quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Mais um Natal, com os amigos!


Os amigos andam agitados a preparar o que ainda não está feito. E eu, cansada e na ressaca da dor ciática que me tem dado cabo da paciência, continuo sentada enquanto eles falam.
- Este  ano não fazes uma árvore de Natal grande?, pergunta o Ouricinho. Estás com preguiça, depois do passeio?
Não respondo. Sei que ele tem razão: devia já estar pronta. E ainda estou a pensar em Trieste. O Ratinho respondeu-lhe, olhando de lado para mim:
- Coitada, não a vês tão cansada? Queres ajuda, Jana?
- Não sei ainda…Custa tanto a tirá-la de cima do armário!
- Pede ao Manuel. Ele sobe-se no escadote e tira-a de lá em três  tempos!
O Ouricinho estava agressivo. Chocava-o esta minha preguiça, num momento destes, "o melhor do ano", dizia  sempre.
E lá desceu do alto a árvore de Natal, grande, informe, toda embrulhada num plástico. Não me apetecia enfeitá-la. Deixei-a uns dias detrás do sofá da sala. E fui preparando a pequenina, um lindo arbusto que a Gui me deu um dia.
Está, habitualmente, ao lado da janela da cozinha virada para as grandes árvores do liceu, ali quase ao lado. E comecei a pôr uns balões pequeninos, uns corações prateados, um grande coração vermelho. Eles espreitaram-na por todos os lados.
- Está a ficar muito bonita a pequenina, disse o Ouricinho. Mas…

- Pois é, disse o Ratinho, é o tal ‘mas’. Estávamos habituados à outra árvore que até foi o Diogo que a escolheu…
- Percebo, percebo…
Pois, pois, bem percebia a chantagem afectiva. E o Ratinho propôs, rindo:
- Olha, fazemos assim: tu vais-nos contando coisas da tua viagem e assim estás distraída. Nós vamos-te dando os balões…
Encolhi os ombros, convencida. Tinha de ser!
- Boa ideia! 
O Ratinho, para me espevitar talvez, disse:
- Voaste com a "bora"? Diz lá, como era afinal a “bora” de Trieste? O  burrinho disse-nos que as coisas voavam na Piazza. E que até quiseste comprar um barrete de lã vermelho!
O burrinho é o amigo burrinho-das-chaves que viaja sempre connosco.
- Que exagero! Não comprei nenhum barrete! Bem, confesso que pensei nisso. É verdade...
E lembrei-me dessa manhã em que senti a cabeça gelar quando cheguei à Piazza dell’Unità. Na via Armando Diaz, o vento era suportável, a rua é protegida pelos antigos palácios em estilo “liberty” e há sempre modo de nos abrigar do vento. 
Mas, ao entrar no largo que vai dar à Piazza, parecia que ia tudo voar: o meu cachecol desenrolou-se, a mala caiu-me do braço e não conseguia agarrar tudo ao mesmo tempo, as luvas impediam-mo. 
A primeira coisa que fiz foi entrar na loja de chapéus que fica ao lado do que foi o Café Garibaldi - hoje desaparecido- e “quasi quasi” comprei um chapéu pequenino, daqueles dos anos 20, que estavam na moda por lá. Provei um de feltro cor de rosa, que tinha visto na montra, com um lacinho ao lado, lindo, mesmo dos tempos do Fitzgerald. 
Quando me olhei ao espelho - e enquanto a menina da loja me dizia “li sta proprio molto bene, signora…”, tirei-o da cabeça e fugi. Eu detesto chapéus, gorros e barretes! Sempre detestei. 
Enquanto ia começando a esticar os ramos da árvore de Natal grande, respondi apenas:
- A “bora” é gelada!!!
Pus um Pai Natal no cimo da árvore porque sabia que ia ser demorado o trabalho mas, pelo menos, o Natal já estava ali assinalado! Tantos Natais passados, tanta gente ida, tanta recordação nestes dias de festa. A nostalgia instala-se e prende-nos a vontade. Ficamos a olhar para dentro.
- O burrinho também contou que caíste! Hi hi hi…Tinhas descido do comboio... Hihihi e as malas andavam sozinhas a andar!
E o Ouricinho ria-se! Ora o parvo do burrinho. Senti-me ridícula. Porque essa cena foi mesmo ridícula! De facto, no regresso, quando passei por Veneza para apanharmos o avião, dei uma queda na estação.
- Magoaste-te? Era o Ratinho, atencioso.
- Não meus queridos! Tive muita sorte. Não sei como caí e, melhor ainda!, não sei como me levantei!
E vi-me em acção, cheia de casacos,  com a mala a tiracolo, a ‘conduzir’ duas malas de viagem. Uma de quatro rodinhas, super rápida, uma espécie de mala-turbo, e a outra mais antiga só com duas rodas,  coitada, lenta, e a tropeçar. Ou eu a tropeçar nela?
- Como foi?
- Sei lá! Um senhor que ia a passar disse-me, um momento antes: “Atenta signora, la valigietta a le ruote all’inverso! Così non girono...”
- Um perigo! , disse o Ratinho, preocupado.
- Pois é, eu arrastava a mala em vez de a deixar rodar. Conclusão, dei por mim no chão agarrada às maletas. 
- Coitadinha! O Ouricinho era sincero.
- Na minha frente, estavam dois namorados, num banco, a olharem,  curiosos e…
- Ajudaram-te?, perguntou ansioso o Ouricinho.
- Não. Não sei como fiz mas vi-me, de repente, em pé. Tinha-me levantado sozinha. Mesmo na minha frente estava aquele par de jarras a olhar.
- Não disseram nada? Era o Ratinho, crítico.
- Disseram, disseram, mas creio que o espanto foi tal por me verem ‘aterrar’ assim que nem tiveram tempo de pensar.  
- Eram lentos! E o Manuel não te ajudou?
- O Manuel vinha atrás agarrado a outra mala…
E desatei a rir. Que história tão estúpida. Continuei a rir enquanto lhes contava o resto.
- Mais adiante, um senhor muito gentil disse: “Signora, atenta…” Desta vez, era o casaco comprido que arrastava pelo chão, pendurado de uma das malas. O meu casaco preto novo!
Desta vez foi a Gatinha que comentou, abanando a cabeça:
- Ah, Veneza, Veneza…
E achei que ela entendeu tudo o que eu pensei nesses momentos. E concordei com ela.
- Sim! Ah, Veneza, Veneza, tão bela e tão transformada! Cheia de turistas e a pregar-me partidas destas!
Do alto da Ponte Nova de Calatrava, vi-a linda como sempre naquela tarde de Outono. A beleza eterna do Canal Grande, indiferente aos turistas e a tudo. Uma névoa ligeira começava a surgir junto à água do canal e um vaporetto subia, calmo, em direcção a San Marco. Fiquei pensativa a recordar aquela maravilha que durou poucos minutos. 
- E o resto da viagem foi boa? Arranjaram amigos por lá?
Como ter tempo para lhes explicar quanta gente maravilhosa encontrei por Trieste!
- Sim, muitos amigos! Amigos de sítios diversos! Croatas, eslovenos, marroquinos. Italianos do Norte, do Sul, da Sardenha. E até uma cubana, bailarina!
- Turistas?, perguntou o Ouricinho que é sempre o mais curioso.
- Não. Trabalhavam lá. Nos cafés…
- Turistas?, perguntou o Ouricinho que é sempre o mais curioso.
- Não. Trabalhavam lá. Nos cafés, sobretudo nos cafés. Algumas estavam a estudar.
- Chamavam-se como?
- Muitos nomes bonitos! Halima, Anika, Amarilda, Dragana. Algumas tinham estudado já muitas coisas! A Anika la blonde andava a aprender francês e falávamos sempre em francês. Ficámos amigas!
- A mania dos amigos... No Facebook, não? Virtuais... O Ratinho é muito crítico nestas coisas.
- Amigos são amigos, disse o Ouricinho. E que mais???
- Muitos estudantes festejavam a licenciatura!
De facto, naquela data de fins de Outubro, momento em que alguns acabam a licenciatura, havia grupos de jovens estudantes acabados  de formar que se passeavam pela cidade e se divertiam. 

Encontrámo-los no restaurante "Angelina", a ver as "Sartine" no porto, na Piazza della Borsa, por toda a parte. E, sobretudo, no Caffè Degli Specchi.
- E usavam coroas verdes de folhas de louros verdadeiros, na cabeça!
- Como o Nero?! Era o Ouricinho.
- Sim, como o imperador Nero!
- Conta mais ! Conta mais…
- Se conto mais, não acabamos a árvore de Natal grande…

E foi assim que os convenci. Havia ainda tantas coisas para contar! Para já, íamos começar a enfeitar a árvore. No meio do trabalho, ouvimos tocar a campainha da porta. 
- É uma menina para ti!
Fui ver. E descobri uma linda coelhinha vestida de cor-de-rosa!
- Quem és? Donde vens?
Muito mimosa, respondeu:
- Sou a Coelhinha Rosetta. Venho de Portalegre mas sou italiana... Manda-me a Mané para passar aqui o Natal.
- Ah! Entra Rosetta. Sei la benvenuta... 
Logo os amigos se aproximaram:
- Ciao, Rosetta! Vens ajudar-nos com a árvore?
Eu fiquei contente. A Rosetta estava encantada em frente da árvore pequenina e só dizia: "Che bello! Che bello!"
Deixei-os, na conversa, a tirar os balões da caixa e a enfeitarem a árvore, e sentei-me no sofá a ler! Por acaso, é um livro italiano, que me aconselhou em Veneza no ano passado a Nicoletta Trentin.

Comprei-o em Trieste e chama-se "Testimono inconsapevole" e é de Gianrico Carofliglio. Tinha aberto a primeira página quando senti alguém a puxar pelo livro.
- O que é? É bom?
Era o Ouricinho!
- Não sei, Ouricinho, comecei agora...
- Então lê. Eu fico aqui a descansar ao pé de ti. A Rosetta só quer falar com o Ratinho Poeta...
Ah! os amigos e os ciúmes dos amigos! E lembro Trieste e a noite na Piazza dell'Unità. E os amigos e as amigas. E a Amarilda que me mandou esta fotografia ontem...

sábado, 17 de dezembro de 2016

Carnet de viagem a Trieste - III


E a viagem continua, para Trieste. Voltar a Trieste e ao deslumbramento de outras vezes?
"O comboio vai velocíssimo, as paisagens deslizam, como posso fixar as imagens?" 
As fotografias apareciam-me confusas quando as via, acabadas de tirar. Pouco me importava, o que eu queria era fixar o momento, a passagem. Ora essa é infixável.

De tal modo isso é verdade que elas se volatilizaram bem depressa Duraram o tempo de as enviar para os amigos, de pôr algumas no meu blog. Mas, no momento exacto em que quis fixá-las ‘para sempre’ no computador, elas eclipsaram-se. 
“Sono volate via, svanite nel nulla.” Por isso este meu post não vai ter as imagens que esperava pôr.
O comboio corre na  tarde...
Monfalcone - a minha cidade de adopção- ficou para trás também. "Com o seu estaleiro e as suas indústrias. E as belas arcadas da estação! Mais atrás, ainda, ficara Veneza e a laguna e as muitas ilhas por ela esparsas. Deixámos o Golfo de Veneza, a terraferma de Mestre, Jesollo e outras cidades do Comune di Venezia."
Veneza, visão

'Terraferma' é o nome dado ao território não-lagunar administrado pela Câmara de Veneza.
Para essa terraferma foram viver dezenas de milhares de venezianos a fugir dos turistas e dos preços excessivos das casas e de tudo, na cidade lagunar.

Portogruaro (net)
Devagar, começamos a aproximar-nos do Golfo de Trieste. Passara a estação de Porto Gruaro-Caorle com as belas as praias de Caorle, de que fala o guia.  
Porto Gruaro-Caorle (net)
Vamos em direcção a Cervignano Aquileia Grado, onde na bifurcação do Bivio d'Aurison podíamos seguir por outra linha para Viena! Mas o nosso destino é outro claro.

estação Bivio d'Aurison (net)

 Leio no meu caderno:
"Pelo caminho, mais terras, frias e cinzentas. Um ar muito diferente de Veneza. O azul do céu esbate-se, as imagens de água desapareceram. Aproximamo-nos do Norte e nota-se."
Alpes (net)

No guia de Trieste, leio, a propósito das entradas na cidade: 

“A ferrovia Venezia-Trieste é uma linha principal do nordeste italiano que corre, em grande parte, paralela ao golfo de Veneza. Sai do Veneto e termina no Friuli-Veneza Giulia, em Trieste. Muitos anos antes, o governo austro-húngaro dera precedência à linha que partisse de Viena para Trieste e Veneza”.

Para trás, ficou a planície veneto-friulana que vai até Monfalcone. Continuamos na linha que é comum à ferrovia Udine-Trieste até passarmos no Bivio D’ Aurisina.

Dirigimo-nos para para leste, pois, sempre paralelos ao Carso, e a linha do comboio sobe pela montanha da zona triestina. A cadeia dos Alpes Giulia? Vem-me à memória Slataper e "Il mio Carso". Scipio Slataper tão cedo desaparecido na Iª Guerra. 


E associo-lhe o nome de outro jovem escritor triestino, Carlo Stuparich, igualmente morto nessa Guerra (1916), cujo centenário passou agora e tantas vidas jovens ceifou.

O "Carso" -para mim montanha misteriosa (pois o tão esperado little train para Opicina continua parado!) - tem sempre um pouco do que ele escreveu. É uma imagem 'poética', de locais e de gentes imaginárias que não se concretiza nunca no tempo. E se sonha apenas.
Neste momento, as malas de rodinhas, que não colocámos nas redes porque não podíamos com o peso que tinham, escorregam para o outro lado da carruagem, na subida do comboio. 
Levanto-me para as ir buscar, uma a uma. Agora o comboio  desce e lá vão as malas em sentido inverso, numa correria doida a descer também. As malas parecem estar numa montanha russa de brincadeira. Rio-me. O que hei-de fazer? Prendo-as no meio das poltronas azuis, entaladas nos lugares onde não vai ninguém.
"Perco-me nos mapas. Quero perceber onde estou, por onde vou. No meio de árvores altas que agora aparecem do lado do mar. Porque o Adriático anda por ali e porque o Golfo de Trieste vai aparecer dum momento para o outro".
Lá está ele, em baixo, brilhando nas cores do sol da tarde. Florestas de pinheiros, de abetos e, sempre, de repente o vermelho de algum ácer, um plátano do norte. 
O Castelo de Duíno imponente que - de tão em baixo- mal se vê, e, mais adiante, o branco Castelo de Miramar que dizem estar enfeitiçado, e onde vivem os 'fantasmas' dos que lá viveram ou morreram tragicamente, ali ou noutros lugares.
Mais uma descida, agora suave, e pouco a pouco vêem-se os contornos da cidade desenhados na curva do golfo.


Sim, Trieste. E o aproximar da estação, velhos prédios que parecem enormes fábricas abandonadas. Distraio-me um momento e... chegámos à Estação Central!  
Um táxi, rápido, e daqui a pouco estaremos na via Armando Diaz, na  "Liberty"!

domingo, 11 de dezembro de 2016

'Carnet' da viagem a Trieste -II




A caminho de Trieste, fui tomando notas. Caderno novo, caneta nova, preparei-me para olhar e para escrever. O avião chegara, pontual, ao aeroporto de Marco Polo de Veneza. Apanhámos o bus e fomos para a Piazzale Roma. 
Veneza, Outono 2016 (MJF)
Ficar em Veneza? Desta vez, não! E seguimos no primeiro comboio rápido para Trieste. 
Os turistas ficaram para trás, amontoando-se na Piazza San Marco e no Rialto. Imagino-os dando-se encontrões, pelas calles e viuzze, até na Strada Nuova -porque já chegam até Cannareggio!
Veneza 2015 (MJF)
Lá vai o tempo em que se passeava por ali quase sem ninguém - e como era belo o sol e como andávamos leves perto da ponte da Accademia. Dorsoduro, Cà Rezzonico, Santa Margherita e as ruas -calle- vazias, tudo parecia perto porque andar não custava tanto, sem os turistas aos montes em cima de nós. Porque hoje o turismo é selvagem, como tudo...
 Dorsoduro hoje (net)
Imagino-os que enchem os restaurantes, entram e saem dos museus, de corrida sempre, fazendo selfies com os telemóveis pendurados numa espécie de sticks de golf. Longe, depois, verão as fotografias e os videos. Aqui limitam-se a correr dum lado para o outro, dum lado para o outro, sem destino aparente, até chegar a noite e irem-se embora nos vaporetti cheios a transbordar.
Laguna, 2016 (MJF)

O comboio partiu de Veneza, há pouco. A laguna aparece - eternamente bela e plácida, pura. Escrevo: "O comboio é confortável, tem estofos azuis e grandes janelas. Pouca gente neste comboio, o rápido das 14:41, que sai da estação de Venezia-Santa Lucia."

 Vejo passar Mestre, San Donà di Piave, Quarto d’ Altino… Por estas paragens, a seguir a Mestre, vê-se apenas a água azul acinzentada da Laguna, as redes dos pescadores, que se desenham, espaçadas, negras, na imensidade da água. Nem um barco, ninguém. O vazio, o silêncio, o tempo que parece palpável.
Laguna 2016 (MJF)
"Formas desenhadas de contornos suaves, estacas espetadas nas águas onde se prendem as redes dos pescadores, em desenhos delicados, como a pena, negros, que parecem cestinhos."
O desenho das redes baloiçando é lindo. Adormece-me esse baloiçar das águas. A paisagem muda. 
Laguna, 2016 (MJF)
“O que se pesca na laguna?”, penso. Aquilo que se vê, depois, no mercado do Rialto, ou no barco a motor atracado num dos canais, talvez em San Trovaso, onde tantas vezes o Aldo Zari nos levou. 
E eram verduras frescas acabadas de colher: salada de alface ou ruccola (que, em Roma, se chamava rughetta), tomates de todo o ano, fondi de alcachofras zucchini, melanzane piccole.  
E havia navalhas, caranguejos, mexilhões, lapas, gamberetti, anchovas...

Leio na 'wikipedia' agora: “A pesca artesanal no mar e na laguna continua a ser praticada pela comunidade de pescadores do Lido, Malamocco e Chioggia.”


Malamocco  (net)

Chioggia  (net)

Parece que a pesca se transformou em mais outra ‘atracção’ turística. E lá vão mais turistas, agora a acompanhar os pescadores e a ver pescar, pois de certeza que não pescam nada de nada. E lá se vêem as douradas pequenas e, de vez em quando, lá salta um branzino - que é um robalinho. Depois, param, algures num espaço qualquer das ilhas quase abandonadas, e grelham os peixes - ou fritam-nos… "Os turistas gostam destes picnics!", dizem.
 Laguna de Veneza (net)
Continuo a ler: “Fechada num extremo, a laguna está sujeita a grandes variações do nível do mar, produzidas pelas marés e pelos ventos, sendo a mais vistosa a maré do Outono, conhecida como ‘acqua alta’ e que inunda regularmente grande parte de Veneza.”

E, de repente, recordo a acqua alta, num mês de Novembro de há muitos anos. Dessa vez, ficámos instalados na pensão que tinha sido, em tempos idos, a embaixada russa. De facto, a 'Pensione Accademia' era uma das residências aristocratas de Veneza que, entre as duas guerras, se transformou na Embaixada Russa. Depois, em 1950, comprada pela família Salmaso, passou a ser um hotel.  
 Interior (net)
Dela, recordo as escadas de caracol, a mobília antiga e uma magnífica biblioteca cheia de livros em todas as línguas que os hóspedes iam lendo e deixando.
Ponte delle Maravegie  (net)
Ficava na zona de Dorsoduro, perto da Galleria Accademia,  na Ponte delle Maravegie. Havia também outra 'locanda' onde passámos uns dia apenas que tinha um dos nomes da Karen Blixen -Isaak Dinesen. Hotel American Dinesen creio se chama hoje. 
Hotel American Dinesen (net)
Chovia muito e a acqua estava altissima! O Manuel tinha uns botins - stivaloni!- guardados em casa do Aldo Zari mas eu só tinha levado as minhas botas altas, novas, Cervone, de um belo couro suave e amarelado. Chapinhei o tempo todo na água salmistrata da laguna que com a subida da maré enchera as ruas e transformara a Piazza San Marco num mar cinzento e baço. 
Veneza, "acqua altissima"
As botas - essas ficaram queimadas e o couro ressequido - e deitei-as fora quando voltei para Roma...
Voltando, à viagem a caminho de Trieste, vejo desfilar campos e campos, surgem algumas vinhas roxas, vermelho vivo, amarelas. Plantações de girassol secas e já amarelas. Há verde nas folhas das árvores à beira da linha férrea. Espalha-se, dominante, pela folhagem, o vermelho ferrugem do Outono.
Em pequenos pomares, cercados de sebes, vejo árvores de fruto, e, no meio, uma pequena casa amarelo-ocre. 
Os canais cortam, no seu azul suave, as manchas de cores outonais. Os choupos desfilam junto aos ribeiros que se adivinham mas não vemos. De onde em onde, um grupo de casas baixas, pequenas aldeias aglomeradas, cujos arredores foram estragados pela arquitectura recente de outras casas, quadradas, com varandas de latão sem forma, deslavadas pelas chuvas e pela humidade deste Outubro avançado que se entranha por dentro de todas as coisas. Tudo gasta e destrói e, dentro e fora das casas, a água transpira.

Em San Stino, paragem rápida. Não desce nem sobe ninguém. "Quem viverá em San Stino?", penso. 
Na estação, destaca-se um banquinho azul a condizer com a cor da placa recentemente pintada. 
Leio:
"Céu cinzento-azulado, frio e alto. Extensões de planícies, árvores delicadas, com as cores do Outono, canais ladeados de choupos, campos cultivados de vinhas vermelhas, casas isoladas, tanta beleza." 

Vou tirando fotografias (*), quero guardar certas imagens. Continuo a ler:
"Campos e campos, algumas vinhas de folhas roxas ou vermelho vivo, amarelas outras. Plantações de girassol secas neste Outono. Mas vejo também o verde nas folhas das árvores à beira da linha férrea. 
 Van Gogh, Vinhas vermelhas em Arles, 1888

Espalha-se pela folhagem, a pouco e pouco, o vermelho-ferrugem do Outono. E lembro os vermelhos de Van Gogh nas suas vinhas em Arles. As árvores de fruto em pequenos pomares de sebes e uma pequena casa amarelo-ocre. Van Gogh ainda.
Van Gogh

Cores e mais cores outonais. Os canais, de quando em quando, cortam com o azul suave essas manchas. Os choupos desfilam junto aos ribeiros que se adivinham mas não vemos." 
Adiante, prédios compridos e baixos - indústrias, fábricas, silos. É já o Veneto? A planície padana - a planície do rio Pó? 
Vem-me à memória o fime 'Arroz amargo' e a figura da belíssima Silvana Mangano, nos seus inícios de actriz. Era um filme de Giuseppe de Sanctis, de 1949. Figura inesquecível de mondadora das lezírias! Eram as jovens mulheres que vinham de longe mondar os arrozais. Trabalho duríssimo e ingrato, de costas curvas, de sol a sol, com as pernas dentro de água, a arrancar as ervas daninhas.

O comboio segue. Mais um grupo de casas muito juntas e uma chaminé no meio delas.

"Volta o amarelo queimado, o ocre e o vermelho cor de tijolo. Van Gogh. Dois ou três ciprestes e, numa extensão imensa, as vinhas. Uma casa de cor fúcsia parece destoar ao lado da construção de cimento, baixa."
Atravessamos a zona do Friul-Veneto-Venezia-Giulia. 

Sei que nos aproximamos de Monfalcone e sorrio. Adivinho ao longe as arcadas da estação que lhe dão um ar senhorial.

Sei - ou invento?- que esta terra tem que ver com o meu nome Falcão, mon falcone seria, pois,  'meu-falcão'!  Talvez por isso, sinta, quando ali passo, um pouco da euforia infantil com que chegava dantes à minha terra! 
Trieste  e Golfo (MJF)

E a viagem continua... Fico em Monfalcone, para já, ainda bastante longe de Trieste.


(*) Fotografias essas -cerca de 900- que uma boa amiga, bem intencionada, ao ajudar-me a passá-las do telemóvel para o computador, "perdeu" irremediavelmente. Salvaram-se as que fui pondo no Facebook e enviando aos amigos. Como sou optimista pensei: há coisas piores. Para o ano, quando lá for, tiro outras!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Outono e 'haikais'



"A libelinha vermelha
Abre
A estação do Outono"

(Kaya Shirao)

 *

"As montanhas longe
Reflectidas nos olhos
De uma libélula"

(Masaoka Shiki)

 *
sunset de Lê Thahn Tù

"Sol poente de Outono
A solidão
Também é feliz"

(Yosa Buson)

*