domingo, 12 de dezembro de 2010

Os "MANIAKS", jovens artistas plásticos do Porto


MANIAKS

"Colectivo formado por 3 elementos (Blast, Mots e Nitro), ligados à área das artes e fundado em 2002 na cidade do Porto com o intuito de reunir várias influências no desenvolvimento de trabalhos de graffiti profissional. Pretendeu desde cedo despertar o interesse nesta forma de arte e combater a visão negativa que existe sobre a mesma.


Começando por pequenos trabalhos locais, o hábito e a rotina do trabalho em conjunto possibilitou uma melhor conjugação dos diferentes estilos provenientes de cada artista, resultando num estilo único, homogéneo e num crescente reconhecimento da qualidade dos trabalhos efectuados e que se concretizou, por sua vez, numa crescente procura dos nossos serviços.

O estilo, caracterizado pela conjugação das diferentes técnicas e estilos de graffiti, assume-se como eclético e inovador, procurando sempre uma interligação entre a opinião do cliente e as suas próprias orientações."


Esta é a auto-apresentação do grupo, ou "colectivo", criado no Porto.
Um é arquitecto, o outro designer e o terceiro é pintor. Rondam os vinte e poucos anos.

Interessei-me, consultei o blog deles, fui à página do Facebook e descobri um trabalho sério de três jovens à procura deles próprios, do lugar que o futuro lhes reserva -na arte, na vida, na terra onde vivem- e cheios de dúvidas.
O que prova da sua seriedade: qual o artista - ou qual é o homem...- que não tem dúvidas?
Seguir o desenho clássico? Ou o moderno? Que espaços?

Continuar o graffiti?
O que é afinal o graffiti?
A liberdade de pintar nas paredes, nas ruas, em espaços abertos, de se afirmar, de ter a vontade de se mostrar e de manifestar...

Como unir o gosto do clássico, da "perfeição" dos renascentistas, do grande Leonardo ou Michelangelo, do desenho a carvão, a óleo, ou outras "técnicas", à vontade de gritar, de protesto, das grandes "manchas" desbotadas, dos traços fortes e negros?

Demonstração de revolta? De uma certa desilusão? De desespero?
Mas com tanta cor, tanta vida, tanta sede de descoberta dos outros e da própria estrada.
Observem e, por favor, digam alguma coisa!
Eu fiquei "agarrada" às imagens, à riqueza da cor, à força do traço.
Estes jovens merecem uma palavra...

o espaço interior (indoor)
o espaço exterior (outdoor)



de Desmots, a grande epopeia


os links
É natural que se pense em Banksy, o famoso artista de "graffiti" inglês, uma referência.
No entanto, a originalidade dos Maniaks é evidente! Podem ver e comparar...

Sabe-se que Banksy é o pseudónimo de um artista e activista político, cuja identidade se desconhece.
Terá nascido em 1974 em Bristol, Reino Unido, e pouco mais se sabe dele.
A sua arte da rua subversiva e irreverente combina humor negro com técnica perfeita e alguma poesia.

Esta arte de protesto aparece nas paredes, muros, pontes de cidades através de todo o mundo.
O trabalho de Banksy nasceu da Bristol underground scene (1) e que envolveu colaboração entre artistas e músicos.
as armas da cidade de Bristol
(1) É o termo usado para descrever a cultura à volta do trip hop, drum and bass and graffiti art que existiu em Bristol desde os princípios dos anos 90 até ao presente.



She's Leaving Home- The Beatles, uma das canções mais belas e tristes


sábado, 11 de dezembro de 2010

Que ano horrível que foi este! É caso para dizer: "HELP"! (The Beatles)

Sim, HELP!
E ouvir as músicas dos Beatles, pensar que há 50 anos estes jovens revolucionaram o mundo pelas suas canções, pela juventude, pela alegria de viver, a imaginação, pelos saltos e reviravoltas dos instrumentos que tocavam, pela irreverência, pela sua canção "revolution", talvez seja o único modo bom de nos chegarmos ao fim deste ano terrível.

Ficam para trás as magníficas canções "Girl", "Yesterday", "Help" "Michèle", "Yellow Submarine", "She is leaving home". Músicas geniais.
Que podem voltar sempre, no entamto, e abrir o nosso futuro, outra vez.

Mais um ano passou. Nada animador. Cataclismos, lutas, guerras, corrupções várias, e, a culminar, a crise na qual mergulhámos e esbracejamos para dela sair...

Leio Jean Daniel, jornalista que muito aprecio.

Diz ele que a situação do mundo hoje é mais perniciosa "primeiro, porque perdemos, simplesmente, o direito à ilusão e à utopia. Depois, porque o mundo se tormou mil vezes mais complexo e os enigmas das suas barbáries assim como as loucuras dos seus progressos se tornaram indecifráveis. O espectáculo do mundo tal como é hoje deve-nos obrigar a uma certa humildade. É por issso que o peremptório me é insuportável. De facto, quando os gritos de indignação se são obsessivos, tornam-se frívolos."

Não quero ver nisto apenas pessimismo, mas sim a observação objectiva e a consciência de uma realidade difícil. E gritar só, não resolve nada, pois "torna-se frívolo".
Fazer, isso sim! Mudar cada um aquele bocadinho necessário. Acreditar, ajudar, lutar, pensar nos outros, empurrar o mundo nem que seja um milímetro para a frente.

O Natal vem aí, para nos reencontrarmos connosco e com os outros. E o ano novo está em aberto.

o Natal dos Beatles - e "com" os Beatles este ano?

Vai ser difícil mas quero acreditar que a humanidade, os homens de boa vontade, os justos tenham nesse futuro uma palavra a dizer contra os cifrões, o homem volte a ser -como no Renascimento- na cultura, na igualdade, na solidariedade reencontrada, o centro do mundo!

O futuro ainda está nas nossas mãos? Quero acreditar que sim!

Por um domingo, vamos sentir-nos bem, a ouvir The Beatles! Os Fabulosos 4 de Liverpool!
Liverpool, berço dos Beatles...

no início, eram John e Paul...

depois vieram os outros, George e Ringo e passaram a ser os "Fab4"


e John e o gato...

nessa altura podiam brincar... Beatles & almofadas

John, Paul, George e Ringo e os "british" guarda-chuvas...

e os Beatles cresceram... e ficaram famosos

Um dos filmes mais belos sobre a infância e a amizade : "Jeux interdits", de René Clément (1952)


Em Junho de 1940, durante a ocupação nazista, um comboio civil é metralhado.
Paulette, uma menina de cinco anos, fica órfã e começa a vagar pelo campo, levando nos braços o corpo do cão morto.
Vai ter a uma uma quinta, encontra uma família que a acolhe, e conhece Michel, um garoto de dez anos.
Juntos enterram o cão. Juntos procuram entender a realidade e lidar com a morte. Juntos tentam dar um sentido às coisas da vida.
E nasce uma grande amizade entre eles.

É um filme francês, um drama de guerra, dirigido por René Clément, em 1952, com guião escrito por Pierre Bost e Jean Aurenche.
Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro nesse ano.
Nos principais papéis estão os jovens actores George Poujouly e Brigitte Fossey.
Inesquecíveis...
Se não o viram, procurem vê-lo!
Ofereçam pelo Natal!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

António Nobre e o nosso mar

“Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das naus, de esquadras e de frotas!"



O grande poeta António Nobre (1867-1900) nasceu no Porto, matriculando-se em 1888 no curso de Direito na Universidade de Coimbra.
Como os estudos lhe corressem mal, partiu para Paris onde frequentou a Escola Livre de Ciências Políticas, licenciando-se em Ciências Jurídicas.
De regresso a Portugal, tenta entrar na carreira diplomática, mas a tuberculose impede-o. Doente, ocupa o resto dos seus dias em viagens a procurar remédio para o seu mal, da Suíça à Madeira.
Faleceu ainda muito novo na Foz do Douro. Obras poéticas: (publicada em Paris em 1892), Despedidas (1902) e Primeiros Versos (1921), publicados póstumos.
(wikipedia)

Deixo-vos um dos poemas mais belos do poeta, uma espécie de hino de amor à sua terra, ao mar que conhecia e amava, aos pescadores que arriscavam a vida nos barquinhos frágeis, sorrindo pela ingenuidade dos nomes que lhes punham, às rezas simples no meio do perigo, com a morte sempre à espreita:
"as lanchas vão saindo/ (Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar)"
O deslumbramento cheio de ternura pela beleza da saída dos barcos para a pesca, pela cor do mar, as ondas:

"Que vista admirável! Que lindo! Que lindo!"

O seu desejo de partir com eles, de ir também nessa aventura. O barco Senhora Nagonia atrai-o:
"Olha acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!"
Partem nas ondas como se voassem, águias na coragem e na altura:
"Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora..."
São pobres, necessitados, partem à procura do pão no mar, os filhos ainda pequenos vão com eles, toda uma saga infindável de vida, morte e esperança.
"Semos probes!"
Para trás, ficam as mulheres, as povoações, as casas brancas ou coloridas, as ruas com flores, pobres enfeites...
"Adeus! Adeus! Adeus!"


“Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das naus, de esquadras e de frotas!
Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas de gaivotas!
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo torça,
À espera de maré,
Que não tarda aí, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-a com toda a forca,
Clamam todas à urra:
«Agora! agora! agora!»
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...)
Que vista admirável!
Que lindo! Que lindo!
Içam a vela, quando já têm mar:
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia,
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
Rosário de velas, que o vento desfia,
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:

Senhora Nagonia!
Olha acolá!
Que linda vai com seu erro de ortografia...
Quem me dera ir lá!
Senhora Daguarda!


(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor)
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
O caçador!


Senhora d'ajuda! Ora pro nobis!


Caluda! Semos probes!
Senhor dos ramos
Istrela do mar!
Cá bamos!


Parecem Nossa Senhora, a andar.


Senhora da Luz!


Parece o Farol...
Maim de Jesus!
É tal e qual ela, se lhe dá o sol!


Senhor dos Passos!
Sinhora da Ora!


Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços
Parecem ermidas caiadas por fora...


Senhor dos Navegantes!
Senhor de Matosinhos!

Os mestres ainda são os mesmos dantes
- Lá vai o Bernardo da Silva do Mar,
A mailos quatro filhinhos,
Vasco da Gama, que andam a ensaiar...


Senhora dos aflitos!
Mártir São Sebastião!
Ouvi os nossos gritos!
Deus nos leve pela mão!

Bamos em paz!
O lanchas, Deus vos leve pela mão!
Ide em paz!

Ainda lá vejo o Zé da Clara,
os Remelgados, O Jeques, o Pardal,
na Nam te perdes,
E das vagas, aos ritmos cadenciados,
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes,
«As armas e os varões assinalados...»
Lá sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira,..
Como ela corre! com que força o Vento a impele:

Bamos com Deus!

Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com Ele
Por esse mar de Cristo...
Adeus! adeus! adeus!



Florbela Espanca, 80 anos depois da sua morte...



Florbela nasceu em Vila Viçosa (Alentejo), em 1894, filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, sua empregada como criada de servir (como se dizia na época).

Morreu com apenas 36 anos, no dia do seu aniversário, a 8 de Dezembro de 1930.

Dias antes, em 2 de dezembro de 1930, fecha o Diário com a seguinte frase:

"... e não haver gestos novos nem palavras novas!" (1)
Nela? nos outros?
É esta frase que abre o blog (in)Cultura que recordou, no passado dia 8, o aniversário da morte (e nascimento) dela.
A solidão, a incompreensão, a incapacidade de ouvir um "eco" nos outros, a hiper-sensibilidade da escritora levam-na ao desespero.

Cinco dias depois, no dia dos anos, Florbela d'Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo uma dose excessiva de Veronal.
Alma perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!
Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...
(1) Florbela Espanca, Diário do último ano, Lisboa, Bertrand, 1998 (Edição fac-similada, prefácio de Natália Correia)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

RAIVA NO HAITI... BASTA!


o quadro de Santa-Rita Pintor pode bem ilustrar essa raiva e o mal, seja lá o que for...

A cólera causou já mais de dois mil mortos


cenas de violência depois das eleições (7 de Dezembro): anuncia-se uma segunda volta às urnas no dia 16 de Janeiro. Os haitianos acusam o Governo e os organizadores das eleições de fraude

Diz o povo que a língua toca sempre onde o dente dói. E que o mal e a desgraça procuram o corpo mais débil e indefeso.
Sim. A doença, a fome e a ignorância expandem-se mais facilmente nos que estão desprovidos de tudo, os fracos e os pobres.
O que haverá ainda a dizer sobre o Haiiti?

Apenas, lembrá-lo.
O que pode ainda acontecer lá?
Pouca coisa. Já aconteceu praticamente tudo...
País pobre, abandonado, vítima de cataclismos vários, enchentes, tufões, terramotos –tudo reconduz à pobreza e à situação de um país indefeso, perante as forças negativas.

Por fim, ainda veio outro flagelo: a cólera...

vibrio cholerae
"As forças do mal!", gritam no Haiti.

Não. Apenas as forças do acaso e o azar. A desgraça que atinge os pobres, uma vez mais.

A cólera é uma doença altamente contagiosa, transmite-se facilmente, através das águas paradas. No caso desta ilha foi aumentada a contaminação pelas enchentes e pelas más condições sanitárias.
A população revolta-se contra os capacetes azuis nepaleses, que chegaram depois do tremor de terra, acusando-os de trazerem o mal.

Infelizmente, tinham razão. Mas a culpa não era dos nepaleses... Uma vez mais, o azar.

Tudo aconteceu de modo dramaticamente simples. Quando chegam em Janeiro de 2010, para ajudar ao pós-terramoto, os nepaleses da MINUSTAH (1) vêm de uma zona do Nepal devastada por uma epidemia persistente de cólera.

São portadores sãos. Podem transmitir o morbo.
Instalam-se numa localidade alta situada sobre o pequeno rio Meille.

o rio Meille

Os serviços sanitários são deficientes, as fossas vão ter ao ribeiro que depressa é o veículo do vibrião. São estas condições de higiene que provocam o surto.

Bomba biológica - escreve o jornalista Jean-Paul Mari, grande repórter do “Nouvel Observateur” (de 25 de Novembro) - “o conteúdo das latrinas é lançado nas águas doces do rio Meille, segue banhando quilómetros de terrenos cultivados de arroz, atinge a cidade de Mirabelais e passa para o grande rio Artibonite”.

num mês, o rio Artibonite, infestado, é o grande vector da cólera.
o rio Artibonite, fonte da vida e da morte

Continua J. Paul Mari: “O vibrião adora a água e a humidade. Este paraíso aquático torna-se numa cadeia transmissora, um imenso banho de cultura da cólera.”
uma escola na cidade de Mirabelais

Os rios são a fonte da vida no Haïti: onde estão os arrozais, onde os homens pescam nos lagos verdes e transparentes, onde os animais vêm beber, onde as mulheres lavam a roupa, e as crianças e os adultos tomam banho.

Que lhes dá água que bebem.
Pobres desgraçados dos haitianos onde a água, fonte de vida, se tornou fonte de morte!
soldado da Minustah , depois do terramoto

Pensar que as forças da paz são o veículo da morte é um paradoxo incompreensível...

O mal no fim e ao cabo não foram os pobres dos soldados nepaleses... O mal tem sempre a mesma origem: vem da pobreza, da ignorância e da pouca -ou nenhuma- preocupação dos dirigentes com os habitantes -neste caso- da ilha: com a saúde, a higiene etc.

Lembro uma frase terrível - e tão pessimista- de Raul Brandão, no seu apontamento sobre a ilha do Corvo, nas ”Ilhas Desconhecidas”:
Será tudo inútil? Será tudo vazio e inútil? – um grito diante deste espectáculo fantasmagórico do vasto mundo entre forças cegas- e com um Deus presente e monstruoso a quem tivessem arrancado os olhos para não ver? ... Um grito e mais nada...” (in “O Corvo”, ”Ilhas Desconhecidas”, Aillaud e Bertrand, Paris, Lisboa, 4ª edição, pg.49)

Lá diz Camões, no final do Canto I, a propósito da dramática condição do homem:

"No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"
Sim. O mal é quando se vira “o céu sereno contra um bicho da terra tão pequeno”...


(1) Vibrio cholerae, também conhecido como vibrião colérico, é o agente causador da cólera Esta bactéria é membro do gênero Vibrio.

Foi descoberto em 1883 por Robert Koch, e deve o seu nome à aparência quando observado ao microscópio óptico.

As cerca de 30 espécies incluídas nesse gênero são bastonetes gram-negativos, anaeróbios facultativos, móveis, curvados em forma de vírgula, possuindo de 1,4 a 2,6 micrómetros de comprimento.

(2) Minustah (sigla derivada do francês: Mission des Nations Unies pour la stabilisation en Haïti), é uma missão de paz.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Manhã na estação de Santa Apolónia

Ia viajar. O comboio esperava-me e eu gosto de andar de comboio. Adoro as estações. Sentia-me feliz. Delvaux, "gare forestière"

O dia bonito, lá fora está frio, bate a nortada. Mas o sol brilha.

De Chirico, menina na cidade
Dentro do café da gare, tudo é deprimente. Tem uma única vantagem: está quente.

As pombas entram pela porta e vêm comer os miolos de pão e de bolo, caídos no chão.
Sentado a um canto, apoiado no ângulo que formam as duas paredes, está um homem ainda novo, com a barba por fazer, embrulhado num velho duffle-coat de um castanho já sem cor e um barrete de lã.
Tem os braços cruzados sobre o peito, abraçando-se como para se proteger e guardar melhor o calor, informe, dorme profundamente.
Lá fora, e na entrada, fica indiferença do mundo. As gentes que vão e vêm, agarradas aos seus pequenos problemas quotidianos fundamentais.

Num banco, dois homens lêem os jornais "grátis" que se encontram por toda a parte.

Um deles parece já muito velho, traz uma camisola da lã grossa e áspera dos pescadores. O outro usa um blusão de flanela bordeaux, com um emblema de marca no lado esquerdo.
Hopper, os falcões da noite
Nenhum pediu de comer, nenhum come. Olhos vazios que não olham nem mesmo o jornal que têm apertado nas mãos, como um bem qualquer.
O senhor, de cabelos brancos e ralos no alto da cabeça, suspira enquanto vira as páginas que não lê.
Hopper, solidão (?)

Na mesa do canto, perto do balcão, com uma chávena de café em frente, um jovem mal vestido, pouco agasalhado, fala com alguém ao telemóvel sobre uma possível entrevista de trabalho e agarra uns papéis com força, falando deles como se fosse um curriculum. A sua riqueza.

Tem um ar febril e ansioso.

Senti um pouco da sua angústia entrar dentro de mim.

Há dias ouvira no telejornal inglês o jovem primeiro ministro conservador, milionário e aristocrata, dizer, com ar digno e convencido:
“Os desempregados que vivem com um subsídio de desemprego do Governo devem ir trabalhar, sem ordenado, nos serviços do Estado."
David Cameron
desempregados num centro de emprego
As ideias de trabalho sugeridas pelo lord inglês eram “ir apanhar garrafas” de plástico, com um pau de bico, fazer limpezas nos locais públicos, etc.

Não tenho nada contra o lorde que frequentou a famosa Escola de Eton e se formou em Cambridge. É a vida dele.

Cambridge, debaixo da neve (foto da minha amiga Luísa do blog "portugalagoia")

Penso só que certas pessoas, com privilégios (*), deveriam ter mais cuidado com o que dizem...

Não digo nada e passemos adiante.

Foi a “justificação” hipócrita dada que me indignou ainda mais.
Os desempregados perdem hábitos de trabalho, e é conveniente que os readquiram. Precisam de ganhar experiência. Experiência essa que até lhes pode servir mais tarde”.

Quando conseguirem arranjar trabalho, claro. Se arranjarem...
Muitos estão à procura há anos. Lembro uma senhora, técnica com experiência de muitos anos, no desemprego agora, entrevistada na TV/Arte que confessava o seu desânimo: “depois dos 50, com alguns anos de desemprego atrás, procuro, procuro e não arranjo nada...”
Pergunto eu: ganhar experiência, a limpar estradas e a apanhar garrafas? Experiência de quê? Que curriculum dá? Que formação?
“Perderam hábitos de trabalho”? Pois perderam. E por quê? É óbvio: porque estão desempregados...

Estão desempregados, por quê?

Porque foram corridos -quantas vezes arbitrariamente- dos trabalhos que tinham! E, assim, perderam o emprego e os tais ”hábitos” de que fala Cameron, o lord.

E, depois disso, não encontraram mais nada E, assim, “coitados”, perderam os tais hábitos de trabalho!
Resta-lhes protestar...


E habituaram-se a “fazer nenhum”, como tenho ouvido dizer a tanta gente.
Se calhar até gostam!”, pensam outros, quase com um pouco de inveja desse farniente obrigatório.

Não gostam. Falei com muitos.

Lembro-me de falar nisto nas aulas da noite. De ouvir esses comentários da parte das minhas alunas, quando uma das colegas estava com subsídio de desemprego. Lembro-me de ela se defender, quase a chorar, a queixar-se dessas críticas: "eu gosto de trabalhar!"
Essas pessoas sentem-se humilhadas, ostracizadoa pela “comunidade”, afastados, diferentes.

Outra coisa que eu sei é que Mr. Cameron não tem desses problemas. Nem ele, claro, nem ninguém da família estão em tal situação.
E por quê?
Porque a “eles” lhes arranjaram sempre um trabalho.

O rapaz que eu vi sentado à mesa do café da estação, aposto que gostaria de ter um emprego estável e um trabalho de acordo com a sua preparação e as suas habilitações!

Por que razão não há-de ele sonhar com dias melhores? Poder ter uma família, uma casa, com àrvores à volta, e um pouco de paz?
(*) Só uma curiosa notícia: alguns milionários americanos decidiram "propôr" ao governo dos Estados Unidos serem mais "taxados" porque sentem que é uma injustiça "pagarem" pela crise o mesmo que os da classe média ou os pobres...
Apreciei.