segunda-feira, 27 de julho de 2020

Francis Scott Fitzgerald o Sonho e eu...

A juventude de todos nós é um sonho, uma forma de folia química”, escrevia Fitzgerald - eterno jovem, criança que nunca chegou a velho.

Morreu por isso mesmo, à procura do sonho, afogando-se em álcool para não esquecer o sonho.

Esse sonho, essa 'loucura química', acontece mas dura pouco se não estivermos atentos a mantê-los vivos.
Esse sonho se o esquecemos - para poder viver com os outros - é irrecuperável. Desilusões, desistências, desespero depressa matam o sonho.
 E crescemos inexoravelmente. Poderemos alguma vez voltar para trás? Ou o nosso momento cósmico de sombras que passam não é repetível?
Depende de cada um. Depende do que conservarmos do Sonho, da tal loucura química que não se pode deixar adulterar com a passagem do tempo.
E ponho-me a pensar e sinto medo de nunca ter sido completamente entendida pelos outros.
Saberemos nós alguma vez quem somos, essencialmente? Eu sou eu, afirmo, eu sei quem sou para mim, na essência. E logo hesito: Ou sou o que os outros pensam que eu sou?
Há uma barreira sem limites entre estas duas realidades. Creio que só se pode manter o sonho, o tal momento de folia química, se nunca se esquecer que  “eu sou eu, tal como “sou” – ou julgo ser.
Francis Scott Fitzgerald morreu com 41 anos. Tivera um sucesso enorme com os primeiros livros. Foi adolescente na sua loucura até ao fim, guardando um pedacinho do Sonho despedaçado.
Nasceu em 24 de Setembro de 1896, em Saint Paul, Minnesota e morreu em Hollywood em 21 de Dezembro de 1940.
Começou a sua carreira literária muito cedo ao publicar o romance que fala dos anos loucos intitulado “This side of Paradise” (“Este lado do Paraíso”), em 1920.
Poeta, romancista, guionista, contista extraordinário, é considerado um dos grandes escritores americanos do século XX  -dos anos 20 - que reflectiam um estado de espírito de liberdade e da “folia química” da época do Jazz.

Eram a chamada “geração perdida”. Dela faziam parte, com ele, Ernest Hemingway, Sherwood Anderson (considerado um dos maiores escritores da sua época), John Dos Passos, T. S. Elliot e Ezra Pound cujo destino foi trágico.
Ezra Pound, 1913


Scott fica milionário com o sucesso do primeiro livro. Quisera ser muito e era; quisera ter tudo e chegou às nuvens mais altas com as suas asas de diamantes, de loucura e de sonho.
Encontra Zelda, uma bela jovem e casam. Têm uma filhinha, Scottie, que adora o pai e que mais tarde escreverá sobre ele.

Os diamantes que foram seus, ("Um diamante do tamanho do Ritz"), estavam na riqueza das histórias que soube contar como nenhum outro, na sua humanidade, nas conquistas e as perdas.
Depois do sucesso do primeiro livro decide ir viver em Paris, onde já era conhecido. 
Escreve "The Great Gatsby" em 1925. Nesse romance que retrata a alta sociedade nova-iorquina rica do anos 20, Jay Gatsby, a personagem principal, apercebe-se da corrupção que o rodeia.
As festas dispendiosas, o encanto dos bailes ao som do Jazz, num universo irreal e brilhante .
O “sonho americano”? A verdade é que descreve a alta sociedade - da qual começara a fazer parte - com uma visão crítica áspera, anotando os defeitos, a fatuidade, a superficialidade.


Em Paris tem muitos apoios e amizades. A mais importante deve ter sido a amiga Silvia Beach, directora da Livraria Shakespeare and Company.
Silvia apresentou-o ao escritores franceses e àqueles que estavam de passagem, como James Joyce - por quem Fitzgerald tinha grande admiração.

Encontra Ernest Hemingway que não se porta lá muito bem com ele como se pode ver em "Paris est une fête", de Hemingway.

Em 1934, em Paris ainda, publica “Tender is the night” (Terna é a noite). Um romance triste, nostálgico que o autor gostava de dizer que era o seu preferido e que considerava a sua “melhor obra”.
Sente porém que tudo desabara na sua vida. Talvez quando a bebida passou a ser a compahneira da vida.


Há um conto extraordinário, "A década perdida", que fala de alguém que durante dez anos estivera bêbedo, alheio a tudo. Um dia pára e percebe que estivera "ausente" de tudo. Resolve então apanhar um táxi e pede ao chauffeur que o leve pela sua cidade a ver o que mudara.
Ou talvez um dia tenha esquecido a "química" do seu Sonho, porque aceitara viver a vida que os outros lhe impunham viver. Deixou-se levar por eles. Parou a inspiração do sonho. Perdeu-se na multidão dos que o arrastavam e bajulavam.
Volta para Hollywood muito doente. Diziam ser tuberculose mas segundo muitos Scott transformara-se num alcoólico e encontrava-se debilitado física e moralmente.
Continuava jovem dentro. 
Lutou, quis voltar atrás - a esse “eu” essencial. Começa a escrever o que seria o último romance, uma obra-prima, segundo dizem, que será publicado em 1941 depois da sua morte.


 “The love of the last Tycoon” é o título em inglês; na tradução portuguesa (Relógio de Água) "O grande magnate".
Uma manhã em que se preparava para ir escrever  deu de repente uma volta sobre si mesmo e caiu morto no chão. O coração tinha parado.