sábado, 7 de abril de 2012

Ventos de revolta ou as Guerras da Grécia!

Alexandre Magno,  Getty Museum


Há dias suicidou-se, em Atenas, um reformado, farmacêutico, 77 anos, que se revoltou contra a mise à mort decretada pela Europa à Grécia: “eu não quero ir buscar comida aos caixotes do lixo!”, dizia no bilhete que deixou. 


"Não consigo viver nestas condições e por isso prefiro pôr fim à vida."
Suicidou-se simbolicamente na Praça Syntagma, onde durante quase dois anos se manifestaram os jovens - e os menos jovens- Gregos.



Milhares de Gregos vieram nesse mesmo dia manifestar-se, na mesma praça contra o governo dos cortes. Traziam anémonas, malmequeres...
A Grécia está pelas horas da morte, pois...
Então todos os estratagemas são bons para “sobreviver”!

Foi vergonhosa a maneira como a Europa tratou a Grécia e a “crise grega”: que era não só da Grécia, mas sim de nós todos. 

A Grécia é um "maillon de la chaîne" que “deu de si”, mas nenhum dos outros elos da cadeia está livre de se quebrar.

Culpam os gregos sem saber sequer o que dizem. Chamando-lhes “gastadores”!

Mas quem os empurrou para “gastar”? 

Conhecemos bem o que se passou por cá. Por lá deve ter sido o mesmo.
“Ah! Eles não pagavam as taxas!", queixavam-se por cá os “europeus”.
Sim, os restaurantes não pagavam as taxas, não davam recibos, achavam há muito que não deviam ser só eles a pagar a crise.
Depois de dois anos de protesto e manifestações em que lutaram com unhas e dentes para evitar as medidas de cortes violentíssimos (1). Mais chocante ainda quando se "ouve" o Presidente do "Eurogrupo", Jean-Claude Juncker reconhecer, há dias, que "a austeridade imposta à Grécia foi um grave erro. Deveria ter-se, sim, insistido desde o início na dimensão do crescimento"...
A Grécia era uma cultura, era o berço da Antiguidade Clássica e foi tratada como "lixo".
Os gregos hoje sobrevivem: e todos os estratagemas são bons para “sobreviver”.
Teatro de Epidaurus
A Europa “abandonou” depressa a Grécia que tanto a admirou nos tempos passados! 
Nos anos 50, a Grécia “adorava” a Europa: “a longínqua, exótica, a fabulosa Europa”, como escreve Yannis Kiourtsakis no seu livro (Le Dicôlon, saído agora em França).
A personagem do seu livro pensava: “A Europa é as luzes, o progresso, a civilização. (...) A nossa pequena Grécia tem ainda muito que caminhar”.
Como foi maltratada a Grécia pela Europa que ela tanto amava!
É, ainda, o escritor, Kiourtsakis que afirma: “mas os Gregos têm algo de precioso que falta aos Europeus “civilizados”: têm a humanidade, um coração de homem e este estado de espírito especial que é a herança da cultura antiga”.
Movimento de protesto "O Topos Mou", num supermercado

Deve ser esse coração que bate em uníssono e protesta e é solidário!
De facto,
se a Grécia está pelas horas da morte, a verdade é que juntos encontram os estratagemas para sobreviver...
Um deles é a chamada “Guerra da Batata”!
Depois das Guerras do Peloponeso...
E das Guerras Médicas... 
Vem a Guerra da Batata -igualmente importante!
batata do Brasil ABBA
 “Este movimento da batata não é apenas o sinal do empobrecimento do país. É também um novo exemplo de iniciativas de solidariedade que se espalham pela Grécia em crise.”(Le Monde de 13 de Março)
Dos pobres aos remediados e às classes “consideradas” médias, os gregos fazem fila para comprar sacas de batata, no bairro chic de Atenas – Kifissia – que vêm em camiões, do Norte, de Navrokopi. 

Senhores engravatados, antes de seguirem para o emprego, mulheres bem ou mal vestidas, adolescentes, vêm comprar as batatas mais baratas que uma organização “O topos mou”–sem proveito para si- anda a vender.
E o seu slogan é: "Keep talking Greece", não esquecer a Grécia...
Alguém que decidiu equilibrar as coisas e pôr um pouco de justiça.
A batata é comprada directamente aos agricultores (com recibo!), e vendida a preço normal, quando nos supermercados subira a preços astronómicos. 
Um dos que estão na fila é o jornalista Kostas Ghikes (que está desempregado) que diz ao colega francês: “vão ver o mesmo em breve nos vossos países...”
Parece que, depois desta, vai vir a Guerra da Farinha. A seguir a Guerra do Azeite...
A Grécia não baixa os braços!
Como refere Eric Aeschiman (agora, “Le Nouvel Observateur” de 22/27 de Março): a Grécia de Homero "mexe”, agita-se, protesta. "Há uma ebulição perceptível. Criam-se colectivos, fazem-se petições". 
Na Praça Exarchia a juventude organiza conferências, Nos “cafés filosóficos”, os filósofos na  moda animam “seminários” e discute-se".
E pensamos nos filósofos da Antiguidade, nos debates na praça pública, na "Apologia de Sócrates" - exemplo de todo o Ocidente!
Platão, "visto" por Rafael (Capela Sistina)
Gérard David, Morte de Sócrates
Nas praças de Atenas, hoje, debatem os temas que preocupam:  
“Será que a Grécia foi vítima do seu caso especial? Ou foi apenas uma “amostra” do que é na realidade um “desregulamento Mundial”?(...)

“É urgente desmistificar a insistência racista sobre a especificidade do caso grego (...)”, defendem os filósofos V. Scoumbi e Dimitris Vergetis.
busto de Sócrates
“Falemos antes do destino de um povo que vai afectar todos os outros.”
O filósofo Antonis Liakos (Professor formado em História, em Inglaterra) afirma: “Se recusamos os planos de austeridade, por outro lado contestamos igualmente o “cerrar-se” do país num nacionalismo que pode ser perigoso.”
Fala de “capitalismo”: 
“É uma política doutrinária e hipócrita. “Crise”, “hipocrisia”, “crítica” são da mesma família. E cria o “jogo de palavras:” 


“Hoje a hipocrisia alimenta a crise e só a crítica poderá acabar com ambas.”
Talvez a modernização acelerada da Grécia tenha sido um erro. Uma espécie de “caricatura do homem ocidental: o consumismo, o narcisismo, o dinheiro fácil, o kitsch... Tudo depressa de mais. (...) É uma crise antropológica, que diz respeito ao mundo inteiro”, afirma Yannis Kiourtsakis.

Faz-me pensar no “caso português”...
E fico a admirar os  Gregos! Ah! Grandes Gregos! 
Alexandre Magno, mosaico, Museu Arqueológico de Nápoles

Dignos dos antepassados heróicos, desde os Argonautas -Jasão, Hércules, os gémeos Castor e Pollux!- até Alexandre o Grande!
"Espíritos aventureiros que perseguem um fim difícil de atingir"... 
Assim são definidos os Argonautas...
E nós?

Onde estão os nossos heróis?


Na luta do dia a dia...






Hallelujah - Leonard Cohen

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O Filho do Homem, de José Régio



Sempre que chega a Páscoa, recordo o Cristo da Paixão da minha infância, o Senhor dos Passos. 

A Igreja do Calvário em Portalegre, onde íamos ver o Cristo "morto", com a minha avó.


As amêndoas de chocolate, os folares com os ovos pintados.


Mais tarde, noutra terra, as romãs...


O Filho do Homem...o Homem.


E vem-me sempre Régio à memória...
FILHO DO HOMEM

Subia eu o monte e alguns troçaram,
Enquanto a multidão, lá em baixo, ria.
Ria risos e troças que arranharam
Tudo o que em mim, sensível, se doía...

Todos eles, depois, me detestaram
Por eu me destacar da maioria.
Fortes, pois, contra um só, cem abusaram,
Enquanto a multidão, em volta, ria.

Vilanagem, fartar!, que estou cansado.
Eis-me, Ecce homo! – nu, vencido, atado.
Podeis cuspir-me à cara os vosso lodos.

Mas quanto mais de rastos, mais me prezo.
Só o meu amor iguala o meu desprezo...
E eu vingo-me expirando por vós todos!


in Biografia, Portugália Editora 4ª edição, Lisboa, s/d
José Régio, "Ecce Homo"


No Evangelho, conta São João:

"A Páscoa ia chegar dentro de 6 dias e Jesus vem a Betânia onde vivia Lázaro que Jesus tinha tirado de entre os mortos(...)". 

"No dia seguinte a multidão que viera para a festa ouve dizer que Jesus vem a caminho de Jerusalém. Pegaram em ramos de palmeiras e vieram ter com ele, gritando: Hossana! Bendito seja seja aquele que vem em nome do Senhor, o rei de Israel."


E continua, João (XIII-1):


"Antes da festa da Páscoa, sabendo que a sua hora de passar para o mundo do seu pai tinha chegado, Jesus que amara os seus neste mundo, amou-os até ao fim."
O  Cristo, que tenho em casa

E  o destino cumpre-se.

Jesus diz apenas: "Chegou a hora de o filho do homem ser glorificado." (XII-23)

"Eu, a luz, vim ao mundo para que os que se fiam em mim não permaneçam nas trevas". (XII-46)

Antes, Jesus dissera, escreve João, o apóstolo que Jesus amava:

"Agora, sinto a minha alma turbada. O que dizer? Pai, salva-me desta hora? Mas foi para isso que eu cheguei a esta hora..."(XII-27)
Leonardo da Vinci, pormenor da Última Ceia


E vem a solidão, o momento da dúvida, do desespero do Filho do Homem. 


Vem a sua primeira agonia.


Giovanni Bellini, Agonia de Cristo, no Horto das Oliveiras

E a morte...
Vittore Carpaccio, Morte de Cristo

in "Evangelho Segundo São João" ("Bíblia, Novo Testamento", edição da Bibliothèque de la Pléiade, Gallimard, pgs. 313-317)

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Mestre que L.S. Lowry admirava: Adolphe Valette, "o Monet de Manchester"...

Adolphe Valette, Barcos nos canais de Manchester

Diz-se que as conversas são como as cerejas: uma, duas, três. E já não paramos...

Também a internet pode causar o mesmo efeito – para o bem e para o mal: uma coisa vem que traz outra, uma dúvida, uma curiosidade e lá se segue sempre em movimento!

L.S.Lowry, Exposição na Manchester Gallery

Neste caso foi a descoberta do nome de Lowry, da sua pintura, etc. Logo se lhe associa o nome de outro pintor, Adolphe Valette, seu Mestre.

E lá vamos à descoberta de quem foi, o que fez, como pintou. E descobrimos a luz difusa e o impressionismo das imagens e lá ficamos presos...

Pierre Adolphe Valette, pintor impressionista francês,  nasce em St. Etienne, perto de Lyon, em 1876, e morre em 1942.

Viveu em Inglaterra, onde chega em 1904, numa visita de estudo. Um ano mais tarde chega  e Manchester e estuda na School of Art onde é colega – e mais tarde professor - de um aluno dotado: Lowry.  
Na Manchester School of Art, com os alunos (1905)

Ali fica a viver e é convidado para professor na Manchester School of Art, de 1906 a 1920.

Pintou as paisagens nos arredores da cidade e os campos do Lancashire. E ensinou o que sabia.

Dele, dizia o aluno mais famoso, com admiração: “o efeito da chegada de Adolphe Valette  a esta cidade aborrecida foi enorme. Com ele  chegam os pintores  impressionistas, a curiosidade de tudo, saber o que se passa em Paris. Trazia uma frescura  - era maravilhoso. Nunca tinha visto desenhos assim...”
AdolpheValette, mulher nua

De facto, Adolphe Valette trazia a sua forma especial, o seu olhar  de "impressionista" para a cidade desinteressante e sombria que Manchester era.
Adolphe Valette, barcos no Canal de Manchester

Captura de outro modo, com outra luz, as ruas, as avenidas e os canais da cidade nevoenta e cheia de smog.

Valette, India House

 Pinta-a em tons rosados e numa bruma especial que tudo transformam.

Em 1928, regressa a França. Não volta a Manchester. Morre em 1942.

Hoje as suas pinturas mais importantes estão na Manchester Art Gallery. L.S.Lowry foi um dos entusiastas da sua pintura. 

Há pouco tempo, foi-lhe dedicada uma mostra monográfica no Centro Cultural The Lowry, em Manchester. Houve grande entusiasmo. 
Chamaram-lhe "O impressionista de Manchester" e, mesmo, "o Monet de Manchester!


Adolphe Valette, uma rua em Manchester


A BBC falou do assunto, como podem ver no link abaixo....
Adolphe Valette
AdolpheValette, Albert Square (1910)
Adolphe Valette, Oxford Road (1910)
L.S. Lowry, arredores de Manchester


L.S.Lowry, auto-retrato do artista quando jovem

Neste caso, foi o  aluno que “puxou” pelo Mestre que tanto admirou...

Música italiana: Lucio Battisti - "Una donna per amico"

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Uma boa semana, no início de Abril, é melhor com Ella Fitzgerald & Louis Armstrong & "April in Paris"

Coisas do Jazz, nem de hoje nem de ontem: eterno: Red Norve, diz quem sabe...

As primeiras orquestras de jazz surgiram no final do século XIX e início do século XX, em Nova Orleans. Nessas bandas, os instrumentos mais utilizados eram o piano, a corneta, a clarineta, a tuba, o trombone, o banjo e a percussão, geralmente feita por meio de uma prosaica tábua de lavar roupa. Com o advento do swing, bem poucos se mantiveram na linha de frente do jazz.

A corneta, a tábua de lavar roupa, o banjo e a tuba foram substituídos por instrumentos mais versáteis, como o trompete, a bateria, a guitarra e o contrabaixo, respectivamente. Outros, como a clarineta, continuaram a ter espaço durante a Era do Swing, mas com o advento do bebop foram praticamente relegados ao segundo plano. Curioso é o caso do saxofone, que aos poucos foi se consagrando como o mais típico dos instrumentos do jazz, rivalizando com o trompete.

O xilofone, o vibrafone e a marimba são instrumentos de percussão que pertencem à mesma família. Nenhum deles fazia parte das bandas e orquestras precursoras do jazz. Sua incorporação ao universo jazzístico deveu-se, em boa medida, ao trabalho desenvolvido por um notável instrumentista chamado Kenneth Norville. Se esse nome não soa familiar à maioria dos fãs do jazz, o apelido poderá ajudar a identificar melhor o personagem: Red Norvo.