terça-feira, 14 de abril de 2009

o comboio da noite






o comboio da noite





















O comboio da noite


Sempre senti o fascínio dos comboios da noite, no Inverno. O mistério que têm, com a escuridão e o frio, as estradas cinzentas, as terras com as suas luzinhas que passam a correr, as estações em que se não pára. Tudo sugere a distância, o afastamento das coisas vãs, o movimento: a liberdade.

Imagino-me a viver a aventura que seria viajar no Transsiberiano ou no Orient Express, ou, ainda mais aventuroso, no comboio para Irkutsk, na peugada do cavalo do correio do Czar.
Ou, apenas, no wagon-lit que me levaria a São Petersburgo, a bela, longínqua, cidade de Pedro o Grande, adormecida ao pé das águas do Neva, com o rio Moika, a Fontanka, a laguna.

Imaginando, empre, as estepes desfilando, numa paisagem de neve, as florestas de abetos esguios, e de ulmeiros, com seus troncos brancos salpicados de cinzento esverdeado.

Não é exactamente assim o comboio da noite onde vou, o comboio que me leva a casa, seguindo ao longo da costa.
Hora de ponta. Sentei-me num dos poucos assentos que restavam. Os lugares do lado do mar estavam ocupados.

Fora, adivinha-se a sombra das águas, o cheiro da maresia, um pouco de cais branco e negro, as docas, a areia e os barcos na marinha, a lua reflectida no mar, ou o vermelhão do crepúsculo no horizonte.
Dentro, as pessoas bamboleiam o corpo, ainda rígido, a abandonar-se ao cansaço do dia de trabalho.

Rostos marcados, traços duros, olhar desconfiado, sem vontade de se entregarem, presos da tensão do dia que começara cedo e que ainda não acabara para muitos. Faltava a chegada a casa, outras preocupações para resolver, o jantar, os filhos. Mas acabam por se entregar ao bem-estar que os invade no calor da carruagem, e adormecem.

Uma rapariga, à minha frente, lê um livro volumoso. Com a gola do casaco levantada, prendendo nela os cabelos de um castanho dourado, estremece na carruagem aquecida e, pelo modo como segura as abas do casaco, bem apertadas junto ao pescoço, não parece ter apenas frio, parece ter arrepios de febre.
Duas senhoras iguais, na toilette pouco cuidada, nos cabelos amarelos mal pintados, com o mesmo corte vulgar, vão sentadas em lugares, frente a frente, falando, agarradas ao telemóvel.
Desesperadamente sós...
As conversas cruzam-se, interrompem-se, em vozes e modulações diferentes.
- Olha, querida, a mãe já vai no comboio, diz ao paizinho que estou a chegar...
A outra, numa voz irritada, gritava para o telemóvel:
- Não foi isso que se combinou na reunião, percebes?
E agitava a mão livre, afastando o cabelo da testa.
- Sim, filha, levo o que me pediste. E até uma sobremesa que tu gostas!, continuava a outra, num tom doce, com um sorriso que lhe mostrava as gengivas.
E a da frente continuava, abespinhada:
- Nem penses! Era o que faltava! Não cedo nada!
Atrás de mim, um pouco ao longe, uma voz de homem, impessoal, monocórdica, diz para o telemóvel:
- Minha senhora, os nossos serviços estão a par desse problema... Têm a competência... Claro, claro, assim que for possível... É do nosso interesse...
E as conversas continuam, interrompidas por uma ou outra exclamação, ou com silêncios pelo meio.
Olho para fora. Os prédios correm, com as luzes bruxuleantes da iluminação pública, as silhuetas desenhando-se detrás das cortinas dos prédios altos. A fila de carros no trânsito alonga-se, os farolins são uma mancha vermelha brilhando na esteira deles. Arrancam, travam, avançam, enquanto o comboio desfila, desafiando-os, ultrapassando-os a toda a velocidade. Do lado contrário, está o mar que não se vê, por detrás do espelho negro das janelas, onde se revelam em película colorida os rostos lívidos dos passageiros.
- Vai ligando o forno, sim? Beijinhos...
E esta desliga, olhando-se no vidro, ajeitando o casaco e o cachecol, feliz.
- Isso era o que eles queriam!, continua, teimando, a outra. Mas não foi isso que se combinou na reunião! Eu cá não aceito...
A rapariga do livro embrulha-se melhor no casaco, encosta-se ao vidro fresco da janela, procura uma posição para dormir, a cabeça descai devagarinho.
Os outros passageiros vão silenciosos, uns lêem o jornal que tiraram da rede do comboio, outros cederam ao torpor e dormem, de boca aberta.
Na minha frente, uma jovem mulher, com um casaco preto e uma bonita écharpe verde esmeralda, que lhe aviva a pele clara, tem no colo um monte de fotocópias, sublinha frases, fórmulas, números com um marcador amarelo, e aponta-os cuidadosamente num bloco de notas. Estuda, atenta ao que escreve. Ao lado, um senhor levanta-se para sair na próxima paragem, pede licença, e ela, distraída, ao querer dar-lhe passagem, deixa cair os papéis das mãos, consegue segurá-los com os joelhos, apertando a caneta nos dentes, sorri, desculpa-se. Senta-se outra vez, junta as folhas, põe a caneta e o marcador na mala de mão. Olha os outros passageiros, sem ver, dá um suspiro, encosta-se no assento e adormece. A cabeça vai abanando, docemente, ao sabor do movimento do comboio, ela não sente nada, não ouve o barulho em sua volta, sorri a dormir.

Na minha imaginação, continua a viagem eterna do comboio da noite, através das estepes, cheio de luzes, recortando figuras chinesas, pessoas invisíveis, ou a sombra de alguémque, detrás do vidro da janela, afasta as cortinas de renda na carruagem do wagon-lit.
O fumo sai pela chaminé da locomotiva e espalha-se na noite enevoada, o comboio vai apitando, e desaparece na mancha negra da floresta.

Dentro do comboio há suspiros de cansaço, de impaciência nas paragens, mas eu estou ausente, continuo a viajar. Há tanta beleza pelo mundo fora, paisagens de neve nos quadros, mar, uma árvore vermelha,à beira de um lago
E há sempre o comboio da noite...
Fecho os olhos e continuo o sonho.





o transiberiano






sábado, 11 de abril de 2009

a beleza...e Kawabata


http://www.youtube.com/watch?v=VNkUZ6y_Pkw

(a beleza da música: Cowboy Junkies,The Trinity Session)






























"A thing of beauty is a joy for ever" (Shelley)























Falei de uma descrição fantástica de Kawabata (Yasunari Kawabata, prémio Nobel em 1968), no seu livro Terras de Neve, que me impressionou e nunca esqueci.
Trata-se da viagem que famílias inteiras de japoneses fazem todos os anos para irem ver as florestas de acer rubrum, as árvores que se cobrem de folhas vermelhas, no Outono.

Espectáculo de certeza inegualável.
Decidi fazer uma pesquisa -na internet, claro- e fui à procura do que era esse tal acer rubrum que eu não conhecia. Fiquei um pouco com a ideia de que esse tal acer rubrum ("acer", ou "bordo", em português) pertencer à família do nosso plátano.
Descobri que existem exemplares na serra do Buçaco mas que no Japão, nos Estados Unidos (New Hampshire), no Canadá, é frequente esse tipo de árvores aglomeradas em florestas, manchas rubras contra o azul do céu.
Foi tudo isto o que encontrei... Que gostava que vissem.
Imagens de beleza...

... a que não resisti a juntar outras imagens de beleza...

















































































































e outras belezas...















a belíssima Piazza Navona

















Petra, na Jordânia














Transcrevo um pouco do livrinho de Kawabata, não resisti...



“Como o interior do comboio não era muito claro, aquele espelho não era tão nítido quanto deveria ser. E não reflectia bem as imagens. Por isso, enquanto Shimamura olhava compenetrado, foi-se esquecendo da existência do espelho e começou a pensar que a rapariga flutuava na paisagem do entardecer. Foi nesse momento que os raios de sol, já ténues, iluminaram o rosto dela. O reflexo do espelho não era suficiente para apagar a claridade de fora, nem esta forte o bastante para ofuscar a imagem reflectida no espelho. A claridade passava como um relâmpago pelo seu rosto, mas não era suficiente para o iluminar. A luz era fria e distante. No momento em que o contorno da sua pequena pupila se foi iluminando, como se os olhos dela e a luz se sobrepusessem, os seus olhos tornara-se um pirilampo misterioso e belo que pairava entre as ondas da penumbra do cair da tarde.”

Yasunari Kawabata,
Terra de Neve



































































a vida era assim em S. Tomé...










um caroceiro à beira-mar



Viver em São Tomé não era sempre simples. Coisas boas, coisas menos boas, momentos inesquecíveis, momentos duros.
Como sempre. Como em toda a parte.
Não esqueço as paisagens belíssimas, as praias de areal branco, vasto, enquadrado de coqueiros de uma doçura de formas como nunca vi, de vegetação variada, o óbó (a floresta virgem), com todos os tons de verde, verde-cinza, verde-vivo, brilhante, na névoa, isto era a beleza de São Tomé.
Os aspectos difíceis também existiam a par da beleza.
A temperatura subia quase a 40º, com humidade de 90%, na estação das chuvas que durava oito meses, nos outro quatro meses (os meses sem "r", Maio, Junho, Julho e Agosto) era a estação da Gravana, fresca e seca, em que a temperatura rondava os vinte e tal graus.
Os são-tomenses adoeciam muito mais neste período, por estranho que pareça.
Diziam que era da secura do ar que fazia "arder a garganta", por causa das poeiras que o vento trazia.
A verdade é que tinham tosses estranhas, queixavam-se de frio e constipavam-se.
A única doença que baixava de virulência era o paludismo. A explicação era simples: as águas paradas das chuvas secavam, os pântanos também, os caules das bananeiras não guardavam já, na conchinha junto dos ramos, as gotinhas de água, sítios esses onde a fêmea do mosquito anofeles se escondia e depositava os ovos.
Nessa altura era possível jantar no jardim, estar ali a ver o céu estrelado com suas constelações variadas, diversas do hemisfério norte, como a constelação do Cruzeiro do Sul que eu considerava uma coisa misteriosa.
Ou ir passear à beira do Água Grande, ou ver a balaustrada da Baía de Ana Chaves, junto aos enormes caroceiros que tinham, nessa altura, maravilhosos tons de vermelho, rôxo, dourado, cor de ferrugem.
Tropeçávamos junto às raízes salientes que se alçavam do chão, levantando as pedrinhas brancas dos passeios junto ao mar.
Espalhavam-se ao longo da Rua Morta que ia desembocar no rio Água Grande, onde vivi uns meses antes de escolher a casa da Rua de Goa, não muito longe do velho Clube Náutico arruinado, casa onde vivi cinco anos.
Lembro uma história que escrevi nessa altura e que mais tarde juntei a outras num livrinho cuja publicação devo à minha amiga Alda Espirito Santo, que hoje já não existe e muita saudade me deixou.

"A Rua Morta

Chove na Rua Morta. Vejo passar em frente da janela, indiferentes, cobertos com sombrinhas sem varetas, tapando-se com sacos de plástico, uma simples folha de bananeira na cabeça, as pessoas da minha rua.
É a estação das chuvas.
Com ela vem o fascínio das histórias lidas na adolescência, a sugestão de aventura e de perigo.

Chove sempre. A chuva fina cai, sem parar, a humidade entranha-se no corpo, nos cabelos, forma pequenas gotas que pingam devagar ou se prendem, como diamantes minúsculos, nas teias de aranha dos ramos das árvores.
Pela rua abaixo, erguem-se caroceiros de troncos rugosos e folhas acetinadas, verdes e tenras, que as cabrinhas selvagens tentam roer junto às raízes salientes.
Têm frutos como amêndoas grandes que os miúdos cobiçam e vão buscar, trepando pela árvore até ao alto, equilibrando-se em malabarismos assustadores, ou fazem cair dos ramos lançando-lhes pedras. Pedras que, tantas vezes, ferem outro miúdo parado à espera.
É a estação das chuvas.

A chuva cai forte, bate nas caixas dos ares condicionados, com um ruído que lembra tambores de guerra. Torrentes de água suja descem pela rua inclinada. Longe, detrás de tudo, mas sempre presente, a floresta impenetrável, com a sua névoa eterna envolvendo a copa das árvores e, mais longe ainda, os picos das montanhas das quais nunca se vê o contorno definido.
Em cima, o céu cinzento, a alternar com azul, nos dias sufocantes, quando a chuva cai e é sorvida pela terra barrenta, gretada e seca. A floresta parece então afastar-se de nós e, no limiar do horizonte, o ôbô brilha em todos os tons de verde.

Em São Tomé, minha terra de passagem, que não aceitei ao chegar e que me fascinou, mais tarde, no mistério da vegetação, na doçura dos coqueiros inclinados sobre a areia branca das praias, na água azul, verde, ou cor de leite da baía Ana de Chaves, rubra ao poente.
Com a enorme acácia rubra ao lado da velha igrejinha desconsagrada.

Quantas vezes a renegarei? Quantas vezes me deixarei fascinar?

É a estação das chuvas.

Parece-me ouvir o mar, agora embravecido, ao longe, onde o céu escurece.

Os barcos baloiçam doidos no branco intenso da espuma. Da minha janela vejo passar as gentes da minha rua.
Continua a chover na Rua Morta.
(in "Ilhas na bruma", UNEAS, S.Tomé, 2006)

terça-feira, 7 de abril de 2009

"Ilhas na bruma", o paludismo e a Ilha de São Tomé

óleo de Nezó, pintor de São Tomé

a Milly, no jardim de São Tomé

Paludismo


Hoje a Milly tem paludismo.

O corpo agita-se, estremece, o rosto molhado está frio, apesar da temperatura ser quente àquela hora do dia.
Os olhos dela, virados para o tecto, parecem nem me ver.

Está deitada no pequeno divã do quarto do anexo da minha casa, que tinha sido arranjado quando cheguei, mas que, pouco a pouco, a força da natureza deteriorara –o clima quente e húmido facilita a invasão de todos os bichos, as chuvas contínuas vão descolorindo as tintas, estragando os telhados e sujando as paredes que ficam de um tom acinzentado.



As redes mosquiteiras furadas pelas brincadeiras dos miúdos da Milly deixam entrar insectos de todos os tipos e, com certeza, ao cair da noite, enchem-se de mosquitos. De repente, levantam-se baratas vermelhas que voam à nossa frente e nos assustam. Vou descobri-las em todos os cantos, até mesmo na dispensa, apesar de limpa a toda a hora.

- Então, Milly?, perguntei, limpando-lhe a testa com o avental que pusera à volta da cabeça.
- Dói todo o osso de corpo, dôtôra..., articula com dificuldade. Dói cabeça, dói corpo muito. Tenho muita febre, dôtôra!

E tinha. Pus-lhe a mão na testa e escaldava. O suor perla-lhe o rosto, uma mosca tenta poisar-lhe na cara e ela sacode-a com um pano.
Logo de manhãzinha, antes de vir para o trabalho, fora fazer a análise, a “gota espessa”, como já aprendera a chamar-lhe.

Tal como sabia agora distinguir os diversos tipos de paludismo: disseram-me logo que, na Ilha, eram quatro : o malariae, o vivax, o falcíparo e o ovale...

O Nini trouxera o resultado.
- É "F6", dôtôra, foi o Sr. Alcântara que disse...

Era o falcíparo, o plasmodium falciparum, de grau 6, daí o “F6”.

Dei-lhe a Resochina, que estava habituada a tomar mas que nem sempre fazia efeito.

Era o remédio que se tomava como prevenção, ao chegar a São Tomé, mas que, ao fim de três anos, deixara de me fazer efeito.

Passei então a ter crises ligeiras, que nunca iam além de F2,F3, raramente F4, e que não davam febre alta.

Que voltavam quase todos os meses.

Já vira a Milly sofrer com febres.

Lembro-me da ida a casa dela, pela primeira vez. Estava doente, tinha paludismo.

Eu tinha chegado há pouco e ela trabalhava há pouco tempo lá em casa. Nessa manhã, não tinha vindo e mandara a Daý substituí-la, dizendo que estava muito mal.

- A mamã está muito doente, dôtôrra, está cheia de febre, tem muita dor no corpo! , disse a Dáy na sua voz um pouco rouca.

Assustei-me e decidi ir vê-la.

Estava deitada dentro de uma espécie de caixote, tapada com panos de cores e sem colchão, encostando o corpo dorido e a cabeça febril numa grande almofada de cetim cor de rosa. Foi esta a primeira visão que tive da casa dela e só, então, percebi como viviam.
- Não temos cama, dôtôra, dormimos aqui todos... Marido não tenho, foi embora.

Dormia com os três filhos, os dois miúdos para os pés, ela e a Daý para a cabeceira, como ela me explicou. Parecia envergonhada ao contar-me isto.
Os filhos à volta dela olhavam-me, de olhos arregalados, curiosos, ainda não me conheciam.

Era uma casa tosca, de madeira, construída sobre estacas, que era a forma de proteger as pobres habitações das enxurradas que desciam lá de cima, quando chegavam as grandes chuvas.
Ficava num bairro da cidade, na subida da estrada que ia para a Trindade, continuava a subir até às roça do Monte Café e, por fim, chegava à antiga Pousada.

À entrada, três degraus, de madeira inchada pela água, inclinados, inseguros, com pregos a espreitar, soltos, onde os sapatos se prendiam.

Num cubículo estava a mesa e um fogareiro de carvão, algumas panelas e pratos, garfos e colheres soltas -isto era cozinha e sala. O calor, a humidade, abafavam-nos, no pequeno quarto, de janela sem vidros nem mosquiteiro, apenas um pano branco pendurado a fazer de cortina. Tudo me confrangia.

Ali estava ela agora, outra vez, a sofrer. Agora o paludismo era, infelizmente, uma coisa minha conhecida.

A propósito disto, recordo uma crise de paludismo, a mais forte que tive. Nenhum tratamento dos que costumava fazer (Halfan era um deles, dos poucos que se encontravam na ilha e vinha de França) me fez efeito e acabei por tomar comprimidos de quinino.

Devíamos viajar ao Gabão no dia seguinte.

Devo confessar que ir ao Gabão era um dos poucos divertimentos que eram possíveis, fora da ilha.

Ia-se num aviãozinho da Força Aérea, a viagem era curta e levava-nos de repente ao continente africano, a um mundo completamente diferente do da ilha.

Libreville era uma grande cidade, com cafés, bons hotéis, lojas, mercados onde se encontrava todo o tipo de artesanato: desde os colares de malaquite com o seu verde baço fantástico, aos marfins; dos panos do Gabão de cores vivas e desenhos alegres, aos objectos de couro delicadamente trabalhado e às elegantes estatuetas cópia dos bronzes do Benim; dos objectos de ébano aos panos em batik.

Nessa madrugada, acordei a tremer, com a cabeça pesada e oca, e o corpo a doer. Como dizia a Milly, “dói todo o osso de corpo!”. Era verdade.
Na véspera, tínhamos ido a S. João dos Angolares e já ali me sentira mal, enjoada, sem saber de quê.
eu e o meu cão Zac, em São João dos Angolares

Quando nos levaram a ver o lagar de óleo de palma, recordo ter tido a sensação que levara uma pancada no estômago, tive que olhar para o lado, não suportava ver aquela papa amarela dourada a enrolar, a ser mexida, a girar a girar.

Pensei que ia vomitar, senti-me tonta, e já nem suportei comer o calulu que geralmente adorava, nem aguentava o cheiro que vinha das arcas frigoríficas quando as abriam para tirar bebidas frescas: cheiro a peixe seco, a verduras, ervas, tudo misturado com aquela cor melada e com cheiro do óleo de palma. Julguei que me sentia mal e ia desmaiar.

Era paludismo. Chegámos a casa e não consegui comer nada, deitei-me. Era paludismo. Foi nessa madrugada que adoeci.

Pela primeira vez na vida tive de tomar quinino porque era um "F4", grau que até aí nunca tivera, e o tratamento normal não resultou.

Durante dois dias a cabeça doeu e parecia-me ter lá dentro um rádio roufenho, a tocar, que não me deixava aperceber de nenhum outro ruído.

Perdi a noção das coisas, do tempo que passava, e, quando acordei, sem ter dado pela passagem do dia e da noite, vi que tinha a mão mordida –uma barata picara-me e jazia morta, ao lado da minha cama.


O meu fiel cão Zac, ufano, olhava-me, contente de me ver acordar e com a pata ainda em cima da barata, como se quisesse mostrar-me o que fizera por mim.

Tantas histórias...

Nunca esquecerei a ilha, nem a Milly, nem o paludismo.

______________


(Nota: O Plasmodium é um parasita humano unicelular protozoário, que infecta os eritrócitos, causando a Malária. É espalhado em seres humanos pela picada da fêmea do mosquito Anopheles... Há quatro espécies que infectam humanos: P. falciparum, P. vivax, P. ovale e P. malariae.)

domingo, 5 de abril de 2009

a tentação da ficção policial... Why not?

(esta é a minha tentativa de ficção policial: uma história que se passa em vários lugares; o meu herói chama-se Michael Brenner e não tem nada de particular para ser um herói... só que se vê obrigado a resolver um enigma...

Estes capítulos da III parte do livro são quase o fim da história. Mas há o "antes" e o "depois". Quando publicar o livro, se publicar, podem ver... )



Os Olhos de Jade




III PARTE

Capítulo 1
O avião começava a baixar sobre a ilha de S. Tomé. Via-se mar, apenas mar e o avião baixava rapidamente. Onde iria pousar?

Michael sentiu-se mal. O avião aterrara.
Desapertou o colarinho da camisa colorida que Liliana lhe dera. Sufocava. Quando as portas abriram, desceu as escadas do avião recebendo no rosto o ar quente e húmido, denso e perfumado, cheirando a terra molhada e a especiarias.
Seguiu pela pista, a pé, atrás dos outros passageiros, até à aero-gare onde a multidão se acumulava, agitando-se, empurrando, procurando apanhar as malas e pacotes variados, meio desfeitos, amontoados numa carreta de madeira puxada por dois empregados e atirada com força de encontro à bancada de pedra, espécie de varandim descoberto onde as malas pareciam sugadas por braços invisíveis.
Conseguiu arrancar do monte a velha mala de couro e foi abrindo caminho até ao guichet dos passaportes e da vistoria de saúde. A confusão era indescritível: um aglomerado de pessoas, de braços esticados, agitava-se com os passaportes e os livrinhos amarelos das vacinas na mão. Empurrou, deu uns encontrões até ser arrastado, com os outros, para a saída.
Respirou fundo o ar pesado.
Vivera ali parte da infância e quase tinha esquecido tudo. Como se tivesse querido apagar da memória a lembrança. O abandono do pai? O choque do regresso a Inglaterra?

Era uma imagem estilhaçada que os cheiros da terra lhe vinham trazendo. Como num caleidoscópio, os bocadinhos de vidro colavam-se e desfaziam-se. A mãe, um chapéu de palha com fitas soltas, o riso dela, um jardim cheio de plantas verdes...
Pensou que estava em África, sobre o risco do Equador, de onde já se podia avistar a constelação do Cruzeiro do Sul, e onde as noites são iguais aos dias.
Era a estação das chuvas. O bafo da noite, o perfume enjoativo da terra, a frutos maduros, a canela, as magnólias, o suor que lhe molhava a testa e escorria para dentro da camisa, pesavam.
Parou a ver a noite negra e as luzes fora. Desceu os degraus da aerogare, olhando em volta. Tirou o casaco e dobrou-o. Lembrou-se de Joan, da angústia dos últimos dias passados ao pé dela. A imagem da mãe voltou com força. Recordou a poesia que o obcecara nos últimos tempos. Sempre a morte, a separação.
I go this way, you go that”, dizia a poesia.
Caminhos separados, para sempre... Assim seria. Passou a mão pela testa encharcada. Em frente, num largo com algumas árvores de flores coloridas, dois ou três táxis velhos, um ou outro carro em melhor estado, alguns jeeps modernos. As pessoas riam, gritavam, agitavam as mãos, saudando os familiares ou os conhecidos que tinham ido esperar o avião que chegava uma vez por semana de Lisboa. Do outro lado do mundo, da Europa distante.

Um motorista veio pegar-lhe na mala.
-“Hotel Miramar, chefe?”
-Sim, sim, pode ser o Hotel Miramar...- respondeu com voz arrastada.
Qualquer servia. Já se habituara a ser conduzido nesta viagem. Queria era ver um quarto fresco, uma cama e poder dormir. De repente lembrou-se que o Capitão, no Bairro Alto, lhe falara de um encontro no Hotel Miramar.
-“Óptimo”, pensou, e encostou-se para trás.

O táxi bamboleava, lentamente, travando a cada momento para se desviar dos buracos que crivavam a estrada. A praia, de areia branca e contornos suaves, com coqueiros debruçados sobre o mar, via-se do lado esquerdo, a lua amarela e enorme espreitava por detrás das nuvens negras. De repente, uma subida brusca que o táxi fez ruidosamente, embalando-se depois na descida. E, a seguir a uma curva mais pronunciada, surgiu diante dele o fulgor de uma baía que mais tarde soube chamar-se Ana Chaves e que nunca mais pôde esquecer. Os reflexos dos barcos parados, as luzes dos edifícios da Alfândega, fixas, que os iluminavam frouxamente. A escuridão, o agitar das águas negras, o tremeluzir de uma ponta de luar nos contornos doces da baía.
Michael olhava, fascinado.
- É maravilhosa, bolas! - exclamou.


O táxi seguia agora depressa demais para o seu gosto. Virou-se para trás e, pelo vidro sujo, olhou ainda a baía que se via agora do lado contrário, sobre o recorte das montanhas altas, que pareciam inclinar-se por detrás dela, e das casas baixas à entrada da cidade.
- Linda!
Do meio da noite, árvores enormes, com grossas raízes retorcidas à flor da terra, surgiam agora do passeio ao lado da balaustrada branca que corria ao longo do mar. Adiante, uma fortificação pequena, branca, quadrangular, recortada no negro do céu, com três estátuas gigantescas junto de uns velhos canhões ferrugentos, a apontar para o mar. O silêncio era interrompido apenas pelo bater das ondas de encontro às rochas vulcânicas onde se entrelaçavam os rebentos de algumas plantas como se o verde da ilha se quisesse prolongar até à água. Nunca tinha visto uma beleza natural assim.
De manhã dir-lhe-iam que as árvores das raízes grossas eram caroceiros e que as crianças deitavam pedras para fazer cair o fruto, o “caroço” e viu-lhes as folhas verdes e acetinadas. E que na estação seca, a Gravana, ganhavam todos os tons do Outono europeu, desde o castanho dourado ao vermelho rubi e ao roxo. Dir-lhe-iam que as estátuas eram dos descobridores da ilha.

Mas neste momento só sonhava com a penumbra de um quarto razoavelmente confortável e fresco. Sobretudo fresco!
O hotel tinha uma aparência agradável. Era uma construção baixa, um pavilhão grande, de formato irregular, com telhado de telhas escuras, muito inclinado. Pintado de branco, tinha uma forma estranha, quase nórdica que destoava naquela paisagem tropical.
Do outro lado da estrada, que era um caminho de passagem, alcatroado, debruçado sobre a praia, havia um falso cais de colunas, cortando o fio contínuo da balaustrada branca. Dentro do hotel cheirava a mofo, a pó, a flores e o hall estava, absurdamente, mobilado com sofás de pele branca que se pegavam ao corpo suado e quente das pessoas. À volta das paredes, o verde das folhas a nascer dos côcos meio enterrados em canteiros de cimento, cheios de terra negra. Num canto, junto da grande vidraça da entrada, uma exposição de esculturas de madeira, em raízes retorcidas, que o fizeram pensar em corpos enterrados. O ar condicionado funcionava mal e os mosquitos entravam cada vez que alguém abria a porta.
- Óptimo para o paludismo, não há dúvida!, pensou.
Encolheu os ombros e dirigiu-se ao balcão que se via ao fundo, do lado direito do hall.
- Queria um quarto, mas ainda não sei por quanto tempo. Confortável, com muita luz e, se possível, com vista para o mar...
- O Doutor não se preocupe, que vai ter um belo quarto! Luz não falta!
Era um rapaz forte com um sorriso agradável no rosto redondo.
- Quer que o acordem?
- Sim, pode ser às oito. Com o pequeno almoço, por favor. Não, não vale a pena, eu depois desço. Espero que uns amigos me contactem. Ligue-me para o quarto se alguém me chamar, seja a que hora for...
- Ok, chefe. Boa noite. Vai ver que gosta do quarto!

Assim que entrou, estendeu-se em cima da cama, com o corpo mole e transpirado. Depois levantou-se e fumou um cigarro. O ar condicionado era fraco e barulhento, mas, quando o desligou, entraram pela janela que vedava mal os ruídos da rua: vozes esganiçadas, risos, um galo a cantar, cães que uivavam em matilhas, iam e vinham como se fossem dar a volta ao quarteirão onde ficava situado o hotel. E o rumor do mar, constante e surdo.
Pelas frestas das venezianas entrava o reflexo da lua que se poisava no soalho de madeira escura. Abriu as vidraças e as portadas.
A lua enorme pairava no céu, agora mais baixa, bola de fogo que se reflectia como riscos na água negra. Inspirou fundo e deitou fora o cigarro, mas pareceu-lhe que os pulmões não recebiam ar. Voltou a fechar, aplicadamente, as portadas de ripinhas envernizadas, os mosquiteiros e os vidros. Ligou o aparelho de ar condicionado e o ruído arrastado encheu de novo o quarto.
- Melhor assim! Respira-se...
A mala estava aberta ao fundo da cama. Pensou em arrumar alguma roupa mas quando abriu as portas do armário, o cheiro a bolor e a naftalina foi tão intenso que voltou a fechá-las.
- Amanhã!..., pensou.
Espalhou o fato claro de linho e o blaser azul pelas cadeiras do quarto, dobrou as calças e as camisas sobre o braço do sofá.
- Não vou usar nada disto. Com o calor que está...

Foi à casa de banho arrumar a escova dos dentes, o frasco de perfume e um saco com as coisas da barba. Olhou-se no espelho e não gostou do que viu.
- Que aspecto horrível, tenho olheiras e até parece que nem fiz a barba!... Bem, mas amanhã tudo muda! Fumar menos... Vida saudável!
Lavou os dentes, vestiu um pijama fresco e arrastou-se para a cama. Adormeceu instantaneamente.

Acordou-o a luz do dia que entrava pelas frestas. Pouco passava das cinco horas. Tapou a cabeça com a almofada e deixou-se dormir até ouvir o toque do telefone. Ninguém telefonara e na recepção também não havia qualquer mensagem para ele. Disseram-lhe que era fácil arranjar um jeep com um condutor experiente.

-“O Doutor pode ir ver o interior da ilha. Ou ir para o Sul até Angolares, à Praia das Sete Ondas, ou a Portalegre, na ponta da ilha... Há lindas praias vulcânicas...”
Agradeceu a informação. Sim, talvez fosse boa ideia arranjar um carro, um jeep como lhe sugeriam.
- “Vai mais seguro, Doutor...”

Não sabia como nem quando entrariam em contacto com ele. Restava-lhe esperar.O “Capitão” mostrara-se muito vago, em Lisboa.
- “Você espere. Alguém o há-de contactar...”, dissera, enquanto o olhava de lado, com o cigarro meio fumado entre os lábios, ou esmagado com força em qualquer sítio que lhe servisse para o apagar.
E depois o bilhete lacónico onde lera:
Há um voo para S. Tomé na 3ª feira. Espere que o contactem.”

Ninguém o contactara. Começava a duvidar se a viagem ia servir para alguma coisa.
“Ingénuo, acreditei no Zurigo...”- ia pensando.

“Como é que depois de tantos anos vou encontrar as pessoas certas? Esse tal Rodrigues ainda estará vivo?”
“Assisti a tudo”- afirmara Zurigo.
“Mas assistido a quê? Depois de tantos anos!... Quem é que se vai lembrar?!”
Era, no entanto, a única esperança.

Decidiu ir tomar o pequeno almoço. Tabuleiros cheios de frutos exóticos, um cheiro enjoativo a fruta e a bolor. Mas o café não era mau.
-É muito bom o vosso café!...
-Vem lá de cima, da Roça do Monte Café... - dissera logo o empregado, solícito.
A sala era enorme e tinha uma bela vista sobre a estrada Marginal. Lá estavam as colunas brancas formando uma reentrância redonda na balaustrada. E o mar era impressionante de cor e de brilho. O céu azul parecia parado, sem uma nuvem, sem um movimento. Como o mar.

-Ali ao fundo é o Pantufo... -explicou o empregado que o servia.
E continuou, apontando:
-Dali, está a ver?, virando à esquerda, é que se vai para o Sul, para Santana ou para Angolares... Foi o senhor que pediu um jeep, não foi? O meu tio é um bom condutor. Tem muita experiência. Leva sempre dois pneus de reserva... Sabe, as estradas para ali são perigosas, muito buraco, muito pedregulho... Só mesmo rocha, às vezes. Fura-se com muita facilidade, se não se conhece o caminho...
- Obrigado. Creio que vou mesmo alugar esse carro. Como é que se chama o seu tio? ~

Tinha gostado do rapaz e daquela conversa matinal enquanto lhe servia o café e lhe ia perguntando:
- Quer fruta? Gosta de manga, banana ouro, jaca? Temos tudo...
- E o seu tio? - insistiu, sem responder.
- Chama-se Floriano. Floriano Alcântara.

Pensou telefonar a Joan mas desistiu. A verdade é que não tinha nada para lhe dizer. O contacto esperado ainda não se fizera vivo. Mas ainda era cedo, não devia precipitar-se.
- Aguardar...
Pensou que era uma boa ideia ir dar uma volta pela ilha, para enganar o tempo. Talvez no regresso houvesse alguma novidade.

ainda Dashiell Hammett...



































Agora que já despertei a curiosidade para os livros, quero só acrescentar mais umas palavras sobre esta figura que eu acho invulgar.

Dashiell Hammett nasce no Maryland em 27 de Maio de 1894 e morre em New York em 10 de Janeiro de 1961, com um cancro no pulmão. Estuda até aos 14 anos. Faz vários trabalhos sem importância. Depois, entra para a Agência Pinkerton e trabalha como detective e, em 1922, decide começar a escrever para revistas populares, a pulp fiction, na conhecida “pulp magazine”, Black Mask, apoiando-se na sua experiência real de detective.
Hoje é considerado o pai do género policial “hard-boiled”.
(Nota: Na literatura hard-boiled, a acção prescinde dos modos cavalheirescos e da dedução fundamentada na racionalidade que sustentam personagens de obras de mistério como o Sherlock Holmes, de Conan Doyle, o Hercule Poirot, de Agatha Christie ou o Lord Peter Wimsey, de Dorothy L. Sayer . O poder dedutivo da razão é substituído pela ação física e o elemento de mistério é deslocado a favor do suspense. Violência armada, sexualidade exótica ou ilícita, a corrupção das forças sociais da lei e o perigo real ao qual o herói se submete são colocados na dianteira da narrativa. O detective particular – o mais arquetípico de todos os heróis hard-boiled – opera, nesses roteiros, como um mediador entre o submundo do crime e a sociedade respeitável. Ele pode mover-se livremente entre esses dois universos sem pertencer estritamente a nenhum deles. Nas histórias de Dashiell Hammett, a independência do detetive Sam Spade (Humphrey Bogart), protagonista de Relíquia Macabra (The Maltese Falcon, 1941), deriva de seu profissionalismo.)
É considerado o escritor que elevou o género detectivesco a literatura.
Inicia a publicação das histórias do detective Continental Op com o nome de Peter Collinson e, pouco mais tarde, usa o seu próprio nome.
Op é o agente -“the operative”- da Continental Detective Agency, um quase anti-herói: de meia-idade, não muito alto, não muito elegante, mas com alguma coisa do seu detective mais famoso (mas não único, contrariamente ao herói Phillip Marlowe, de Raymond Chandler), Sam Spade, que aparece apenas em três short stories e no famoso O Falcão de malta.
Op e Sam têm alguns aspectos comuns e são os dois muito diferentes do carácter de outros heróis (The thin man): Nick Charles e a mulher, Nora, casal inesquecível, divertido e simpático.

No Posfácio, publicado na edição francesa da “Folio” de Fly paper, (Papier tue-mouche), Lillian Hellman, sua amiga e companheira de muitos anos, escritora (o argumento do filme Julia (1977), com Vanessa Redgrave e Jane Fonda, de Zinnemann, é tirado de um livro dela), conta assim o encontro deles:

Quando conheci Dash, ele tinha já escrito quatro dos seus livros e era a coqueluche de Hollywood e de New York. Eu tinha 24 anos e ele 36. Na noite em que nos conhecemos, acabara de sair de uma bebedeira de cinco dias, e continuaria a beber durante mais dezoito anos. Depois, um dia, um médico diz-lhe que se continua assim morre, e ele promete não beber mais, promessa que cumpriu, com excepção do último ano em que se habituou a beber um martini antes do jantar. Nessa noite, falámos de T. S. Elliot, de escritores e de livvros e não recordo já o que dissemos. Depois sentámo-nos no carro dele e continuámos a falar de tudo, de nós, da vida até nascer o sol.”

Fala também da forte personalidade de Hammett, do seu sentido da justiça e da sua coragem. Em 1951, durante “a caça às bruxas” do governo de McCarthy, pelas suas convicções políticas de esquerda, esteve cinco meses preso, acusado de ser anti-americano. Recusara-se a revelar o nome dos inscritos na Caixa de Ajuda Mútua do Congresso dos Direitos Cívicos, nomes que, aliás, desconhecia.
Conta Lillian, no Prefácio:
“Perguntei-lhe: “mas por que não disseste no tribunal que não sabias os nomes?
“Ele respondeu: “não sei, sei só que tinha de fazer isto, por uma questão de princípio. Mesmo que não fosse apenas a cadeia, e implicasse a perda da vida, faria o mesmo. Em defesa daquilo que eu acho ser a democracia. Nunca deixaria que nenhum polícia ou juiz me viesse explicar o que eu acho que é a democracia”...

Anti-americano?, interroga-se:
“Hammett estivera na I Guerra, contraíra a gripe espanhola, a que se seguira uma tuberculose, passara anos em hospitais militares a tratar-se.”
E Lillian acrescenta:
“Volta dessa guerra com um enfisema pulmonar e nem percebo como conseguiu participar na II Guerra, com quarenta e oito anos. No dia em que o exército o considerou “apto” telefonou-me, feliz, a dizer que era o mais belo dia da sua vida... E que ia como soldado raso”.
Refere, a seguir, o depoimento de um jovem soldado que estivera com ele, na frente de combate:
"Quando cheguei aquilo era horrível. Mas, felizmente, havia Hammett. Chamávamos-lhe Pop (papá), talvez pela diferença de idades, mas, sobretudo porque o respeitávamos. Tínhamos-lhe mais respeito do que ao nosso coronel e acho que o coronel pensava o mesmo. A sua influência sobre nós era enorme. Era o organizador do jornal e era bom tê-lo connosco. Chegávamos por vezes à tenda do acampamento furiosos, a queixar-nos, aos berros, aos encontrões. Assim que entrávamos, lá estava ele, deitado, a ler um livro. Erguia os olhos, sorria e acalmávamos . Falava connosco, ajudava, muitas vezes com dinheiro, sobretudo, com palavras."

Penso que, por agora, chega... Espero que, com a juda de Lillian Hellman, tenha podido explicar por que razão este autor me fascinou, desde que o comecei a ler.



P.S.1. Agora, para uma amiga, com certeza já impaciente: não, não me esqueci de Agatha Christie! Como poderia? A Lady do Crime! Impossível esquecê-la.

P.S.2. Legendas das imagens que aparecem no início da página:
1. capa do DVD Hammett de Wim Wenders
2. capa do livro "The Mistery of the Continental Op"
3. imagem do filme de Zinnemann, Júlia, com Jane Fonda e Vanessa Redgrave (1977)
4. foto de Lillian Hellman
5. foto do filme Hammett, de Wim Wenders, com o actor Frederic Forrest no papel de D.H.
6. cena do filme de John Huston, O falcão de malta, com Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre
7. capa da edição francesa de Fly paper (Papier tue-mouches) onde vem o referido Prefácio, de L.H.








quarta-feira, 1 de abril de 2009

Continuando...

Dashiell Hammett


Mais algumas capas dos livros de Dashiell Hammett, do lado esquerdo duas edições do Homem Sombra, a da direita, é uma edição russa, para estudantes de inglês, comprada em Moscovo, em 2005. Do lado direito, a capa francesa de O Salário do Crime, e, a contra-capa do livro russo (está escrita em russo a parte sublinhada a verde, mas é uma imagem demasiado pequenina...


De quaquer modo, quero lembrar a edição mais recente d' "O Falcão de Malta", , de que falei`há dias, publicada por uma editora chamada Quinto Selo, que se pode comprar até pela internet (13 euros). Basta clickar na capa...















"O falcão de malta" e outras coisas


Como prometi, vou falar no meu blog de várias leituras e já me tinha referido ao meu interesse pela literatura policial, por isso, sei que não vão estranahar se volto hoje ao "Falcão de Malta" que foi dos meus preferidos ao longo dos tempos.
Li-o em muitas línguas (bem, não exageremos...) porque não resistia a comprá-lo assim que o via e, como vivi em vários sítios, com línguas diferentes, fui fazendo uma colecção.

Mas a capa mais fantástica é, sem dúvida, a do volumezinho da Colecção Vampiro.
"O Falcão de Malta" foi o primeiro livro de Dashiell Hammett a ser publicado nesta colecção. Seguiu-se "A chave de vidro" (The Glass Key), "Estranha maldição" (The Dain curse) e, mais tarde, "O homem sombra" (The thin man).
A capa do "Falcão" da Vampiro foi feita por um dos bons capistas da altura (juntamente com Lima de Freitas), Cândido Costa Pinto, e nela vê-se a estátua do pequeno falcão azul, cheio de arabescos desenhados, as asas fechadas, e as garras pousadas sobre um pequeno pedestal que tem esculpida a estrela de seis pontas, a estrela de David.
Ao lado direito, o perfil de uma mulher de cabelos avermelhados cujos olhos fixam uma estrela vermelha de muitos bicos, que se reflecte no peito do falcão, e a cabeça de um homem, numa corrente de um rio com fumos azulados (muito provavelmente, Sam Spade, o herói -ou anti-herói?- das histórias de Hammett, que tão bem Humphrey Bogart ).
Não tem data de saída da edição portuguesa, com autorização da Editora Globo, Porto Alegre, Brasil...
Mas devo dizer que descobri, há pouco, na internet a nova edição do "Falcão de Malta"-publicado por uma editora nova (o Quinto Selo, www.oquintoseloedicoes.pt) e que tem uma capa muito sugestiva! Vão ver se o encontram!
E, melhor ainda, "prometem" publicar mais do autor: assinalam já "A maldição dos Dain" para breve. Um dia falarei mais destes fantásticos livros e do grande escritor que é Dashiel Hammett (com Raymond Chandler, um dos meus preferidos...)
Por curiosidade, juntei também, a capa da edição francesa da colecção Carré Noir.