quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Um escritor policial que vem do Japão

 Numa “bancarella” da Piazza Attilio Hortis, em Trieste, comprei três ou quatro policiais, um deles da autoria de um autor japonês, cujo nome é Yokomizo Seishi (1).

Nunca tinha ouvido falar dele, mas fui procurar e sei hoje que é um escritor muito apreciado na sua pátria pelos amadores de policiais. O livro intitula-se em italiano “Il detective Kindaichi”. (2)

Traduzido em inglês como “The Honjin Murders” (3), é um romance de mistério. Foi publicado em folhetins na revista japonesa “Houseki” entre Abril e Dezembro de 1946 e ganhou o primeiro Mistery Writers Of Japan Award, em 1948 – o Grande Prémio de Escritores de Mistérios do Japão.

A particularidade deste escritor é a sua escolha de casos policiais do “subgénero” do “quarto fechado”. Os enigmas lugares sem saída onde ocorrem crimes geralmente violentos – que segundo a lógica, não podem ter acontecido!

Enigmas porque não se consegue perceber "normalmente" o modo como o crime foi cometido - quando não havia  nenhuma saída para o assassino escapar. Sendo o crime cometido nessas circunstâncias – como pôde o assassino fugir de uma sala, ou um quarto, geralmente fechados à chave por dentro e sem nenhuma outra saída.

Houve ao longo dos tempos vários romances policiais desse tipo. Podemos lembrar por exemplo, em França, Gaston Leroux e “Le Mystère de la chambre jaune”, mistério famosíssimo.

No Reino Unido, o inglês Conan Doyle e “O Mistério da Cela nº 13”, onde Sherlock Holmes desvenda um mistério considerado indecifrável. Ou Agatha Christie com o terrível livro “Os dez negrinhos”. 

 Na América John Dickinson Carr distingue-se e outros como Ellery Queen que, em 1934, publica “O mistério da laranja chinesa”. Todos estes autores publicado muitas vezes na nossa Colecção Vampiro. 

O próprio detective de Yokomizo Seishi, Kazuko Kindachi, refere a semelhança entre o caso que tem em mãos e os romances de Dickinson Carr (4) como “O Chapeleiro doido” e “A  casa enfeitiçada”.

No Japão, de facto, chamavam a Yokomizo Seishi o John Dickinson Carr japonês. O autor pertence ao grupo de escritores que se dedicaram ao romance de “mistério do quarto fechado” ou “do crime impossível”, os chamados enigmas do “locked-room” ou mistérios do “impossible crime”.


Em francês o livro chama-se "La hache, le koto et le crysanthème". O detective Kandaichi é uma figura de anti-herói, desastrado, sem charme e além do mais gago mas tem óptimos dotes dedutivos. Vê-se “desafiado” para um caso extremamente difícil e decide que vai resolvê-lo. 

Numa aldeia japonesa no ano de 1937, dois jovens morrem na noite do casamento no quarto completamente fechado - cujo chão e paredes estão manchados de sangue. Acabados os festejos todos vão dormir mas a meio do silêncio da noite ouvem-se gritos de terror que parecem vir da dependência onde dormiam os esposos.

No entanto, a presumível arma do crime – um sabre de samurai – é encontrado fora do quarto, enterrado na neve.

da pintora  Shoen Uemura, As quatro estações
 Shoen Uemura
 
É então que tio da jovem e bela assassinada, Katsuko, o tio Ginzo que viera ao casamento dela, decide chamar Kindaichi seu amigo e protegido.

Enterrado, porém, não está só o sabre -há muitos outros factos ligados à família de Kenzo, o esposo, muitos mistérios incompreensíveis e desconhecidos da própria família dos Ichiyanagi.

O enredo complica-se. Descobrem-se coisas sem sentido. Pistas e contra-pistas. Quando os gritos aflitivos param, ouvem-se minutos depois uns toques suaves do instrumento musical que a noiva levara para o quarto, um instrumento de cordas chamado “koto”. 

Como era possível que alguém tocasse o instrumento se ambos estavam mortos? Por que razão o gato da pequena Suzuko - irmã mais nova de Kenzo - que morrera nessa manhã, não tinha sido logo enterrado? O que fora enterrado no lugar dele? O que continha a caixa onde estava o gatinho?

Descobre-se que a família do noivo estivera contra aquele casamento porque Katsuko pertencia a uma família sem grande nome. No entanto, como diz o autor, sabe-se que “a água vence sempre o fogo” e acabaram por aceitar a noiva.

Nos jornais locais os títulos referem o crime da “família amaldiçoada” e falam do  caso do koto enfeitiçado”.

Suspeitos? Todos. A começar por um homem que aparecera pela aldeia a perguntar a direcção da casa Ichiyanagi, um desconhecido a quem faltavam três dedos. 

Para o detective Kindaichi há, porém, muitas outras pistas que começam e acabam na família de Kenzo Ichiyanagi.

Espera-vos uma bela leitura que vos aconselho, cheia de golpes e contra-golpes, descobertas logo inocentes em relação ao crime. Um livro escrito com prazer e humor. 

O livro foi levado ao cinema, em 1975, pelo realizador japonês Yoichi Takabayashi.

***

(1) Yokomizo Seishi nasceu em Kobe em 1902 e morreu em Tóquio em 1981. Durante muitos anos sofre de tuberculose. Dizia-se nessa altura tão difícil no Japão que "a fome e a tuberculose andavam à briga para ver quem acabava com mais vidas"

(2) “Il detective Kindaichi”saiu no Japão em 1946. Em Itália, foi publicado em 2019, na colecção Sellerio editore Palermo que se dedica à publicação de livros policiais de qualidade vindos de todo o mundo.

(3) Do livro foi tirado em 1975 um filme, “Death on the Old Mansion”, do realizador japonês Yoichi Takabayashi.

(4) John Dickinson Carr nasceu em Novembro de 1906 e morre em Fevereiro de 1977. É um dos grandes escritores da chamada “Golden Age”dos mistérios. Nesses romances os detectives resolviam casos aparentemente impossíveis de resolver e crimes sem solução.

(5) O "koto" é um instrumento musical japonês (a "Cítara japonesa"com 13 cordas e dedilhado. Mede cerca de 1,80 m de comprimento e é esculpido em madeira Kiri (paulownia). Aparece no século VI no Japão  vindo da China. 

  a árvore Kiriou Paulownia
Na obra Conto de Genjis da escritora Murasaki Shikibu (978-1016) aparecem referências ao koto.
imagem do "Conto de Genjis" 

https://www.theguardian.com/books/2020/feb/06/how-locked-room-mystery-king-seishi-yokomizo-english-agatha-christie

https://www.blogletras.com/2017/07/seishi-yokomizo-o-rei-do-romance.html

 

sábado, 1 de outubro de 2022

Emily Dickinson e a morte

 Considerada nos Estados Unidos da América  e no mundo uma das vozes poéticas mais originais, Emily Dickinson (1), foi no seu tempo pouco apreciada -até porque, a conselho de um amigo crítico literário, não publicou as suas poesias porque "não seriam entendidas pelas pessoas ditas normais".

Nasceu em 10 de Dezembro de 1830 em Amherst pequena cidade no Massachusetts e morreu a 15 de Maio de 1886 na mesma cidade.

A sua infância foi rodeada de mortes de familiares e de amigos - e a ideia da morte sempre injusta nunca a abandonou. Jovem mulher solitária, cheia de amor para dar, sem o realizar, viveu uma vida retirada - escrevendo  os seus poemas - quase passando ao lado da vida.

“A minha única imagem do Paraíso é um grande céu azul mais azul e mais vasto do que o maior céu azul de Junho. Nele estão todos os meus amigos.”  

Um desabafo sobre essa inaceitável situação da morte dos amigos. A que se segue outro pensamento perturbante:

“Não consigo pensar que os amigos que vi na minha juventude esvaírem-se como orvalho ao sol, nunca mais vão andar por estas estradas.”

E Emily Dickinson escreve o  poema:

“Caíram como neve,

caíram como estrelas

ou pétalas de rosa

quando de súbito, em Junho,

o vento lhes tocou.”

Digo "quase" porque ela vivia de outro modo,  num mundo desconhecido e na adoração da Natureza. Tinha uma relação especial com o mundo do 'não visto', de que lhe falara o amigo que “aproximou-se tanto da Imortalidade que um dia ficou por lá”.

Num belo poema de 1862, recorda a morte desse amigo importante “que lhe ensinou a Imortalidade”.

“Quando era uma menina

tive um amigo

que me ensinou a Imortalidade

– mas, aventurando-se tão perto dela -

um dia não voltou. 

Este era Ben Newton Franklin (2), amigo do irmão mais velho, Austin Dckinson. Chega a Amherst em 1947, com 26 anos, para praticar Direito no escritório do pai dela, advogado na “Dickinson and Bowdoin”. 

O irmão Austin

Torna-se amigo da casa, considerado como família e tem uma influência grande sobre Emily.  É, aliás, ele que lhe oferece, em 1850, os poemas de Emerson (3) - mas, infelizmente, Ben vai morrer cedo em 1853. 

Emily tem vinte anos e vai sentir  a falta dele. Costumava chamar-lhe “irmão mais velho muito amado”. Considerava-o o seu professor, quem lhe aconselhava o que devia ler, lhe confiara os autores que apreciava, lhe dizia o que era mais belo ou maior na natureza.

Fora ele quem lhe ensinara também “a lição sublime” de "acreditar em coisas que os outros podem não ver". Depois da morte de Ben, Emily conta: .O meu amigo mais antigo escreveu-me na semana antes da sua morte ‘Se viver, vou a Amherst – se morrer, vou com certeza..." Para ela, uma espécie de premonição.

A verdade é que os versos dela tinham vida, respiravam, traduziam sentimentos, saíam da alma, puros e cândidos, violentos e em catadupas. De facto, em dez anos, Emily Dickinson escreveu milhares de poesias. 

 
Thomas Higginson

Mas, a conselho do amigo Thomas Wenthworth Higginson, personagem muito importante na vida política e literária, não as publica (4). Em 1885, Emily começara a reunir as suas poesias em “fascículos”  -folhas manuscritas que encadernava à mão-  e enviara-lhas. Higginson apesar de apreciar a poesia de Emily percebia que os versos poderiam “chocar” a sensibilidade das pessoas consideradas “normais”. Segundo ele, era uma poesia “pouco dentro das conveniências do tempo".

Achava que as mentes das pessoas normais não aceitariam as suas palavras, a sua voz jovem que se afirmava na vida contra tudo e todos, amava a beleza dos seres humanos e falava dos seus sentimentos de amor fortes. E da morte.

 Diz Fátima Diogo, uma amiga que se interessa por literatura e muito sabe: “o seu estilo de escrita muito sintético, muito afastado da escrita poética do momento foi incompreendido na época e durante décadas - ela estava à frente do seu tempo, a nível da escrita do verso …"

Archibald MacLeish, estudioso da obra de Dickinson (5), diz por sua vez: “Era um Poeta do mundo pessoal e íntimo e ao mesmo tempo observador e actor. Se por acaso acharmos que o tom em que escreve é falso ou inconsciente, os seus poemas são porém insuportáveis. A poesia de Dickinson tem sucesso porque ela sofre mas ao mesmo tempo vê-se de fora”. 

Como se fosse ela própria, “herself”, a observar-se de fora. continua a explicar: “Ela é “herself” e simultaneamente vê-se de fora, “out of herself."

Algo nos é comunicado que não podemos deixar de escutar. E a voz tem ainda outra característica: não só “fala” como “nos fala” a nós.”

A voz fala-nos, acompanha-nos e ajuda-nos a aceitar a separação final? Será assim? Com que alma pode ela pensar isso, ela que desejou sempre ajudar a viver. Para ela “viver” só teria sentido se fizesse alguma coisa pelos outros.

***

Emily é um espírito romântico que gostaria de amar, de ter alguém a quem se dedicar. Em 1855, numa viagem a Filadélfia, apaixonara-se pelo Reverendo Charles Wadsworth a quem dedica belas e sentidas poesias de amor e escreve cartas dedicadas - mas o Reverendo é casado e não se quer prender a ela.

Em 1877, Emily dispõe-se a casar com um amigo do pai, um juiz viúvo, mas o juiz adoece gravemente em 1882 e morre dois anos depois. Uma vez mais a morte ronda a sua vida e transtorna-a. Desorienta-a. Revoltada contra a morte, censura-a.

    “Ah, exigente Morte

“Ah, democrática Morte

Que fizeste nascer

a mais alta zinia do meu jardim

- e depois levaste abraçada contigo

A filhinha do meu criado.”

A sua voz espontânea é a que não conseguimos deixar de escutar e de seguir: a voz da rapariguinha que cresceu, amou, sofreu, viu a morte rondar. Desesperou e escreveu, escreveu. Escreveu como quem canta para afastar os medos e os males.
Poemas Selectos, por Archibald MacLeish
 
'O Anjo Azul'
do pre-rafaelita Burne Jones

A voz espontânea da menina que sabia falar da Imortalidade. Sem saber que um dia seria imortal!

 Uma vida de sofrimento e coragem que é levada ao cinema por Terence Davies, em 2017.

 ***

(1)Emily Elizabeth Dickinson nasceu em 10 de Dezembro de 1830 em Amherst, cidade do Massachusetts, e morreu em 15 de Maio de 1886.

(2) Benjamin Franklin Newton nasce em 1821 em Berlin no Massachusetts e morre, de tuberculose, em 1853.

(3) Ralph Waldo Emerson, poeta e filósofo, é uma figura marcante desta época; nasceu em Boston em 1803 e morreu em 1882.

(4) Thomas Wenthworth Higginson nasce em 1823 no Massachusetts e morre em 1911 na mesma cidade de Cambridge. Foi um escritor, um político, abolicionista famoso, soldado e Ministro da América Unitária. Foi também crítico literário da revista “Atlantic Monnthly”. e morre em 18 e era crítico literário da revista “Atlantic Monnthly”.

(5) Archibald MacLeish nasceu em Glencoe, Illinois, em 1892 e morreu em 1982 em Boston. Professor de Retórica e Oratória e estudioso de Literatura tem vários estudos sobre a poesia de Dickinson.E "Selecções" de poemas dela.

(6) Em 2017 sai um filme de Terence Davies sobre a sua vida “Para Além das palavras”.

https://www.thecrimson.com/article/1959/11/25/macleish-lauds-emily-dickinson-in-fifth/

https://www.emilydickinsonmuseum.org/benjamin-franklin-newton-1821-1853-friend/

https://en.wikipedia.org/wiki/Ralph_Waldo_Emerson