segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Das minhas "Páginas sobre José Régio"...


José Régio teria hoje - impossível, claro - 117 anos...
Nasceu em Vila do Conde em 17 de Setembro de 1901 e em Vila do Conde morreu em 22 de Dezembro de 1969, em consequência de um enfarto. 
Em Portalegre viveu e ali o encontrei. Foi meu professor e amigo e conhecê-lo “marcou-me”, indicou-me os “marcos” de que falou na “Carta a um Juvenil Individualista” que assinalam a nossa passagem pela vida, o fazer isto e não aquilo, o escolher do modo que é o nosso e que é, para nós, o justo, o bem, o belo da vida...

Dele aprendi que a Literatura deve "espelhar" a verdade de cada um, a ingenuidade criadora, original porque "sua". Deve ser Literatura Viva, como escreveu no 1º número da Revista 'presença' (10 de Março de 1927).
“Quando leio José Régio, sinto uma comoção especial. No ritmo e na força dos seus versos, parece-me ouvir, na lonjura da memória, a voz pausada e nítida. 

Posso imaginá-lo a passear na sala de aula, para trás e para diante, enquanto nos ditava uma retroversão para francês, cheia de construções difíceis. Conheço alunos que tiveram medo dele, que o achavam impertinente, superior, altivo, no contacto. Não foi essa a minha impressão nunca.

José Régio ‘viveu’ muito próximo de mim, não fisicamente porque a rua dos Canastreiros ficava longe da Boavista, mas ele não era apenas o meu professor do liceu, o Dr. Reis Pereira: era o amigo do meu pai desde há longos anos.
Portalegre
E eu “cruzava-me” com ele não só nas aulas, ou nas imediações do liceu, mas também nos cafés, nas esplanadas de Verão, nos “saraus” musicais que havia em nossa casa, nos sábados, para ouvir música clássica.” 
Capa de Júlio, "Poemas de Deus e do Diabo"

Os seus versos de "Poemas de Deus e do Diabo"- que releio sempre com a mesma angústia- trazem-me aos olhos os seus "Cristos exangues", de "carne humana" e a Dor do "Homem que mais perto esteve de Deus" - como dizia - e quase me fazem sofrer. 
Sandro Botticelli, "Cristo Morto"

O seu Cristo da "Quinta Feira Santa", um dos poemas que mais amo, O Cristo triste, humilhado e ausente, a caminho do fim, abandonado, dá-me sempre vontade de chorar. 
"Mas o que eu amo em ti, Cristo exangue,
É o que em ti é Dor, e assim a nós te irmana:
Teu sonho louco, o teu suor de sangue,
E a tua carne humana."
("Poemas de Deus e do Diabo" poema intitulado "Quinta Feira Santa", p.49)
O Cristo da Paixão, um desenho de Régio

E penso: o que terá sofrido o meu Amigo na sua solidão procurada?Tanto querer, tanta inquietação e tanta insatisfação! Ele o escreve: "Sou um desejo/que não tem satisfação." 
Escolho, ao caso, alguns versos desse seu primeiro livro. Este desenho a lápis de José Régio foi feito, numa das primeiras páginas em branco, do exemplar que ofereceu ao meu pai, em 1950.

                                                   ***
"...Quem me não deixa ser eu?
«Viver
«É, para mim, duvidar,
«Desvairar,
«Interrogar,
«Procurar-me,
«Torturar-me,
«Agarrar fumo nas mãos,
«E acenar a uns irmãos
«Que eu sinto por perto, e não vejo
«Por causa da multidão..."
(poema intitulado "Na Praça Pública",  "Poemas de Deus e do Diabo", 1ª edição, página 72)
***
III

"Terra do chão, tapa-me a boca!
- Terra do chão que eu piso aos pés...
Areias do deserto,
Areias  que subis no ar turbilhonando,
Cegai-me!
Prostrai-me,
Ventos que ides passando assobiando...
Ondas do mar que desabais
(Ah! o mar...)
Levai-me!
Estou fartinho de lutar,
Não posso dar mais."

(ibidem, "Ronda dos Braços Quebrados", p.79)

***
                 
        "Menino doido, olhei em roda, e vi-me
    Fechado e só na grande sala escura.
            (Abrir a porta, além de ser um crime, 
    Era impossível para a minha altura).

                     Como passar o tempo? E eu diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura...

Ah! meu menino histérico e precoce!
Tu, sim, que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da descoberta!

O menino, por fim, tomba cansado,
O seu boneco aí jaz esfarelado,
E eu acho, nem sei como, a porta aberta!"

(ibidem, "Libertação", p. 75)

Marc Chagall, Le jongleur

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A LITERATURA POLICIAL E A MULHER




Sempre à procura de Literatura policial, descobri há tempos um livro organizado por Maria de Lurdes Sampaio e Gonçalo Vilas-Boas, ambos professores de Literatura Comparada (1).  Maria de Lurdes Sampaio regeu também a cadeira de "Literatura Policial", na Universidade do Porto.

Trata-se de um conjunto de textos sobre literatura policial composto de traduções de artigos de autores consagrados do género policial e estudiosos do mesmo.

A escolha é bem variada e vai desde Raymond Chandler e “A Arte simples do assassínio” (1944) ou a “Perspectiva filosófica sobre o romance policial” (1962) de Ernst Bloch, como, ainda, a “Filosofia da Série Noire” (1966) de Gilles Deleuze - até ao velho e famoso G. K. Chesterton e “Uma defesa das histórias de detectives” (1902).

Referem a obra de duas mulheres, Priscilla L. Walton e Manina Jones, que se debruçam sobre o problema da ‘mulher-detective’, num livro cujo título em inglês é bem sugestivo - “Does she or doesn’t she? The Problematics of Feminist Detection” (em português: “Sim ou não? A problemática da narrativa de detecção”, 1999).

Por motivos especiais devidos ao meu interesse pessoal pelo assunto, gostei do texto de Priscilla e Manina sobre a problemática da narrativa de detecção feminina. A mulher continua afastada do romance “hard-boiled” (termo intraduzível) americano, do romance duro, tipicamente masculino,  da figura de  Marlowe  ou de Sam Spade... 

É, de facto, pouco usada a figura da mulher-detective, nos autores americanos. 
As duas escritoras, Priscilla L. Walton e Manina Jones, focam esta recente proliferação das mulheres escritoras de literatura detectivesca  - apresentando em livro um estudo profundo e longo das mudanças de sociedade e históricas que implodiram esta popularidade – juntando divertidos textos das escritoras escolhidas. 
 Manina Jones, Prof Univ. de Ontário e Univ. de York

Do lado de cá do Atlântico, a realidade é um tanto diversa: há anos que existia a irreverente, curiosa e (aparentemente) suave Miss Marple, criada por Agatha Christie, escritora inesgotável e muito especial. A sua Miss Marple, observadora inveterada da natureza humana, é, porém, uma detective "acidental".
“Por acaso” surge um assassínio nas redondezas e é, relacionando as condições em que acontece e as atitudes dos suspeitos com o seu conhecimento da aldeia de Saint Mary’s Mead e da mente humana – igual em toda a parte - que ela consegue “detectar” o culpado.
Temos, ainda, o caso de Dorothy Sayers cujo herói é o sofisticado Lord Peter Wimsey, cuja mentalidade e qualidades de observação  são porém bastante femininas.
No entanto, desde os anos 70, escrevem Manina e Priscilla, explodiu, no mercado popular da ficção policial, um sub-género desse tipo de literatura escrita por mulheres e apresentando já uma mulher investigadora profissional. 

Does she or doesn’t she? The Problematics of Feminist Detection”, afinal?...

Impossível, por isso, não falar, das “mulheres-escritoras-policiais” modernas: as “damas do crime” - dos últimos decénios- do Reino de Sua Majestade Britânica. 
Refiro-me a Ruth Rendell (1930-2015) e a P.D.James (1920-2014), para mim as mais relevantes. E, também, ao “alter ego” de Ruth Rendell, Barbara Vine. 
Com protagonistas masculinos, é certo, mas contrabalançados por figuras femininas que têm o seu papel decisivo, na concepção e no desenrolar da história. 
P. D. James tem, aliás, em alguns dos seus livros, uma detective, Cornelia Gray,  que, aos 22 anos, "investiga" e resolve um crime ("Estranha Profissão Para uma Mulher", 2001 Europa-América).



Ruth Rendell (1930-2015) ficará para sempre ligada ao seu Inspector Wexford e ao ajudante Burden. 
O Inspector é um homem muito culto, sensível e humano. Com uma mulher tranquila, chamada Dora, e duas filhas Sheila e Sylvia. Que o enchem de problemas! Um mundo de mulheres, no fundo.

Mais recentemente, surge Ann Cleeves (1954) cuja figura de muitos romances é a Inspectora Vera - que na série televisiva da BBC chamou muito a atenção sobre a escritora.


As duas escritoras são Priscilla L. Walton e Manina Jones que focam esta proliferação recente do assunto das mulheres escritoras de literatura detectivesca apresentando um livro com um estudo profundo e longo das mudanças de sociedade e históricas que implodiram esta popularidade – juntando divertidos textos das escritoras escolhidas. (“Detective- Agency”).
***
(1) O livro intitula-se “Ficção Policial, Antologia de Ensaios Teórico-Críticos”, publicado pelo Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa e pelas Edições Afrontamento, Porto, 2012
(2) Priscilla L. Walton e Manina Jones, “Detective- Agency”, Mulheres re-escrevendo os romances policiais “hard boiled”  Does she or doesn’t she? The Problematics of Feminist Detection”...

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Miguel Hernández e "El niño yuntero" - cantado por Joan Serrat






El niño yuntero 
"Carne de yugo, ha nacido 
Más humillado que bello, 
Con el cuello perseguido 
Por el yugo para el cuello.
Nace, como la herramienta 
A los golpes destinado, 
De una tierra descontenta 
Y un insatisfecho arado.
Entre estiércol puro y vivo 
De vacas, trae a la vida 
Un alma color de olivo 
Vieja y ya encallecida.
Empieza a vivir, y empieza 
A morir de punta a punta, 
Levantando la corteza 
De su madre con la yunta.
Empieza a sentir, y siente 
La vida como una guerra, 
Y a dar fatigosamente 
En los huesos de la tierra.
Contar sus años no sabe 
Y ya sabe que el sudor 
Es una corona grave 
De sal para el labrador.
Trabaja y mientras trabaja 
Masculinamente serio, 
Se unge de lluvias y se alhaja 
De carne de cementerio.
A fuerza de golpes, fuerte, 
Y a fuerza de sol, bruñido, 
Con una ambición de muerte 
Despedaza un pan reñido.
Cada nuevo día es 
Más raíz, menos criatura, 
Que escucha bajo sus pies 
La voz de la sepultura.
Y como raíz se hunde 
En la tierra lentamente, 
Para que la tierra inunde 
De paz y panes su frente.
Me duele este niño hambriento 
Como una grandiosa espina, 
Y su vivir ceniciento 
Revuelve mi alma de encina.
Lo veo arar los rastrojos, 
Y devorar un mendrugo, 
Y declarar con los ojos 
Que por qué es carne de yugo.
Me da su arado en el pecho, 
Y su vida en la garganta 
Y sufro viendo el barbecho 
Tan grande bajo su planta.
Quién salvará a ese chiquillo 
Menor que un grano de avena? 
De dónde saldrá el martillo 
Verdugo de esta cadena?
Que salga del corazón 
De los hombres jornaleros, 
Que antes de ser hombres son 
Y han sido niños yunteros."

Compositores: Juan Manuel Serrat Teresa / Miguel Hernandez Gilabert


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A minha colega de carteira no meu primeiro ano do Liceu


Recordar é ter tanta coisa que temos dentro de nós e decidir trazê-las aos outros. Sentimentos novos, aprendizagens, amigos, espantos, medos e felicidades.
As amigas mais antigas que recordo são a Gioconda e a Letícia – que tinha esse nome porque era o da heroína de O príncipe com orelhas de burro, de José Régio, porque Régio – amigo do pai delas, o Dr. João Tavares, foi o seu padrinho. Para nós, ela era a Tiça e mais nada.
Com elas brincámos eu e a minha irmã mais velha, a Tiça era mais nova do que eu e acabou por vir a ser amiga da minha irmã mais nova. 
Eu era a do meio e esse lugar tem muitos problemas! Sentimo-nos mal-amadas, nem grandes nem pequenas com a sensação de que o amor dos pais e dos outros amigos e família se “fixam” nos outros e não em nós. Um dia conto a minha parte…
a rua dos Canastreiros

Morávamos na mesma rua, a casa delas era um pouco mais para cima e era do outro lado da rua. Podíamos até ver-nos da janela e acenar. Com elas brincámos tardes e tardes durante anos. Ora no jardim delas quando estava sol, ou vinham elas para nossa casa que lhes parecia mais “divertida” e aberta. Ao chegarem, ouvia-se lá em baixo o toque do martelo, e uma  de nós descia os dois andares a correr para lhes ir abrir a porta.
Podíamos ficar na garagem que servia de tudo menos de garagem. Onde se descansava nas tórridas tardes de Verão, com cadeiras de praia e uma mesa, o chão de ladrilho sempre salpicado com água. E foi, ali, por exemplo, que me tornei artista de circo. 
Ora pendurada da trave de uma porta sem porta, de cabeça para baixo, ou em cima duma prancha de lavar roupa rolando, equilibrada numa panela sem asas. 
a Casa Amarela

Nesses tempos da Casa Amarela, passeávamos na Corredoura e o grupo alargou-se com os irmão mais novo delas e a nossa irmã.  Aparecia sempre, o Luís Bacharel, bom amigo.
Mais tarde, andávamos já nós todas no liceu, apareceram umas amigas de passagem, que vinham de Lisboa passar o Verão com parentes. 
Carlos Botelho, Lisboa

Lembro a Liginha que chegava bronzeada, cada ano mais alta, com toilettes novas, cabelo curto ou uma fita larga, tipo bandelette, a segurar o cabelo para trás. Um ano até apareceu de luvas brancas de renda.
A outra era a Rosarinho que estudava num Colégio fora de Lisboa com um nome pomposo que associo sei lá porquê ao Eça!

Eu era tímida e talvez me deixasse impressionar  por elas, que pareciam trazer um perfume de fora, de longe. A Lígia tinha um modo afectado de falar com um grande sorriso de dentes brancos e perfeitos. Viam-se bem porque ela usava um bâton um pouco mais vivo – nós andávamos ainda pelos tons rosa, meio disfarçados.
o Plátano, plantado em 1848, pelo Dr. José Maria Grande, cientista

Uma noite vi chegar a Rosarinho ao jardim do Rossio - não muito longe do venerável e lindo Plátano, com uma saia plissada, branca, sapatos de salto alto e uma faixa de seda verde como cinto da saia. 
Moviam-se as duas, com grande à vontade, nos seus vestidos novos, frescos, decotados, de cores vivas. 

Eu era um pouco Maria-rapaz, que adorava andar de sapatilhas e com os vestidos simples de popeline que a minha mãe ajudava a Hermínia a "compor",  confesso que as invejei um pouco, certas noites.
 fotografias desse Cedro (*)

À noite, costumávamos sair, depois do jantar, ao Rossio, passear ou sentarmo-nos debaixo do Cedro da esplanada de Verão, onde serviam boas limonadas com muito limão e uma casca, bem geladas ou os copos lindos de groselha, cor do rubi.

A Gioconda e a Tiça apareciam também e também elas viviam o “fascínio” daquelas duas personagens.

À tarde, preferíamos ir ao Café Central, do meu avô Casaca, onde havia óptimas “mazagrans” (*) que o Carlos – o mais antigo empregado do avô – trazia em grandes bandejas até à esplanada do Café. Durante o Verão, o Café "estendia-se" até ao outro lado da rua Direita no meio da Praça dos Correios, debaixo de outro cedro, seguramente... 
Havia mesinhas redondas e cadeiras de ferro forjado pintadas de branco.
Praça dos Correios

Mas essas eram, como disse acima, as amigas de passagem. Acabado o Verão, tudo voltava à calma da nossa cidade. E nunca mais sabia delas até ao próximo Verão. Até que deixámos de nos ver.
foto na caderneta do Liceu

Mas, antes, eu descobrira as meninas do meu Liceu! Devo dizer que o meu Liceu era um palácio maravilhoso, da família Achaioli (em italiano seria Acciaioli...),com escadarias, mosaicos nas paredes, tectos esculpidos. 
(Por curiosidade conto aos que ainda não sabem - o Manuel conta a história a toda a gente! Nessas escadas, pois, tinha catorze anos e vinha a descer, tranquila, de olhos baixos e diz ele que logo se apaixonou por mim)
Subindo estas escadas e virando à direita, havia uma biblioteca,  forrada de estantes e livros, muito confortável.  

Foi no mesmo ano em que fiz o exame da 4ª classe e dispensei do exame ao liceu. Vejo-me, no final do exame, com a roupa que a mãe nos fizera, iguais, que eu achava super-chique:  saia rodada e um bolero de abas redondas, sem botões, e de mangas curtas. Debaixo, uma blusa de seda cor de marfim, com um bordado na gola. 
desenho a lápis feito numa vigilância de exames

Também não esqueci que, ao molhar a caneta no tinteiro, pus logo um borrão de tinta azul num dos lados do bolero. Só recordo a tristeza que tive e a Florinda a dizer, para me animar, que saía tudo com leite quente.
 Berthe Morisot, Menina do campo com tulipas

As meninas do meu liceu não eram como essas meninas de Lisboa. Eram meninas simples e vinham dos arredores da cidade. Do alto da Serra de São Mamede, do Reguengo, do Gavião, das carreiras ou dos Fortios, das Carreira ou mesmo de Gáfete.
Carreiras, por João Salvador

Eram meninas do campo, com as carinhas vermelhas do sol ou do frio e muitas vezes no Inverno com as mãos gretadas ou com “frieiras”. As roupinhas delas cheiravam bem, a ervas do campo, a lavado, tinham o perfume da roupa corada ao sol. Elas mesmas me pareciam meninas coradinhas ao sol.
Tive boas amigas no liceu e recordo tudo com saudade. Algumas sei que desapareceram.
Berthe Morisot, Meninas à janela

A Helena foi a minha primeira colega de carteira. Recordo a simplicidade dela, o olhar bom como de certas figuras dos filmes do Walt DisneyA carteira ficava perto da janela e via-se o terraço interior. Às vezes perdia-me a olhar para fora.
Recordo a Helena com um vestido preto, creio que o pai tinha morrido há pouco. Tinha os cabelos castanhos lisos, muito bem penteados, uma pele clara e uns olhos que me pareciam tristes e se animavam quando me contava histórias. 
Ela adorava contar-me histórias enquanto esperávamos que os professores entrassem na aula. E eu adorava ouvi-las...
Eram histórias de fantasmas e de mortos, coisas que eu ouvia com um ar incrédulo mas encantado, tal como as ouvira, noutros tempos,  contadas pela Hermínia, a nossa costureira, que tinha um dom de contar extraordinário. À braseira, na cozinha, com a Florinda e a Rosalina, essas histórias de lobisomens e de cães solitários uivando à lua, metiam medo. 
"cães solitários uivando à lua"

Tal como a Hermínia, a Helena abria muito os olhos para me assustar e criar o suspense. 

Essa companheira de carteira chamava-se Maria Helena de Deus Almeida. Nunca me esqueci do nome completo dela porque foi uma boa amiga e senti saudades dela.

Ensinava-me a esfregar o dedos na costa da mão, com força, e dizia com um ar misterioso:
- Cheira a minha mão! Sabes a que cheira?
Eu cheirava, curiosa como sempre. Era um cheiro estranho e desconhecido.
- O que é? perguntava interessada.
- É o cheiro dos mortos, explicava com voz soturna.
Eu ficava na dúvida. Seria verdade que os mortos cheiravam assim? Nunca tinha visto um morto.
- É como a carne morta, explicava, com o ar mais tranquilo do mundo.
- è este cheiro mesmo…
- De verdade?

Hoje, ao lembrar-me dela, tento repetir os mesmos gestos que fazíamos, reencontrar o cheiro dos mortos. Esfrego os dedos na costa da mão. Não me cheirou a morto nem a nada. Talvez me tenha cheirado a creme ou a água de rosas – coisas que não usávamos nessa altura. Sorri. E foi o cheiro do creme que me fez pensar nela.
Como saber o que lhe aconteceu? Saberei alguma vez o que foi a vida da minha companheira de carteira nesse primeiro ano de Liceu? Nunca mais nos vimos. Pensava muitas vezes por onde andaria? o que teria estudado?
Via-a com os traços desta figura do pintor holandês Jacob Maris, “Menina a coser”.
O mesmo sorriso suave, o jeito da cabeça inclinada, neste perfil tão bonito e puro. E as casas brancas ao longe…
E, depois, pensava: e as outras? Onde andam as outras “meninas” que perdi de vista? O que fizeram? Foram felizes? Onde vai isso tudo, meu Deus…
Dito isto, confesso que tenho uma surpresa para lhes contar!
Um final feliz, diriam nos romances românticos. E ponho-me a pensar: o mundo que tanto corre e gira e roda; o mundo que é tão vasto quanto efémero, a vida que julgamos eterna, ara sempre e dura um suspiro ou o tempo de uma folha de Outono cair - como lembram os Salmos.

Afinal, não foi esse mundo que gira e corre que nos fez reencontrar. Foi sim, o mundo substituto do real, o mundo virtual – esse mesmo que nos vai prendendo com os seus tentáculos enganadores e nos “encanta” enquanto nos pode”esmagar”, pois foi nesse mundo do Facebook que há dias recebi um pedido de amizade que me fez pensar na minha cidade. 
foto do amigo desaparecido, José Fernando

O nome era igual ao dela. Aceitei. Na mensagem que me enviou, escreveu mais ou menos isto : ”Dra. Maria João Falcão, eu fui a sua colega de carteira no Liceu de Portalegre. Queria dizer que gosto do que escreve”, etc etc”.

Eu desatei a rir sozinha! Depis contei ao Manuel. Ele sabia quantas vezes lhe falara dela. Coisa extraordinária na verdade, pois, meses antes, ao escrever uns Apontamentos: “O meu Pai e os figos de Setembro”.
Demorei-me, longamente, nesse tempo de Liceu: as idas a comprar bichinhos da seda à rua do Sapateiro, as aulas de Francês com a D. Lucinda e o nosso 'esforço' em pronunciar o ‘ü’ francês sem dizer ‘iú’…
Comovi-me quando lhe respondi em duas ou três linhas, apressadas, a dizer que pensara tanto nela sempre - que era impossível que não nos encontrássemos. Lá fora, a nossa árvore, frente à casa no nosso 4º andar alto, um belo salgueiro, pareceu-me estar de acordo. Lembra-me os salgueiros da quinta dos meus pais, hoje deitados abaixo.
Stefan Zweig, o conto Xadrez

Claro que a proibi de me tratar por 'doutora' nem nada dessas coisas cerimoniosas. Que me tratasse por tu como nos velhos tempos, em que estávamos as duas sentadas na mesma carteira a conversar da vida e da morte. E do xadrez que é o destino que jogamos sem saber jogar...
 a Maria Helena

Para mim ela é a minha primeira colega de carteira, a minha companheira de entrada no mundo do Liceu!
 Van Gogh, Outono

Vamos encontrar-nos, lá para o final do mês de Setembro Ainda não combinámos onde nem quando, mas será já no Outono!
Tenho já uma ideia do lugar! 
Depois, depois…digo! E prometo pôr as fotografias no Facebook!

(*) fotos antigas do Cedro da esplanada de Verão, que pedi emprestadas ao blog Largo dos Correios.
(**) Palácio Achaioli, no blogue Diário de bordo