação de Lisboa.

(4) Apontamentos, Gráfica Lisbonense, Lisboa, 1943 (op.cit. pg.128)

(5) Paula Morão Professora da Escola de Artes e Humanidades da Universidade de Lisboa foi Directora da Área de Literatura, Arte na mesma Universidade

Sobre Irene Lisboa escreveu um livro essencial “O Essencial sobre Irene Lisboa”, Imprensa Nacional Casa da Moeda. 

https://pt.wikipedia.org › wiki › Irene_Lisboa

http://falcaodejade.blogspot.com/2018/02/irene-lisboa-escreve-sobre-fernando.html

https://issuu.com/cjaleco/docs/catalogo_museu_irene_lisboa