A caminho de Trieste, fui tomando notas. Caderno novo,
caneta nova, preparei-me para olhar e para escrever. O avião chegara, pontual, ao aeroporto
de Marco Polo de Veneza. Apanhámos o bus e fomos para a Piazzale Roma.
Veneza, Outono 2016 (MJF)
Ficar em Veneza? Desta vez, não! E seguimos no primeiro
comboio rápido para Trieste.
Os turistas ficaram para trás, amontoando-se na Piazza San Marco e no Rialto. Imagino-os dando-se encontrões, pelas calles e viuzze, até na Strada Nuova -porque já chegam até Cannareggio!
Veneza 2015 (MJF)
Lá vai o tempo em que se passeava por ali quase sem ninguém - e como era belo o sol e como andávamos leves perto da ponte da Accademia. Dorsoduro, Cà Rezzonico, Santa Margherita e as ruas -calle- vazias, tudo parecia perto porque andar não custava tanto, sem os turistas aos montes em cima de nós. Porque hoje o turismo é selvagem, como tudo...
Dorsoduro hoje (net)
Imagino-os que enchem os restaurantes, entram e saem dos museus, de corrida sempre, fazendo selfies com os telemóveis pendurados numa
espécie de sticks de golf. Longe,
depois, verão as fotografias e os videos. Aqui limitam-se a correr dum lado para o
outro, dum lado para o outro, sem destino aparente, até chegar a noite e irem-se embora nos vaporetti cheios a transbordar.
O comboio partiu de Veneza, há pouco. A laguna aparece - eternamente bela e
plácida, pura. Escrevo: "O comboio é confortável, tem estofos azuis e grandes janelas. Pouca gente neste comboio, o rápido das 14:41, que sai da estação de Venezia-Santa Lucia."
Vejo passar Mestre, San Donà di Piave, Quarto d’ Altino… Por estas paragens, a seguir a Mestre, vê-se apenas a água azul acinzentada da Laguna, as redes dos pescadores, que se desenham, espaçadas, negras, na imensidade da água. Nem um barco, ninguém. O vazio, o silêncio, o tempo que parece palpável.
Laguna, 2016 (MJF)
Vejo passar Mestre, San Donà di Piave, Quarto d’ Altino… Por estas paragens, a seguir a Mestre, vê-se apenas a água azul acinzentada da Laguna, as redes dos pescadores, que se desenham, espaçadas, negras, na imensidade da água. Nem um barco, ninguém. O vazio, o silêncio, o tempo que parece palpável.
Laguna 2016 (MJF)
"Formas desenhadas de contornos suaves, estacas espetadas nas águas onde se prendem as redes dos pescadores, em desenhos delicados, como a pena, negros, que parecem cestinhos."
“O que se pesca na laguna?”, penso. Aquilo que se vê, depois, no mercado do Rialto, ou no barco a motor atracado num dos canais, talvez em
San Trovaso, onde tantas vezes o Aldo Zari nos levou.
E eram verduras frescas acabadas de colher: salada de alface ou ruccola (que, em Roma, se chamava rughetta), tomates de todo o ano, fondi de alcachofras zucchini, melanzane piccole.
E havia navalhas, caranguejos, mexilhões, lapas, gamberetti, anchovas...
E eram verduras frescas acabadas de colher: salada de alface ou ruccola (que, em Roma, se chamava rughetta), tomates de todo o ano, fondi de alcachofras zucchini, melanzane piccole.
E havia navalhas, caranguejos, mexilhões, lapas, gamberetti, anchovas...
Leio na 'wikipedia' agora: “A pesca artesanal no
mar e na laguna continua a ser praticada pela comunidade de pescadores do Lido,
Malamocco e Chioggia.”
Malamocco (net)
Chioggia (net)
Parece
que a pesca se transformou em mais outra ‘atracção’ turística. E lá vão
mais turistas, agora a acompanhar os pescadores e a ver pescar, pois de certeza que não pescam nada de nada. E lá se vêem as douradas pequenas e, de vez em quando, lá
salta um branzino - que é um robalinho. Depois, param, algures
num espaço qualquer das ilhas quase abandonadas, e grelham os peixes - ou fritam-nos… "Os turistas gostam destes picnics!", dizem.
Laguna de Veneza (net)
Continuo a ler: “Fechada num
extremo, a laguna está sujeita a grandes variações do nível do mar, produzidas
pelas marés e pelos ventos, sendo a mais vistosa a maré do Outono, conhecida
como ‘acqua alta’ e que inunda regularmente grande parte de Veneza.”
Interior (net)
Dela, recordo as escadas de caracol, a mobília antiga e uma magnífica biblioteca cheia de livros em todas as línguas que os hóspedes iam lendo e deixando.
Ponte delle Maravegie (net)
Ficava na zona de Dorsoduro, perto da Galleria Accademia, na Ponte delle Maravegie. Havia também outra 'locanda' onde passámos uns dia apenas que tinha um dos nomes da Karen
Blixen -Isaak Dinesen. Hotel American Dinesen creio se chama hoje.
Hotel American Dinesen (net)
Chovia muito e a acqua estava altissima! O Manuel tinha uns botins - stivaloni!- guardados em casa do Aldo Zari mas eu só tinha
levado as minhas botas altas, novas, Cervone,
de um belo couro suave e amarelado. Chapinhei o tempo todo na água salmistrata
da laguna que com a subida da maré enchera as ruas e transformara a Piazza San Marco num mar cinzento e baço.
Veneza, "acqua altissima"
As botas - essas ficaram queimadas e o couro ressequido - e deitei-as fora quando voltei para Roma...
Voltando, à viagem a caminho de Trieste, vejo desfilar campos e campos, surgem algumas vinhas roxas, vermelho vivo, amarelas.
Plantações de girassol secas e já amarelas. Há verde nas
folhas das árvores à beira da linha férrea. Espalha-se, dominante, pela folhagem, o
vermelho ferrugem do Outono.
Em pequenos pomares, cercados de sebes, vejo árvores de fruto, e, no meio, uma pequena casa amarelo-ocre.
Os canais cortam, no seu azul suave, as manchas de cores outonais. Os choupos desfilam junto aos ribeiros que se adivinham mas não vemos. De onde em onde, um grupo de casas baixas, pequenas aldeias aglomeradas, cujos arredores foram estragados pela arquitectura recente de outras casas, quadradas, com varandas de latão sem forma, deslavadas pelas chuvas e pela humidade deste Outubro avançado que se entranha por dentro de todas as coisas. Tudo gasta e destrói e, dentro e fora das casas, a água transpira.
Os canais cortam, no seu azul suave, as manchas de cores outonais. Os choupos desfilam junto aos ribeiros que se adivinham mas não vemos. De onde em onde, um grupo de casas baixas, pequenas aldeias aglomeradas, cujos arredores foram estragados pela arquitectura recente de outras casas, quadradas, com varandas de latão sem forma, deslavadas pelas chuvas e pela humidade deste Outubro avançado que se entranha por dentro de todas as coisas. Tudo gasta e destrói e, dentro e fora das casas, a água transpira.
Em San Stino, paragem
rápida. Não desce nem sobe ninguém. "Quem
viverá em San Stino?", penso.
Na estação, destaca-se um banquinho azul a condizer com a cor da placa recentemente pintada.
Leio:
"Céu cinzento-azulado, frio e alto. Extensões de planícies, árvores delicadas, com as cores do Outono, canais ladeados de choupos, campos cultivados de vinhas vermelhas, casas isoladas, tanta beleza."
Na estação, destaca-se um banquinho azul a condizer com a cor da placa recentemente pintada.
Leio:
"Céu cinzento-azulado, frio e alto. Extensões de planícies, árvores delicadas, com as cores do Outono, canais ladeados de choupos, campos cultivados de vinhas vermelhas, casas isoladas, tanta beleza."
Vou tirando fotografias (*), quero guardar certas imagens. Continuo a ler:
"Campos e campos, algumas vinhas de folhas roxas ou vermelho vivo, amarelas outras.
Plantações de girassol secas neste Outono. Mas vejo também o verde nas
folhas das árvores à beira da linha férrea.
Espalha-se pela folhagem, a pouco e pouco, o
vermelho-ferrugem do Outono. E lembro os vermelhos de Van Gogh nas suas vinhas em Arles. As árvores de fruto em pequenos pomares de sebes e
uma pequena casa amarelo-ocre. Van Gogh ainda.
Cores e mais cores outonais. Os canais, de quando em quando, cortam com o azul suave essas manchas. Os choupos desfilam junto aos ribeiros que se adivinham mas não vemos."
Adiante, prédios compridos e baixos - indústrias, fábricas, silos. É já o Veneto? A planície padana - a planície do rio Pó?
Vem-me à memória o fime 'Arroz amargo' e a figura da belíssima Silvana Mangano, nos seus inícios de actriz. Era um filme de Giuseppe de Sanctis, de 1949. Figura inesquecível de mondadora das lezírias! Eram as jovens mulheres que vinham de longe mondar os arrozais. Trabalho duríssimo e ingrato, de costas curvas, de sol a sol, com as pernas dentro de água, a arrancar as ervas daninhas.
Van Gogh, Vinhas vermelhas em Arles, 1888
Van Gogh
Cores e mais cores outonais. Os canais, de quando em quando, cortam com o azul suave essas manchas. Os choupos desfilam junto aos ribeiros que se adivinham mas não vemos."
Adiante, prédios compridos e baixos - indústrias, fábricas, silos. É já o Veneto? A planície padana - a planície do rio Pó?
Vem-me à memória o fime 'Arroz amargo' e a figura da belíssima Silvana Mangano, nos seus inícios de actriz. Era um filme de Giuseppe de Sanctis, de 1949. Figura inesquecível de mondadora das lezírias! Eram as jovens mulheres que vinham de longe mondar os arrozais. Trabalho duríssimo e ingrato, de costas curvas, de sol a sol, com as pernas dentro de água, a arrancar as ervas daninhas.
O comboio segue. Mais um grupo de casas muito juntas e uma
chaminé no meio delas.
"Volta o amarelo queimado, o ocre e o vermelho cor de tijolo. Van Gogh. Dois ou três ciprestes e, numa extensão imensa, as vinhas. Uma casa de cor fúcsia parece destoar ao lado da construção de cimento, baixa."
"Volta o amarelo queimado, o ocre e o vermelho cor de tijolo. Van Gogh. Dois ou três ciprestes e, numa extensão imensa, as vinhas. Uma casa de cor fúcsia parece destoar ao lado da construção de cimento, baixa."
Atravessamos a zona do Friul-Veneto-Venezia-Giulia.
Sei que nos aproximamos de Monfalcone e sorrio. Adivinho ao longe as arcadas da estação que lhe dão um ar senhorial.
Sei - ou invento?- que esta terra tem que ver com o meu nome Falcão, mon falcone seria, pois, 'meu-falcão'! Talvez por isso, sinta, quando ali passo, um pouco da euforia infantil com que chegava dantes à minha terra!
E a viagem continua... Fico em Monfalcone, para já, ainda bastante longe de Trieste.
(*) Fotografias essas -cerca de 900- que uma boa amiga, bem intencionada, ao ajudar-me a passá-las do telemóvel para o computador, "perdeu" irremediavelmente. Salvaram-se as que fui pondo no Facebook e enviando aos amigos. Como sou optimista pensei: há coisas piores. Para o ano, quando lá for, tiro outras!
Sei que nos aproximamos de Monfalcone e sorrio. Adivinho ao longe as arcadas da estação que lhe dão um ar senhorial.
Sei - ou invento?- que esta terra tem que ver com o meu nome Falcão, mon falcone seria, pois, 'meu-falcão'! Talvez por isso, sinta, quando ali passo, um pouco da euforia infantil com que chegava dantes à minha terra!
Trieste e Golfo (MJF)
E a viagem continua... Fico em Monfalcone, para já, ainda bastante longe de Trieste.
(*) Fotografias essas -cerca de 900- que uma boa amiga, bem intencionada, ao ajudar-me a passá-las do telemóvel para o computador, "perdeu" irremediavelmente. Salvaram-se as que fui pondo no Facebook e enviando aos amigos. Como sou optimista pensei: há coisas piores. Para o ano, quando lá for, tiro outras!
Gostei da narrativa. Uma bela viagem.
ResponderEliminarBeijinhos e boa semana!:))
Gostei imenso desta leitura!
ResponderEliminarGosto muito de andar de comboio. Vêem-se coisas que não se conseguem ver com mais nenhum transporte (desde que não seja o Alfa-Pendular ou outro no género, em que nunca andei, mas acho que nessas velocidades não dá para apreciar nada...)
Que pena ter perdido as suas fotos:( Uma arrelia!
Essa amiga merece castigo!
Beijinhos e, por favor, continue a oferecer-nos estes apontamentos:)
Boa semana:)
beijinhos, minha fiel leitora! sim, tenho muitas histórias para contar...mesmo sem fotos!
EliminarGostei muito, estimada MJ, pelo que agradeço estes bons momentos.
ResponderEliminarEstarei atenta ao prosseguimento da descrição do seu fiel 'carnet'.
Uma semana muito agradável e feliz.
~~~ Beijinhos ~~~
Obrigada pela atenção, Majo. Vou escrevendo. Creio que é um pouco o nosso dever de 'testemunhar' do que vimos, ouvimos. Possivelmente não serve para nada, penso que nos faz companhia esta 'conversa' a várias vozes!
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