domingo, 21 de novembro de 2010

Hakima e o "Café Maure" de Rabat

o "Café Maure", debruçado sobre o rio Bou Regreg


vista sobre o Bou Regreg e Rabat. Em baixo, as muralhas da Kasbah

O “Café Maure” ficava na parte mais antiga de Rabat, debruçado sobre o Bou Regreg, o rio, junto ao bairro da Kasbah des Oudaïas.
o rio Bou Regreg e Salé
Na outra margem do Bou Regreg, está Salé, a velha cidade fundada pelos andaluzes, os muçulmanos expulsos da Espanha, depois da Reconquista Cristã.
os jardins dentro da Kasbah

Chegaram por volta de 1600 e instalaram-se em Salé. Em tempos idos, Salé fora uma república –chamada República do Bou Regreg. Tivera a sua capital na Kasbah des Oudaïas. Mausoléo Mohamed V

Rabat aparecia-me sobretudo como uma cidade colonial, sobretudo na parte nova das avenidas modernas, que, numa atitude inteligente e de respeito, os franceses e Liautey quiseram construir afastada do centro.
a Avenida Mohamed V, à noite...

Ao entrar na Medina, ou na Kasbah, tudo mudava imediatamente.

velha fotografia da Medina de Rabat

As lojas, protegidas por toldos e, lá no alto, por um telhado envidraçado, espécie de vitral, com belos desenhos, logo à entrada da Medina, vendiam um pouco de tudo.


entrada principal da Medina, espécie de "galerias" cobertas por vidro

Os vendedores começavam a conversa do seu negócio, enquanto serviam aos clientes copos de chá de hortelã escaldante e bolinhos.
O prazer do vendedor era também o da discussão do preço. Lembro-me de ler em Canetti, n’ “As vozes de Maraquexe”, que “era impossível saber, nas medinas de Marrocos, “o preço justo” fosse do que fosse”.


Tudo se vendia, num cálculo minucioso de uns e de outros, conforme a oferta...

Desde os artigos folclóricos destinados aos turistas, aos objectos de madeira bem trabalhada, às tigelas de barro em branco e azul, ou às jóias de prata finamente trabalhada, na zona onde fora a judiaria, indo até às roupas de todos os tipos, sapatos, chinelos bordados ou de couro fino, brincos de filigranas coloridas, e colares.

Ou as especiarias perfumadas, de cheiros exóticos e apetecíveis, onde predominava a curcuma amarela, os cominhos, a canela, as paprikas de todos os tipos, as pimentas coloridas, e as caixinhas de verdadeiro açafrão em fios vermelhos, que diziam vir directamente do Irão.

A Hakima vivia no centro da Medina, numa casa modestíssima, apenas um quarto e uma cozinha, sem mobílias, enriquecida pelos panos coloridos e pelas almofadas espalhadas no chão.

Foi aí que um dia a Hassnaâ, com o seu sorriso aberto e orgulhoso, nos acompanhou, de visita.
Ia vestida com um tailleur simples, lenço azul ao pescoço e botas altas. O que era já uma sua atitude escolhida, num Marrocos que começara a mudar um pouco. A tentar, lentamente, modernizar-se, permitindo uma certa liberdade às jovens mulheres da classe média ou, mais dificilmente, das classes mais baixas.
Lembro Rabat muitos anos antes, onde as mulheres andavam veladas e com djellabas até aos pés...

Hassnaâ incarnava essa mudança, na classe dela.

A Hakima era umas das irmãs mais velhas da Hassnaâ. Muito diferente dela, ajuizada, calma, procurava ajudá-la a equilibrar. Como se isso fosse possível com a loucura e a teimosia da Hassnaâ. Os seus excessos, entusiasmos, ou os modos de vestir exagerados, modernos.

Às vezes passávamos as três no “Café Maure”, sentávamo-nos nas mesinhas quadradas com tampo de azulejos ou nos bancos corridos, junto do parapeito de pedra e olhávamos o rio que corria lá em baixo, ou o areal seco das margens do Regreg, quando o calor apertava, no Verão.

jardins da Kasbah, onde se encontra o "Café Maure"


Andávamos pelas áleas de flores do jardim, que está à entrada da Kasbah.

Depois, passeávamos pela Medina, sem destino, parando aqui e ali, perguntando o preço, discutindo um pouco sem vontade.

Íamos até ao fundo, onde começava outro bairro, com ruas menos movimentadas, onde ficava a casa da Hakima.

Em casa dela, um dia, encontrei a irmã gémea de Hassnaâ, a silenciosa e doce Hassaniah. A bela e religiosa Hassaniah que, ao fim da tarde, rezava, de joelhos numa serapilheira que desembrulhara no chão, virada para Meca.


Nós as três íamos bebendo o chã de hortelã, sentadas nas almofadas baixas enquanto, com gestos quase invisíveis, Hassaniah rezava ao seu Deus, como a Hassnaâ costumava dizer...

Hakima olhava-a séria, de sobrancelhas franzidas como era seu costume, interrogando-se, talvez, sobre o sentido daquela oração. Hassnaâ sorria, irónica.
Os olhos dela observavam-me, iam de mim para a figura curvada da irmã e dela para mim outra vez, querendo ver a minha reacção de europeia a essas orações.

A Hakima era uma mulher inteligente, habilidosa, não muito bonita. Trabalhava num restaurante de Rabat onde, à noite, enquanto decorria o jantar, havia um espectáculo de dança do ventre.

Um dia fomos assistir ao espectáculo da dança do ventre.

Depois dos kebabs, a tagine de borrego com ameixas e passas de uva sultana, e as sobremesas variadas de doces de amêndoa, e chás, chegou a bailarina.


A bailarina e o seu corpo ondulante que parecia ter perdido a ossatura e o peso, contorcendo-se elegantemente, quebrado pela cintura, como um boneco desarticulado.
As mãos e os dedos com minúsculas campainhas agitavam-se, acompanhando o jeito do corpo e da cabeça. Num movimento contínuo que nos prendia a atenção, dando-nos vontade de agitar o próprio corpo, fascinados.

A Hakima deslizava, atenciosa, entre as mesas, de sapatos rasos, com um vestidinho de cetim negro que lhe ficava bem, servindo com cuidado toda a gente.

No outro dia, a Hassnaâ contou lá em casa que ia muitas vezes ajudar a irmã a servir às mesas do restaurante.

Quando chega a hora da dança do ventre”, dizia ela, “já estou cansada e tenho sono”.

Encostava a cabeça numa mesa e adormecia, contava ela... E dormia ali toda a noite, se fosse possível, até acabar o espectáculo.

"Por vezes acordo..." -contava.
Imagino-a abrindo os olhos negros e brilhantes, animando-se e cantando alto, a bater as palmas.
Era fácil de imaginar, porque ela era assim impulsiva e incontrolável, na sua alegria sincera, ou espalhafatosa.

A Hakima vinha dizer-lhe que fazia barulho, e mandava-a calar para não incomodar os clientes. Tratava-a um pouco como uma criança a quem se quer proteger.

A Hassnaâ calava-se e ia deitar-se lá atrás, enrolada como um gato, num sofá de almofadas de cores berrantes, ao pé de mesinhas de latão com arabescos gravados, um pouco distante das outras mesas.

Voltava a adormecer ao som da música e só acordava quando a irmã, acabado o serviço, vinha fechar as luzes da sala e a chamava.

Seguiam as duas, noite cerrada, amparando-se uma à outra no seu cansaço, pelas ruas da Medina sombria, caladas.

Do outro lado viam-se as portas fechadas da Kasbah e, lá dentro, o “Café Maure” tinha adormecido também.

Longe, penso nelas: as duas irmãs, Hakima, Hassnaâ.

E na beleza do “Café Maure”, mais os seus azulejos azuis e amarelos, nos jardins de laranjais e limoeiros com flores de todos os tons, no interior da Kasbah.

Lembro a cor do céu e do mar um pouco mais longe, espraiando-se num longo areal recortado.

E o azul barrento do Bou Regreg, com Salé, vila de piratas, na outra margem...

E tenho saudades da Hakima, da Hassnaâ e do “Café Maure”.


Poesias da "presença": Jazz, de Adolfo Casais Monteiro


Jazz e "presença"

Jazz

Numa cadência de enigma
Entrecortada de espasmos
Saltos berros mil ruídos
O jazz canta a saudade
Dum sonho que não se sabe.

Chora o jazz a velha perda
Dum paraízo qualquer
Deixado em longes de sombra.

E no seu ritmo diverso
Langoroso e crepitante
Martelado e insistente
Triste e cheio de alegria
Passa a sombra dolorosa
Do que há muito está perdido.

Adolfo Casais Monteiro, in “presença” nº 22
E ouçam Billi Holiday.

sábado, 20 de novembro de 2010

TOLSTOI MORREU HÁ CEM ANOS. RECORDO "GUERRA E PAZ"

Leão Tosltoi, pintado pelo pintor russo, Nicolai Ghe

casa onde Tolstoi viveu em Moscovo, hoje casa-museu

capa da 1ª edição portuguesa de "Guerra e Paz", Editorial Inquérito ( três volumes, 1942, tradução de José Marinho)

edição brasileira, recentemete reeditada, 4 volumes, com tradução de João Gaspar Simões

Tolstoi, pintado por Ilya Repin, em 1887

Era impossível não vir lembrar Tolstoi, nesta data.

Tudo já foi dito sobre ele, não vou de certeza acrescentar nada. É apenas a minha homenagem de leitora a um escritor que me ajudou a crescer, que me fez bem e me acompanhou na vida.
uma das últimas fotografias de Tolstoi


Foi com certeza o escritor que mais apreciei -e “Guerra e Paz”, o livro que mais amei. Basta ouvir este nome para, do nada, surgirem imagens, sentimentos, a beleza da natureza em todo o seu esplendor, a vida e a morte...

Muito cedo me deslumbrou. Era tão estranho descobrir um livro assim! As personagens pareciam ter vida, eu seguia-as como se as conhecesse, não as largava, ia atrás delas, perdida e encantada, durante tardes inteiras, procurando os cantos mais escondidos da casa para não me virem interromper.

Os Rostov, antes de mais. A loucura das brincadeiras dos filhos adolescentes, as corridas pelos salões, os risos, a inconsciência e a imprevidência deles eram para mim reais.

Chegava a rir-me deles. Ou com eles. Tínhamos a mesma idade, podiam ser amigos...

E, nesse décor, desponta a figura atrevida de Natasha, ainda criança, como uma estrela que conduz os outros, brilhante, irreverente e egoísta. E Sónia - a parente pobre- que a segue, rendida, sem lhe poder resistir.

Vem, a seguir, o príncipe André Bolkonski, taciturno, reservado fechado no seu mundo interior. E a jovem Lise, a primeira mulher, figura apagada, suavemente queixosa. O seu parto doloroso e o sofrimento inútil.
A princesa Maria Bolkonskaya e o velho príncipe Bolkonski tão severos, recatados -tão diferentes daqueles “loucos” da família Rostov- e a generosidade de Maria e a sua dedicação ao pai.

Mais tarde, é a bondade de Pedro Bezukhov e a ingenuidade e credulidade que me enternecem. Pedro, quase a antítese de André, é expansivo, comunicativo, mas tímido. Interessa-se por tudo o que o rodeia, mas de modo quase infantil, desajeitado, infeliz.

Assim de repente, é o que recordo dessa primeira leitura. Sei que “saltei” praticamente toda a “guerra”...
Anos depois, senti a necessidade de ler o livro. Desta vez a sério. E, mais tarde ainda, voltei a lê-lo.

E penso ainda voltar a ler esse maravilhoso livro!

Achei engraçado ler no último “Magazine Littéraire” (que lhe dedica um “dossier” de várias páginas) o que escreve a filósofa Catherine Clément quando afirma “sentir necessidade de ler esse romance todos os anos”.
Talvez seja um exagero, mas posso compreender tão bem o que ela diz...

O que se descobre na “releitura” da obra é tão importante! Pequenas coisas, aparentemente insignificantes, ganham outro sentido lendo-as sob outras perspectivas, ou outra idade, enriquecem a nossa procura, ajudam-nos nas nossas dúvidas. Enriquecem-nos.

Clément acrescenta ainda: “é um livro “terapêutico”, que faz bem, dá vida, dá força aos que perderam a alma.”

Mais adiante: “(...) ninguém falou tão bem da alternância entre a alegria de viver e a angústia, ninguém falou tão bem do medo da morte, tão difícil de descrever.”

Cito estas opiniões porque me sinto de acordo com elas e não saberia expressá-las melhor. o general Kutuzov, no campo de batalha de Borodin, onde ficam caídos tantos jovens russos...

Da segunda leitura –ou talvez da terceira- foi a guerra que me atraiu pelas descrições maravilhosas; pela figura do grande general Kutuzov, na batalha de Borodine, contra Napoleão; pelo sofrimento “verdadeiro” dos soldados, “carne para canhão”, que hoje continuam a sê-lo.
Tão evidente e presente no nosso quotidiano: as cenas de violência, de guerras sangrentas, de tumultos, de catástrofes perseguem-nos, tornaram-se lugares-comuns, em imagens cada vez mais delirantes e chocantes. Cada vez menos “sentidas” por quem as vê. Numa certa forma de indiferença...
uma imagem da 1ª edição de "Guerra e Paz", em russo



Lembro o príncipe André Bolkonski, ferido na batalha, o que ele pensa (“amo a vida!”-Ia ljublio gizna ) e o que vê no céu acima dele. "tão sereno", como dizia Camões...
Indiferente.

Há ainda a “figura” do célebre castanheiro que acompanha a vida dos personagens e que o autor descreve, nas diversas estações, e vai seguindo, observador silencioso, o desenrolar do romance, entre a alegria de viver e a angústia e a morte...

De tal modo Tolstoi marcou o seu tempo que o escritor russo Ivan Tourgueniev (*) lhe vai escrever, no leito de morte:

“Sinto-me feliz por ter sido seu contemporâneo, porque o senhor é o maior escritor da terra russa.”
Thekhov e Gorki, Bunin, admiram-no e visitam-no, no retiro de Iasnaya Polyana.

postal com retrato de Tolstoi, em 1905 , no seu jardim de Iasnaya Polyana

Ao longo da vida, Tolstoi procurara um sentido para a vida. Tentara “compreender e formular a aspiração ao bem e à perfeição, dignificando a sua vida. É essa a atitude de alguns dos seus personagens: o pequeno Nicolenka, de “Infância”, ou Pedro Bezukhov, André Bolkonski: foi essa igualmente a sua aspiração.

outro retrato de Tolstoi, por Repin, 1901, descalço e com a roupa que usavam os camponeses das suas terras


Nos últimos anos, parece ter encontrado uma solução. Na procura de um ideal de não-violência, de justiça social...

Corresponde-se com Gandhi que o procura e o respeita. Vai ser o "seu mentor" - e o de outros "pacifistas", como Luther King que o seguiram na sua forma de "resistência" pacífica.


“Guerra e Paz” é com certeza a sua obra-prima. É um fresco que se estende por várias décadas de vida de algumas famílias da aristocracia russa. Iniciada a sua escrita em 1864, é publicada em 1869.

Nos últimos anos, procura seguir um ideal de não-violência, de justiça social, que procura aplicar nas suas terras.

Há, ainda, a reacção do grande escritor francês, Flaubert, que, ao ler “Guerra e Paz”, não resiste e vai exclamando:

“Esta é de primeira ordem! Que pintor e que psicólogo!”

Creio que é o alternar entre o pintor e o psicólogo que marcam a sua diferença e grandeza ...

Quando Leão Tolstoi morre, no Outono de 1910 de há cem anos, o seu enterro atrai uma multidão, que chora e se lamenta, e entra pela propriedade do escritor, em Iasnaya Polyana, para lhe prestar uma homenagem. Não ao escritor, que desconheciam, mas à pessoa que ele foi.

Que merece ser homenageada, com certeza, mas muito mais o escritor que foi!


(*) Ivan Tourgueniev, romancista russo, autor de "Primeiro Amor" (de que existe uma tradução portuguesa); "Pais e Filhos"; "Histórias Moscovitas".
Grande amigo de Flaubert e Georges Sand, passa grandes temporadas em casa dela, ou de Flaubert, vivendo a maior parte do tempo em Paris.


NOTA:

Vai sair em breve o filme realizado (dia 24 de Novembro) por Michael Hoffman, “O último Outono”, sobre os últimos dias de Tolstoi. É uma co-produção internacional onde participa a actriz inglesa Helen Mirren e Christopher Plummer.


Outras obras de Leão Tolstoi, em português:

"Anna Karénina"
Muitos outros títulos de obras de Tolstoi -e as lindíssimas capas dos livros da Editorial Inquérito- podem ir vê-las neste site da "Livraria Lumière" onde tudo se encontra, com paciência: http://livrarialumiere.blogspot.com/ e com certeza se poderá comprar!

Só que é no Porto. Mas podem encomendar! Foi no Catálogo da livraria online que encontrei e "roubei" esta bela capa de outra "Ana Karenine", o livro por onde a li e que perdi com o passar dos tempos...

Ora vejam se não era bonita:



A nova edição, de "Anna Karénina", 2009, da Qetzal
"Guerra e Paz", 2005, editora Presença
"A Morte de Ivan Ilitch", em edição recente
"Sonata a Kreutzer"



No Brasil, há várias traduções, além da de Guerra e Paz que referi acima.


"A Morte de Ivan Ilitch", por exemplo.

Nota sobre as traduções em língua portuguesa:


"Em português, entre o Brasil e Portugal, temos Nina Guerra e Filipe Guerra, Boris Schnaiderman no Brasil, todos traduzindo directamente do russo; Gustavo Nonnenberg (via versão francesa), Oscar Mendes e João Gaspar Simões, esta última agora reeditada em 4 volumes." (in blog: "talqualmente")

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mouloudji e Montmartre, «La Complainte de la butte»

Vista de La butte de Montmartre, ao entardecer
La Butte, de manhãzinha...

"Les escaliers de la butte sont doux aux malheureux..."

Montmartre e o Sacré Coeur

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Outro cantor, outra canção: Mouloudji e a canção "Un Jour, Tu verras"

Penso que Mouloudji - Marcel Mouloudji- é um cantor menos conhecido: deixo-vos alguns dados sobre a sua vida...




MOULOUDJI
Marcel Mouloudji nasce no dia 16 de Setembre de 1922, no Hospital Hôtel-Dieu de Paris. É filho de Saïd Mouloudji, argelino Kabyla, nascido em 1896 na região de Sidi-Aïch, e de Eugénie Roux francesa da Bretanha, nascida em 1901.


O pai, analfabeto, alojado num quartinho com os dois filhos quando a mãe é internada por problemas mentais, vê-se aflito para os educar. Um, André, é doente, e Marcel é um sonhador suave que consegue encontrar sempre poiso.

Durante muito tempo vive em casa de Jean-Louis Barrault grande actor e realizador francês, casado com a actriz de teatro Madeleine Renaud, que o introduzem no meio artístico de Paris.
Marcel inscreve-se com o irmão André num movimento das juventudes comunistas, depois nos "Falcões vermelhos" ("
Movimento internacional dos Falcões - Internacional socialista da educação" - animado por educadores saídos de diferentes correntes do mundo operário, libertário, anarco-sndicalista, etc.)


Em 1935, conhece Sylvain Itkine, realizador de teatro do "Groupe Octobre”. Participa na vida artística associada ao Front populaire de 1936, e vive em semi-clandestinidade durante a Segunda Guerra mundial.

Em 1945, contará a sua experiência no livro Enrico -que recebe o Prémio da Pléiade.
Nos
cabarets em voga, canta Boris Vian (Le Déserteur) ou Jacques Prévert, e interprète algus papéis no filme "Eaux troubles" de Henri Calef, em 1949, participa no filme "Boule de Suif" (Christian-Jaque, 1947) e em "Nous sommes tous des assassins" (André Cayatte, 1952).

Segue-se uma longa carreira de cantor.
Morre em 14 Junho de 1994, ainda cheio de projectos na cabeça : a continuação das memóriras 50 anos depois do 1º volume, e um outro álbum.
Está enterrado no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris.

Ouvir Jacques Brel: "Orly"


Léo Ferré - La vie d'artiste (1975)

Sem palavras: Léo Ferré e a canção "Avec le temps"



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Raymond Carver em "versão original"...


CARVER EM VERSÃO ORIGINAL?

Li há poucos meses no Nouvel Observateur que iam sair em França as “Obras Completas” de Raymond Carver (editions de l' Olivier).

Nada de estranho, aparentemente: mais uma edição completa. No entanto, trata-se de um caso especial e estranho.

Escreve Didier Jacob, o articulista: “Trata-se da história incrível de um dos grandes escritores do nosso tempo a quem roubaram a vida, o estilo e a obra –considerada por muitos como uma das mais importantes da 2ª metade do século XX.


Trata-se de um autor que foi considerado “minimalista” –simplesmente porque o editor lhe cortava os textos antes de os publicar.
Hoje, trinta anos mais tarde, as suas histórias são reeditadas com uma nova tradução, na versão original...”

Esta é a parte estranha: a
“versão original”!

De facto, o editor de Carver, Gordon Lish, reduziu-lhe os livros, que lhe publicava, a metade, cortou, alterou nomes, modificou finais, substituiu páginas inteiras, mudando até os títulos de contos.
Gordon Lish quase transformou Raymond Carver (*) noutro escritor...

Raymond Carver nasceu em 25 de Maio de 1938 no Oregon.
Costa do Oregon


Cresceu em Yakima e morreu, em 2 de Janeiro de 1988, em Port Angeles, Washington.
Durante anos sofreu de alcoolismo "agravado" –tal como outro escritor e seu amigo, John Cheever, seu companheiro de bebedeiras...

O próprio Raymond Carver confessa, em 1973: “durante toda a vida não fiz mais nada se não beber.”

No entanto, durante a vida, fez todos os trabalhos possíveis e imagináveis: de porteiro a guarda nocturno, de segurança a empregado de limpezas num hospital, fez as coisas mais absurdas que se possam imaginar.
Também estudou, publicou poemas e ensinou inglês –o que considerava “um pouco de sol num oceano de depressão...”
E escreveu...

Páginas e páginas. Publicou os seus contos em diversos jornais e revistas, como o New Yorker e a Esquire, contos esses que mais tarde foram reunidos em livros e em colectâneas e traduzidos em dezenas de línguas.

O editor, Gordon Lish, encontra Carver em 1967. É o chefe de redacção da revista “Esquire” que começara a publicar os seus contos.
Convence-o a contar, em contos curtos, a vida das pessoas comuns.

Era o que Carver fazia já. Contava a sua experiência de vida sem alegrias, de miséria envergonhada. A solidão, o abandono das vidas das pessoas vulgares, nas grandes cidades.
Em textos curtos.

Port Angeles, a cidade onde o escritor viveu e morreu

Só que o editor, pressentindo uma certa falta de vontade no autor e a sua fragilidade, se encarrega de os “encurtar” ainda mais, acabando por os “estropiar”.

Em 1980, o escritor revolta-se. Gordon Lish, o editor, quer publicar novas histórias dele, depois de lhes ter cortado mais de metade!

Decide escrever-lhe e “proíbe-o” de publicar esse texto amputado.
Lish não se impressiona minimamente, corta mais um bocado e publica, na prestigiosa editora de Nova Iorque, Knopf, o livro a que altera mesmo o título, chamando-lhe “What we talk when we talk about love” (Do que Estamos a Falar Quando Falamos de Amor). O livro é publicado em Abril de 1981, sem autorização do autor.

Esta colectânea de dezassete contos vai transformá-lo, na América, em mestre do minimalismo.
O que ninguém sabia, na altura, é que a obra original de Carver havia sido brutalmente modificada pelo editor.

A "nova versão" -no fundo, a verdadeira- revela um escritor bastante diferente...

"Begginers -título da edição americana- é um extraordinário conjunto de histórias passadas no Midwest americano, cujas personagens são homens e mulheres que bebem, pescam e jogam às cartas para suavizar a solidão e a passagem do tempo.

Publicada nos Estados Unidos, em 2008, depois de um minucioso trabalho de restauração dos textos, esta nova edição deve-se à iniciativa da poetisa Tess Gallagher, última mulher de Carver.

Próximo de uma certa forma de minimalismo (**), o autor é, no entanto, também, um “criador de atmosferas", revelando uma "grande dimensão afectiva, uma inclinação para a tolerância e compaixão pela condição humana"
(palavras de apresentação da edição americana, in wikipedia).
Na apresentação da edição portuguesa diz-se:
O manuscrito, que Lish cortou, encontra-se preservado na Biblioteca Lilly da Universidade do Indiana.
Os contos originais de Carver foram recuperados transcrevendo as palavras que este bateu à máquina e que estão escondidas debaixo das alterações e cortes que Lish fez à mão.
Refere a edição portuguesa, da editora "Qetzal", saída em 2010, com o título "O Que Sabemos do Amor" (Begginers, na edição em inglês), tradução de João Tordo.

capa muito feliz da edição da Qetzal
No Brasil, o verdadeiro Carver está restaurado na edição integral dos seus contos originais, sob o título Iniciantes, em tradução de Rubens Figueiredo, editora Companhia das Letras (ver imagem da capa, no início do "post").
Antologia de alguns dos seus Contos, traduzidos no Brasil

É, com certeza, um escritor que vale a pena ler! Até na "versão cortada", confesso que gostei de o ler...

Queria ainda acrescentar que, destes dezassete contos, considerados obras-primas da ficção americana contemporânea, alguns foram adaptados ao cinema por Robert Altman no filme "Short Cuts".
"Short Cuts" é um filme dramático, realizado em 1993 por Robert Altman. O filme inspira-se em 9 pequenas histórias (short stories) e um poema de Raymond Carver." (wikipedia)
Deixo-vos, para terminar, um excerto do conto "Por que não dançam", traduzido para a Qetzal, por João Tordo:

"Na cozinha, ele serviu-se de outra bebida e olhou para a mobília de quarto que estava no jardim da frente. O colchão estava despido e os lençóis às riscas cor-de-rosa dobrados junto de duas almofadas em cima da cómoda. Tirando isto, as coisas estavam dispostas quase da mesma maneira como tinham estado no quarto — mesa-de-cabeceira e candeeiro de leitura do seu lado da cama, mesa-de-cabeceira e candeeiro de leitura no lado da cama dela. O seu lado, o lado dela. Pensou nisto enquanto bebericava o whisky. A cómoda encontrava-se a curta distância dos pés da cama. Passara os conteúdos das gavetas para dentro de caixotes nessa manhã, e os caixotes estavam na sala de estar. Havia um aquecedor portátil junto da cómoda, e uma cadeira em verga com uma almofada decorativa aos pés da cama. Os móveis da cozinha em alumínio polido ocupavam uma parte da entrada para a garagem. Uma toalha amarela de musselina, demasiado grande, que lhes tinha sido oferecida, cobria a mesa e pendia dos lados. Um feto dentro de um vaso estava em cima da mesa, junto de uma caixa com talheres e um gira-discos, também ofertas. Um grande televisor, modelo de cómoda, estava pousado sobre uma mesa de café, e a alguns passos desta encontravam-se um sofá e uma cadeira e um candeeiro de pé. Tinha ligado uma extensão à tomada e havia electricidade, as coisas funcionavam. A secretária estava encostada à porta da garagem. Havia alguns utensílios em cima da secretária, junto com um relógio de parede e duas gravuras emolduradas. Havia ainda na entrada para a garagem um caixote com copos, chávenas e pratos, cada um dos objectos embrulhado em papel de jornal. Naquela manhã ele esvaziara os armários e, com excepção dos três caixotes na sala de estar, estava tudo fora da casa. Uma vez por outra um carro abrandava e as pessoas olhavam. Mas ninguém parava. Ocorreu-lhe que também ele não pararia."

Vão lê-lo...

(*) Raymond Carver publicou grande variedade de contos em jornais e revistas.
As suas histórias têm sido incluídas nas mais importantes colecções norte-americanas, tais como Best American Short Stories e o The PEN/O. Henry Prize Stories. (The O. Henry Award é o único Prémio atribuído anualmente às short stories de mérito excepcional. O. Henry era o pseudónimo do famoso escritor de contos William Sydney Porter (11 de Setembro de 1862 – 5 de Junho de1910).

o contista americano O. Henry

(**) O minimalismo literário foi descrito, numa célebre definição de Hemingway :
"Pode omitir-se tudo desde que se saiba que se está a omitir, e a parte omitida vai fortalecer a história e fazer o leitor sentir algo mais do que aquilo que compreende.”