terça-feira, 7 de abril de 2015

Billie Holiday faria hoje cem anos! Ouçam:"Me Myself and I"...


Uma homenagem a Billie que nasceu num dia 7 de Abril de há 100 anos! 
Como esquecer o dia dela se a lembro sempre? Se a sua voz me obsessiona com o modo plangente de cantar?
"white lilies": flores para Billie Holiday (Etsuko)
Billie nasceu em 7 de Abril de 1915 e morreu em 17 de Julho de 1959. Filha de pais quase adolescentes (o pai tem 15 anos e a mãe 13) e já abandonada pelo pai ainda antes de nascer… A mãe, imatura, que a foi deixando ao deus dará, personalidade infantil até ao fim da vida. Foi sempre Billie quem tomou conta da mãe e não o contrário. 
"Me, myself and I", sempre só, seguiu a sua vida.
Li uma biografia de Billie que vos aconselho, escrita por Donald Clarke e intitulada “Billie Holiday, Wishing on the Moon”. Sim, a vida sonhada a desejar a Lua e a ter, na realidade, tanta dureza e incompreensão e solidão à sua volta. 
Aos 12 anos era já uma mulherzinha, bonita e elegante, parecendo mais velha do que era, com uma pele muito clara – herdada de um bisavô paterno irlandês e de uma escrava negra. 
Com 12 anos, pois, já cantava nos bares de Baltimore, já começara a drogar-se. “A vida custa”, diziam em São Tomé na placa de um restaurante que se chamava exactamente “Petisqueira a vida custa”…


E a vida dela custou muito. Desde a infância que lhe foi difícil viver. Fazendo a vida na rua, abandonada, em casas de correcção, violada cedo, como tantas outras crianças negras do West Baltimore. A tentar sobreviver, defendendo-se.
Crescida, ainda novinha, cantou em Harlem, para onde foi viver. Cantou, depois, nos night-clubs brancos da moda, em Nova Yorque. Eram os tempos dos contos do Jazz Age, de Scott Fitzgerald, os tempos do “swing” que, antes, tinham sido os do “charleston”. Eram os blues. E do jazz que surge, de repente. 
com Louis Amstrong e a sua jazz band: no filme 'New Orleans'
com Louis Amstrong em "New Orleans"
Apreciada pelo público branco, isolada e “negra” sempre, apesar de “clarinha” de pele, exibe-se e canta.
com Louis Amstrong, no mesmo filme 
Cantou com os grandes músicos! Saxofonistas, trompetistas e pianistas famosos -e ainda hoje bem conhecidos dos apreciadores de jazz.

Como Count Basie, Gillespie, Coleman Hawkins, Charlie Parker, Teddy Wilson, Louis Amstrong e Lester Young seu amigo e companheiro tão “desgraçado” como ela e que morre poucos meses antes dela, doente como ela. 
com Coleman Hawkins
Era ele que lhe chamava “Lady Day”, enquanto ela lhe chamava “Pres” - porque, para ela, o frágil Lester Young era Presidente. 
com Lester Young

Billie morre com 44 anos, gasta pela vida, maltratada pelos "seus" homens que lhe batiam e se serviam dela. Sempre cheia de álcool e de droga. Sempre com a alma a sair no grito da voz.
Conto-vos uma história dela, tirada da biografia de Donald Clarke.
Uma noite (não era muito já muito nova Billie, nesses anos), completamente bêbeda, recusa-se a entrar em cena. Os fans enchiam o night-club, há mais de duas horas eimpacientes e barulhentos, chamavam por ela. 
Ela não quer cantar, não quer nada. Está encostada ao balcão do café no piso inferior, de copo na mão e de olhar ausente. O marido (da altura, nem interessa o nome), dá-lhe encontrões e fá-la subir as escadas, à força, entre murros e pancadas. Indiferente, resistindo, talvez drogada, vai sendo empurrada, escada acima, protegendo-se, encostada à parede. Entra e nem olha o público, nem responde aos aplausos. 


Como não se aguenta em pé, senta-se numa cadeirinha ao lado dos músicos. Talvez trouxesse o seu vestido branco de lantejoulas e gardénias brancas nos cabelos. 

Ou talvez vestisse de negro e tivesse os lábios pintados de vermelho vivo, como tantas vezes gostava de pintar. 
Acena aos músicos para começarem a tocar a primeira música. 
Seria a terrível canção da tristeza absoluta (que levou gente ao suicídio, nesses anos loucos), Gloomy Sunday? Ou, ironicamente, depois dos murros que levara, seria “My Man” ou "The Man I love"? 
A voz dolente a arrastada, o grito adormecido da alma levam o público a mais aplausos sem fim. Sem se levantar, aponta com o dedo, um dos músicos, a canção que está no fim da lista das que deveria cantar. 
Ele explica-lhe que não pode ser, que tem de cantar todas as canções. "Os espectadores tinham pago muito dinheiro para a ouvir! Tinham esperado horas que ela chegasse…"
Ela abana a cabeça, silenciosamente, e começa a cantar a canção que decidira ser a última. Quando acaba, agradece e sai sem olhar para ninguém. O público aplaude, grita o nome dela. quer que ela volte e cante. Mas a "sophisticated" Lady Day não volta ao palco...



segunda-feira, 6 de abril de 2015

Ratinho e os amigos, em tempo de Páscoa e de migrações…



- Acabou a Páscoa, não? Já não há ovos pintados! Nem amêndoas...
Era o Ouricinho com pena de ter acabado a festa. 

De repente, gritou:
- Olha, chegou um visitante à nossa varanda! Anda ver um passarinho negro! Não sabia que havia passarinhos negros!, gritou o Ouricinho, espantadoe cheio de entusiasmo.
De facto, num vaso de buganvílias, um passarinho cor de ébano, tinha-se instalado ao sol.
- Claro que há passarinhos negros!, retorquiu o Ratinho. E de todas as cores. É como os homens…
- Mas este não é uma pessoa! É um pássaro! Achas que veio da África? Terá sido a Gui que o trouxe?
- Não... Há que tempos que a Gui não está lá!
- Ah! Que estranho!
O Ouricinho não deixava de olhar lá para fora. E chamou-o:
- Entra, passarinho! Anda!

O passarinho não se fez rogado e veio-se aproximando, de vaso em vaso. Espreitou e entrou. Foi até à lareira ver os outros passarinhos e ficou a ver a sala. Não falou, não piou, nada.

- Não sabe falar?, perguntou o Ouricinho. Se calhar só canta…
Não se aproximava dele mas perguntou:
- Cantas, passarinho preto?
O Ratinho olhava-nos de longe, sem intervir, mas estava cheio de curiosidade. O passarinho não cantou.
- Deve estar triste, desamparado, assim tão longe da sua terra, não achas?
E o Ouricinho e o seu bom coração suspiravam. E continuou:
- Deixar tudo e partir! E as saudades do céu de lá, dos outros pássaros amigos, parecidos com ele. 
- De lá, donde? Qual céu?
Era a Gatinha japonesa.
pássaros migrantes (foto de Marisa Volonterio)

- Da África ou do Japão? Não sabemos...
- Pois é. Não sabemos. Faz-me pena de verdade ver as migrações de pássaros!
- E a das pessoas… 
O Ratinho viera devagarinho e sentara-se a olhar para o pássaro.
- Que lindo bico tem! E as penas tão sedosas! Não achas, Gatinha ?
- É lindo o passarinho negro! Terá saudades terá. O que pensará de nós?
A Gatinha pouco falava, mas filosofava muito. O Ouricinho continuava a reflectir e a dizer tudo o que lhe passava pela cabeça:

- Sim, porque quando és diferente dos outros, os outros podem não gostar de ti. Acontece tantas vezes por aí.
- Ó Ouricinho, mas há outros passarinhos negros: as andorinhas, os melros, os corvos.
Intervim, porque sentia que estavam a dramatizar a situação do passarinho que afinal estava ali, plácido e sereno, a ver-nos e a ouvir-nos. Sim, de facto, o que pensaria ele? 
"Tem o biquinho aberto. Irá cantar?"

- Sim. E o Ratinho interrompeu-me o pensamento. Mas as andorinhas voam em bando, estão acompanhadas, e os corvos são uns solitários convictos, dizem os livros. Imagino-os sempre como o corvo do Poe a saltitar e a dizer “nevermore”… 
- E os melros?
- Ah! os melros têm relva e conversa! A este, temos que lhe dar tempo para se adaptar a nós…
O Ratinho poeta já estava na maior, em acção: a explicar a vida, como ele gostava. A decidir tudo? Não. A observar e a pensar na solução melhor. O Ratinho é muito equilibrado. Pensa muitos nos outros, apesar de também gostar de pensar em si.
- Por andará a mãe dele?
Era o Ouricinho, já com a lágrima no olho.
- Nada de tragédias! Já é crescido e veio a voar por si. Não precisa da mãe!
Eu sorria e deixava-os na conversa.
- Será que ele entende a nossa língua? Lembras-te daquele filme com o menino negro, que veio de África e ia à procura da mãe que já estava na Suécia? Belo filme sobre as migrações!
“Um belo filme”, pensei. Inesquecível. Do finlandês Aki Kaurismaki. O passarinho passava os olhitos de uns para os outros. Fixou-se a olhar no pássaro de vidro amarelo que me ofereceu um dia o Agostinho.

- Viram? Gosta do pássaro do Agostinho! O Ouricinho estava contente.
O Ratinho virou-se para mim de repente, a ver como eu reagia, pois sabia quanto era amiga do Agostinho. E ele morreu só há poucos meses. Sorri para ele:
- É bom que seja amigo do pássaro amarelo que também tem uma cor diferente. E que é tão tímido. Não acham?
Ficaram aliviados. Agora, era tratar do pássaro negro! Quereria ficar connosco? Ou preferirá partir outra vez?
- Acham que vai ficar connosco?
O Ratinho franziu as sobrancelhas, puxou uma pontinha do bigode e disse muito sério:
- Temos que esperar. Ele é que tem que escolher. Tem as flores lá fora, tem-nos a nós cá dentro, mais a música e o cafézinho da manhã. Mas ele é que sabe o que quer. Não vamos pressioná-lo!
- Eu gostava muito que ele ficasse. Aqui ia ter tantos amigos. E a varanda, com flores novas...Mas não vou pressioná-lo, como tu dizes. 
flores bailarinas (do Japão, Etsuko)

Olhava-me, interrogativo. Penso que não percebia bem o sentido daquele “pressioná-lo”. 
Disse-lhe:
- Sim, não vamos puxar por ele. Forçá-lo a ficar. Deixamo-lo esta noite por aqui, com a janela aberta, e amanhã se verá…
O Ouricinho agarrou-me o braço e disse muito baixinho para ninguém ouvir:
- Não será melhor fechar a janela? O pássaro amarelo vai gostar que ele fique...

flores e passarinhos...

E assim foi. Os dados foram lançados! Estamos todos à espera e na dúvida: ficará, ou não, o passarinho negro? O que lhes parece?

quinta-feira, 2 de abril de 2015

PÁSCOA: JOSÉ RÉGIO, “QUINTA-FEIRA SANTA”

 “QUINTA-FEIRA SANTA” 

Botticelli: Cristo nasceu

Botticelli: Natività Mistica

 Cristo vai morrer... A entrega de Cristo, de Caravaggio 

"O Cristo, ao alto, alonga os magros braços nus
Por sobre a escuridão do rancho desolado
Que segue, ao som da marcha, o seu Jesus,
Por nós crucificado.

Pendente da cruz negra, envolto em luar frio,
Tremendo, ao baloiçar do seu pesado andor,
No corpo nu perpassa um arrepio
De carne e de terror…

E, vivo ainda, o Cristo espasma e agoniza,
E avança ao avançar da lenta procissão…
A lua é uma auréola indecisa
Molhando a multidão.
……..
Sandro Botticelli, Anjos ou demónios

E eu sinto, agora, um mundo contra o peito,
E olhando o Cristo, ao som da marcha de aflição,
Vou, cheio de soluços, contrafeito
Entre esta multidão.

Toda a emoção doentia, obscura e torturada
Que fez de mim Poeta irrompe e vibra… Coro,
Gozando essa volúpia inesperada
De reparar que choro.

Botticelli, Madonna e Anjos

Que bom chorar só por amar!
E olhando o roxo azul dos seus joelhos nus,
Medito em me ir também crucificar
Nos braços de uma Cruz!
……
Cristo da Paixão, desenho de José Régio (*)

Mas o que eu amo em ti, divino Cristo exangue,
É o que em ti é Dor, e assim a nós te irmana:
Teu sonho imenso, o teu suor de sangue,
A tua carne humana…

E o Cristo avança , à lua, esplêndido e chagado.
Jesus, Deus da Paixão, sim amo-te, Jesus!
Oh, ser,  por teu amor, crucificado
Na tua mesma Cruz!...

Por isso choro em mim a mágoa verdadeira
De ter nascido tarde e só te vir achar,
Feito em marfim, metal, pedra, madeira,
No cimo de um altar!
Luca Signorelli, A morte de Cristo 

E enquanto a marcha expira, além, num estertor,
E o magro Cristo nu vai a desaparecer,
Deliro, e sofro, e gozo a minha Dor
- Meu último Prazer!"

A Dor, "Pietà" que pertenceu a José Régio

(*) desenho de José Régio, in Poemas de Deus e do Diabo, Portugália Editora, "Obras Completas", 1969

Recordando "Acto da Primavera", de Manoel de Oliveira : um grande senhor do cinema que se retira...



Nesta quinta-feira santa, chega a notícia  da morte de Manoel De Oliveira, o grande cineasta português. Não é preciso dizer mais, toda a gente sabe quem era. Viveu longos anos e criou filmes maravilhosos! E julgámos que nunca se "apagaria"...
Conheci-o, acompanhámo-lo por alguns países nas suas -e nossas- deambulações. A última vez que o vi foi em Jerusalém, no Festival de Cinema criado por Lia van Liar– falecida há poucas semanas. Um mundo que se vai…

Hoje quero lembrar apenas Acto da Primavera, filmado em 1962, numa aldeia de Trás-os Montes em que os próprios habitantes “representam” a Paixão de Cristo.

É  um documentário de longa-metragem de Manoel de Oliveira (…) no qual é encenada uma celebração popular, um "auto" da Paixão de Cristo, que é festa tradicional na aldeia transmontana da Curalha.

Uma das obras do cinema etnográfico praticado também pelo francês, Jean Rouch, que o próprio Manoel de Oliveira admirava muito.
Estreou no Cinema Império, em 2 de Outubro de 1963. Vejam um pouco desta obra...