domingo, 5 de dezembro de 2010

Chefchaouen, a cidade azul

fotografia "roubada" à minha amiga Asmaâ...


Ao entrar em Chefchaouen, a sensação que tive foi pensar que não era possível existir uma coisa assim...

Uma cidade azul!

Era, de facto, uma cidade azul. Uma cidade onde as casas, as portas e as ruas eram cobertas por uma camada de cal de um branco-azulado, ou, melhor, de um azul-pálido, alternando os tons matizados mais fortes ou mais fracos e a cal branca.

Essa cor, hoje característica da cidade, contam os guias, foi introduzida em 1930 pelos judeus, ali residentes.

Uma vez disseram-me que a cor azul pretendia ser uma espécie de talismã para “afastar o mau-olhado”, os espíritos do mal, tal como os olhos de vidro transparente, olhos azuis de íris negra, que se vendem em todas as kasbahs dos orientes para esse “efeito”.


Outra teoria sobre o azul -referindo-se neste caso, às casas alentejanas brancas com a sua tira azul vivo no rodapé- era a cor que afastava os mosquitos e outros insectos.


Gostaria de saber mais coisas sobre as razões que levam alguns países do Sul, ou terras perto do mar, a escolher aquele azul...


Situada entre duas montanhas e uma fonte de água com cascata de águas cristlinas, Chefchauen tem uma localização fantástica.

"Edificada no século XV na cadeia montanhosa do Rif, no norte de Marrocos, a origem do nome da cidade, Chefchouen (ou Chaouen) deve-se aos dois picos que estão por cima dela: chama-se em língua berbere "os cornos".
Foi fundada nesse alto para proteger as populações locais das conquistas estrangeiras: era de facto, cobiçada por muitos e desejada a sua conquista pelos portugueses e pelos espanhóis."

(no site: Découvrir le Maroc : Chefchaouen la bleue)

Estamos no Rif Al Andalous, montanhoso e desértico, e a paisagem que nos circunda é linda e a infinitude do horizonte impressiona.

Entrando na cidade velha pela porta Bab el Aïn, subindo as ruas inclinadas que seguem paralelas umas às outra, como em socalcos, de calçada de pedras e pequenos degraus arredondados, cheguei à cidade alta.

Se continuarmos a subir, chegamos às velhas muralhas do castelo, dentro das quais fica a Medina.

A certa altura, num larguinho formado entre duas ruas, descobri uma oliveira enorme que tinha mais de cem anos!

Protegida, resguardada por um muro de pedra, crescera à vontade e era um verdadeiro monumento. À volta, as ruelas subiam e desciam, sempre na sua cor azulada.

Na parte baixa da cidade, fica a praça Uta-el-Hammam. Era uma praça que parecia estendida ao comprido, com a sua Mesquita a um lado, mais o minarete octogonal, imponente e delicado, tão fora do vulgar.

Chefchaouen, uma das cidades santas de Marrocos, tem mais de vinte mesquitas espalhadas pela cidade.

A mais bela é, talvez, a tal Mesquita Grande, ao lado de árvores gigantescas, formando um parque, com bancos, e as suas lojinhas atrás.

É costume fazerem-se ali espectáculos nos dias de festa e, à noite, há sempre uma grande animação.

As pessoas passeiam, lado a lado, de mãos dadas quantas vezes amigo com amigo, mostrando um lado marroquino que é a afectividade.

Do outro lado, fica o Palácio e, mesmo ao pé, um restaurante -construção de dois andares sobre a praça-, em corredores labirínticos e curvos no mesmo branco azulado.

Salas pintadas também de azul dão um ar de se andar noutro mundo, sem peso, sem forma. Olhar lá para baixo, puxa-nos para a realidade.

Ao contrário de Fez, cidade sombria na sua parte velha, cidade que é talvez a mais “melancólica” das cidades de Marrocos -o “país da melancolia” no dizer da escritora Edith Wharton (1)-, Chefchaouen é uma cidade solar, de luminosidade e de espaços abertos.

Por toda a parte, rodeia-nos a cor das casas, a luz do sol, o verde das árvores, mesmo nas ruazinhas azuladas da kasbah!
outra fotografia de "mon amie" Asmaâ

Ao pôr do sol, andando pelas ruas, unidas por arcos em ferradura, à maneira andalusa, via na Medina os reflexos rosados no azul das paredes e parecia-me caminhar numa terra de sonho, de silêncio e paz.

Figuras de djellaba passeavam devagar, contemplando as árvores, falando baixo e iam sentar-se nos bancos do largo.

Nas atitudes lembravam-me algumas figuras das aldeias da minha infância. O mesmo sossego nos modos, a mesma capacidade de contemplação, os mesmos olhos escuros e melancólicos.

Chefchauen, a azul, é uma cidade de sonho!


(1) Edith Wharton, Voyage au Maroc, Gallimard, colecção L’Imaginaire, 1912

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Blue Train, de John Coltrane

Um pouco de música: Miles Davis e John Coltrane & OUTROS...

FIGURAS ÚNICAS TODOS ELES : JOHN COLTRANE, MILES DAVIS, JOHNNY HARTMAN, CHARLIE PARKER, CHET BAKER & ETC...

JOHN COLTRANE
http://www.youtube.com/watch?v=fNrVrEXUVS4

MILES DAVIS
Miles Davis, num concerto em Portugal, em 2007

http://www.youtube.com/watch?v=PoPL7BExSQU

"Kind of blue"

http://www.youtube.com/watch?v=rGQzNsZAtCo


CHET BAKER

"O anjo desdentado" porque numa cena de murros lhos partiram todos... Durante anos não tocou, nem cantou

http://www.youtube.com/watch?v=Q0ZBaZoBCaA


CHARLIE PARKER

The bird...

http://www.youtube.com/watch?v=TOwEr4UaqzM

JOHNNY HARTMAN E JOHN COLTRANE

uma dupla maravilhosa...



http://www.youtube.com/watch?v=ecrE80rnjhw
http://www.youtube.com/watch?v=f_Umv6xrTh8

http://www.youtube.com/watch?v=HsgQCLih118

MILES DAVIS E JOHN COLTRANE

Fogo destrói parte do Ha Carmel Park, um parque florestal, em Israel.

quadro do pintor israelita Reuven Rubin
o Parque HaCarmel
Desde quinta-feira que um fogo se espalha e vai destruindo a floresta Ha-Carmel, no nordeste de Israel, zona protegida, com parques e reservas naturais.
Aproxima-se rapidamente da cidade de Haïfa.
Haïfa

Os bombeiros conseguiram evitar que morressem os animais da reserva, procurando antes do mais que fossem libertados.

De facto, quando entram em pânico, não conseguem fugir sozinhos.
O forte vento a soprar do Oriente, a secura dos terrenos, o muito calor deste Outono sem chuva, tudo isso...

Bem me lembro dos outonos quentes que iam até meio do Inverno, secando tudo, com a baixa pressão que nos impede de ter forças, logo que a tarde começa a cair.
Só já noite entrada, um pouco de vento fresco soprava por vezes, o hamsin (nome árabe) ou sharav (nome hebraico) , que vem do deserto...

Vivi muitos anos em Telavive. Sei bem como às vezes no final do Outono ansiava por um pouco de fresco.
E quantas vezes, também, vi neve em Jerusalém, ou nos picos do Golan, onde os mais aventurosos vão skiar...

Hoje recebi um email de um amigo israelita, judeu de origem portuguesa.

Mandava-me as "Boas Festas" de Hannukah, a "festa das luzes", festa correspondente em data ao nosso Natal, e dizia-me:

"Lembra-se do passeio que fizemos ao Carmel, a Yussefia e Daliat HaCarmel, as duas aldeias druzas?
(Claro que me lembro!!)
O incêndio começou precisamente perto do lugar onde almoçámos, em Yussefia.
Como estava calor, as árvores e a vegetação muito secas (pois há muito que não chove), e estava muito vento do oriente, o fogo alastrou num ápice.

Arderam já mais de 10.000 dunams de floresta natural, o kibbuts Beit Oren, onde costumava passar belas férias, foi evacuado e os seus habitantes perderam as casas e todos os haveres.
Ainda tiveram tempo para libertar todos os animais, para que tentassem escapar.

Numa prisão mesmo ao lado, transferiram os presos para outras prisões. Um autocarro com 40 jovens cadetes -guardas prisionais- que vinham ajudar a fazer a transferência mais rápida, foi apanhado pela chamas e morreram todos carbonizados.
A comandante da Polícia de Haifa, foi no seu carro tentar ajudar os passageiros do tal autocarro e o carro dela também pegou fogo. Está no hospital com 80% de queimaduras.

As chamas atingiram 20 metros de altura. Nem valia a pena deitar água.

Pensava-se que, se o fogo chegasse à estrada Tel Aviv - Haifa se apagasse por si, pois não haveria nada para arder.
o porto de Haïfa ao pôr do sol
Mas nem queríamos pensar que iria consumir todas as aldeias até chegar à estrada - Ein Hod, a aldeia dos artistas, lembram-se?- mas chegou. Passou a estrada e vai agora em direcção ao mar.

Como o vento está a mudar de direcção e leva o incêndio também para o norte, passou a Universidade de Haifa, que já foi evacuada e receia-se que atinja os bairros de Haifa, no cimo do Carmel. Uma desgraça. "

Lembro o fogo do passado Verão que fez arder as lindíssimas florestas na Rússia, quase chegando às portas de Moscovo...

Tudo isso faz medo.

As forças da natureza, soltas, são como o célebre vaso de Pandora: todos os males dali se libertam e vão afligir o mundo.

Não poupam nada, nem a beleza, nem a terra, nem a vida...

Pobre mundo!
Penso nos meus amigos, nos sítios que conheci, na bela cidade de Haïfa.

Espero que páre depressa o fogo!
Haïfa, cidade do norte de Israel

(*) "Haifa é uma cidade de muitas faces, com características especiais, que a tornam um lugar atractivo para se visitar.
A sua proximidade com o mar e o seu porto cheio de vida contribuem para a sua proeminência.

A agitada área do porto atrai vendedores, compradores e turistas. As lindas praias são populares para praticar esporte e para a recreação, e durante o verão estão cheias de gente.
Além disso, por causa das excelentes condições para o surfe, as praias são usadas por muitos dos melhores entusiastas da navegação, e nela são feitas competições de navegação e outros eventos esportivos.
Com residentes das três maiores religiões, além de várias minorias religiosas, Haifa é também um símbolo de coexistência e tolerância fora de série. Nove por cento da população é formada por árabes (muçulmanos e cristãos), que, na maioria residem em três bairros: Khalisa, Abas e o famoso Wadi Nisnas, cujos becos encantadores o transformaram num ponto turístico.
A Festa das Festas anual, que marca o estilo de vida especial da cidade, é comemorada neste bairro."
iluminações do Natal, no bairro cristão de Haïfa

Em Wadi Nisnas existe um centro cultural misto para as comunidades judaica e árabe.
o Centro cultural árabo-judaico, Beit Hagefen
Este centro cultural judaico-árabe existe em Haifa desde 1963. O "Beit Hagefen Arab-Jewish Center" foi criado com o propósito de unir Árabes e Judeus e educá-los para a coexistência, vizinhança e tolerância através de actividades da cultura e das artes, festivais, encontros e actividades da comunidade.
Beit Hagefen é uma organização benevolente, subsidiada pelo Município de Haifa, pelo Ministério da Educação, Cultura e Desporto, e ajudada por doações e sponsors.

Beit Hagefen trabalha a nível local, nacional e internacional.
O Corpo Directivo de Beit Hagefen consta de 14 membros (7 Judeus + 7 Árabes).
O Doutor M. Peri, Director Geral do Centro, costumava dizer que por detrás da ideia de Beit-Hagefen estava a frase do filósofo e educador Americano, John Dewey, que dizia: "Every person has an equal right to be different." ("Todas as pessoas têm o direito igual de ser diferentes")

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ainda o reino maravilhoso de que falava Torga...



Onde se fala do reino maravilhoso, da Guarda e da magia da neve...



"Batem leve, levemente
como quem chama por mim
será chuva ? será vento?
vento não é certamente
e a chuva não bate assim...
....
Fui ver...
A neve caía do cinzento branco do céu
branca e leve, branca e fria
e que saudades, Deus meu!"

Cito de memória, pois nunca os esqueci, mas não posso é prometer que me lembre deles correctamente.
Quem não se lembra destes versos?
Quem não sentiu já o fascínio do manto branco e suave que tudo cobre e iguala e transforma em magia?

Numa viagem pelo tal reino maravilhoso de que fala Torga, numa manhã de há dois ou três dias, estava eu a tomar um café no meu quarto da Residencial Santos, na Guarda.
A tomar um café com vista sobre os telhados vermelhos e a ver uma das faces da catedral imponente.
De repente páro a olhar para fora, sobressaltada.
Pareceu-me "ouvir" um silêncio especial.

Depois um leve bater nas janelas. Como asas de pássaros invisíveis.
Nevava...
A neve caía , "branca e leve, branca e fria/ há quanto tempo a não via..." Como na poesia.
A noite anterior tinha sido glacial. Passeando pela Praça Velha perto da meia-noite, sem ninguém, tinha dificuldade em articular as palavra de tal modo sentia os lábios gelados e os músculos da face contraídos.
Mas continuámos o passeio, tão bela era a imagem que tínhamos em frente dos olhos.
De manhã, quando acordei, os vidros das janelas estavam cobertos de água condensada, que escorregava em pingos grossos e prateados sobre o cinzento plúmbeo do céu. Encobria os tais telhados vermelhos e uma das torres da Sé...

Os flocos caíam suaves, branquinhos, como nas histórias de Natal. Poisavam como as patinhas de um passarinho, sem se ouvirem.

Depois começaram a cair, mais fortes, pesados e, em poucos minutos, cobriram os telhados...

Acabei o café a correr, saí para a rua com o meu inseparável "observador de bolso" de imagens, o meu telemóvel, e fui dar uma volta pela cidade transformada numa outra cidade que não a Guarda do dia anterior.
A neve caía sempre cada vez mais forte e as ruas ficavam irreconhecíveis, as pessoas distantes, os passos abafados naquela atmosfera que se ia tornando irreal.

Tudo me vem à memória.

A magia dos contos de Natal?
As "Noites Brancas" de Dostoievsky?

Ou o livro de Jules verne, Miguel Strogoff, o correio do Czar, cavalgando pelas estepes nevadas da Rússia?

Ou, mais próxima, mais simplesmente, a minha terra, num inverno diferente?

A minha rua a cobrir-se de flocos brancos?

Os meus pais lá em baixo de guarda-chuva aberto cheio de pintinhas brancas a rirem-se e a olharem para nós três, penduradas lá de cima, à janela, a espreitar, bem seguras pela Florinda, e a dizermos-lhes adeus?

Na nossa casa amarela, da rua dos Canastreiros...

De repente, essa magia voltara...


as ruas da cidade irreconhecíveis



A noite desce sobre a cidade.

uma atmosfera de penumbra no silêncio das ruas


Espero que tenham gostado deste passeio mágico!
...