terça-feira, 12 de outubro de 2010

Alentejo revisitado em imagens, e Portalegre também... com o poema de José Régio...


Chegando ao Alentejo...



O castelo de Estremoz...


O REDONDO

"é na vila do Redondo/ que eu tenho meus cuidados/ tenho lá tantos amores/ como telhas nos telhados" (canção alentejana)


O Redondo fica na Serra de Ossa

Saindo do Redondo...

Estrada de curvas para Marvão...



MARVÃO

Várias perspectivas de Marvão, e o seu castelo, o ninho das águias. E agora descemos para Portalegre...

Campos, campos, campos...
Entrando em Portalegre, pelo Senhor do Bonfim...


PORTALEGRE



A "velha" Rua Nova...
No Centro da cidade, fica o largo da República, com vista para a Serra da Penha

"em Portalegre, cidade/Do Alto Alentejo, cercada/De serras, ventos, penhascos e sobreiros..."

Portalegre, duas vistas do Largo da República, o antigo Largo do Corro

última página da novela "Davam Grandes passeios aos domingos", de José Régio, que se passa em Portalegre

As chaminés da antiga "fábrica da rolha" da minha infância, onde soava a sirene quando havia um fogo...

o Liceu onde o poeta José Régio ensinou tantos anos

Toada de Portalegre


"Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,

Naquela bela janela!
Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância, Azuis, cinzentas, lilases,

Já roxas quando mais perto,

Campos verdes e Amarelos,

Salpicados de Oliveiras,


E que o frio, ao vir, despia,

Rasava, unia

Num mesmo ar de deserto

Ou de longínquas geleiras,

Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados

Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me

Quando, fitando-os suspenso

Daquele silêncio imenso,

Sentia o chão a fugir-me (...)"


Descendo pelo Rossio, deixando para trás Portalegre.
As recordações, a infância, as pessoas desaparecidas, tudo se afastava na memória. E "sentia o chão fugir-me", como dizia o Poeta....

Lembrando outros momentos, ouvindo Chopin...

Nocturno opus 9, nº 2, de Chopin, tocado por Rachmaninoff

Alentejo: "o cante da terra": os ganhões de castro verde em desfile na Feira

Vozes que se confundem, unidas, homens descendo, de braço dado, os caminhos da vila. Este "cante" da terra é único...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Homenagem a Solomon Burke: Everybody Needs Somebody To Love - The Blues Brothers






http://lacomunidad.elpais.com/ruta-norteamericana/posts


SOLOMON BURKE

Nascido em Filadelfia em 1940 (algumas biografias dizem que nasceu quatro anos antes), Burke era o mais novinho de sete irmãos e era o único que não conheceu o pai biológico, que substituiu por um depenador de frangos que trabalhava num mercado judaico.
Mas foi a avó, Elanor, que se encarregou do neto e o empurrou para o ensino da United House of Prayer For All People, organização evangélica. Mais tarde a avó e o marido fundaram a sua própria congregação e Solomon foi pregador.

Estava destinado a ser um lider espiritual. De facto, aos sete anos já fazia sermões e era chamado the wonder boy preacher (o maravilhoso rapazinho pregador).

Dirigiu também o coro de gospel e aos 12 anos tinha já um programa musical na rádio a que chamava Templo de Solomon, onde cantava espirituais e canções tradicionais.
Em 1959, Atlantic Records, Ahmet Ertegun e Jerry Wexler, cruzaram o seu caminho. Tinham perdido os vocalistas Ray Charles e Bobby Darin.
Depois de uma prova de ensaio nos estúdios da Rua 56 de Nova York, Burke assinou contrato com a maior e mais influente companhia de música independente do século!

Aí faz a transição do gospel ao soul, entrando na música “secular”.
Burke, o rapaz pregador criou o seu estilo.

Surgem as canções Cry To Me ou Everybody Needs Somebody To Love.

Do outro lado do Atlântico, Solomon Burke causa furor e os Rolling Stones cantam versões das suas canções, enquanto se nota a sua influência vocal no próprio Mick Jagger.

Morreu ontem, dia 10 de Outubro de 2010.

Penso que estas palavras (que "apanhei" na biografia feita pelo jornal El país) vos darão uma ideia do percurso de Solomon.

Prefiro recordá-lo, com a alegria dos fantásticos participantes do filme de John Landis, "The Blues Brothers", uma comédia musical "amável, boa, insubstituível": os actores Jonh Belushi e Dan Acroyd e os cantores inesquecíveis! Como a grande Aretha Franklin, James Brown ( o espantoso “pregador-bailarino!"), Cab Calloway único, a cantar Minni the Moocher, Ray Charles, etc.

Ele, Solomom Burke, creio que haveria de rir com eles uma vez mais...

Deixo este testemunho: Lágrimas por Solomon Burke, de Fernando-Navarro

http://lacomunidad.elpais.com/usuarios/fernando-navarro


"Ayer domingo me levantaba con la peor de las noticias: Solomon Burke había muerto. Fue encender el móvil y ver un par de SMS con la noticia y varias llamadas perdidas del periódico para que escribiese un obituario. Me quedé petrificado.
Tal vez, uno es un sentimental, pero sentí la muerte de este hombre como si se desprendiera una parte de mí. Por los excesos de la noche anterior, la cabeza me daba mil vueltas pero aún más me dolía muy dentro. Sentado frente al ordenador, al pinchar uno de sus discos, se me encogió como una goma quemada el alma.


(...) se iba una parte esencial de tu imaginario musical, una figura que con su obra te ha enriquecido, te ha hecho vivir emociones a flor de piel, has considerado tan necesaria como el aire que respiras cada día.
Pude ver en tres ocasiones a
Solomon Burke en concierto. Nunca me defraudó. Al contrario, se me hizo más humano y cercano con su gran sentido del humor y del espectáculo. Era un superviviente de los años dorados de la música soul y eso, sencillamente, no se paga con dinero. Es como ser protagonista de una película en blanco y negro en la mejor época de Hollywood."

Gostei deste comentário, e das "lágrimas" sinceras de alguém que soube amar este homem, o maravilhoso jovem pregador de Filadélfia, e cantor único- porque as achei de grande humanidade e me fizeram comover...


James Brown- blues brothers

Cab Calloway - Minnie the Moocher

Everybody Needs Somebody To Love - The Blues Brothers

domingo, 10 de outubro de 2010

Recordando John Lennon, que faria hoje 70 anos! Como o tempo voa... Ouçam " Imagine"







John Lennon nasceu em 9 de Outubro de 1940 em Liverpool, Inglaterra.

Esse rapaz, chamado John Lennon, decidiu formar um grupo musical em 1957 o que levou à criação do que iria ser o grupo rock mais famosos do mundo: The Beatles.



Inicialmente, John escolhera o nome de "The Blackjacks" e criara um primeiro grupo. Mas esse nome só durou uma semana. John escolheu outro nome, "The Quarry Men", em Março de 1957.

Nesse grupo John cantava e tocava guitarra, Colin Hanton tambores, Eric Griffiths guitarra, Pete Shotton tecladista, Rod Davis banjo, e havia ainda Bill Smith.

Algum tempo depois, o jovem McCartney (de 15 anos) foi apresentado ao jovem Lennon (16 anos) e começa uma participação única, genial, na criação de músicas e canções. McCartney é "acrescentado" ao grupo. Depressa Paul MacCartney é o vocalista e guitarrista e George Harrison começa tocando guitarra e cantando.

Em 1960 o novo grupo está formado: este é o definitivo grupo The Beatles. Em 1962, o grupo completo, com Ringo Starr arranca para a viagem que os leva de sucesso em sucesso...

Composição: John Lennon (rhythm guitar, vocals), Paul McCartney (bass guitar, vocals), George Harrison (lead guitar, vocals) e Ringo Starr (drums, vocals).



quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Kazuo Ishiguro e a solidão das pessoas "especiais"? Ou de todas?...


Há uns anos, pelo Natal, o meu filho ofereceu-me um livro que me impressionou. Hoje escolhi falar-vos dele (*).
Chamava-se “Don’t let me go” e o autor era um escritor japonês, Kazuo Ishiguro. Tinha sido publicado em português pela Gradiva e a tradução de Rui Pires Cabral era excepcionalmente boa.

Conhecia o nome do autor, por ter visto o filme tirado de outro livro seu: Os despojos do dia (1), filme com dois actores extraordinários, Emma Thompson e Anthony Hopkins.
A verdade é que li o livro em três ou quatro dias. Livro inesperado, tema estranho, quase de ficção científica, confesso que comecei a lê-lo com certa desconfiança.

Pensei que o autor não precisava de ter ido buscar ao tema estranho do livro a angústia e o sem-sentido da vida dos personagens, porque, no fundo, andam todos eles no livro à procura do sentido da vida (deles, estranhos) como qualquer ser humano (nós todos, normais).

Não digo mais porque acho que é o leitor que tem de ir descobrindo, pouco a pouco, o enredo.

Encontrar um sentido para a vida num mundo agressivo onde tantas vezes nos sentimos solitários, diferentes, postos de lado, sem saber qual é o nosso lugar nesse mundo.
De hoje ou de sempre?
Qual o sentido da vida, se vamos morrer?, já perguntavam os existencialistas e, antes deles, outros.

O próprio Gauguin se interrogava no belíssimo “painel”: Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos?
Também Kathy, Ruth, Tom e os outros se interrogam...Personagens vivas, bem conseguidas que nos “arrastam” nas suas dificuldades, angústia, solidão.


Acompanhadas pela canção Don’t let me go que nos (me) obsessiona.
O livro começa simplesmente, de modo directo:

Chamo-me Kathy H. Tenho 31 anos e trabalho há mais de onze como ajudante. Parece muito temp, bem sei, mas a verdade é que me pediram que continuasse por mais oito meses, até ao final deste ano. O facto de ser ajudante há tanto tempo bão significa necessariamente que me considerem uma profissional excelente”.
(...)
Os dadores a meu cargo sempre se saíram melhor do que o esperado, com períodos de recuperação surpreendentemente curtos. Raramente foram considerados de “agitados”, mesmo antes da quarta doação.”
(...)
"Além disso, sou uma antiga aluna de Hailsham – o que por vezes é suficiente para pôr as pessoas de pé atrás comigo."

Dizem por aí à boca pequena: ‘A Kathy H. escolhe sempre à vontade dela’- ou, então: ‘Escolhe sempre gente como ela: gente de Hailsham ou de uma das outras escolas privilegiadas. Por isso é que tem tão bom currículo’.”

a verdadeira Hailsham hoje


E, a partir destas duas primeiras páginas já nos move a curiosidade e entrámos em contacto com os principais pontos do drama: ajudantes, dadores, Hailsham...
O que significa Hailsham?
Universidade de St. Andrews (Melville), escolhida pelo realizador para "representar" Hailsham


Kathy, a narradora, vai então "voltar atrás" e contar as suas recordações de infância e adolescência.
A acção situa-se numa Inglaterra bela mas “distópica” (decidi “manter” a palavra porque acho que é sempre útil enriquecer a língua, que tão mal tratada tem sido, adulterada, etc.), onde não vai haver um lugar seguro para aqueles adolescentes super-preparados, especiais.

É nesta paisagem da Escócia que Mark Romanek ambienta o filme.


Pouco a pouco, com eles, vamo-nos apercebendo da “anormalidade” da situação, naquele ambiente onde nada falta.
Nada, mesmo?

Bem. Há a canção Don’t let me go -de Judy Bridgewater-, que nos segue desde o início, com a pequenina Kathy.

“Ouvia-a” dentro de mim, pensava que existia, queria ir procurar o CD, saber quem era a cantora...

Até ao fim do livro ouvi a canção. Só depois descobri que era uma canção inventada, cantada por uma cantora que nunca existiu.

A atmosfera do colégio-orfanato de Hailsham –o lugar seguro, o sítio onde os alunos se podem considerar “iguais aos outros”, encontrar protecção - e fora do qual - no mundo dos outros- ele ignoram o que poderá acontecer-lhes.

Ignoram que espécie de “existência” os espera “lá fora”. Sabem no entanto que os aguarda um destino invulgar.
Naquele estranho colégio interno são criados e educados, sem família. Os professores empurram-nos para a criação de obras de arte, sob diferentes formas.

O título da novela vem da canção que Kathy ouve: "Don’t let me go" que Kathy gravara, numa cassette, dum disco e que se intitulava "Songs After Dark" (Canções para o escurecer). 

Porque é ao o escurecer, quando a noite desce, que o medo e a solidão podem ser mais fortes.

Na 
sua solidão, Kathy costumava dançar, abraçada a uma almofada, entoando o refrão: "Baby, never let me go".


Uma vez, a misteriosa Madame vê-a dançar, e desata a chorar.
Um dia, num encontro decisivo para o desenrolar da acção, Kathy pergunta-lhe por que chorou ao ouvi-la.


Iludindo a pergunta, Madame responde que foi a imagem daquela criança desprotegida frente a um mundo desconhecido, um novo mundo eficiente mas cruel que a chocara. Pensa que essa criança chora, pedindo ao velho mundo “seguro” para não a abandonar.


Madame, espécie de directora, é ela quem escolherá os melhores da escola e reuni-los numa Galeria.
Miss Emily, a professora que está “mais próxima” de Kath, ajuda-a, entusiasma-a.

Diz-lhe que criar é importante. Manter a saúde também é importante. Resguardarem-se do que se passa fora dos muros do colégio também.

Vai-se criando um certo suspense aos olhos do leitor. Qual o porquê de tudo isto?


Teremos de acompanhar a acção até ao fim e seguir, apaixonados, as personagens, para saber. 
E devagarinho - nós e eles- somos levados a descobrir a verdade da aparente felicidade dessa infância e adolescência e a perceber o futuro que os espera.

No livro, tudo é bem recriado, verdadeiro: os adolescentes, os professores, a escola, os recreios, os grupos.


Verdadeira a figura da narradora, Kathy, e dos amigos mais íntimos, Tommy, Ruth, Laura.


Romance que emociona. Carregado de sentimentos, de melancolia e do sentido da fragilidade e da efemeridade das (nossas) vidas.

Infelizes e abandonados.Pobres crianças crescidas! Pobres ursinhos! Sozinhos porque "especiais" -diferentes - num mundo agreste? Ou sozinhos apenas porque seres que "sentem" e sofrem, apesar de diferentes?
Um livro que, sem dúvida, vale a pena ler!



Algumas notas sobre o autor e o livro e NOTA FINAL


Kazuo Ishiguro nasceu em Nakasaki, Japão, em 8 de Novembro de 1954. Veio para Inglaterra em 1960, quando o pai, cientista oceanógrafo, veio fazer um trabalho de pesquisa no National Institute of Oceanography. Foi educado numa escola para rapazes, no Surrey. Estudou Creative Writing na University of East Anglia.

Escreveu vários livros...

A Pale View of Hills (1982),


~An Artist of the Floating World (1986)
~The Remains of the Day (1989)
~When We Were Orphans (2000)
~Nocturnes
Posso dizer-vos que a editora portuguesa Gradiva traduziu quatro dos seis romances de Kazuo Ishiguro:

Os Despojos do Dia (1989, vencedor do Booker Prize), Os Inconsolados (1995, vencedor do Cheltenham Prize), Quando Éramos Órfãos (2000, nomeado para o Booker Prize) e Nunca me deixes (2005, vencedor do Booker Prize - prémio que Kazuo Ishiguro vencera já, em 1989, com o livro The Remains of the Day).~

Escolhido também para os Prémios Arthur C. Clarke Award e National Book Critics Circle Award desse ano.

O Time magazine considerou-o o melhor romance de 2005, e incluíu-o na sua lista dos melhores 100 novelas.
Em 2006, recebeu também o Prémio da:
American Library Association (ALA) e o Alex Award.

Em 2009 escreve "Nocturnes", a primeira colectânea de contos, depois de seis romances. Traduzida e publicada em Portugal (Nocturnos), em 2009.


Entre 2009- 2010, Mark Romanek realizou um filme sobre Never let me go, que tem, nos principais papéis, Keira Knightley, Carey Mulligan and Andrew Garfield.



Apresentado este ano no Festival Internacional do Filme de Toronto, vai abrir agora em Outubro o 54º London Film Festival (BFI 54th London Film Festival) que se realiza de 13 a 28 de Outubro de 2010. Romanek e Garfield em Toronto.


O filme será apresentado nos USA em 15 de Setembro deste ano.
Em Inglaterra, sairá nas salas em 14 de Janeiro de 2011.


(*)Nota final, acrescentada hoje - dia 6 de Outubro de 2107- dez anos depois de escrever este post: 
Kazuo Ishiguro acaba de ser o Prémio Nobel de Literatura deste ano!


(1) The Remains of the Day , Os Despojos do Dia, (título em Portugal) e Vestígios do Dia (título no Brasil) é uma co-produção dos Estados Unidos e do Reino Unido, filme dramático, realizado por James Ivory em 1993.