segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Uma autora japonesa chamada Hiromi Kawakami

Não conheço o Japão mas li muitos escritores japoneses desde Kawabata ou Soseki a Akutagawa. Também gosto muito  dos poemas curtos, os “haikus” - e a verdade é que nenhum outro país no mundo me desperta tanta curiosidade nem tanto respeito pela sua cultura como o Japão. Pelo exotismo, tradições e porque no fundo a Ásia me atrai.

Nunca visitarei provavelmente esses lugares mas a empatia existe e é muito forte. Sinto-me próxima do modo de ser, da delicadeza e do respeito num mundo tão diferente hoje e que o foi sempre nos diversos momentos da sua História e dos seus Imperadores e Épocas. A própria religião parece próxima da minha "alma" e, no entanto, é tão especial. Como conhecê-la bem?

 

 Não tinha lido ainda Hiromi Kawakami (1). Descobri o seu livro “Strange Weather in Tokyo” e encantou-me. Hiromi Kawakami nasceu em 1958 é,  pois, uma escritora  bastante jovem.

Contou-me há dias uma amiga italiana que, até há pouco tempo, não existia na língua japonesa uma tradução para "sujeito" ou "subjectividade" nem para "direitos" ou "deveres".

Este é um belo livro nostálgico com uma simples história de amizade, de intimidade hesitante crescente que, pouco a pouco, se transforma numa espécie de amor.

É a amizade amorosa "inverosímil" entre Tsukiko Omachi jovem mulher de trinta e poucos anos e o seu antigo professor de Língua Japonesa da Universidade, agora com setenta.

Tsukiko vive sozinha e é uma pessoa solitária. Costuma frequentar um "sake-bar" perto da zona onde vive e uma noite, sentada no seu banco alto encostado ao balcão a beber um saké, encontra esse velho professor da Universidade.

É curiosa a diferença da tradução do título do livro nos USA “The Briefcase” - que se aproxima do título japonês Sensei no Kaban - “Sensei of the Briefcase" -  e o título no Reino Unido, “Strange Weather in Tokyo”, cujo sentido parece menos claro. (2)

Segundo um artigo (cujo link deixo em baixo), este título seria devido a uma fala entre os dois personagens em que o professor Sensei se refere ao tempo estranho em Tóquio naquela altura do ano dizendo: “Este estranho tempo agora em Tokyo pode ter sido causado pelas coisas estranhas a  que acabas de dizer, Tsukiko Omachi”.

Tsukiko Omachi é, pois, uma jovem mulher que vive só, longe da família, uma solitária que não casou, não tem namorado e preza a sua  independência actual. Gosta de frequentar bares de saké onde come petiscos e bebe um pouco – o que parece não ser muito habitual nas mulheres do Japão. 

É num desses saké-bar que um dia um senhor se lhe dirige e diz que a conheceu. Vira aquela figura sempre de costas e não reparara nela. É ele quem mete conversa. Não o tinha reconhecido mas o professor lembrava-se daquela aluna distraída que estava sempre distraída nas suas aulas. 

Para Tsukiko ele era alguém que nunca pensara voltar a ver na vida:  além de não gostar da disciplina de Língua Japonesa não simpatizava com o professor. Nunca soubera o verdadeiro nome dele, lembrava-se apenas que lhe chamava Sensei.  E por isso chama-lhe Sensei.

(Tentei informar-me do sentido desta palavra japonesa e descobri que poderia tanto ser Doctor como Teacher mas que tinha sempre um sentido depreciativo. A pessoa que me informou (um "amigo" do FB, um  japonês que se interessa por Jazz e toda a música) explicou melhor: "eu não gostaria que ninguém me chamasse Sensei.")

A verdade é que voltam a encontrar-se - não moram longe um do outro e aquele bar passa a ser o ponto de encontro. Falam de tudo e de nada, do que fizeram ou não realizaram, das desilusões - ele perdera há pouco a mulher - trocam bebidas, provam os pratinhos com as comidas que acompanham a bebida e conversam.

Começam a sair juntos, vão aos mercados e mantêm o hábito de comer e beber juntos. Num mercado, uma vez, Harutsuna Matsumoto - verdadeiro nome do professor - compra um par de chicks, sem perceber bem porquê e mete-os na pasta. O professor trazia sempre com ele essa pasta que nunca abre e da qual nunca se separa dando a ideia de ter dentro algo muito importante.

Um dia falam de cogumelos. O dono do bar que se chama Satoru ouve a conversa e dá a sua opinião. Para ele, falar de "cogumelos" é falar de dezenas de tipos de cogumelos com qualidades e gostos diversos, alguns superiores e difíceis de encontrar. 

Pouco depois já estão a combinar uma ida às montanhas ali perto onde certa qualidade de cogumelos raros e selvagens aparece. Passado pouco tempo,  vão numa manhã cedinho, à "caça" dos tais cogumelos especiais, na montanha. Acompanha-os um primo de Sartoru com um jeep, um especialista. 

O passeio realiza-se com dificuldades e peripécias várias porque é preciso trepar muito alto por caminhos estreitos e perigosos.  Colhem os cogumelos selvagens, cozinham-nos e comem-nos juntos.  

A intimidade torna-se mais real. Sentem prazer nos encontros e apreciam a companhia um do outro.

O livro de Hiromi Kawakami, escrito em capítulos curtos, que fazem alguns críticos falar de haikus, fala dos acontecimentos aparentemente insignificantes do dia a dia que pouco a pouco fazem aproximar duas pessoas. 

Entra dentro das personagens explorando certos aspectos da ambiguidade emocional e descrevendo acontecimentos e pormenores das relações sociais complexas de sempre.

Banana Yoshimoto

Escritora de ficção e poesia, ensaísta, há quem a aproxime das histórias de Lewis Carroll e de outra escritora japonesa famosa, Banana Yoshimoto, por incluírem alguns elementos de fantasia e de um realismo mágico.

Por seu lado a autora confessa-se admiradora de James Graham Ballard (1930-2009) escritor de novelas curtas associado com o movimento New Wave de ficção científica.

 
James Ballard

É uma leitura muito interessante a de "Strange Wether in Tokyo" com um belo e triste epílogo que não vou contar é evidente.

Hiromi Kawakami foi professora até à publicação do seu primeiro livro que lhe granjeou o 'Prémio Pascal', no Japão. Algumas das suas obras foram adaptadas ao cinema, como "The ten loves of Mr.Nishino" (Nishino Yukihito no Koi to Boken) (2014).

Escreveu outras obras além deste livro: Tread on a Snake”, "Os Amores do Sr. Nishino" (dez histórias de amor belas e invulgares, dizem), "People from my neighbourhood" ("Pessoas do meu Bairro") e muitos outros. 

Kawakami foi traduzida em 15 línguas. Recebeu os Prémios Akutagawa e Tanizaki no seu país. 

 
Akutagawa

(1) Hiromi Kawakami nasceu em 1 de Abril de 1958.

(2) Sai no Japão em 2001 na Editora Heibonsha e o título japonês é Sensei no Kaban - “Sensei of the Briefcase"-  ("O professor com a pasta"?). Em  2012 sai no Reino Unido na editora Counterpoint – a que li.

https://www.themodernnovel.org/asia/other-asia/japan/hiromi-kawakami/the-briefcase/

https://en.wikipedia.org/wiki/Hiromi_Kawakami


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

MARIA AMÁLIA VAZ DE CARVALHO E “FIGURAS DE HOJE E DE HONTEM” (sic)

Mulher de grande cultura, Maria Amália Vaz de Carvalho deixou uma obra muito interessante e variada.

Recorda-se talvez mais hoje a figura da educadora que sempre foi e a sua acção empenhada na educação das crianças e na formação cultural das mulheres, dentro de um conservadorismo tradicional compreensível.

 A sua obra abrange vários campos que vão não só da poesia e da ficção ao ensaio, à crónica e crítica literárias, à biografia e ao jornalismo de intervenção.

Escritora e poetisa, nasceu em Lisboa no dia 1 de Fevereiro de 1847 e faleceu, com pouco mais de 74 anos, no dia 23 de Abril de 1921. 

Casada com o poeta ‘parnasianode origem brasileira, Gonçalves Crespo (1846-1883), com ele colaborou  sempre na actividade política e nos trabalhos literários. (1) 

Também foi tradutora de folhetins, de que as pessoas cultas do seu tempo eram apreciadoras.

O tempo de Maria Amália Vaz de Carvalho era o de figuras especiais da cultura portuguesa, de nomes como Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Junqueiro e tantos outros que se reuniam por vezes em sua casa.

Em 1867, fez a sua estreia literária com o poema romântico Uma Primavera de Mulher e em 1876 publica o livro “Vozes no Ermo” que teve críticas muito favoráveis - como a que lhe fez Guerra Junqueiro por exemplo.

 Grande parte das crónicas, nomeadamente as consagradas à crítica literária, foram reunidas nos volumes Serões no Campo (1877).

No entanto escreveu obras de outros tipo, sempre no campo da educação: "Uma Primavera de Mulher" (1867), "Arabescos", "Mulheres e Crianças", "Cartas a Luísa", "Cartas a uma Noiva", "As nossas Filhas - Cartas às Mães" ou “O drama da vida contemporânea”.

Também a parte histórica lhe interessou. Escreve  "Cenas do Século XVIII em Portugal" e "A Vida do Duque de Palmela", considerada a sua melhor obra.  

Em 1886, de parceria com o marido, Gonçalves Crespo, editou a antologia infantil Contos para os Nossos Filhos.

O

O livro a que me quero referir hoje, Figuras de Ontem e de Hoje, sai em 1902. O livro abre com um artigo sobre a morte de Eça. O I Capítulo intitula-se precisamente  Eça de Queiroz, O Homem e o Artista e começa assim:

“Foi há poucos dias que eu recebi aqui em Cascais, na pequena casa à beira do oceano, em que escrevo estas linhas, a súbita notícia da morte de Eça de Queiroz.(...) Como exprimir a pena profunda, a mágoa sem nome, que a minha alma sentiu!

Aqui me veio achar a notícia de que Oliveira Martins, um dos mais queridos, um dos melhores que eu tive, expirara ao cabo de luta ingente que aquele temperamento enérgico teve com a destruição final.

Aqui soube da morte súbita de Carlos Valbom, um dos espíritos mais finos, mais elegante (...) que me foi dado conhecer de perto.

Sousa Martins, o amigo estremecido que velara comigo ao pé da cabeceira do leito em que minha mãe agonizava, e do leito em que meu marido morrera; aquele que foi para Gonçalves Crespo, terno e carinhoso como o melhor dos irmã e me acompanhou depois como o mais dedicado amigo; aquele que era o talento, a graça e a bondade (...) morreu justamente no mês em que escrevo (...).

Agora finalmente é Eça de Queiroz o artista extraordinário, o grande romancista peninsular cuja glória seria europeia se a língua portuguesa fosse conhecida em toda a Europa, e que assim mesmo, vencendo os obstáculos que o nosso meio opõe a tudo o que é belo e grande, conseguiu ser adorado pela élite intelectual de dois países irmãos – Portugal e Brasil!

Como estas paredes do ninho marítimo, em que todos os verões me abrigo, me têm visto chorar pelos meus grandes amigos mortos!” (p.1-3)

Continuando a leitura, vamos descobrir - além de um retrato maravilhoso do 'Homem" e do "Artista" Eça de Queiroz - muitas outras figuras de escritores portugueses.

E vamos encontrar igualmente textos sobre escritores estrangeiros seus contemporâneos tais como Balzac, Gabriele d’Annunzio, Hall Caine, Rudyard Kipling e também a mulheres-escritoras - de quem tão pouco se falava - como a italiana Matilde Serao, a francesa Georges Sand ou a belga Carlota Brontë (sic). 

 A escritora faleceu, com pouco mais de 74 anos, no dia 23 de Abril de 1921, na sua casa de Cascais, à beira do oceano. 

Onde, como refere no livro, apesar de muitos bons momentos "Por uma coincidência triste, parece que esta minha pequena casa de Cascais está ligada à memória da morte de muitos dos meus amigos."

Resta-nos ler ou reler o que esta escritora admirável escreveu. Deixo-vos apenas uma indicação. Boa leitura!

https://www.infopedia.pt/$maria-amalia-vaz-de-carvalho

(1) António Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro, 11 de Março de 1846 — Lisboa, 11 de Junho de 1883) foi um jurista e poeta de influência parnasiana. Nasceu nos arredores da cidade do Rio de Janeiro, Brasil, filho de um comerciante português António José Gonçalves Crespo e de Francisca Rosa da Conceição, uma mestiça escrava à data do seu nascimento. Aos 10 anos de idade mudou-se para Portugal. Depois de estudos preparatórios em Lisboa, matriculou-se em Direito na Universidade de Coimbra, onde se formou em 1877. Ainda estudante casou, em 1874, com Maria Amália Vaz de Carvalho, ingressando no mundo das tertúlias intelectuais de Lisboa. Nesses círculos a avançou na sua carreira como poeta e publicista, ganhando grande nomeada.

Foi colaborador de diversos periódicos, entre os quais O Ocidente (1877-1915) e a Folha, o Jornal de Coimbra de que era director João Penha, o poeta que introduziu o 'parnasianismo' em Portugal, e também nas revistas A Mulher (1879), Jornal do Domingo (1881-1888), A Leitura (1894-1896), Branco e Negro (1896-1898) e Serões (1901-1911). (wikipedia)