sábado, 22 de outubro de 2011

Um filme maravilhoso de Wim Wenders: "PINA "

Em baixo, deixo-vos um video com cenas do filme que me encantou. Os bailarinos passeiam ao som da belíssima música de Louis Amstrong, "West End Blues".

Vi o filme de Wenders no passado dia 18, no Pequeno Auditório do TMG, na Guarda (França/Alemanha, 2010).

Fiquei maravilhada!

Pina Bausch nasceu na cidade de Solingen, na Alemanha, em 27 de Julho de 1940. Morreu em 30 de Junho de 2009, em Wuppertal, vítima de cancro, com 68 anos.

Formou-se em Essen (Alemanha) na Escola de Dança de Folkwang, em 1958. Depois foi viver para os USA onde continuou a estudar dança, durante três anos (1959-1962), em Nova Iorque, passando pela Julliard School

Of Music.

Bailarina de grande qualidade e talento, estreou-se como coreógrafa em 1968.

Desde 1973 que era a directora artística do "Teatro de Dança de Wuppertal".


O director Arno Wüstenhöffer foi quem a contratou, nesse Outono de 1973. Ela deu um novo nome ao teatro: chamou-lhe “Tanztheater Wuppertal”.

O seu trabalho é uma mistura de dança moderna e teatro, em que se reflectem quanto a mim todas as tonalidades dos sentimentos: amor, tristeza, solidão.

O filme que Wim Wenders lhe dedicou é uma maravilha de beleza, sensibilidade e de admiração por ela.

E de amor. Porque a obra dela fala tanto do amor, dos gestos esquecidos do amor.

Eu conhecia mal o trabalho dela, mas confesso que desde a primeira imagem fui atraída pela figura de Pina.

Lembro os gestos dela, no início do filme, a "criar" as estações do ano: Inverno, Primavera, Verão, Outono.

Vejo o seu rosto com um sorriso leve e a limpidez dos o

lhos claros, enquanto os braços (apenas os braços) se movem de formas diferentes. Porque o Outono não é igual ao Verão...e portanto todas as estações têm gestos próprios.

É nessa cantilena dos gestos, da passagem da vid

a, quando as estações mudam, que a troupe passeia, sorrindo como ela sorria, ao longo de pontes e ruas, enquanto se ouvem os sons da trompete dos belíssimos Blues do West End, de Louis Amstrong!

Através de entrevistas pequenas, com os artistas

da sua Companhia, recordações comoventes, momentos em que os bailarinos recordam Bausch e os conselhos que ela lhes dava, o modo como os puxava para cima, ou desafiava...

Escrito, realizado e produzido por Wim Wenders, o filme baseado em solos de bailarinos da companhia, ou cenas filmadas no exterior, em

Wuppertal, ou apoiando-se em imagens de arquivo, é uma homenagem à bailarina e coreógrafa.

E os espectadores ficam maravilhados, comovidos. Nunca indiferentes!

Imagens de beleza, limpidez, com matizes e cores suaves.

Ou vermelhas, quentes, violentas e agressivas. Mas sempre vividas, sentidas, representando o humano nas suas componentes várias.

Pina Bausch conta histórias enquanto dança.

As suas coreografias baseavam-se muitas vezes em ideias e e

xperiências de vida dos próprios bailarinos. De facto um desses bailarinos conta como ela lhe disse um dia:

“Exprime a Alegria! Dança a Alegria...”

E ele dançou, começando um bailado louco. E ela acenou com a cabeça.

“É assim...”

Muitas vezes os bailarinos “interagem” misturando, no mesmo personagem do bailado, o feminino e o masculino.

Pina aparece, em cada obra, na complexidade da artista que era. Com a sua nostalgia, a sua alegria que “arrancava” a tudo - e a sua força.

A sua humanidade.

Lembro das palavras de uma das bailarinas, frágil figura de mulher asiática, que conta:

“Ela dizia-me: da tua própria fragilidade tens de fazer a tua força...”

Alguns desses seus espectáculos aparecem no filme: "Vem, Dança Comigo" (1977) e no estranho e encantador "Café Müller" (1978).

Cenas de uma sala de dança que por vezes me fizeram lembrar o filme de Scola, "Le bal", em que a solidão impera.

A quem sofria, duvidava, exigia mais do que a desilusão ou o desespero, dizia sempre:

“Esqueçam tudo. Dancem, dancem...”


Wim Wenders nasceu em Dusseldorf em 14 de Agosto de 1945. iniciou os estudos de Medicina e Filosofia mas tudo abandonou por um curso de Cinema.

Em 1967 parte para Paris. De 1968 a 1972 é crítico na revista Filmkritik. Influenciado pelos filmes americanos do pós-guerra, especialmente as "séries noires", realiza filmes como "Alice in the cities" (1973), "The wrong move" (1975), ou o "thriller" "O Amigo Americano" (tirado do livro de Patricia Highsmith "Ripley's Game").

a cidade de Wuppertal

http://www.cultura.rj.gov.br/noticia/o-theatro-municipal-apresenta-tanztheater-wuppertal-pina-bausch

http://www.wim-wenders.com/bio/wim_wenders_bio.htm



terça-feira, 18 de outubro de 2011

O Inverno do nosso descontentamento: Desumanidades dos tempos que correm...

Vem aí o Inverno do nosso descontentamento!


The Migrant Mother (1), 1936, fotografia de Dorothea Lange

A pobreza é chocante! A violência é chocante! A desumanidade é chocante! A hipocrisia é chocante!

Aqui vai mais um pouco de “indignação”: é cíclico...

Há tempos dizia Jean Claude Guillebaud (Nouvel Observateur) a propósito dos tempos que correm:

“São tempos de dureza social, em regressão securitária. As sociedades do velho continente caem na precariedade, na exclusão, no desemprego de massa, na desigualdade – e na lógica financeira que transforma os humanos em “variáveis”.”


"Sociedades em que há poucos excepcionalmente, obscenamente, ricos e outros – cada vez em maior número - excessivamente pobres", continua.

Sociedade a de hoje em que a aridez dos sentimentos dói. Em que há ignorância...

Ainda há analfabetos ! Que, é verdade, nem sempre são os verdadeiros "ignorantes"!

"Escola dominical", do pintor russo Voskresnoye

Ainda há quem não coma como deveria comer. Ainda há quem não tenha como pagara renda e seja expulso. Expulsão da casa, do quarto, do cantinho que se tem significa exclusão e, em pouco tempo, degradação, perda da estima de si próprio, desentendimento familiar.

Violência. Desespero. Suicídio.

Solidão.

E, como diz Camões: "o céu sereno" tão silencioso lá no alto!

Há os desempregados que continuam a "aparentar" ter trabalho, escondendo à família a situação real.

Os que aceitam trabalhos que nunca aceitariam na vida, muito abaixo dos estudos que fizeram, do dinheiro que a família e o Estado gastou com eles e que, licenciados em coisas várias, vão parar à caixa de uma loja qualquer, a receber o ordenado mínimo - porque os filhos existem e têm de comer.

O ordenado mínimo que hoje o Governo não quis aumentar...

E há a casa e há a prestação do carro a pagar.

Tudo isto até quando? Um dia já nem esse dinheiro vai chegar.

a secura das rochas escarpadas, no Magoito

Mas há os que têm muito... E muita secura nos corações!

Há a indiferença, há a loucura do "ganho", do "ter mais", que impede esses "seres" de pensarem no outro.

Há empresas importantes e com lucros altos quenão têm escrúpulos de fechar fábricas e "deslocalizá-las - ainda hoje, com a crise!- para outros países!

Até é fácil: falo de Acelor- Mittal, a empresa francesa-belgo-luxemburguesa, dos "aços", da siderurgia, que ainda há dias anunciou que vai fechar duas fábricas e lançar no desemprego milhares de empregados.

Isto é chocante. diria mesmo a tal palavra: "obsceno". Porque mete nojo na sua vulgaridade...

Há os que ainda têm trabalho mas o dinheiro já não chega ao fim do mês. Há os que com a crise, deixaram de comprar os remédios necessários: porque a escolha é tratarem-se...ou comer.

Ou dar de comer...

Fora de casa, vagueiam o dia todo, talvez parando a beber num café ou noutro para aquecer a alma gelada. Que têm os olhos perdidos sem ver, virados para o seu interior vazio e solitário.

Esses mesmos que, à hora de fechar dos supermercados, vão buscar os restos, as latas, os congelados, o esparguete, a comida que está fora do prazo legal. E levam-na para os filhos, para a família...

Há dias contou-me uma amiga professora que os miúdos já chegam outra vez à escola com fome! Outra, disse-me que há crianças à procura de comida nos caixotes do lixo...

Há gente que dantes se chamava de "remediada" que não tem onde dormir. E vai buscar comida à “sopa dos pobres”...

Há quem durma na rua, e o Inverno vem aí! Em França, aqui, em Espanha, enfim, na velha Europa...

O que pensamos fazer a propósito disto?

É impossível não protestar!

Volto a lembrar as palavras de Stephane Hassler: Indignai-vos!

O livro que correu o mundo e inspirou as "primaveras árabes" na Tunísia e no Egipto e todos os "movimentos de indignados" pela Europa e pela América!

Livro que já não sei em quantas línguas está traduzido, sei que em romeno, checo, turco, árabe...

Mas Hessel conclui que esse é só o primeiro passo...

Le Monde - capas das várias traduções do livro de Hessler

Protestar é o segundo...

Lembro as palavras de uma canção de Bob Marley:

"Enquanto a filosofia que suporta uma raça superior e outra inferior não for completamente desacreditada, haverá guerra, eu digo guerra.

Enquanto existirem cidadãos de 1ª e de 2ª classe de qualquer nação, enquanto existir a diferença da cor da pele de um homem e essa for mais importante do que a cor dos seus olhos, haverá guerra.

Enquanto os direitos básicos não forem igualmente garantidos para todos, sem discriminação de raça, até esse dia o sonho de paz duradoura e de cidadania mundial e as regras da moralidade internacional permanecerão como ilusões fugazes para serem perseguidas e nunca alcançadas.”

http://youtu.be/JL9DXaXufh8 (Bob Marley canta "War")

Mas esse dia chegará! Em que a discriminação de raça ou social terminará!

Chegará? Duvidei por um momento... Sim, chegará!

(1) “The Migrant Mother”, fotografia de Dorothea Lange, 1936. Esta fotografia é uma das mais famosas sobre a grande fome nos USA, depois da Grande Depressão. Mostra uma jovem mãe que não quis ficar anónima.

Numa cidade da Califórnia, onde Dorothea Lange a fotografou.

Chamava-se Florence Owens Thompson e está com dois dos sete filhos. O marido morrera em 1931. Desempregado. Ela tentava há anos uma ajuda social, fosse qual fosse, ou um emprego.

Mais tarde, em entrevista (2008), a filha Katherine (a menina escondida do lado esquerdo da foto) confessou que o sucesso da fotografia trouxera vergonha à família de tanta pobbreza.

Eu diria que não seria ela quem deveria ter vergonha...

Mas até isto é fácil de dizer!

Esta é a fotógrafa Dorothea Lange em 1936. É a autora da fotografia que faz parte de uma série. De facto, Dorothea percorreu as estradas da América fotografando a pobreza e a fome...


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

E aqui está Billie Holiday com Lester Young em 1937 ~ This Year's Kisses



Billie Holiday nasce em 7 de Abril de 1915 e morre no dia 17 de Julho de 1959) era uma cantora de jazz e também escritora das próprias canções.


Lester Young , seu companheiro e leal amigo, chamou-lhe Lady Day, enquanto ela lhe chamava Pres (President) e, assim, ficou Pres, para os amigos).

Tinha uma voz especial, um estilo vocal diferente, que diziam ser inspirado pelos próprios instrumentos musicais de jazz e uma identificação profundamente pessoal com tudo o que cantava.

Lester Willis Young (nasce em 17 de Agosto de 1909 e morre em 15 de Março de 1959) era um cantor e músico de jazz americano, tocava também saxofone, trompete, violino e tambores. Tem um estilo que dizem sofisticado e cool. Torna-se conhecido quando toca com a banda de Count Basie. Billie entra para o grupo mais tarde.

Juntos, Pres (como ela lhe chamava)e Lady Day criaram obras-primas. Uma das preferidas de Pres era “A Sailboat in the moonlight” nas quais a voz dela e o saxofone se combinam como um só tom.

O último espectáculo que deram juntos foi em 1957, com Ben Webster, Coleman Hawkins, Gerry Mulligan e Roy Eldridge –que escreveu para ela a canção “Fine and Mellow”.

Lester Young morre em 1959, poucos meses antes de Billie, já então muito doente. Por sua vez, os últimos anos da curta vida de Billie Holiday foram uma luta dramática e patética contra a dependência da droga e os problemas com a polícia...

http://falcaodejade.blogspot.com/2009/07/billie-holidaye-lester-young-ja-50-anos.html

Lester Young - "Love me or leave me"...



"Love me or leave me,
or let me be lonely..."

Esta canção cantada por Billie Holiday é magnífica!

Happy Friday! "How High The Moon" - Lester Young & Miles Davis



Sempre maravilhoso ouvir estes dois. Ana, este é que é o Lester Young!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Coleman Hawkins - "Hawk": o falcão do jazz !


COLEMAN HAWKINS, o falcão...

Coleman Hawkins nasceu em 21 de Novembro de 2004 e mrreu em 19 de Maio de 1969. Foi um músico americano que tocava jazz tenor.

Um dos mais importantes músicos com esse instrumento musical.

Diz um crítico (Joachim E, Berendt, jornalista, escritor e especialista de jazz, nascido em Berlim): “houve outros tocadores de tenor jazz antes dele, mas o instrumento não era um jazz horn”.

Com a grande Billie Holiday

Hawkins aparece associado com o swing e com a "era" das big bands.

Lester Young (chamado pelos colegas e amigos “Pres”- Presidente), numa entrevista em 1959 à The Jazz Review, explicou:

“Pelo que me diz respeito, penso que Coleman Hawkins foi o Presidente antes de todos, certo? Quanto a mim, acho que sou o segundo…”

Grandeza e humildade de Lester Young.

Coisas e sentimentos que existiram em tempos e nessa geração maravilhosa geração do Jazz, que não me canso de ouvir e de tentar conhecer melhor.

Mais tarde, Miles Davis dirá, com a mesma capacidade de admirar:

“Quando ouvi Hawk, aprendi a tocar baladas...”

Porque Coleman Hawkins era conhecido por “Hawk” (falcão) e outras vezes poor “Bean” (feijão)...

Eu escolho o "nickname" de "falcão" para ele! O Falcão do Jazz!!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Histórias da Casa Amarela: a Corredoura da minha infância


Íamos brincar para a Corredoura, nesses tempos da minha infância.

Era um pequeno parque, em terreno inclinado, que subia até à rua de cima, a Rua da Escola Técnica.

Havia o parque infantil com os seus divertimentos, cavalinhos de madeira, o "sobe e desce", o escorregador e a areia onde caíamos.

E havia flores, arbustos recortando canteiros de pedrinhas, formando sebes torneadas, com bagas pequeninas e bem encarnadas.

E havia áleas de areia batida, com banquinhos de cada lado, para se descansar do passeio.Evoco sempre um quadrinho de Miguel Barrias, de grande intimidade, com dois vultos caminhando apoiados um ao outro.


Para mim, aquele óleo, que via em casa dos meus pais e que hoje é meu, era a minha Corredoura no Outono, com as folhas pintalgadas de amarelo e vermelho.


Era igual ao caminho que eu conhecia e ia dar ao parque, ladeado de árvores, com um banco de madeira, de um lado e do outro.

A meio do parque, havia um lago, protegido com grades altas, onde nadavam peixinhos encarnados.

Levávamos miolinhos de pão nos bolsos para deitar no lago e chamar a atenção dos peixes.
Vê-los nadar, em sinuosas linhas vermelhas, em direcção a nós, era um prazer enorme para mim nessa altura.
Um dia tive a ideia de ir pescar!

Peguei num carrinho de linhas e num alfinete que a Florinda me dobrou ao meio e prendi no bico do alfinete um bocado de pão.

Os peixinhos vieram velozes e comeram o pão. Claro que eu não pesquei nada, mas também sei que a minha intenção não era essa. Nem sonhava poder matar desse modo cruel um daqueles mágicos seres que adorava ver!

Do lado de dentro, havia árvores altas. Salgueiros. Olmos. Choupos.

Via-se a rama de um choupo chorão que pendia, tocando ao de leve as águas verdes.

Era na Corredoura que me lembro de brincar com as minhas irmãs e as amigas, a Tiça, a Julieta, a Gioconda. O grupo era grande e juntávamo-nos sobretudo nos dias dos anos de uma de nós.

A casa amarela não era suficientemente espaçosa para permitir as brincadeiras que, ao ar livre, eram possíveis.

Brincadeiras simples, sempre as mesmas, e que nos divertiam: o esconde-esconde, jogar ao ringue, à malha ou ao macaco, saltar ao pé-coxinho.

Lá vínhamos todas, de bibes brancos com folhos nos ombros, e laços na cabeça.

De Inverno, vestíamos camisolas de lã, por debaixo desses tais bibes, e meias de renda grossa a sair das eternas botas de cabedal com atilhos de que eu gostava tanto.

E as faces vermelhas do frio.

E os olhos brilhantes.
Eu era uma maria-rapaz, saltava, corria, esfolava os joelhos nas quedas e continuava.
Um dia ofereceram-me uma bola vermelha. Eu gostava muito de jogar à bola!

Vejo-me na fotografia agarrada a ela, com força, e um travo de melancolia que às vezes tinha nas fotografias desse tempo.

Numa das áleas da Corredoura, havia um banco de pedra, caiado de branco, arqueado no espaldar, atrás. E um grande retrato de bronze que soube ser do poeta da cidade, José Duro, que morreu tuberculoso, jovem e infeliz, do qual muitos anos mais tarde li os poemas.

Não sei onde foi parar esse baixo-relevo com o perfil do poeta.

Vejo-me a subir pelo caminho da Corredoura, de mão dada com a Rosalina, que me levava à escola.

A D. Maria da Alegria, a minha professora, esperava ao pé da porta do quintal, pigarreava e tinha a respiração ofegante que lhe conhecia desde os primeiros dias. Sofria da tiróide. Pelo menos era o que eu ouvia dizer, que tinha "bócio"... Um dia foi operada e ficou com uma cicatriz enorme, no pescoço, que me afligia.

Outras vezes, é a minha imagem ao lado da minha tia, bem agarrada a ela, a descer pelo passeio inclinado, que eu recordo.

Nessa imagem, a minha tia traz um casaco de Inverno, comprido. Imagino-a a rir, o bâton vermelho e os cabelos um pouco encaracolados, de risco ao lado, presos com um ganchinho.

Eu, com o meu casaquinho felpudo muito quente, estou de boca aberta.

Penso que era uma criança bem disposta. Às vezes tinha as minhas birras, mas, ali, estava contente porque era o meu tio que ia connosco e estava a tirar a fotografia.

Vejo as árvores perderem as folhas amarelas, depois os ramos secos e esticados e os troncos esbranquiçados dos salgueiros.

Vejo a chuva miudinha começar a cair.
Chegava o Inverno e nessa estação só saíamos nos dias de sol. Ficava de trás dos vidros a ver os regatinhos de chuva nos vidros, ou chegada à braseira a ler, ou à espera das castanhas assadas que a Florinda fazia para nós.

Depois, a Primavera e as florinhas brancas, ou cor de rosa, ou de todas as cores, rebentavam.

Recordo o perfume dos liláses. Havia árvores de lilás, na Corredoura, com suas flores de pétalas de um roxo delicado, e pequeninas, em cachos pendentes.

E voltávamos a sair, para ir brincar para a Corredoura...

O tempo passa tão depressa. Onde estão hoje essas amigas? E a casa amarela e a gente que lá viveu? E o parque da Corredoura onde está? E o busto de José Duro?

Nota: as fotografias da Corredoura foram-me "cedidas" por um portalegrense, José Fernando; o quadro é de Miguel Barrias, pintor nascido em Vila Real mas que viveu em Portalegre; o quadrinho da casa amarela é da minha autoria...

Miguel Barrias(Vila Real, 1904-1952)

Funda no Porto, em Janeiro de 1929, com Heitor Cramez, uma empresa de ensino por correspondência na área do desenho, designada por Escola Nacional de Desenho.

Assume as funções de professor provisório da Escola Comercial e Industrial José Júlio Rodrigues no ano lectivo de 1929-30, substituindo Trindade Chagas.



domingo, 9 de outubro de 2011

Subitamente neste Outono um Nobel vindo da Suécia

Não conhecia o poeta que ganhou o Nobel. Tentei nestes últimos dias ler dele alguma coisa e gostei!

Da simplicidade e sensibilidade, da delicadeza...

E gostei da cara dele... Inútil falar muito hoje do que já toda a gente disse...

Quero só deixar aqui alguns dados e alguns poemas que me fizeram bem.

Tomas Tranströmer nasceu em Estocolmo em 15 de Abril, de 1931.

Poeta, tradutor, licenciado em psicologia, amante de piano, formado em psicologia, estudioso apaixonado de entomologia - como conta na sua autobiografia, “As recordações observam-me”.


O verso com que abre o seu primeiro livro (“17 Dikter” - 17 Poemas, 1954) diz: “o acordar é um salto de pára-quedas para o sonho...”


O sonho, pois... Saltar de pára-quedas para o sonho: gostei!

Leio no Monde um artigo. muito bem feito, de Nils C. Ahl:

“Os seus textos brilham pela sobriedade, delicadeza das percepções e das impressões íntimas, e pela riqueza metafórica”.


Muito traduzido (nos anos 70 saem nos USA e em Inglaterra as primeiras traduções), mas pouco conhecido do grande público no resto da Europa.



Em 2004 saíram as “Obras Completas”(1954-2004) na conhecida editora Gallimard, Paris.


“Homem que viaja de comboio e apanha o metro, passeia nas ruas, dorme em quartos de hotel, faz viagens, olha pelas janelas, visita igrejas, ouve música, contempla a natureza...”


É no entanto, continua Ahl “um homem de todos os tempos, do que é permanente no que há de mutável e de móvel.”

Bem conhecido na Suécia, onde tem grande influência, é o poeta sueco mais traduzido.

(De facto os seus poemas estão traduzidos em mais de sessenta línguas.)

Traduzido, sim, mas pouco lido, fora da Suécia, pouco conhecido do grande público no resto da Europa.

O estilo e os temas revelam uma influência horaciana, dos clássicos que amou, muito jovem.

É ele próprio que diz: “Horácio era para mim como um contemporâneo; era como um René Char, um Oskar Loerke ou um Einar Malm. "

Viver o dia, amar as pequenas coisas, ver com olhos de ver, numa atitude calma, de “receber” o que há.

Epicurismo? Budismo e Zen também?


Claro que inevitavelmente pensei no nosso Pessoa, Ricardo Reis, o seu epicurismo, estoicismo etc etc. Mas há em Transtromer maiores acentos de sinceridade ...

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'spres que em ti já não exista,~
Cada um é consigo triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramops buscas,
Sorte se a sorte é dada.

***
Segue o teu destino.
Rega as tuas plantas.
Ama as tuas rosas.
O resto é sombra
De árvores alheias.
(Ricardo Reis)

Em 1990, Tranströmer foi vítima de um AVC - que o deixou afásico e hemiplégico.

Mas continuou a escrever e a tocar piano...

Saem outros livros, depois disso: “Gôndola Funesta” (1997), onde aparecem os primeiros poemas em forma do “haiku” (1) japonês; depois, “Poemas Curtos (2002), “O Grande Enigma: 45 haikus “ (2004).



Os fios eléctricos
estendidos por onde o frio reina
Ao norte de toda a música.
O sol branco treina correndo solitário
para a montanha azul da morte.
Temos que viver com a relva pequena
e o riso dos porões.
Agora o sol se deita
sombras se levantam gigantescas.
Logo logo tudo é sombra.

*****
Vida mal soletrada
a beleza continua a viver
como tatuagem.

*****

Grande e vagaroso vento
da biblioteca do mar.
Aqui posso descansar.



*****
Encontramo-nos numa festa
que não gosta de nós.

in
http://giramundo-cirandeira.blogspot.com/2011/10/tomas-transtromer-haicais.html

No blog “revista.agulha”, descobri coisas que ignorava (ignorava tudo...) de Transtromer. Num artigo de Luís Costa, que o traduziu, há anos, poemas de Tranströmer, baseando-se na tradução alemã de Hans Grossler de uma Antologia do poeta sueco.



Quieta, a formiga acorda, espreita para dentro do
nada. E para além das gotas da escura folhagem e
do murmúrio nocturno, profundo no desfiladeiro do verão,
não se ouve mais nada
.

*****
Encontro-me de pé sob um céu estrelado

E sinto como o mundo rasteja

no meu sobretudo,

para fora e para dentro,

qual um formigueiro.


*****
“Este caminho
Ninguém já o percorre
Salvo o crepúsculo.
De que árvore florida
Chega? Não sei.
Mas é o seu perfume
.”

*****
Fim de estação. Eu continuei a viagem
Para além do fim da estação.
Quantos eram? Quatro,
Cinco, poucos mais.
Casas, caminhos, nuvens,
Enseadas azuis, montanhas
Abrem as suas portas



*****
E o que era “eu”
É uma simples palavra
Na boca das trevas de Dezembro

(tradução de João Luís Barreto)



*****
Duas da manhã: luar. O comboio parou
A meio da planície. Ao longe, os pontos de luz de uma cidade
Que cintilam friamente nos confins do olhar.

É como quando um homem vai tão longe no sonho
Que não consegue recordar-se que ficou lá
Ao voltar para o seu quarto.

E como quando alguém vai tão longe na doença
Que a essência dos dias se transforma em fagulhas, enxame

Insignificante e frio nos confins do olhar.


O comboio está perfeitamente imóvel.
Duas horas: um luar com uma lua intensa. Raras as estrelas
.

(traduzida por mim, de uma edição francesa)



(1) O Haiku é o poema japonês por excelência.
O haiku deriva duma forma de poesia, em voga no Japão entre os séculos IX e XII, designada por tanka; tinha 5 versos, de 5 e 7 sílabas, que tratavam temas religiosos ou ligados à corte.
Bashô Matsuo (1644–1694), considerado o primeiro e maior poeta japonês de haiku, nasceu samurai e adoptou a simplicidade tanto na vida como na criação poética.
A par de poemas de carácter lúdico, começou a valorizar o papel do pensamento no haiku, imprimindo-lhe o espírito do budismo zen.