domingo, 15 de março de 2015

Morreu uma grande Mulher do cinema israelita: Lia van Leer


Morreu Lia van Leer -disse-mo o nosso amigo dos tempos de Telavive, Ariel Shweitzer, crítico de Cinema e professor de Cinema na Universidade de Telavive e em Paris.
Lia van Leer -nascida Lia Greenberg em 8 de Agosto de 1924, na Bessarábia (nessa altura Roménia, hoje Moldávia) foi uma figura precursora, no cinema israelita, mostrando desde muito cedo, no seu país, filmes de qualidade. 

Foi ela e a sua acção que, segundo alguns, “transformaram os israelitas em cineastas de grande qualidade". 
Veio a Israel, em 1940, visitar uma irmã que vivia ali há alguns anos. Entretanto a IIª Guerra rebentou e já não voltou para a sua terra. No final da guerra, soube que os pais foram nortos. Nunca mais deixou Israel. Estava hospitalizada há alguns dias. Morreu na 6ª feira, dia 13.

Cinemateca de Haifa

Cinemateca de Telavive

Cinemateca de Telavive -interior

Lia van Leer fundou as Cinematecas de Jerusalém, de Telavive e e de Haïfa, segundo o modelo da Cinemateca Francesa.
Cinemateca de Jerusalém

Cinemas "d'auteur", dedicados aos melhores filmes clássicos mundiais e também israelitas.  
Lia, espreitando, atrás de Warren Beatty (esquerda)
Criou os Arquivos Israelitas do Filme (que estão na Cinemateca de Jerusalém), que são os maiores e mais completos do Médio Oriente. 

Fundou, igualmente, em 1984, o Festival de Cinema de Jerusalém. Que segue o exemplo dos festivais de Cannes e Veneza.

Lia van Leer, com Robert De Niro
The Sultan Pool, na descida da Old City

Lembro-me de ter ido várias vezes ao Festival, na Sultan Pool, assistir aos filmes em concurso. 

Uma das vezes acompanhou-nos Manoel de Oliveira convidado pelo Festival. E não me esqueço que, no Hotel onde ficou (final dos anos 90), perto do local do Festival, costumava ir à piscina nadar todas as manhãs…

Tenho pena, Lia Van Leer era uma mulher de Cinema e de Cultura e era muito interessante! 

Disse-me o nosso amigo Arik, com tristeza, que ela "esperava" ir votar na próxima 3ª feira, para deitar abaixo o governo de Netanyahu.

sábado, 7 de março de 2015

Yoko-San, a minha amiga senhora Yoko...




a escritora Murasaki Shikibu

A senhora Yoko fala um português estranho, cheio de exclamações - “ah”...”ah”- que intercala nas frases e dão um ritmo sincopado ao que ela diz.
A senhora Yoko fala do Japão, de onde partiu há quarenta anos, com um português, para viver em Portugal. Vive em Cascais e gosta de lá viver. 
E imagino-a jovem e bela num kimono de cores suaves, azul pastel ou rosa claro, à sua chegada. Como terá sido a senhora Yoko, em nova?
Vamos conversando. Voltar a viver no Japão? Ela? Não, nunca. 
- Cascais muito sossegado, diz ela.
Mas a nostalgia surge em cada palavra. Para ela, o Japão é único. Fala com amor das verduras frescas e do peixe. Dos legumes que são vendidos ao fim da tarde, a preços especiais, por toda a parte - dos mercados às lojas e super-mercados, para que, no dia seguinte, só haja legumes frescos.
- Peixe no Japão muito fresco. Verduras muito frescas.
- E a família longe?
Responde que tem notícias da família, mas há anos que lá não vai vê-los.

- Muita família, muitos irmãos. Família toda a morrer. Mal do coração, diziam dantes. Afinal, está tudo a morrer de cancro...
Depois, sorri:
- Português tem grande coração. Sabe receber o estrangeiro.
Perguntei a mim mesma se ainda será assim, desejando que ela tivesse razão e que o português continuasse a receber o estrangeiro como a recebeu a ela.
- Português muito tímido. Observa a gente. Ah...desconfiado. Mas quando conhece, é grande amigo!
Agita a cabeça, devagar, e repete:
- Grande coração.
A senhora Yoko tem um filho que não quer ir viver para o Japão. Pensei nos portugueses que amaram o Japão. 
Como Wenceslao de Moraes, por exemplo. Lembrei a chegada dos Portugueses ao Japão e a "arte Nanbam"(*). 

Portugueses no Japão
E os japoneses gostam de viver em Portugal também? Gostei disto.
- Sabe o que filho diz?  “Ir embora para quê? Tenho cá os meus amigos, gosto de cá estar!”
Ela ri, num riso doce.
- O sonho do filho é voar. Assim por cima de nós...
E aponta lá para fora, para o céu azul.
- Motores, aviões é o que ele estuda, é a especialidade do filho.
- Um dia, ele vai voar por cima de nós.
- Não sei...
Ri-se mais, fechando os olhos numa frestazinha.
A senhora Yoko  chegou a minha casa no seu BMW vermelho desportivo. Fiz um elogio ao carro.
- Lindo carro! E forte. A turbo!
Com grandes gargalhadas, ela respondeu:
- Eu também gosto. Muitos anos este carro! Muito velho... Velho e com muitas feridas!
A senhora Yoko tem 70 anos e é uma mulher pequenina, franzina mas enérgica. Jovem, no olhar e na curiosidade, jovem porque quer ainda saber tudo do mundo. 
Dá-me massagens que me fazem sentir bem. As suas mãos, cheias de força, conseguem ser sempre suaves. Faz-me lembrar as flores do Japão.

Ela vai comentando.
- O corpo das pessoas não é igual. Ah... A massagem tem de ser diferente. Corpo de mulher e corpo de homem. Mesmo mulher... é sempre diferente!
E mexe os meus dedinhos dos pés em todos os sentidos, carregando na sola, subindo pela perna. Usa uns cremes aromáticos com um bom perfume.
- Tem de ajudar a circulação, drenar a linfa...
Quando me agito, diz logo:
- Senhora está morta! Não mexe! Eu é que tenho de fazer força.
E salta para cima do sofá-cama do meu escritório, que tem um futon japonês, como colchão.
- Colchão duro, bom.
Começa a massajar-me o pescoço.
- Aqui neste sítio muito duro, muita tensão na cabeça. Parece pedra! Muitos pensamentos de certeza.
- É verdade, Yoko, muitos pensamentos...
- Corpo morto! Senhora não está assim, contraída. Não pode. Tem de relaxar, distender o corpo!
Pensei na técnica do shiatsu, massagem japonesa que já tinha experimentado...
-  É shiatsu?
Riu-se. A senhora Yoko gosta muito de se rir.
- Não é bem...
Continuamos a divagar. Ou, melhor, ela divaga e eu ouço-a.
- Iuropeu muito ignorante....
Ela pronuncia assim a palavra “europeu”.
- O português?, pergunto.
- Não. Não é só o português.
Vi que gosta dos portugueses. Defende-os.
- ... Os ”iuropeus” todos. Ah...
- Ah?
 Sem querer, usei o seu “ah”.

- Ah, repetiu ela. Gente muito ignorante das coisas do Oriente. Não sabem nada do Japão! Nem da China.
Fala muito da China. As suas reticências em relação à China de hoje são enormes.
- China foi tão grande maravilha! Ninguém se lembra disso. China é um mundo! Tantos países lá dentro, tantas raças, tantas línguas, tantos hábitos diferentes.
Tinha toda a razão, pensei. Cultura milenária, como “reduzi-la” ao que fizeram? Ou ao que se vê e ouve dela, hoje?
- Mais de 64 línguas!, continuou Yoko. Cultura tão grande, há milénios! Grande pintura, poesia, literatura...
Limitei-me a dar-lhe razão.
- Gente com muitos pensamentos!
- Sim. E o Japão também que eu sei.

- Claro. Japão muita cultura. Tudo diferente da “Iuropa”. Na "Iuropa" o que querem as pessoas? Comprar coisas, ter coisas, carros, roupas de marca. No Japão é diferente: querem é educação, educação, educação. 
Ela dizia "inducação" e eu sorri desta vez porque gostava da sua maneira de falar. 
- É o que conta no Japão! E “Iuropa” não entende nada. Muito ignorantes...
Di-lo, com indignação e impaciência, quase com pena. E eu compreendo o que ela sente.
- Não sabem nada do Japão! Só falam do “tsunami”, e comem “sushi”, porque está na moda...
- Tão bons que são os sushis e os sashimis!, não resisti. Gosto tanto! Onde é que há bons restaurantes japoneses, Yoko?
Ri-se muito.
- Não há, diz com ironia. Houve. Houve o “Aya”. O dono sabia muito do Japão. Boa comida japonesa.
- Não experimentou outros?
- Alguns. Bem melhor é comer na minha casa. Quando vou almoçar fora, volto para casa a pensar... ah...ah... é muito melhor comer aqui!
Concordei. Ela continuou:
- Comida não boa e muito cara!

Olha em redor, agora, apreciadora.
- Tantos livros! Eu gosto muito de ver livros! Era quarto?
De facto, tinha sido um quarto. O meu escritório, agora. Só tem livros e papéis e a desarrumação é imensa.
- Já foi, Yoko. Já foi um quarto. Os meus filhos protestam sempre por já não haver o quarto. Não gostam de cá dormir. Há pó...
foto de Etsuko Nagamatsu

- Ah, ah...o  pó dos livros, eu sei. Alergias, claro. É tão bom o cheiro dos livros!
- Gosta de ler, Yoko?
Olhou-me quase espantada.
- Eu? Eu não posso viver sem livros...
- Eu também não.
- Guardo todos. Aqui não se arranjam livros japoneses, mas os meus irmãos mandam. Leio até duas vezes o mesmo.
Massajava-me as costas, e continuou:
- Eu não gosto de emprestar às amigas porque não mos devolvem. Perdem, ou emprestam. Não trazem mais. Alguém os vende também...
- Não lê em português?
Nova  gargalhada sonora.
- Eu pessoa muito preguiçosa! Quarenta anos a viver cá e nunca aprendi bem a língua. Leio, com o dicionário ao lado. E caderno.
- É difícil?
- Muito difícil, muita gramática!
- E japonês...?
- Muito fácil. Mesmo para estrangeiro aprender. Gramática muito simples. Depois de conhecer caracteres, tudo muito fácil.
fácil o japonês?- quem lê este"haiku"?

Duvidei, mas não disse nada. Perguntei-lhe:
- O que gosta de ler a Yoko?
- Tantas coisas, todas diferentes...
Falei dos autores japoneses que conhecia. Daqueles de que gostava mais como Inoué ou Kawabata. 
Murasaki Shikibu

Dos “Contos de Genji”, da escritora Murasaki Shikibu. Das pinturas de Tosa Mitsuoki sobre os mesmos contos, os 'Gengi Monogatari'. 


ilustração para “Contos de Genji”, de Tosa Mitsuoki

Dos poemas curtos japoneses, os "haikais" ou "haikus". Percebi que a minha pronúncia dos nomes estava errada e, logo, os livros eram irreconhecíveis para Yoko. No entanto, ela não me disse nada, nem me corrigiu. Limitou-se a acrescentar:

- Leio histórias. Leio o que gosto. Posso ler um livro porque gosto do que o autor diz. Ou porque gosto da maneira como está escrito.
Inclinou a cabeça, como se pensasse.
- Alguns leio só porque gosto das pessoas que os escreveram.
Não comentei.
- Gosto muito dos livros históricos. Foi assim que aprendi sobre a China. Cultura de milhares de anos. Sabiam tanto! O Japão também sabia...
Hocusai, Casa de Chá
- Sente nostalgia da sua terra?
- Tóquio?
Pensou um pouco:
- Não tenho saudades. Vivi muitos anos em Tóquio e estava farta da agitação e do barulho.
Riu-se.
- Quando cheguei a Cascais pareceu-me o paraíso perdido! Tinha mar. Tinha flores. Tinha silêncio.

Imaginei-a, apaixonada, a olhar para a baía de Cascais. Ela continuou:
- As casinhas, o mar, o céu limpo. Poucos carros. Tudo muito sossegado...
Cascais já não é assim, mas não falámos disso.
- Bom clima, acrescentou. Tóquio muito frio no Inverno e muito quente no Verão. De Verão nem se pode ir à rua. Só se está bem em casa. Quem pode, liga o ar condicionado. Quem não pode...
Encolheu os ombros e continuou:
- Cascais bom clima. Quando cheguei, gostei muito.
Calou-se e voltou a massajar-me com força.
- Tive filho aqui. Gosto de estar aqui... Filho também gosta.
Não quis perguntar nada da vida dela.

Nessa tarde, enquanto esperava o elevador, abriu a malinha e disse:
- Tenho aqui fotografia de filho. Para mostrar à minha amiga.
De um envelope tirou uma fotografia a cores onde sorria um rosto redondo, de olhos um pouco oblíquos, ao lado de uma bela jovem.
- Namorada?
- Não, riu-se ela. Ele não quer namorada. Quer aviões!
Fez uns ruídos com a boca, como se falasse muito depressa.
- Diz que elas falam muito...

Quando o elevador desceu, ainda ouvi a senhora Yoko a rir-se.

(*) "Namban" vem de Namban-Jin, ou “bárbaros do sul” como os portugueses (chegados em 1534, e, depois, os outros ocidentais) foram chamados. Arte "namban" é a que se inspira nesses motivos ligados aos portugueses.
(**) A escritora Murasaki Shikibu terá nascido entre 970 e 978 e morreu em 1014, com 41 anos.


sexta-feira, 6 de março de 2015

David Gilmour faz anos: Ouvir os Pink Floyd - Wish You Were Here



David Jon Gilmour, nasce em Cambridge, a  6 de Março de 1946), cresceu em Grantchester Meadows. O pai Douglas Gilmour, foi  professor de Zoologia da Universidade de Cambridge. A mãe, Sylvia, também era professora. A sua educação teve lugar na Waldorf School e foi durante muitos anos um modelo para essa escola, tendo no entanto descrito a sua educação como “horrível”. Aos 13 anos ganhou seu primeiro violão, e foi então que tudo começou. 
Gilmour é um  guitarrista e cantor britânico, que foi vocalista da 'banda' inglesa Pink Floyd, tendo também editado álbuns a solo bem como colaborado com outros artistas. 
Foi considerado o 14º melhor guitarrista do mundo pela revista norte-americana Rolling Stone (wikipedia)." 
É Doutor em Arte, pela Universidade de Cambridge. Considerado um dos melhores guitarristas do seu tempo. Tem o título conferido pela Rainha. 
Parabéns a Sir David Gilmour e ao imortal grupo 'Pink Floyd'! 



Dinah Washington: What Difference A Day Makes


foto de Etsuko Nagamatsu

quinta-feira, 5 de março de 2015

The Blues Brothers - Everybody Needs Somebody To Love (Original Movie Clip)

In un mondo più bello, oggi John Belushi avrebbe 66 anni. Irriverente e folle, è stato uno dei più grandi comici della storia del cinema e diventato famoso grazie ad alcune celebri interpretazioni. Morì il 5 marzo 1982 a Hollywood a causa di un’overdose. Lo ricordiamo con una selezione delle scene più belle, da Animal House ai Blues Brothers.", dizia hoje o jornal italiano La Stampa...

quarta-feira, 4 de março de 2015

Pessimismo ou realidade? "Oração para 2015"...


Manhã de Inverno, em São João

No Nouvel Obs’ de 24  Dezembro, Jean Daniel, no artigo que escreveu nesse final de ano, “sonhava” com um 2015 melhor. Se isso fosse possível, claro. 

E lamentava que existissem nos nossos dias  “tanta familiaridade com a morte, que se frequenta facilmente  e faz parte da nossa pequena vidinha provinciana (…) com o seu ‘pesadelozinho’ quotidiano, e tanta indiferença perante as notícias.”

De facto, sentimos que, pouco a pouco o ser humano começa a “encaixar” o horror e o crime parece banalizar-se.

Terá sido sempre assim? Jean Daniel teima em dizer que não, que não foi sempre assim.
“Não agito nenhuma verdade, não decreto nada. Se me perguntarem “quem te disse que era melhor antes?” Não sei nada. Talvez seja, apenas, a necessidade de me lembrar dos livros que foram meus companheiros”.

E acrescenta: “Houve um autor muito importante, Romain Rolland, Prémio Nobel (*) que teve a independência de espírito para ir à Suíça, país que fez da paz a sua identidade, para condenar a guerra e chamar os homens à razão (…)”
Romain Rolland, 1915



O final do artigo, era sua “oração” para 2015:

“Para 2015? O que desejo é ver abreviar o sofrimento que a vida ‘moderna’ impõe e poder lutar em favor das coisas boas que a modernidade inventa. Como consegui-lo?”, pergunta. A resposta é esta:

"O meu grande amigo François Cheng escrevia em resposta a todos os pessimistas: ‘Há uma única verdade seja quem for o seu autor: é a beleza!’ 

Sim, é o que eu aceito, que consinto e aplaudo, por toda a parte em todos os domínios, em todos os seres, a beleza.”
Estou de acordo com ele. Não quero ser pessimista mas reconheço que o início de 2015 foi tremendo: morte, desprezo pelo humano, indiferença.
Terá sido sempre assim?, pergunto eu também. Talvez fosse bom irmos buscar outra vez os livros de Romain Rolland! 
Dos meus 10 volumes do "Jean Christophe", da colecção Miniatura, alguns já perdidos, encontrei-os na Livraria Lumière.




 (*) Romancista, biógrafo e músico francês, Romain Rolland nasceu em 29 de Janeiro de 1866 e morre em 30 de Dezembro de 1944.

“Doutorou-se em Arte, em 1895. Foi professor de História de Arte na Ecole Normale de Paris e professor de História da Música, na Sorbonne. Escreveu a biografia de Beethoven (1903), por exemplo, e a de Mahatma Gandhi (1924).  Ou a "Vie de Tolstoi", escritor que amava. 
Escreve um manifesto pacifista,  em 1915, intitulado  “Au dessus de la mêlée”. Escreveu dois “ciclos romanescos” – romans-fleuve) como costumava dizer: “Jean Christophe” (10 volumes escritos de 1904 a 1912) (cujo herói, segundo o autor,  “é Beethoven, no mundo moderno”) e “L’ Âme Enchantée” (sete volumes, de 1922-1934. Em 1915, recebeu o Prémio Nobel de Literatura." (wikipedia)

Dois grandes: Ray Charles e Dee Dee Bridgewater cantam "Precious Thing"