sábado, 11 de junho de 2011

Boa música para o fim de semana! Count Basie and Ella Fitzgerald - Let's do it, let's fall in love

Billie Holiday e Ella Fitzgerald, "the big two"!
Birds do it, bees do it

Even educated fleas do it
Let's do it, let's fall in love

In Spain, the best upper sets do it

Lithuanians and Letts do it
Let's do it, let's fall in love

The Dutch in old Amsterdam do it
Not to mention the Fins
Folks in Siam do it - think of Siamese twins

Some Argentines, without means, do it
People say in Boston even beans do it
Let's do it, let's fall in love

Romantic sponges, they say, do it
Oysters down in oyster bay do it
Let's do it, let's fall in love

Cold Cape Cod clams, 'gainst their wish, do it
Even lazy jellyfish, do it
Let's do it, let's fall in love

Electric eels I might add do it
Though it shocks em I know
Why ask if shad do it - Waiter bring me
"shad roe"

In shallow shoals English soles do it
Goldfish in the privacy of bowls do it
Let's do it, let's fall in love

sexta-feira, 10 de junho de 2011

"Camões, grande Camões" já dizia Bocage. Reviver "Os Lusíadas", hoje dia de Camõess


pintura ingénua, aliás "fresco", na parede da piscina Municipal de S. João


Voltando a "Os Lusíadas", hoje dez de Junho, dia de Camões


Os Lusíadas, Canto I

1

As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia lusitana
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
(...)

2
E também as memórias gloriosas

daqueles Reis (...)

E aqueles que por obras valerosas
se vão da lei da morte libertando:

Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte
."


É tudo isto -ou, antes, todos estes- que o poeta pretende "cantar"!
William Turner, tempestade à entrada de Calais

Camões é um grande poeta!

Quase desconhecido. Esquecido, também ele... Quem o lê?

A não ser nas escolas, mal amado pelos alunos que o não entendem tantas vezes.

Mal amado pelos professores que sentem dificuldades em explicá-lo e torná-lo "amável" para os alunos.Mal amado pelo comum dos mortais, que o ignoram.

Vá lá, o nome do poeta ainda conhecem. De facto, hoje é o dia de Camões!

- Mas... quem era este Camões, afinal?, infelizmente ainda perguntarão.

- Um poeta zarolho, sabem alguns.

- O que rescreveu Os Lusíadas, dizem outros.


"Os Lusíadas", 1ª edição


- E esses "Lusíadas"? Não eram uma grande maçada? Eram, não eram?!

Não, não eram uma "grande maçada"!

São, sim, um grande poema, uma história infindável que se pode começar a ler em qualquer dos seus Cantos.

Mas quem sabe o que são os Cantos, ou quantos tem? Quem pensa nele a sério?

Herbert James Draper, "Sereias atraindo Ulisses"

E logo o encanto chega, pela magia da pa
lavra, pelo "conto", pela imaginação, pelo saber enorme, pelo "engenho" enorme do seu autor.


William Turner, Naufrágio

Praias e rochas, penedos com forma de gigantes, correntes que arrastam as naus e perigam a navegação.


foto MJF

E sempre a coragem!
A descrição da "tromba marítima", o receio das figuras marinhas que atraem os marinheiros pela sua intensa beleza, corpos lindos. E as traições pelos orientes fora...


A Sereia, de John Waterhouse


Pela música mágica que o envolve e pelos versos magníficos que falam de deuses e de ninfas, de deuses que se comportam como seres humanos, de homens que se elevam ao lugar dos deuses na Ilha flutuante dos amores, cheia de frutos e flores nunca contemplados...
Sereias, do pintor russo Kromskoï


E lá vamos nós presos atrás do poeta e da palávra, por mares e tempestades, rios e mares, céus azúis e tempestuosos!



Dom quixotes marinhos de lança e remos, arrostando os mares e as ciladas dos deuses e dos homens.
"Dom Quixote", de Manuel d'Assumpção


Lá partimos, a viver as suas aventuras, e lá voltamos com ele da grande viagem maravilhosa...
O poeta lúcido sempre, queixa-se, sabe bem que não será entendido completamente. Fala do seu saber "de experiência feito" e do seu engenho que os outros não compreenderão nunca inteiramente.


Reconhece "cantar a gente surda e endurecida..."
Sabe que os louvores e o reconhecimento não serão para ele:

Camões lê Os Lusíadas aos frades dominicanos, pintura de António Carneiro


"
O favor com que mais se acende o engenho/ Não no dá a pátria (...)"

Conhece os governantes, conhece os homens e as suas fraquezas.

Fala de si sem falsa modéstia, sabendo o que vale ("coisas que juntas se encontram raramente...").


"Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente."

A amargura e a tristeza sentem-se bem nestes versos do final do poema.


É a despedida do seu poema...

Estão quase a chegar a Lisboa. O céu sereno recebe-os. A foz do Tejo aproxima-se e a pátria amada está à vista.

Para trás ficam os perigos mortais, as ameças e as armadilhas dos deuses e das forças da natureza, os ventos, as tempestades, o encanto das sereias, os mistérios dos mostrengos e tantos outros males.

Em frente, tranquilas, as águas do Tejo ameno e a sua foz espraiada.

Ouçam, então, estes versos, versos que o poeta, desiludido e cansado, sabe que não mais (nô mais, Musa, nô mais...) voltará a escrever... (Os Lusíadas, Canto X):

estância144

"Assi foram cortando o mar sereno,

Com vento sempre manso e nunca irado,

Até que houveram vista do terreno

Em que naceram, sempre desejado.

Entraram pela foz do Tejo ameno,

E à sua pátria e Rei temido e amado

O prémio e glória dão por que mandou,

E com títulos novos se ilustrou".

estância 145

"Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho

Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

O favor com que mais se acende o engenho

Não no dá a pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e na rudeza

Duma austera, apagada e vil tristeza".


estância 154


"Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,

De vós não conhecido nem sonhado?

Da boca dos pequenos sei, contudo,

Que o louvor sai às vezes acabado.

Nem me falta na vida honesto estudo,

Com longa experiência misturado,

Nem engenho, que aqui vereis presente,

Cousas que juntas se acham raramente."


Um bom dia de Camões, pensando nos seus versos!



NOTAS - PARA QUEM ESTIVER INTERESSADO:
(1)

"Os Lusíadas é uma obra poética do escritor Luís Vaz de Camões, considerada a epopeia portuguesa por excelência.


Provavelmente concluída em 1556, foi publicada pela primeira vez em 1572 no período literário do classicismo, três anos após o regresso do autor do Oriente.
A obra é composta de dez cantos, 1102 estrofes que são oitavas decassílabas, sujeitas ao esquema rítmico fixo AB AB AB CC – oitava rima camoniana.
A acção central é a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama (2), à volta da qual se vão descrevendo outros episódios da História de Portugal, glorificando o povo português."

terça-feira, 7 de junho de 2011

Leonard Cohen ganhou o Prémio Príncipe de Astúrias das Artes




No meio de tantas coisas que aconteceram nos últimos dias - nem todas más - não pude falar aqui do Prémio que Leonard Cohen recebeu, no passado 1 de Junho, em Oviedo: o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes.
Foi um dos finalistas juntamente com personalidades literárias importantes, como a escritora canadiana Alice Munro, (que, pessoalmente, aprecio bastante), ou o romancista inglês Ian McEwan.




Considerado um dos mais importantes nomes da música popular do século XX, Leonard Norman Cohen viu agora reconhecido o trabalho enquanto poeta e romancista, muito para lá da composição musical. "A passagem do tempo, as relações amorosas, a tradição mística de Oriente e Ocidente e a vida contada como se fosse uma balada interminável estão presentes em sua obra, identificada com alguns momentos de mudança decisiva no final do século 20 e do início do século 21", disse o júri que lhe atribuíu o prémio.
Nascido em Montreal a 21 de Setembro de 1934, Leonard Cohen é autor de músicas que falam do amor, da espiritualidade, do sentimento religioso, com uma grande melancolia.
Há quem fale de cinismo, o que nunca senti nele, mas apenas provocação de um statu quo, revolta, e consciência da realidade deste mundo ”cínico” em que vivemos...
Como diz a letra do vídeo da canção que escolhi, "A minha vida secreta": "dá vontade de chorar/ ninguém se importa se o outro vive ou morre/ e o "dealer" quer que tu penses que tudo ou é branco, ou negro/graças a Deus nada é assim tão simples/ na minha vida secreta."
Ainda antes de ser conhecido como escritor de canções, Leonard Cohen tinha já as suas ambições literárias.

O primeiro livro de poesia sai em 1956.
"Let us compare mythologies", o primeiro livro de poesia, foi publicado em 1956, seguindo-se em 1963 o romance "O jogo preferido" (editado em Portugal em 2010), e o de poesia "Flowers for Hitler" (1964).


Em 1972 publica outro livro de poemas The Energy of Slaves.


E, em 1996, sai o segundo romance Beautiful Losers.

Do not forget old friends

"Do not forget old friends
you knew long before I met you
the times I know nothing about
being someone who lives by himself
and only visits you on a raid."

in Selected Poems

Heirloom

"I know you feel naked, little darling.

I know you hate living in the country
and can't wait until the shiny magazines
come every week and every month.
Look through your grandmother's house again.
There is an heirloom somewhere."


Waiting for Mariane

"I have lost a telephonewith your smell in it
I am living beside the radioall the stations at once
but I pick out a Polish lullaby
I pick it out of the staticit fades I wait
I keep the beatit comes back almost alseep
Did you take the telephone
knowing I'd sniff it immoderately
maybe heat up the plastic
to get all the crumbs of your breath
and if you won't come backhow will you phone to say
you won't come back
so that I could at least argue..."
(Flowers for Hitler)

ou, ainda:

"Where where is your demonic smile
You vomit when you want to burn."


"I learn nothing
because my mind is stuffed with bodies:
blurred parades, hosts of soft lead wings,
tragic heaped holes of the starved,
the tangled closer than snakes,
swarming gymnasiums (...)"

Publicou várias colectâneas de poemas e dois romances, um deles traduzido em português foi publicado na Difel, “O Jogo Preferido”.

Sobre o livro deixo algumas opiniões críticas:

“Há algum romance canadiano sobre a problemática da juventude que seja tão bom e inquietante como Uma Agulha no Palheiro de J. D. Salinger? Sem dúvida, O jogo favorito de Leonard Cohen… Um dos dez melhores romances canadianos do século XX.”
(Globe and Mail)

“Leonard Cohen é um escritor com uma energia e uma cor tremendas... Um criador de momentos memoráveis.”
(The Observer)

http://www.clubedoslivros.org/2010/10/o-jogo-favorito-de-leonard-cohen.html

Existem traduções dos livros de poemas "Filhos da Neve" e "O Livro do Desejo". Este último reúne poemas dispersos escritos ao longo dos passados vinte anos, alguns dos quais escritos durante o retiro budista de Cohen, na Índia e nos Estados Unidos.
Os poemas desse livro foram adaptados para letras de canções, o que prova que para Cohen a composição musical e a literária estão fortemente ligadas.

My secret life

"Hold on, hold on, my brother.
My sister, hold on tight.
I finally got my orders.
I’ll be marching through the morning,
Marching through the night,
Moving cross the borders
Of my secret life.

Looked through the paper.
Makes you want to cry.
Nobody cares if the people
Live or die.
And the dealer wants you thinking
That it’s either black or white.
Thank g-d it’s not that simple
In my secret life."

"As suas canções revelam uma qualidade literária rara, no mundo da música popular, e a poesia e a prosa demonstram uma profunda musicalidade", sublinha a biografia oficial do músico.

É essa relação poesia/musicalidade e essa qualidade literária que o Prémio Príncipe de Astúrias premiou.

Deixo-vos mais este poema traduzido em português, in O Livro do Desejo:

O Histórico Claremont Village


"Não me recordo
de ter acendido este cigarro
e não me recordo
se estou aqui sozinho
ou à espera de alguém.
Não me recordo da última vez
que vi tantos homens e mulheres
a passear de um lado para o outro
no Histórico Claremont Village.
Devo ter andado no ginásio
pois não me recordo
de ter estes músculos;
e esta expressão serena:
devo ter passado algum tempo
a reflectir sobre todas as merdas.
As crianças são rapidamente
puxadas
para longe do meu banco
mas os jovens mostram-se
profundamente
interessados
no destino
desta invulgar e volumosa presença
nos seus cemitérios secretos
e dão meia volta
para me fitarem."

(*) O Príncipe de Astúrias é concedido a pessoas cujo trabalho criativo ou de investigação represente uma contribuição relevante à cultura universal, em cada uma das áreas de saber.

Livros publicados em Portugal:

Filhos da Neve
, editora Assírio & Alvim (reimpressão 1997, trad. Carlos Tê)
O livro do Desejo (The Book of longing”), Quasi, 2008
O Jogo Preferido Edição/reimpressão: Difel, 2002

No Brasil o romance é publicado com o título “ O Jogo Favorito”, na editora Objectiva/Colecção Alfaguara, em 2010

http://youtu.be/CV-NGaK2xcU (2008)

http://youtu.be/kE6wBBrTMEs%201968

http://youtu.be/RLq7Aqd_H7g

http://youtu.be/wh9AC0jCGjY

http://youtu.be/56hiB4eTzBE


Leonard Cohen - The Partisan - Le partisan - Original 1969 - French TV



segunda-feira, 6 de junho de 2011

A ÓPera Dido e Eneias pela Companhia Théâtre de la Mezzanine

Ver no post anterior ao ratinho



Hoje, boa música! Cannonball Adderley feat. Miles Davis " Autumn Leaves"

I grande Chet Baker - "Someone To Watch Over Me"...


Amanhã vai ser outro dia! O ratinho vai para Katmandu...



Katmandou, no Nepal

Nepal, Monte Everest


Devido a estas mudanças "climatéricas" (já viram o frio que aí vem????), o ratinho, que tem andado muito indignado, decidiu "emigrar" virtualmente para o Nepal e vestiu-se a rigor!

Disse-me:

"Frio por frio, o de lá é melhor... O ar é mais puro!"


Acho que vai meditar e esperar por melhores dias... Fico preocupada porque vejo os "mais preparados" a querer ir embora.


Lá vai mais uma "cabeça": agora é a do ratinho!

domingo, 5 de junho de 2011

Leonard Cohen - famous blue raincoat

A beleza é para sempre! A Ópera "Dido e Eneias", de Purcell, no TMG

Prometi dizer-vos - se gostasse da "ópera" que fui ver à Guarda, lembram-se?


Aqui estou!




Refiro-me a "Dido e Eneias", a conhecida ópera de Henry Purcell - o músico barroco inglês.


Numa encenação moderna. Estava cheia de curiosidade, claro.


Ainda não iniciara o espectáculo, e já me atraíam a luz e as sombras que se agitavam no escuro do palco.
As velinhas que iam acendendo sobre a água.



Sim, porque a ópera é cantada dentro de água! Espécie de lago de águas muito baixas onde se joga a vida, onde se canta e se desespera.



Parece estranho, mas resulta.


O cenário é magnífico: uma orquestra que parece empoleirada no alto de uma velha fábrica abandonada, junto do telhado e das trapeiras.
E penso em Cesário Verde, sei lá por quê...


Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas...




Pela chaminé pequenina sai um fumozinho, os músicos começam a trepar por andaimes, escadas de metal, até chegarem aos lugares, lá em cima. Desinibidos, a rir, a brincar, levando os instrumentos. E, naquela varandinha lá no cimo, começam aouvir-se os primeiros sons.



E voltam os versos de Cesário:


Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros
.



Tem alguma coisa do filme "E la nave va" de Fellini esta orquestra, no ar displicente, nos sorrisos, no falso ar de "amadores" que têm, na cabeça do Maestro (Jean-Marie Puissant) que de vez em quando vem olhar, curioso, o que se passa em baixo.

Em baixo, figuras femininas apontam a existência de um night – os bas-fonds de qualquer porto perdido, na noite.

Jovens pouco vestidas, ou provocantemente vestidas – ou despidas - fumam, olham em volta.



De repente, arrancam em motos barulhentas, girando em torno da entrada. com os faróis no máximo.


Ou dançam, autómatas solitárias, procurando um prazer, sem alegria. Quase com indiferença. Executando, aplicadamente, gestos de que nem se apercebem, repetitivos, mimando um sentimento que não existe.

Só o Coro parece ter dentro de si a alegria viva– ou a tristeza sincera - espontânea, participando da tragédia em todos os seus momentos.


Situa-se, assim, a cena numa Cartago moderna, porto de mar, onde um Eneias moderno também, aporta e é recebido por Dido, a rainha.




A orquestra ataca as primeiras notas e o encantamento começa. Com o som dos violinos, dos violoncelos, do cravo e do pequeno alaúde que distinguimos naquela orquestra de sonho.


Surge Belinda, a jovem que parece um pássaro branco a correr pelo palco como se voasse. “Afasta as nuvens do teu pensamento”, canta ela, numa voz linda (a soprano japonesa Mayuko Karasawa), “o destino é favorável (...) sorri-te, devias sorrir também”.




E brinca e alegra-se porque quer que Dido esteja contente.

Todos se movem em torno da alegria da Rainha, pelo menos assim o vi. A tragédia paira, e, tal como a tempestade, pode aproximar-se ou afastar-se.



O Coro (um coro maravilhoso) insiste na mesma ideia: “afasta a tristeza, as preocupações, Dido. As mulheres bonitas não deveriam nunca sofrer...”

As figuras do Coro são, nesta encenação do "Théâtre de la Mezzanine", jovens trabalhadores da fábrica, que ali vêm divertir-se e que na sua juventude e loucura se agitam.


Mas Dido confessa os seus receios:


“Oh! Belinda! Sinto o peito oprimido por tormentos impossíveis de contar. Cresci sem ter conhecido a paz, queria poder revelar a minha pena..."


Todos pensam que Eneias, hóspede da rainha, poderia ser a salvação dela e de Cartago e que, os dois juntos, poderiam salvar Tróia cuja história trágica Eneias contara.


Canta Belinda: “Tal história com tantas desgraças bem poderia tornar ternas as pedras e um coração como o teu...”
Dido (a soprano Anne Rodier) fora atraída pela história do herói: “Sim, receio sentir por Eneias uma enorme piedade” (piedade era um sentimento muito complexo na antiguidade, indo do amor, ao sentimento espiritual, à religião, à compaixão...).


Eneias (o barítono Till Mantero) vem, confessa-lhe o seu amor, Dido resiste mas acaba por sorrir. Olha-o. Partem os dois.

Dois feiticeiros (um feiticeiro e uma feiticeira) siameses, unidas por uma enorme cauda rastejante, vêm do nevoeiro marinho, convocadas pela Encantadora, a Velha Feiticeira, malabarista, bailarina, equilibrista fantástica, o mezzo Antónia Bosco.



Elas odeiam Dido, querem a sua destruição e a profecia da Velha Feiticeira soa, tremenda:


“A rainha de Cartago será destruída pelas desgraça antes do pôr do sol, privada de reputação, de amor, de vida"...



O Coro lamenta-se: “ohohoh” mas nada pode contra o destino.



“Seduzida e abandonada antes do pôr do sol?”, pergunta feliz uma das feiticeiras. “O que é preciso fazer?”



E a água do porto brilha, negra, suja, com as luzes do porto, criando reflexos, agitando as ondas, a névoa da noite, trazem e levam corpos vivos, corpos mortos...



E o destino tece as malhas da tragédia.


As forças do mal decidem a perda de Dido, enviando um fals mensageiro de Mercúrio, o Espírito ( o músico que traz ao pescoço um trombone) que, fazendo-se passar por emissário de Júpiter, vem lembrar a Eneias que deve continuar a sua missão e fundar Roma. A tragédia aproxima-se, na tempestade. A desgraça cai como um raio – esperado- que se afastara um momento para logo voltar com mais força.

Dido e Eneias aceitam o destino, imposto pelos deuses. Eneias parte, Dido suicida-se.


Linda a cena final, depois da maravilhosa “ária”, ou cantata, em que a rainha se lamenta.

“
Belinda, dá-me a tua mão! As ténebras invadem tudo, deixa-me repousar no teu peito... queria continuar mas a morte invade-me ... e é bem vinda...”


Persegue-nos a imagem do corpo dela, enrodilhado nas águas do porto, agora vermelhas de sangue.



O Coro termina:


“De asas caídas, venham, Amores, espalhar rosas sobre o seu túmulo...”

E a figurinha de Belinda a estender-lhe a mão, sem poder chegar-lhe, e como uma alminha a apagar-se, pássaro branco que fica pendente de uma espécie de mastro, quando se apaga a alma de Dido...



Deitada no telhado da mansarda, pálida e velha, os cabelos esfiapados e esvoaçantes, a feiticeira velha goza a sua vingança.



Parabéns à Companhia do “Théâtre de la Mezzanine”!



Parabéns ao TMG, uma vez mais, e ao seu director, Américo Rodrigues!




Foi uma noite de beleza. E a beleza é para sempre...




She's Leaving Home- The Beatles



Uma das mais belas canções dos Beatles...

Per scaramanzia, como dizem os italianos, aguardando o fim da noite, uma música bonita "As Time Goes By" e Brian Ferry




Até o ratinho quis participar trazendo uma flor...Ninguém o parava lá no cantinho da janela.