sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Estas histórias que nos vêm do mar




“Vento de Inverno
Que empurras para o mar
O sol poente”
(Sôseki)

Acabei de ler o livro Nos Mares do Fim do Mundo, de Bernardo Santareno. Conheci Bernardo Santareno, aliás Martinho do Rosário, que foi grande amigo do Manuel a quem ele chamou sempre Manolo. Ainda solteira, fomos juntos ver a estreia d' O Lugre no Teatro D. Maria II. Era o meu primeiro espectáculo a sério, num grande teatro da capital, eu que vinha de Portalegre onde não havia um D. Maria, é certo, mas onde vi algumas boas peças, por companhias ambulantes, como a de Rafael de Oliveira.

Anos depois, acabados de casar, íamos  encontrar-nos com ele, de vez em quando, na pastelaria ‘Paraíso’. Era médico e trazia-nos amostras de remédios, vitaminas, para não gastarmos dinheiro.
Escreve Santareno, na nota de apresentação da 1ª edição: “o livro foi em grande parte escrito a bordo do arrastão ‘David Melgueiro’, na campanha de 1957, a primeira em que servi na frota bacalhoeira, como médico”.
o arrastão David Melgueiro

Um ano depois, fará outra campanha, a bordo do ‘Senhora dos Mares’, e do ‘Navio Hospital Gil Eannes’ (o segundo Navio Hospital Gil Eanes, construído em 1955), em 1958.
o Gil Eannes

“Assim, pude, de facto, conhecer (…) aspectos da vida dos pescadores bacalhoeiros portugueses, em mares da Terra Nova e da Gronelândia (...)”
E pergunta : "Serei capaz? São mil e tantos homens entregues aos meus cuidados, confiantes na minha proficiência médica. Estarei eu preparado para tal?"
E começa a aventura e o desafio. É do mar e do frio e da solidão dos homens que falam estas histórias. Do medo, da alegria e das invejas. Da pureza e do desencanto.
E do mar. O mar é senhor e rei e decide tudo. Sim porque o mar é a personagem principal do livro: na sua indiferença assassina, está sempre presente. O mar é o amigo que serve de ganha-pão, “mar bom” ou “marzinho” como lhe chamam nos momentos em que o barco se enche de peixes.
"mar bom”, aguarela de Luís Tinoco de Faria

“(…) o convés está cheio de peixes, branco-acinzentados, por vezes enormes, ainda vivos…

Chegados à Terra Nova, começam o tratamento do bacalhau. A dura faina de cortar, espalmar e secar o bacalhau. 
“Vestidos com roupas oleadas – chapéus, casacos e saiotes de cor amarela, castanha ou negra, botas altas de borracha e luvas grossas de lã (…) Abrem o peixe, separando para um lado o precioso fígado (…) outros cortam as cabeças dos bacalhaus utilizadas para farinha, os outros, os escaladores, cortam o peixe na vertical, espalmando-o em seguida, depois de lhe tirarem a coluna vertebral. (…) Assim, dias seguidos, semanas, meses!”

E o autor espanta-se da resistência destes homens:
“E aqueles homens que, lá em baixo, trabalham o peixe? Aquelas míseras caras barbadas, exaustas, aqueles gestos mecanizados sem um alento fresco de prazer ou de graça? Estão vivos aqueles homens?!”

Naquele universo concentracionário, fechados entre céu e mar, entre convés e beliches, existe a promiscuidade, necessária e insuportável, em que se criam ódios, impaciências, situações trágicas, onde, por uma insignificância se podia morrer ou matar.

“Os homens são como uma penumbra entre a vida e a morte.”

O autor observa, ampara, participa, ouve. E vai contando histórias. Que falam de superstição e religiosidade, de amizade infantil, de cansaço e desespero. De suicídio. Ou de tentativas, como a do moço João que espeta uma faca no peito, logo abaixo do coração, ferida profunda que atinge as costelas.
“Fitei com atenção o doente: cerca de 20 anos, pálido de anemia e de angústia. (…) Um medo patológico, de entranhado terror contra o mar e principalmente contra o navio.”
Um único desejo: voltar para terra. E o médico consegue mandá-lo embora, no navio “Pádua” que ia abastecer-se em 'St. John'.
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St. John's, na Terra Nova


“Queres ir no “Pádua”? Os olhos do rapaz enchem-se de aleluias. Vi-o partir! Com uma delicadeza esquisita, os companheiros levam-no em braços até ao bote. (…) Adeus, João! Voltarei a encontrar-te? Que será de ti? Adeus! Boa sorte, rapazinho! Não voltes! Não voltes! Não voltes!!” (pg.148)

 Os perigos podem acorrer a cada momento. Basta o mar eriçar-se, em ondas encapeladas, abrindo sulcos profundos onde os grandes arrastões carregados de bacalhau podem afundar-se. 
Mar e céu, Luís Tinoco de Faria

O naufrágio do “Maria da Glória”, bombardeado por um submarino durante a segunda guerra, era outra das histórias que o autor ouviu da boca do Ti’ Zé Caçoilo, numa dessas noites de calma. 
Caspar David Friederich, Naufrágio

“Névoa, “snow. Nenhum outro navio no mar, a perder de vista. Atingido, o velho veleiro afunda-se e os tripulantes conseguem refugiar-se nos botes e afastar-se. Quatro botes com oito homens. Dos trinta e dois, ao fim de 11 dias, 7 são salvos – descobertos por um avião americano.”
Eliseo Roig, Naufrágio

E seguem-se outros contos de naufrágios, de afogamentos, de revoltas. Assim, recordando, o tempo parece passar mais depressa.  

Como a rebelião, a bordo do "Rio Lima", a caminho da Gronelândia, a história contada, agora, pelo Ti’ Rufino. 
Caspar D. Friederich, Naufrágio

“Nenhum navio português s’ astreveu a pescar no tal mar. Porque carga de água há-de ser a gente os primêros? (...)Parece que o gelo é tanto que mais duma vez lá têm ficado barcos prisonêros”, continua o velho pescador. 
Eram os medos ancestrais, os fantasmas das almas mortas. “Almas do outro mundo”.
E o capitão, o Cajeiro, reage brutalmente. "O homenzarrão, a tremer de cólera, batia com as botifarras nas tábuas do sobrado: "Eh, cambada de madraços! eh, punhado de cobardes! Conspirais?" 
O Ti' Rufino explica ao capitão que não é nada contra ele, é outra coisa: "Os homens arreceiam esses mares estranhos". O capitão rebate,  com segurança: "E quem lhes disse que o mar da Gronelândia é pior que este aqui da Terra Nova? Tenham vergonha nessas caras!" e obriga-os a continuar viagem. E o barco volta a Portugal, a abarrotar de peixe da Gronelândia!
Pequenos intermezzi fazem-nos rir, com ternura. Como  o da “Gigi”, a coelhinha que, destinada à panela, consegue fugir. Vendo-a, abre-lhe a porta do quarto e esconde-a debaixo da cama. Ali fica até ao fim da campanha. Só Tody, um dos cães do navio, sabe. A verdade é que não gostou, porque passou a olhá-lo de lado. 
Também terno é o salvamento da focazinha recém-nascida, perdida da mãe, à deriva no mar. 
Alimentada com leite e acarinhada por aqueles homens duros, que se habituam a ela, Clara é amada! Tem o seu banho dentro de uma ampla celha quando lhe apetece, se não saltita pelo convés e vai deitar-se a descansar.
“E a viagem passou-se neste ano mais depressa, mais rica de calor, mais macia de ternura.” (pg 134)

De que fala este livro, afinal? De gentes pobres, lançadas para os mares do fim do mundo, para os gelos e a neve que cai todo o Inverno, na pesca do bacalhau. Afrontando perigos e tarefas sobre-humanas. "Em perigos e guerras esforçados/ mais do que permitia a força humana", lá dizia Camões.
De coragem e de medos, de orgulho e responsabilidade, de sorte e de azar. De histórias dos jovens principiantes e dos “velhos” experientes. Quantos viram morrer o pai, no mar. E têm medo de ver morrer os filhos. A pior “sina” de um pescador é que os filhos decidam ser pescadores!
O livro fala das esperanças de comprar uma casinha, ou de deixar o mar para sempre. E lá anda a morte que espreita a cada saída, na “pesca à linha” do bacalhau (que só os portugueses fizeram).
Gronelândia

E lá vão nos frágeis botes, os dóris, todos em redor, mas cada um sozinho. Vão de manhã e voltam ao sol-posto:
“É quase sol-posto. O oceano está agora calmo, azul profundo, sob um céu negro-violeta: há no mar uma expressão de generosa bonomia.” (pg.17)

O mar é a figura dominante, o deus que tudo pode e ao qual se devem submeter. Outros personagens são os homens. Figuras simples e heróicas. Manhosas ou ingénuas. Homens que matam porque os nervos não aguentam. Homens que se suicidam. Que naufragam. E os que se salvam no último momento com a força do desespero e dos remos, animados pelos gritos dos outros, já no barco-mãe: “Rema, rema! Falta pouco!"
Turner, Tempestade

Noutras ocasiões, perdem-se uns dos outros, na névoa traiçoeira, e nunca mais se vêem. São encontrados, por outros barcos, dias mais tarde, no limite das forças, alguns mortos já.
Há ainda os que se afogam mesmo ao pé do navio. Desistem, perto da salvação, e deixam-se ir ao fundo. Inútil tudo. Deus poderia salvá-los, mas Deus não estava ali.
                         Pietà con angeli, de Giovanni Bellini

“Montes, milhares de cabeças de bacalhau. Cortadas e apinhadas enchem o convés: os olhos redondos e vítreos, as bocas abertas e torcidas… São como a visão alucinada, multiplicada por espelhos demoníacos de certa humaníssima expressão: surpresa, terror e morte… (pg.66)

Os “verdes”, os jovens pescadores inexperientes, com as suas crenças e ilusões, os seus modos de falar diferentes, os sonhos da juventude. O que os levou ali? A aventura desejada?, foi um desgosto que os empurrou?, uma fuga nem eles sabem a quê?
Caspar David Friederich, Naufrágio da Esperança


Os “maduros”, vindos de outras campanhas do bacalhau de há 30, ou 20 anos. A quem já morreram pais e filhos, no mar. Para quem o mar é uma entidade que os atemoriza e que respeitam. 
um dóri
Que conhecem a morte que ronda por ali. E que te “marca”, enquanto dormes, e te vem buscar pela manhã - quando estás no teu dóri minúsculo, só, frente à grandeza do mar e das ondas.
Mar e céu de trovoada, aguarela de Luís Tinoco de Faria

 “No fundo do mar, o peixe, as pérolas, as  sereias e a Morte; à superfície, só espuma branca e água azul. No fundo do poço, a noite escura, a sombra ondeada das plantas, o verde corpo dos suicidas, o eco longínquo do Mistério, os olhos sem face do Terror; no cimo, apenas a prata redonda da lua e o reflexo adolescente de  Narciso”.(pg. 38)
 Luís Tinoco de Faria

Um sonho ou um pesadelo que tiveste e, logo, na manhã em que desapareces, todos recordam o que lhes contaste: que estavas preso, no fundo do mar, onde foras buscar conchinhas para os teus filhos, e de repente fitas escorregadias  prendem-te os pés e impedem-te de subir. Todos sabiam já: fora a morte que te marcara na noite em que sonhaste.

Mas há dias de esperança em que o mar tem outra cor e o sol brilha de outro modo.
aguarela de  Luís Tinoco de Faria

“Mar bom, marzinho: um cinzento bonito e brilhante, ternamente ondulado. (...) lá longe, a costa, píncaros de neve claríssimos, luminosos e amáveis como um riso. 
E sol: um solzito semi-acordado que, friorento, tenta, neste começo de Primavera, espreguiçar-se por aqui, sobre os bancos  da Terra Nova. Cem, milhares de blocos de gelo  oscilam graciosamente ao sabor das ondas.” (pg 26)
“As asas e os gritos das gaivotas riscam com quentes sons vermelhos e vivos, a brancura gelada do silêncio de que é feito o mar.” (pg.54)

“Manhã de sol (…) o castelo da proa e as baleeiras cobertas de neve, o ar mordido por pequenos dentes dum branco imaculado. Cada um dos nossos nervos, tenso em arco, enfrenta o frio. Pela primeira vez neste ano, vai ser lançada a rede ao mar.” (pg.15)
 o sol da meia-noite

Descrições de grande poesia e colorido que nos desenham o mar, o céu, as gaivotas, o sol da meia-noite, os esquimós e a água do mar de todas tonalidades e cores, a todas as horas do dia e da noite.
 Luís Tinoco de Faria

“Mais uma vez o sol-poente na Terra Nova. No céu muito puro por cima de nós, estende-se, lá para o ocaso, uma rede de nuvens brandas formando delicadas malhas por onde se escoa o azul doce e levemente róseo… Um mar liso, cheio de pequenos blocos de gelo, agora irisados de violeta e oiro.”

“Sinto-me transido, cingido em volta do tronco até a dispneia angustiosa, inquieto, nebuloso mas profundamente penetrado de um terror instintivo. O mar é cinzento, o céu é cinzento, de cinzas ainda esta névoa densíssima que nos rodeia.” (pg.66)

A névoa e a ligeira neblina, a neve e os gelos, os icebergs da Terra Nova, a insegurança de cada momento. Surpresa, terror e morte...
Como os peixes mortos, no convés, igual é a expressão dos homens: "visão alucinada, multiplicada por espelhos demoníacos de certa humaníssima expressão: surpresa, terror e morte…"
E o navio-hospital Gil Eannes chega, enfim, ao porto. O cabo Farewel. A viagem acabara para o autor. Tinha passado 6 meses no mar.
o cabo Farewel

“Gronelândia, perto do cabo Farewel. Uma névoa fina, infinitamente dividida, sobre um mar cinzento oleoso, onde a luz translúcida se oculta, velada e frígida.”

“Faço exame de consciência: cumpri realmente bem? Fui o clínico seguro?, o amigo sereno e infatigável (ia a escrever “o pai”) de que estes mil e tantos homens precisavam? Nem sempre. No entanto há uma verdade que me sossega: eu amo estas gentes. E eles sentem que é assim." (pg,236)

No fim e ao cabo, é de uma epopeia que fala Santareno. Melhor do que ninguém será ele a explicá-lo, quando na 'dedicatória' diz: 

“A todos os pescadores bacalhoeiros portugueses,
que têm o riso claro e feroz,
que sempre ocultam nos olhos um acento de morte,
que todos os dias, naturalmente, fazem milagres de força,
que, se a pesca adrega de ser boa, cantam e bailam sozinhos, como os meninos e os loucos…
Que são tipos perfeitos da raça.”


Nota biográfica: Bernardo Santareno (de seu nome António Martinho do Rosário) nasceu em Santarém, em 19 de Novembro de 1920. Tira o curso de Medicina em Coimbra, em 1950. Especializa-se em Psiquiatria. Em funções de médico, embarca nos navios pesqueiros, os bacalhoeiros, que pescam nos mares da Gronelândia. 
É considerado um dos grandes dramaturgos portugueses. Morre em Lisboa, em 1980.

Nota histórica: A Terra Nova e a Gronelândia (Canadá) foi John Cabot (o veneziano Giovanni Caboto, nascido em Génova) que descobriu, ao serviço da Coroa de Inglaterra, em 1497. 
Que, no entanto, há muito era conhecida dos pescadores portugueses e que o Mapa-Planisfério de Cantini reconhece como portuguesa, em 1502. 


João Gaspar Corte-Real, Museu dos Açores


De facto, João Gaspar Corte-Real teria passado ao largo da Terra Nova, ao serviço de armadores dinamarqueses, em 1472.
Região conhecida como Terra Nova do Bacalhau! Sim. Em português!

Links:

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Novo ano, nova vida? à procura da beleza da vida...


Gäelle Boissonard (1)

"Vai começar uma nova vida!", dizemos a nós próprios todos os anos, na ânsia de acreditar que algo se vai mover - e que será evidentemente para bem! Não é assim, claro. 
Vamos começar um novo ano à procura do tempo perdido, a tentar recuperá-lo, no presente, em cada dia. 
À procura do sentido dos dias, contra a força negativa -ou longínqua?- do 'céu sereno' de que fala o grande Camões: a indiferença do céu! Ou a inexistência dele. 
E não posso deixar de copiar a extraordinária estância d' Os Lusíadas, onde o destino do Homem e a sua 'condição' estão tão bem delineados!

"No mar tanta tormenta, tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?" (2)

E, apesar disso, "pobre bicho da terra tão pequeno" que somos, lá vamos nós à luta, sempre, com a mesma vontade de fazer o que achamos importante, a querer defender o que é justo e a saber apreciar o que é belo. O "bicho da terra", na roda da vida, que gira e gira, ora está em baixo, ora em cima, mas não desiste nunca!
A beleza é, porém, uma ajuda maravilhosa. A beleza do mar. que bate, violento, contra os rochedos, ou vem, devagarinho, espalhar a espuma branca na areia. 
A beleza efémera das flores que nascem. E que murcham e secam, a seguir. E que tantas vezes são belas nessa forma quase artística de murchar.

E lembramos as meninas que brincam com fitas e arcos e passeiam pelos campos, adolescentes, e que, depois, crescem. E o tempo vai passando, passando...

As árvores, cheias de verdes folhinhas, ou douradas pela luz do Outono, ou nos seus ramos despidos, altas e esguias, a subirem para o céu, no Inverno. 
Como hoje.  Vejo a minha velha árvore, um salgueiro que era um pequeno arbusto quando cheguei a esta casa e que hoje chega à janela no quarto andar. É belo, ainda. E belo será sempre será em todas as estações.
Voltará a ter as suas folhas verdes a tremerem, na brisa suave das tardes de Primavera, e voltará a dourar quando o Outono vier. 
É a vida. E é a natureza que se renova que quer viver. 
É a vida e a morte dos objectos e dos seres, que foram belos um dia. E novos. E é tudo isso que o tempo vai gastando : a cor dos barcos, a tinta das paredes desbotadas, os brinquedos...

É o tempo que passa... E é o que fica, depois de o tempo passar: a memória da poesia das coisas e a beleza que é eterna! 
Lamentava-se Baudelaire da passagem do tempo devastador:
“O relógio! Deus sinistro, assustador, impassível,
Cujo dedo nos ameaça, dizendo: “Recorda!”

A vida são os dedos indiferentes do relógio que apontam as horas, os minutos, os segundos da nossa vida. A ampulheta que marca o tempo que nos resta. Todos o sabemos! É a condição do homem que vive um tempo e passa como sombras…
“O tempo devora a vida,
E o obscuro inimigo que nos rói o coração
E do sangue que perdemos a sofrer
Cresce e fortifica-se.”

Mas para que pensar nisso? O tempo é também o presente e, nesses minutos, segundos ou horas podemos viver procurando não o tempo perdido mas o tempo que se  ganha em cada gesto. Como cada momento pode ter beleza, amor, esperança, e a possibilidade da doçura de olhar em volta. Ou a serenidade de uma manhã de Inverno a ver o mar.
E a Arte! 
Os artistas encantam-nos com as suas obras, ajudam-nos a viver. A música, a poesia e o romance ensinam-nos a amar e a imaginar! Criam mundos novos, personagens que nos aquecem e envolvem na sua vida “mágica”.
Tal como a natureza é um quadro que nunca cansa, assim a pintura é uma maravilha para os que sabem observar e têm o coração aberto à beleza e ao sentimento artístico. A vida é feita dessas coisas também.
John Duncan, Sleeping beauty

Dizia, também, Baudelaire:
“O belo é sempre estranho. A pintura é uma evocação, uma operação mágica (se pudéssemos consultar a alma das crianças sobre isto!), e quando uma figura é evocada, uma ideia ressuscitada, vão-se erguer diante de nós e olhar-nos, e não teremos direito de discutir as fórmulas invocatórias do feiticeiro”.

Ah, sim, "se pudéssemos consultar a alma das crianças sobre isto tudo!", como imaginava Baudelaire. O que diriam, na sua pureza e esperança? Talvez nos aconselhassem a olhar tudo com um olhar novo: um olhar de criança.

É o tal ano novo que vai começar de novo: com um olhar de criança. Fotografei Renoir e, para mim, este rosto desfocado é o símbolo do ano novo desconhecido, ainda um pouco desfocado aos nossos olhos que tanto desejam.
um olhar de criança, de Pierre-Auguste Renoir

Renoir, Parapluies

(1) "Gäelle Boissonard nasceu em 1969, num dia de neve. Licenciatura em Ates Plásticas em Saint-Etienne (1991). Durante anos consagra-se inteiramente á pintura. Um dia começa a criar imagens para edições de livros. É hoje esse o seu trabalho desde 2001". Gosto do traço e da suavidade das cores e dos motivos dela. Escolhi-a para este novo ano!
(2) Camões, Os Lusíadas, Canto I, estância 106

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

UM BOM ANO NOVO! COM AMOR, CANTA LOUIS AMSTRONG: "WHAT A WONDERFUL WORLD"!

Ratinho e Ouricinho a divertirem-se: Upside down.
Conselhos: Viver todo o momento do ano que aí vem da melhor maneira! 
Se for necessário, e nos apetecer, até pode ser de pernas para o ar! 
"Ver as árvores verdes e as rosas vermelhas, para ti e para mim, que mundo maravilhoso!"

"Love baby, love"


"Love baby, love. That's the secret, yeah.
If lots more of us loved each other
we'd solve lots more problems. 
And then this world would be gasser"


"I see trees of green, red roses too
I see them bloom, for me and you
And I think to myself
What a wonderful world"

Some of you young folks been saying to me "Hey Pops, what you mean 'What a wonderful world?
How about all them wars all over the place? 
You call them wonderful?
And how about hunger and pollution? 
That ain't so wonderful either."
Well how about listening to old Pops for a minute. 
Seems to me, it aint the world that's so bad 
but what we're doin' to it.

And all I'm saying is see what a wonderful world 
It would be if only we'd give it a chance. 
Love baby, love. That's the secret, yeah.
If lots more of us loved each other
we'd solve lots more problems. 
And then this world would be gasser.
That's wha' ol' Pops keeps saying."
I see trees of green, red roses too
I see them bloom, for me and you
And I think to myself
What a wonderful world
I see skies of blue, and clouds of white
The bright blessed day, dark sacred night
And I think to myself
What a wonderful world
The colors of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces, of people going by
I see friends shaking hands, sayin', "How do you do?"
They're really sayin', "I love you"
I hear babies cryin', I watch them grow
They'll learn much more, than I'll ever know
And I think to myself
What a wonderful world 
Yes, I think to myself
What a wonderful world

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Um novo ano vem aí…


a fada com a varinha de condão

Veio o Natal, e passou já, apesar das luzes e balõezinhos que brilham nas árvores ainda enfeitadas e de que não queremos separar-nos, porque é esse pouco de beleza e de alegria que queremos conservar mais uns dias. 

“Até ao Dia da Adoração dos Reis!”, dizemos. Quantas vezes deixo  a minha árvore enfeitada até ao fim de Janeiro!
Adoração dos Reis, de Botticelli

Começou o Inverno, chegaram os dias curtos e cinzentos, houve por aqui um vendaval de ventos ciclónicos e trovoadas de raios e trovões iminentes durante uns minutos sobre a minha casa.
O ano chegou ao fim e penso que tanto ficou para fazer, tantas palavras para dizer, tantos gestos imperfeitos que se deveriam ter corrigido. 
Será possível recomeçar?
O que desejar? Sempre algo de novo, porque o que fica para trás não nos basta e ansiamos mais. Nós, humanos imperfeitos, claro, que sonhamos com a perfeição. A perfeição da pintura, da literatura, da Arte? Sim. 
Adoração dos Reis, de Georges de La Tour
E, logo, a insatisfação da condição humana e a sua sede de absoluto apertam-nos o coração. 
Mais coisas! Mais para quê - se não for o bom? E o que é o bom? Não vou pôr-me a filosofar.

Vão surgir os eternos desafios que vêm do passado e não tiveram solução: escolher uma sociedade melhor e mais justa? Dar uma atenção maior, tão prometida, à pobre Terra doente, incentivando a luta contra o aquecimento climático? 

Ver o final das guerras religiosas e das matanças sem rei nem roque?
Sim, tudo isso vai voltar aos jornais, às televisões, às máquinas publicitárias.
E a nossa velha lenga-lenga que nos desculpa por tudo : “Ai, não depende de mim”, ou, então: “O que posso eu fazer?”
Não acreditamos que se possa fazer algum gesto pelo mundo? Que vai tudo inevitavelmente em direcção do abismo? Que a derrocada total nos aguarda, ou o Apocalipse está ali à porta? Que mais nada se cria?
Lembro António Machado e o poema:
"Dices que nada se crea?
No te importe: con el barro
De la terra, haz una copa para que beba tu hermano!"

Não sei se o mundo vai para o abismo. Sei, apenas, que há muito a mudar na atitude das pessoas. Para quê o ganho, o lucro, os rendimentos de uns - se não houver mais nada a não ser a pobreza dos outros?
Não há milagres, eu sei, nem existe a tal varinha de condão que tanto nos entusiasmou na adolescência: “Toc!” e tudo se resolvia, a princesa acordava do sono profundo, os anõezinhos brincavam com a Branca de Neve e o Polegarzinho encontrava a sua casa, depois do susto.
A princesa adormecida, de Viktor Vasnetsov

Eram Os Contos de Grimm, quem os não recorda? A magia dos contos de fadas e de encantamentos. O medo e a angústia que nos apertava o peito, por causa dos nossos heróis amigos!
Não, não podemos mudar o mundo com a varinha mágica! No entanto, atrevo-me a dizer uma vez mais: há sempre uma parte, na resolução dos problemas, que depende cada um de nós. Parafraseando Machado:

"De la terra, haz una copa
 para que beba tu amigo!"

Porque se falarmos de paz e a tentarmos 'fazer', ao nosso nível, ela pode resultar. Se dissermos palavras de amor e não as que trazem o ódio, a agressividade do outro pode diminuir; se formos altruístas, se dermos um pouco do que temos, alguém pode ganhar com isso, na sua dificuldade de viver, ou na sua pobreza; se tivermos cuidado com o que deitamos fora, no lixo, poderemos contribuir para o melhoramento ecológico. 

Se descobrirmos ‘momentos de graça’, dentro do desespero e desistência de cada um, no cinzento dos dias de que muitos pensam não poder sair, se tivermos esses “momentos que nos incendeiam o espírito” podemos tentar levar esse entusiasmo aos outros, esquecendo o nosso ‘ego’ feroz e infernal. 
E acrescentaria  ao que diz Machado : "del barro de la terra, haz una copa/ para que beban todos!

Como bem escreve Steinbeck:
“O homem pode ter vivido uma vida cinzenta num campo de terra escura e de árvores negras, os acontecimentos importantes podem ter passado por ele, alinhados, anónimos, desprovidos de cor. 
Isso não interessa. Porque, nesse minuto de graça, logo o canto de um pássaro lhe encanta o ouvido, o cheiro da terra lhe sobe, agradável, pelas narinas e a luz suave de uma sombra de árvore lhe renova o olhar. Então o homem torna-se uma fonte e é inesgotável.”

Por isso, estender a mão quando a nossa alegria pode ajudar o outro é importante. Sem esperar que haja uma paga.
“Dá, sem esperares que se lembrem que deste. Recebe, sem esqueceres quem te deu.”
Natividade, de Georges de La Tour
Acreditar é importante. Fazer os gestos é importante. Criar a amizade e mantê-la viva, sem egoísmos, sem esperarmos que seja “devolvida” do mesmo modo, é importante. 
Nunca esperar que nos agradeçam, isso não é importante! Dar as mãos, sim.
Lembro Epicuro que acreditava na felicidade dos momentos passageiros e na nossa possibilidade de tudo poder mudar se não desejássemos mais do que deveríamos:
“Não deves corromper o bem presente com o desejo daquilo que não tens.” 
Sabendo apreciar o que soubemos conquistar e preservando os valores importantes. Como a Amizade e os Amigos!
“A amizade dança em volta do mundo, dizendo a todos nós que acordemos para a felicidade.”

Bom Ano Novo. Tentando corrigir o que está mal, dentro do que podemos. Tentar rir e cantar em vez de odiar! Seguindo o exemplo dos "Blues Brothers" que vão em missão para ajudar alguém que os ajudou um dia...
John Belushi e Dan Ackroyd com John Lee Hooker

Um ano cheio de amizades e de boas intenções! E de actos! - porque de boas intenções está o Inferno cheio, dizem as má-línguas!
Deixo uma receita fantástica: ouvir os "Blues Brothers" cantar "Everybody needs somebody...to love!"

Blues Brothers (1)

(1) Filme de John Landis com Dan Ackroyd e John Belushi  (1980)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

NEW YORK,NEW YORK- FRANK SINATRA

Recordar os cem anos de Frank Sinatra...Italiano filho de mãe genovesa e de pai siciliano, "boxeur",é um dos mais famosos italo-americanos!