segunda-feira, 26 de março de 2012

"Sê todo em cada coisa..." como o lobo uiva ao luar...





"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

Ricardo Reis
14/02/1933





domingo, 25 de março de 2012

O pintor e o calendário


O pintor é o  britânico L. S. Lowry (Laurence Stephen Lowry) nasceu em 1 de Novembro 1887 e morreu em 23 de Fevereiro de 1976.

Lowry era filho do agente de vendas irlandês Robert Stephen e de Elizabeth Hobson, pianista e professora de piano, da classe média suburbana de Victoria Park, em Rusholme.

Nasce na Barrett Street em Stretford, no Lancashire - cujos campos que pinta em muitas das suas paisagens.



Nunca estudou em nenhuma Escola de Arte mas frequentou aulas nocturnas, durante muitos anos.

Sabe-se que, em 1905, estudou desenho na Manchester Academy of Fine Arts e no Salford Royal Technical College e que, em 1920, ainda frequentava essas aulas.

Viveu em Pendlebury e aí trabalhou cerca de 40 anos. Lowry é conhecido pelas suas pinturas de cenas dos distritos industriais ingleses da Inglaterra do Norte do início do século XX.



Pintou também paisagens desertas e sem gente. Pintava de modo muito pessoal paisagens urbanas e por vezes incluía nelas figuras humanas -"the matchstick men” - (os homens pauzinhos de fósforos?). 

Depois da sua morte foram encontradas as suas pinturas de “marionetes” até então secretas desconhecidas.


Descobri-o por acaso num calendário que encontrei em Guildford, na Livraria Waterstone's.

Era para o oferecer a alguém que afinal já tinha um calendário do Leonardo da Vinci em casa e mais três no escritório...

Guardei-o para mim:  lembrei-me que não tinha nenhum!
Gosto muito da pintura de S. L. Lowry!

É o meu calendário para 2012...

Cada mês descubro um quadro diferente... E cada dia me parece diferente também…

sábado, 24 de março de 2012

Ainda Fernando Pessoa / Ricardo Reis e a "ataraxia" (discutível) necessária...



"Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita ou oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido


De afectos, tenha a fria liberdade
dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses."


Ricardo Reis, POesia

Poesia de Fernando Pessoa, Ricardo Reis hoje...



"Estás só. Ninguém o sabe.
Estás só.
Ninguém o sabe.
Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada."


Ricardo Reis, Poesia, Assírio & Alvim

sexta-feira, 23 de março de 2012

Diane Krall "Stop this world" ...



http://youtu.be/ZSWrivIB-a0

Não tenho - sabe-se lá por quê- acesso ao Youtube. sorry... A música é linda!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Era para a Margarida: "Margherita", cantava Riccardo Cocciante...mas o youtube não permitiu...

MARGHERITA, de Riccardo Cocciante


Io non posso stare fermo
Com le mani nelle mani
Tante cose devo fare
Prima che venga domani.
E se lei già sta dormendo
Io non posso riposare
Faró in modo che al risveglio
Non mi possa più scordare.


PerchÉ questa lunga notte non sia nera più del nero
Fatti grandi, dolce luna
E riempi il cielo intero
E perchè il suo sorriso possa ritornare ancora
splendi il sole domattina come non ha fatto ancora.


E per poi farla cantare le canzoni
Che hà imparato
Che io construiro il silenzio
Che nessuno ha mais sentito...


Svegliamoci tutti gli amanti
Parlerò per ore ed ore
Abracciamoci piu forte perche lei vuole l’amore
Poi torniamo per le strade e mettiamoci a ballare
Perche lei vuole la gioia
Perche lei oddia il rancore.
Poi con secchio di vernice
Coloriamo tutti i muri
Case piccole e palazzi
Perchè lei ama i colori.
Portiamo tutti i fiori che primavera dà


Costruiamoci una culla per quando è sera


Nel cielo cerchiamoci una stella
Perchè Margherita è buona
Perchè Margherita è bella
Perchè Margherita è dolce
Perchè Margherita è vera
Perchè Margherita ama


E lo fa una notte intera
Perchè Margherita è un sogno
Perche Margherita è il sale
Perche Margherita è il vento
e non sa che puo parlare.


Perche Margherita è tutto
Ed è lei la mia pazzia...
Margherita, Margherita


Margherita adesso è mia (amica)
La la la la
Margherita è mia (amica)...

http://youtu.be/YOiWNftto0s



Para a minha amiga Margarida, que foi minha aluna duas vezes, com idades diferentes, que hoje é professora, que passou férias comigo em Itália, que viajou connosco pelo mundo fora, e que conheço bem e de quem sou muito amiga!
Só não sei é se o Riccardo Cocciante consegue cantar ou não... Deixo a letra, just in case... Já é qualquer coisa.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia Internacional da Poesia: O meu olhar é nítido como um girassol...



Viva a Primavera!  E viva o Dia da Poesia! “O meu olhar é límpido como um girassol...”


O meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de, vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem... 
Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras... 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo... 

Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender ... 

O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ... 
Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro, Poesia Completa de Fernando Pessoa, Assírio e Alvim

terça-feira, 20 de março de 2012

Recordando Pierre Shoendoerffer e o filme Le Crabe-tambour (Fr.1977)


Pierre Schoendoerffer morreu...

Cenarista, realizador de cinema, jornalista, escritor, nasceu em 1928 em Chamalières (Puy-de-Dome) e morreu há dias em 14 de Março. 


Foram ontem as exéquias dele, em França.
Interno no Colégio Técnico de Annecy, durante a guerra, lê tudo o que encontra à mão e admira os aventureiros de todos os tempos.
Leu Joseph Conrad, Melville e adorou Joseph Kessel, cujo livro “La Fortune Carrée” o entusiasmou ao ponto de decidir da sua vida futura. Que o "encorajam", como ele diz, a seguir um caminho novo na vida... 


Herman Melville
Joseph Conrad
Josph Kessel




E vem o sonho de se tornar marinheiro, ele que nunca tinha visto o mar!
De Shoendoerffer vi há muito tempo um filme que não esquecerei: “Secção 317” (Prémio do Festival de Cannes de 1965), com dois grandes actores: Bruno Cremer e Jacques Perrin. A verdade é que escolheu sempre os mesmos actores para os seus filmes.
Filme de guerra, duro, cheio de dor, de desencanto e ao mesmo tempo - nem sei bem como - de esperança... Pela solidariedade? Talvez...



Schoendoeffer escreveu também um livro, “A asa da borboleta”. Lembram-se do “efeito borboleta”? "Ali, revela os movimentos íntimos, as convulsões, acções que “afectam” todo o mundo, (todo o ser humano?), mesmo que se passem do outro lado do planeta".
Ou, apenas, num barco, a meio do mar...
Encontrei mais este apontamento no L’Express online, numa notícia sobre a sua morte, em que se fala do livro:
“ (...) a ideia não é nova: o bater de asas de uma borboleta no mar da China pode provocar um tufão no Golfo do México.
Mas na “Asa da borboleta”, de Pierre Schoendoerffer, a ideia toma toda a sua a outra dimensão.
Romance do mar onde os homens se rasgam num cargo infame".
Lembro o filme de Hitchcock “Um barco e nove destinos" (Lifeboat, 1944)), baseado numa história de John Steinbeck, onde o drama acontece, idêntico.

Barco de sobreviventes, à deriva,  durante a Guerra, a luta pela vida, contra tudo e contra todos acirra-se.
Porque o homem na necessidade (ou mesmo sem a necessidade...), perde a dignidade, regressa aos instintos e... torna-se num lobo! Pior, porque o lobo é o lobo, os seus "motivos" são outros e tem sempre categoria!
Vi no domingo passado, na TV franco-alemã, ARTE, outro filme  “Le crabe-tambour”, realizado em 1977. Filme doloroso, por vezes difícil de seguir pelos constantes flash-backs.  
A história de dois militares, ex-combatentes - na Marinha de Guerra Francesa- , na Indochina e na Argélia, cruzam-se, nesses períodos de guerra, com uma estranha personagem. 
Na viagem, na acção presente, evocam o jovem militar que, separadamente, conheceram, e a quem chamavam o “crabe-tambour” (o caranguejo-tambor, do nome que o pai lhe dera em miúdo), sempre acompanhado por um gato preto que ele dizia ser a sua consciência – "pesada,  mas incorruptível".
Figura misteriosa que se tornou numa lenda para os que o conheceram: combatente na Indochina, prisioneiro de guerra, combatente na Argélia "do lado errado", que no fundo admiraram mas talvez não tenham sabido compreender sempre.
No filme perpassa a sombra da morte adiada,  a dificuldade de viver e de morrer: a “morte passa sempre, vai e volta e um dia para em cima de nós”. 
Como não pensar nos “talentos” perdidos? Como não saber perdoar? Como não prestar homenagem aos que a mereceram?
É o que pensa o Comandante - chamado pelos seus subordinados, afectivamente, "le vieux", ou "o rabugento". Nesses longos meses, passa em revista a sua vida e a dos que com ele viveram de perto, parte dela.


Nesta, que ele sabe vais ser a última viagem, o Comandante do barco-escolta "Jaurèguiberry" vai inconscientemente (ou conscientemente) à procura dessa personagem perdida que apenas sabe ser pescador solitário num bacalhoeiro, nos mares do Norte.
E mais: “não há mal e bem, há apenas um bem ...e outro bem...”, diz o Comandante, papel dado a Jean Rochefort (que ganhou em 1978 um César para o melhor actor por essa interpretação).
É, de facto, ele o extraordinário Comandante do  “Jaurèguiberry” - que cruza os mares do Norte, socorrendo os barcos pesqueiros isolados  nas águas geladas da Terra Nova, levando-lhes víveres, o correio, medicamentos. 
Claude Rich, Jacques Perrin, Bruno Cremer e  Jacques Dufilho são outros actores perfeitos...
Digno de Melville, Kessel  e Conrad, filme inesquecível!

Filmes de Pierre Schoendoerffer:

La passe du diable, 1958
Ramuntcho, 1958
Pescador da Islândia, 1959
Secção 317, 1965
Le  crabe-tambour,  1977
Dien Biên Phù, 1992
L’honneur d’un capitaine, 1998
Là-haut dans les nuages, 2003

Música suave para descansar: Maurizio Pollini Chopin 24 Preludes 15-19 3/4

Frédéric Chopin, pintado por Hayez

segunda-feira, 19 de março de 2012

Hoje... Ontem...Atenção ao amanhã! Somos todos iguais!


Tiroteio em frente de uma escola judia em França, em Toulouse. Um professor e duas crianças de 3 e 6 anos mortas. Um adolescente de 17 gravemente ferido. Ignora-se o paradeiro do assassino. Sabe-se o modus operandi...

Há dias, matara a sangue frio (mesma arma identificada pelas balas, mesma scooter usada, mesmo esquema) 3 paraquedistas em frente do próprio quartel. Por acaso, dois magrebinos e um antilhês...

Outra vez?


Demasiadas coincidências: crianças judias, soldados árabes, um soldado, "negro", das Antilhas...

Há qualquer coisa de  repetitivo e assustador, nisto.

Quem não recordará a matança na Noruega? Um desequilibrado? Como hoje, metódico, tranquilo, organizado.

Já chega!


E na América? E em África? E o colonialismo?

E, andando um pouco mais para trás, a hecatombe: a matança de judeus, ciganos, homossexuais nos campos de concentração...

Inquietante, sem dúvida!

Defendamo-nos uns aos outros: somos todos iguais!