terça-feira, 10 de julho de 2018

Um livro inédito, "Os Olhos de Jade", meu ...(capítulo 7)

      
Brighton

Batiam as nove quando Alice chegou a Brighton. Stephen estava em casa. Viu o Mercedes muito bem arrumado no canto direito da garagem, como de costume, deixando o resto do espaço para ela.
“Geometricamente arrumado! É um maníaco! Ele e o carro!”, pensou. As horas que perde a dar-lhe brilho ou olhar para dentro do capot."
Estava acesa a luz no escritório. Estremeceu sem saber porquê. Arrumou o Aston Martin de qualquer maneira, meio torto. 
“Por que terei sempre medo?...”

Stephen intimidara-a desde o primeiro momento e não conseguira libertar-se daquela sensação desagradável quando pensava que ele ia ficar irritado.
Chuviscava e ouvia o murmúrio do mar. Sempre gostara de ali viver, mas agora o ruído surdo que adivinhava ao longe assustava-a. Sentia o piar angustiado das gaivotas e estremeceu.

“Por quê esta reacção depois de tantos anos? Como se dele me pudesse vir mal!”
Entrou em casa e subiu as escadas a correr, enquanto pensava:
“O que estará a fazer a esta hora? Já devia ter jantado...”
Foi direita ao escritório, abriu a porta bruscamente e entrou, sem dizer nada, querendo mostrar-se natural e segura de si. Tirou o casaco de peles, deitou-o para cima de uma cadeira, sacudiu a saia e foi sentar-se no sofá de couro preto, em frente da secretária, desafiando-o com o olhar.
Por cima da mesa, estavam espalhadas folhas de papel. Pareceram-lhe cartas, amarelecidas pelo tempo.
Stephen levantou os olhos, tirou os óculos e pousou-os ao lado, afastando os papéis com a mão.
-Ah! Chegaste finalmente. Onde estiveste?
Perguntava, fingindo-se desinteressado.
-Estive em casa da Joan a tomar chá.
E pensou como era acolhedor o salão de Joan. 
Susan Ryder, Sala com bule de chá.

Lembrou as vezes que fora tomar chá com Abigail, a mãe de Joan, que morrera tão repentinamente. Era uma pessoa doce, poética. Por que morrera de modo violento?

- Como estava a Joan?
- Muito em baixo. Venho impressionada! Calcula tu que pensa...
Ele interrompeu-a:
- É natural que esteja em baixo, não devia estar à espera que a mãe morresse. A Abigail era nova e não estava doente. 
Sacudiu a cabeça e acrescentou, num ar convencido.
- Bem, afinal até estava. O paludismo é uma doença que mata...
-Pois, aí é que está o problema. A Joan pensa que a mãe foi assassinada. Não acredita na história do paludismo. E eu ouvi os argumentos dela, com muita atenção.
- Que argumentos?!
- Impressionou-me tanto a conversa. Fiquei cheia de dúvidas...
-Dúvidas? Que dúvidas?
-Quase concordei com ela. Se não foi o paludismo que a matou ...terá sido mesmo envenenada? Prometi ajudá-la a descobrir a verdade!
- A verdade, dizes tu. Qual?
Alice olhou para Stephen. Ele pegou na filofax preta e pô-la em cima dos papéis, como se quisesse escondê-los. Parecia contrariado.
-Bem, acabei, por hoje.
E continuou:
-De que verdade estás a falar?
-Da única: o que aconteceu, realmente. 

Alice ia pensando: “por que lhe pergunto tudo isto? Ele não se interessa se não por si próprio ”.
-O que queres que eu pense? Envenenada! Acho que ela está é doida! Paranóias!
Parou, desviou o olhar e continuou:
-O que não me admira nada! A Joan foi sempre um pouco louca...
- A Joan é uma mulher normal! Uma mulher que pensa.
- Conversas! Levou a vida a fugir dum sítio para outro, de um curso para outro. Não parava em lado nenhum. Tens que concordar que não é muito certa...
- E não concordo contigo! Não é louca, inconstante, sim, talvez. Aliás, é ainda uma miúda! Tinha tempo para ver a vida negra...e afinal viu-a assim de repente.

Lembrava-se dela quando voltava do internato, a passar férias em casa. Séria, interiorizada, pensativa. Falando pouco.
Teimosamente, insistiu:
-O que ela diz tem sentido! A Abigail sofria de paludismo há anos, ninguém se preocupava com as crises dela. E, sem mais nem menos, morre de paludismo! É absurdo, tens de concordar.
-Concordar, por quê? Queres dizer que é menos absurdo ser envenenada? Achas mais normal, mais comum, não?...
Contente da sua segurança, teve um sorriso irónico:
-Assassínios acontecem todos os dias. Andam para aí assassinos a toda a hora a envenenar as pessoas!
-Ela lá tem as suas razões! Desconfia...
Stephen interrompeu-a, agora seco:
-Também não pareces estar a regular bem da cabeça! Já participas nas loucuras dela? Tens é que te ocupar com coisas sérias, coisas concretas! Só filosofias e literatura não dá para nada. Se fosse nas tuas filosofias, estava bem arranjado! Eu tenho que trabalhar...
Assentou as palmas das mãos com força em cima da secretária e levantou-se, endireitando bem as costas:
-Pensar faz-te mal, já to disse várias vezes...
-Faz mal pensar?! Já que levas a conversa para esse lado, então digo-te que não fui só eu a dar-lhe. A Emily e a Helen também concordaram!
Stephen riu, sarcástico.
-Outras doidas! Uma divorciada e uma solteirona. Ora, deixa-te disso! Vamos para a sala, eu já comi.
-Uma divorciada e uma solteirona? Como podes ser tão frio? Só te preocupa a tua pessoa! A Emily é uma óptima médica e o facto de não ter casado não diminui a inteligência de ninguém, que eu saiba. Antes pelo contrário, talvez.
Sentia-se irritada, mas acrescentara a última frase num tom mais baixo. Depois,  acrescentou:
-E a Helen é a pessoa mais lógica, mais tudo que eu conheço! E tem os pés bem assentes na terra, e não me parece nenhuma parva!

Pensava nas duas irmãs, Emily e Helen que viviam as duas juntas desde que Helen se separara do marido.
Ele olhava para ela, com uma ironia crescente, vendo-a esbracejar e enervar-se. Levantou-se e disse:
-Está na hora do noticiário...
-És horrível, Stephen! Não quero saber do “teu” noticiário! Vou ver o que há para comer na cozinha. E vou-me deitar! Dás-me cabo dos nervos! 
Passou pela entrada e olhou para a mesa com o dióspiro que lhe tinham oferecido. A caminho da cozinha disse, irritada:
- Cínico!"

"Os Olhos de Jade", M.J.Falcão (inédito)

domingo, 8 de julho de 2018

Poema Terra Minha, de Amílcar Barca



“Minha terra”, de Amílcar Barca

De vez em quando, oiço voz fina, canora,
Que dos recantos do meu quintal
P'los ares erra.
É voz que canta? É voz que chora?
Voz de criança, ou de jogral?...
Em todo o caso, é voz que fala:
“Minha terra, minha terra… minha terra…»
E eu me embeveço ao escutá-la:
“Minha Terra, mi…»
"Tu, ó escurinho"

Tu que nasceste assim dotado, ó passarinho,
P'ra articular o som da voz,
Tu, ó escurinho,
Que, como nós, tens esta bossa
(Entendo bem quando tal som pelo ar flutua)
Tu tens razão: a terra é tua!
A terra é tua, a  terra é minha…a terra é nossa.

Eu não te invejo, ó ave parda,
Porque tu nada me arrebatas do que é meu.
A própria terra é que se entrega e nunca tarda,
Em sacrifícios pelos seus filhos,
Que és tu, sou eu
E somos todos viventes.
De mim, não há, pois empecilhos.
Pelo contrário, se mo consentes,
Ecoarei a tua voz, sempre que possa:
«Minha terra, minha terra...»
Porque a verdade nisto se encerra,
Toda inteirinha:
A terra é minha!
«A terra é minha, a terra é tua, a terra é nossa.»
Vai, passarinho,
Comer, cantar, voar, pousar, fazer teu ninho...
É o direito, o dever, que a vida acossa.
Proclama pois, ao sol e à lua:
«A terra é tua, a terra é minha, a terra é nossa.»

ilustrações de José Pádua

Poema de Amílcar Barca (in “Antologias de Poesia da Casa dos Estudantes do Império 1951-1963”, I Volume, “Angola e São Tomé e Príncipe”, Edição ACEI, com ilustrações de José Pádua, Henrique Abranches e outros, 1995, pg.45-46.)

terça-feira, 3 de julho de 2018

HANOCH LEVINE OS MORTOS E OS VIVOS


Hanoch Levine

Interessei-me por Hanoch Levine durante o meu período de vida em Israel. Era um poeta conhecido e amado e um dramaturgo de sucesso. Um dos mais importantes do seu tempo.
Nasceu em 18 de Dezembro de 1943, em Telavive – onde estudou Literatura e Filosofia na Universidade. Morreu em Ramat Gan, em 18 de Agosto de 1999.
Eu estava lá e lembro-me disso. E lembro-me de ter lido na altura, na edição inglesa do jornal Ha'aretz, um poema que muito me impressionou: “Lives of Dead”. 

O poema copiei-o do jornal: traduzi um bocado e guardei-o para usar como epígrafe no que iria escrever – e escrevi - sobre o meu cão Zac, que morreu em 1999, pouco antes de Levine.
As vidas dos mortos

Hanoch Levine começou por ser poeta, depois aproximou-se da linguagem teatral e concentrou-se nas peças de teatro. Ligado ao Teatro Cameri, também trabalhou no Teatro Nacional de Telavive, o famoso Habima
Habima Theatre

Escreveu cerca de 50 peças, 35 das quais representadas. A sua obra teatral inclui comédias, tragédias, textos de cabaret satíricos, peças essas montadas, a maior parte deles, por ele próprio.

Escreveu cinco livros de novelas e poemas e uma história para crianças. Recebeu Prémios não só em Israel, como no estrangeiro – no Festival de Edinburgh, por exemplo. Foi representado pelo mundo inteiro e teve em Israel o Prémio Bialik, em 1994. 
o poeta Hayym Nahman Bialik, em 1923

Considerado um dos mais originais e inovadores escritores da sua geração, o realizador e dramaturgo Hanoch Levin, apesar de muito conhecido em Israel, a verdade é que não existem muitas traduções dele, fora do país.

Em 2003, surge em Inglaterra a tradução do livro:“The Labor of life”.
Recordo-me que aparecia, por vezes, o nome dele nos cartazes do Teatro Cameri, um pequeno e confortável teatro moderno. 

O teatro ficava muito perto da nossa casa, e fomos ver alguns espectáculos ali. As peças eram faladas em hebraico, e os sub-títulos em inglês (neste caso sobre-títulos), corriam numa faixa por cima do palco e dos actores.
Nas suas peças "disseca a sociedade contemporânea, descreve em pormenor a “crueldade, insensibilidade, violência, opressão, intolerância e crueldade”. 
O egoísmo, o esquecimento, a indiferença são constantes: na sua obra, como na vida que vivemos. Já o dizia Tchekhov: “Senhores, como viveis mal!”

 Lives of the Dead: poema épico” fala da vida dos mortos e do seu possível sofrimento.

Lembro a canção de Léo Ferré, com versos de Baudelaire: “les morts, les pauvres morts, ont de grandes douleurs.” As promessas dos vivos e a realidade do esquecimento dos mortos... 

Escreve Hanoch Levine:

“Pensei que connosco fosse diferente.
Quando os médicos disseram ‘Está morto’,
tu desataste num grande choro
e depois foi o silêncio,
não te ergueste num protesto,
não te revoltaste,
significava que tinhas aceitado,
queria dizer: ‘eu vou por aqui, tu vais por aí’…”

Onde, as promessas? Chora-se durante um tempo, sofre-se profundamente – e depois? O esquecimento vem. “Nevermore”, dizia o corvo de E. A. Poe…
Sim, claro: “eu vou por aqui, tu vais por aí’… 
Por necessidade de sobreviver, compreensível, por incapacidade de suportar o sofrimento e a solidão.
Baudelaire, em Les fleurs du mal, cantava o abandono a que são votados  os mortos e as dores ignoradas, o frio, a solidão - como muito bem refere no terrível poema: “La servante au grand coeur”.

A “que dorme o sono último num humilde canto de verdura/Deveríamos levar-lhe algumas flores./Os mortos, os pobres mortos, têm grande sofrimentos./ E quando Outubro sopra o …das grandes árvores/o seu vento melancólico à volta dos mármores,/devem achar os vivos bem ingratos,/ a dormir ao quentinho, nos lençóis,/Enquanto que devorados por sonhos negros,/Sem companheiro de cama, sem boas conversas,/Velhos esqueletos gelados roídos pelos vermes,/ sentem degelar as neves do Inverno.”
Teatro Cameri

E recordo que a propósito do poema de Baudelaire, disse André Suarez: “os 'pobres mortos' somos nós os vivos. Como sofremos nós que estamos vivos!” 

Sobre a obra de Levine, escreveu o crítico teatral Michael Handelzats, em “All About Jewish Theater”:
"Stage anima"

“As suas primeiras obras satíricas e dramáticas causaram profunda impressão na sociedade israelita. ” Porque falava dos defeitos de uma sociedade esquecida da companhia, ignorando e afastando os outros, centrada no próprio "eu".

Sentimos um gosto amargo e doce ao ouvir falar da luta desesperada e cruel, de amor e de ódio, entre os seres humanos.
Hanoch Levine, dirigindo os actores

Que infelizmente existe por aqui, por ali: em todo o mundo, nas as relações humanas:  “a crueldade, a insensibilidade, a violência, o afastamento das pessoas, a opressão, a intolerância e crueldade”.

Léo Ferré

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Perder um amigo o que é?


O que é perder um amigo? Esta fotografia fala-me de uma amiga. Perdi a minha maior amiga. Ontem de manhãzinha cedo. Chamava-se Lívia. 
Conhecíamo-nos desde os anos famosos - e nunca esquecidos- da nossa adolescência: os 14 anos.
Fui com os filhos e os amigos, hoje, despedir-me do seu corpo e da sua vida : "ashes to ashes" dizem os ingleses. Sim, foram cinzas que os filhos levaram para guardar, ou para deitar no mar de que tanto gostava. A noite que desceu há momentos é muito triste hoje.

"Perder" é nunca mais vermos esse amigo ou amiga. É a ausência para sempre. E isso dói. Deixa-nos desorientados. Temos vontade de perguntar: mas haverá outro mundo? E temos medo da resposta.

Nunca mais veremos os amigos que ficaram sempre ao nosso lado, aqueles que estavam sempre quando precisávamos? 
Aqueles para quem bastava uma palavra, um olhar ou um sorriso para nos entenderem? Como pode ser para sempre? 
 Botticelli, Anjo Anunciador

E penso na beleza dos anjos de Botticelli e de Mellozzo da Forlì ou os querubins de Rafaello e desejo que estejam à espera dela! Ela amava a Arte, a Beleza, a Juventude!
Mellozzo da Forlì, Anjo musicante

Os nossos sorrisos juntas? Risos? Ouço as gargalhadas dela que foram iguais desde o primeiro dia em que a vi até hoje.
Sandro Botticelli, Irmãs

Falámos ontem ao telefone, ainda. Estranha que é a vida. Não nos falávamos há muito tempo. Nem eu nem ela gostávamos do telefone, mas quando começávamos nunca mais desligávamos: havia tanta coisa a dizer. 
Rafaello, os anjinhos espreitam...

Este ano que passou foi mau. Para as duas. Mas foi há tão pouco tempo que o telemóvel da Bárbara nos fixou. A rir ? Não, um ligeiro sorriso apenas.
Vimo-nos pouco, mas  neste último mês, duas ou três vezes: fui almoçar a casa dela e, dias mais tarde, almoçámos juntos com toda a miudagem dela, filhos e netos. Faltavam os meus filhos porque os meus filhos não estão por cá. Eu e ela estávamos frente a frente, ao fundo da mesa, junto à janela. 
Bastava olhar uma para a outra e sabíamos o que sentíamos. Ela ria-se para todos, gracejava, mas a mim disse-me baixinho: "Sabes, não estou assim muito bem..."
O mar estava lindo! Mudámos de assunto, e falámos de coisas banais.
Pouco depois, a primeira crise de coração. Esteve muito mal. Voltou para casa com a mesma vivacidade e vontade de viver, de querer tudo, de não desistir de nada, de não querer limites em nada. 
Era uma mulher especial. Eu chamava-lhe a nossa Princesa russa. A Czarina! Lembrava-me uma figura das grandes mulher dos livros russos!!
Hoje uma das filhas disse-me, a chorar: "lá se foi a nossa menina..."
E fiquei a pensar que para mim e para elas a grande Czarina era afinal a "nossa menina", muito mais frágil do que  a sua força de vontade e força moral enormes - e a sua teimosia em mudar o mundo e a vida - queriam mostrar.
Auguste Renoir, Meninas a ler
Vínhamos de terras diversas, de amigos que não eram comuns às duas. No entanto, o nosso encontro foi para a vida inteira.
Tão diferentes que éramos as duas, por que razão fomos amigas? Ela loira, eu de cabelo escuro, ela expansiva (diria, explosiva) eu calada e interiorizada. Quando ríamos, porém, o riso era quase igual: eu ria, ela dava gargalhadas enquanto continuava a falar. 
Por que razão era tão forte a nossa amizade? Diria alguém "parce que c'était elle, parce que c'était moi..." e estava tudo dito.
Auguste Renoir, La première sortie

Tanta coisa importante nos unia desde os tempos do Liceu: a vontade de sermos nós mesmas, de defendermos as nossas escolhas, de lutarmos pelos nossos ideais e sermos boas alunas, sim, mas de nos rebelarmos também.
Portalegre, a "casa amarela"

Vivendo fora de casa, em Castelo Branco, ela porque o pai tinha morrido e estava numa espécie de colégio semi-interno; eu porque não havia 7º ano em Portalegre e tive de mudar de terra e deixar a minha "casa amarela". 
Sandro Botticelli, conversando...

Talvez isso mesmo nos tenha unido. Uniam-nos, também, os grandes ideais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade"; o facto de os nossos pais serem ambos médicos e ambos anti-situacionistas. Queríamos ser “revolucionárias” nas escolhas, mas justas sempre. 
Entre a liberdade e o anarquismo: "Ni Dieu ni Maitre", cantou Léo Ferré. Para nós.
Auguste Renoir, Les amies

Ela fazia Direito, eu estudava Histórico-Filosóficas. Nas aulas de História , éramos as mais novas da classe e estávamos lado a lado. Ela, provocadora e brilhante, eu mais tímida, seguindo a sua voz e o seu desafio constantes, arriscava as minhas opiniões, opunha-me, protestava. E, no fim, ríamo-nos de tudo. E as suas gargalhadas enchiam a sala de aula.
Talvez pensássemos como o Barão, de Branquinho da Fonseca : "A vida é lá coisa para se levar a sério?"

Eu casei cedo, ela casou tarde. Ela a estudar na Universidade em Coimbra e eu  estudar em Lisboa. Trouxe-me um casaquinho de lã, branco, feito por ela, quando a minha primeira filha nasceu. 
Contou-me, muitos anos mais tarde, que tinha chorado abraçada à mãe, quando soube que eu ia casar, porque achava que eu ia perder a minha adolescência e juventude e nunca mais poderia brincar como dantes. Não foi assim, felizmente, continuei a viver a minha juventude - agora a dois...

Nos anos 80, veio ter comigo a Itália, e ao ouvir a voz dela ao telefone emocionei-me: não acreditava! Ela, a Lívia??? Era a voz inconfundível que ela tinha a falar-me já em Roma.
O Panthéon e a Piazza Navona nessa tarde pareceram-me ter uma luz especial - ao cair da tarde.
Anos depois, foi passar umas  férias connosco quando estávamos em São Tomé. Conversávamos a tomar o pequeno almoço no jardim. Nessa altura ainda era possível "frequentar" o jardim à noite: os mosquitos não apareciam nos primeiros anos que ali vivemos! Aqueles dias com ela, foram um oásis de felicidade e divertimento.


Quando foi o casamento da Gui ela foi a minha convidada; os noivos levavam os padrinhos, o Manuel levou um amigo, o maravilhoso Mariano (que noutros tempos o levava às cavalitas a ver a Académica quando cá vinha jogar) -  e eu, claro, levei a minha maior amiga, a Lívia. 
Devo dizer que os meus filhos adoravam-na! Era a única amiga comum a todos.
A Lívia é a Lívia!”, diziam, “é especial, acabou-se”.
Nos momentos difíceis. de doença, ou tristeza, ou de preocupação, ela estava sempre presente. Tantas histórias poderia contar dela e da nossa amizade! Histórias onde fazíamos frente a tudo e estávamos sempre lado a lado.
Ontem, aconteceu algo de estranho: fizemos vários telefonemas desencontrados: ora eu que não ouvia a chamada, ora ela que não respondia. Houve, porém, uma insistência tal por parte das duas que conseguimos falar ao fim da tarde.
E por que terá sido toda essa insistência? O que teremos sentido lá no fundo da alma que não dissemos uma a outra? Que necessidade era essa de nos falarmos? O saber que o tempo foge, que a vida passa cada vez mais depressa como aquela ampulheta que dantes estava cheia e cuja areia nunca se via descer, até ao momento em que o tempo é curto e então a vemos descer de corrida, sem parar?

Sei que foi mais uma das nossas conversas em que falávamos de novos livros amados, das novas descobertas, ou desilusões. Insultámos os bandidos desta terra, começando por Trump e indignando-nos com o novo governo popular-fascista da Itália que tanto amávamos? 

Eram as nossas conversas, sem meio nem princípio, a que chamávamos “malucas” e que ninguém percebia porque nos divertiam tanto.

Nada dissemos de especial, protestámos uma vez mais com o absurdo de viver, de ter de morrer, como de costume - mas o sentimento que nos unia era tão forte que acabámos a chamada a dizer as duas ao mesmo tempo:

“Temos que nos ver! Temos que falar! Telefonas tu ou telefono eu!"
 E desligámos a dizer isto… Foi a última conversa.

Não acredito em pressentimentos, mas o final da conversa deixou-me agitada, com uma sensação de melancolia forte. 

Senti qualquer coisa na ansiedade dela? Dizia-se irritada com tudo: médicos, pessoas, conversas de velhos! Desligava o telefone durante muitas horas para não ouvir ninguém. 
Queria ler, ter silêncio, música. "E escreves ainda?", perguntei. Há muito tempo que escrevia no computador o seu livro. Disse-me que já não escrevia  nada desde a primeira crise. 
Nunca mais nada será como antes, isso eu sei. Ela está dentro de mim e aqui estará até ao fim dos meus dias. Existirá sempre até eu morrer: ela é a minha melhor amiga!  
(Mesmo que afinal não existam os anjos de Botticelli e que nunca mais nos encontremos!)