quinta-feira, 2 de julho de 2009

Graham Greene e o romance "Brighton Rock"























Lembrei-me hoje de falar deste livro terrível que me impressionou muito. Reli-o há uns anos, e sinto sempre a mesma pancada no estômago.
Terrível porquê? O que tem de especial?, podem perguntar. Nada: apenas a monstruosidade da vida, as tais "monstruosidades vulgares" de que falava Régio (é o título do volume III do seu romance A Velha Casa).
Recordo o Fausto, de Marlowe: “o inferno está aqui”...
A história passa-se em Brighton, na célebre praia inglesa onde, no Verão, se vende um doce de açúcar de cevada, “o rochedo de Brighton”, com a forma de um pau, e que, onde quer que se corte, ou se morda, terá sempre escrito “Brighton”.
Paralelamente a esse mundo de vidas normais, do passeio ao longo da praia, do Pavilhão e do Pier Palace, surge o bairro de Nelson Place, onde há vidas ao abandono, sem destino, vidas sem finalidade, mesquinhas porque sem horizonte e sem esperança .
Graham Greene é um dos meus escritores preferidos e admirei sempre a sua enorme humanidade a falar das pessoas que vivem dentro dos tais mundos desumanos, abnormes.
Com o seu toque policial, pseudo-ligeiro, -apenas “pseudo” pois, na realidade, o género policial não é ligeiro de modo nenhum (é-o às vezes, claro, mas porque quem se usa dele pode ser medíocre ou ligeiro... e disso há aos montes mesmo sem se ser “policial”!), nem os temas escolhidos o são.
Neste caso, as tais vidas sem destino vividas em ambientes sórdidos, em bairros onde há escadas fétidas, casas escuras, com vidros foscos da sujidade, de janelas sem vista para o céu, a rua: apenas para o saguão...
A pobreza e ausência de sonho marcam esses destinos. O único desejo que se tem é fugir, livrar-se daquela miséria que se agarra ao corpo como um suor doentio.
Isto é Nelson Place o mundo onde nasce e cresce Pinkie... Assim o sente ele que se evade e procura outros horizontes, noutros bairros. Mas a escolha é pouca, os horizontes que vai encontrar pouco diferem, são limitados, e ele vai inserir-se nos grupúsculos de delinquentes, onde a vida pouco conta.
Pinkie sabe que pertencerá sempre a Nelson Place mas sabe também que preferia morrer a voltar para lá.
E começa a luta pela chefia do gang, aos dezassete anos, e, com ela, a necessidade de ser impiedoso, de mostrar que é capaz da maior violência. E vem a primeira morte, um assassínio e não pode parar.
O Rapaz, the Boy, ganha porque é desumano. Pinkie, a criança que cresceu entre a violência e a miséria, inseguro, foi um rapaz violento sempre com a necessidade de se mostrar mais forte do que as outras crianças, na escola. Incapaz de sentimentos, amargo e perverso, mesmo sádico, cedo entra no mundo do mal, no gang das navalhas onde a lei é : cortar ou ser cortado...
As lâminas, o prazer de ver o corte, de sentir correr, quente, o sangue do outro entra-lhe nas veias, na alma, como um veneno. O que conta nessa vida é o medo e a dor e a única coisa que o aterroriza é ser ele o atingido, “ser cortado”, pois não suporta a dor.
Quando encontra Rose, ela recorda-lhe o passado, ela é uma “marca” de Nelson Place e da sua anterior existência, tudo o que Pinkie renegou e quer esquecer. Ela é simples, calada, resignada. E é isso que Pinkie lhe não perdoa. Finge amá-la porque precisa dela, mas é incapaz de amar. Odeia-a por tudo isso, porque ela é um ser frágil, desgraçado, saído da miséria de Nelson Place como ele.
Pinkie sentir-se-à sempre vítima da sua origem e Rose será sempre a vítima de Pinkie.
Perseguido pela mulher que amava o homem que ele assassinou, Ida, que representa a coragem do amor e do esquecimento de si própria, Pinkie esconde-se, foge, continua a fugir.
Os dois caracteres que se opõem neste romance -quase como a luta metafísica do Bem contra o Mal- são Pinkie e Ida.
Pinkie, personagem religioso, acredita no pecado e sente que o inferno está à roda dele, faz parte da sua vida. É interessante que Pinkie, a encarnação do Mal (evil), seja o católico e diga a certa altura “pode-se perder o vício tão facilmente como se perdeu a virtude”, mas decide escolher o Inferno ao Céu, porque o inferno ele já conhece.
Ida que, pelo contrário, não é religiosa, nem acredita no Inferno nem no Céu, (supersticiosa, talvez só acredite nos fantasmas e nas mesas de pé de galo), limita-se a fazer o que acha justo. Quando fala uma vez com Rose, tentando afastá-la da influência de Pinkie, diz-lhe:
“Eu sei uma coisa que tu não sabes, a diferença entre o que está certo e o que está errado...”
Para Pinkie, não existe certo nem errado: "o Céu é uma palavra: o inferno é qualquer coisa em que se pode confiar...”
E, quando morre, é o ódio, o mal dentro dele, que prevalece na odienta mensagem de palavras envenenadas, que deixa gravada num disco, para Rose...
Se perguntarmos por que razão Graham Greene intitulou assim o livro, podemos pensar que também Pinkie, onde quer que parasse na vida, era sempre a sua origem que vinha à superfície, tal como qualquer pedaço cortado do pau de açúcar revela o nome de Brighton...
Aliás, é o que diz que diz, de outro modo, um dos personagens:
“Olha para mim. Nunca mudei. Sou como aqueles paus de açúcar,: podes mordê-los em qualquer ponto, vais sempre ler Brighton. É a natureza humana.”
Livro de solidão e de dor, de seres que vivem no limiar da vida e do perigo. E assim, sozinhos, vivem e morrem.
Fotos:
1. retrato de Graham Greene, na capa de um livro sobre a sua vida.
2. capa de uma das edições inglesas de "Brighton Rock".
3.vista do Pier em Brighton.
4. pintura de Constable representando o porto de Brighton.
5. capa do III volume d' A Velha Casa, de José Régio, As Monstruosidades Vulgares.

Em 1947 saíu um filme, baseado na novela, (adaptação de Greene e Terence Rattigan) que é considerado um dos grandes filmes “noir”. O filme foi realizado por John e Roy Bulting, sendo a figura de Pinkie representada pelo grande actor inglês, Richard Attenborough.

Hoje, está em fase de criação o remake de "Brighton Rock", realizado por Rowan Joffe, com novos actores, Sam Riley e Carey Mullingan.


Do filme anterior, não encontrei imagens, só a capa de um livro - a edição francesa da colecção 10/18, "Rocher de Brighton", com uma cena do filme. Aqui fica também, acima...

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A Lady do crime e "A Ratoeira"












"THE MOUSETRAP" vai no seu 56º ano! Durante este tempo, realizaram-se mais de 23,000 representações. É simplesmente uma fantástica peça de teatro, com uma história escrita por um autor policial (a whodunit writer...). É a peça -de qualquer género imaginável- que mais tempo durou, seguida, em cena, no mundo inteiro!
( anúncio do St Martin's Theatre, no 54º aniversário da peça)
A história desta peça baseia-se num facto real: a morte, acontecida dois anos antes, de um rapaz, enquanto está entregue aos tutores, no campo.
Surge, primeiro, como uma curta peça radiofónica em 1947 e intitulava-se Three Blind Mice (Três ratos cegos).
A peça de Agatha Christie baseia-se num conto anterior, mas a autora pediu qua a história não fosse publicada enquanto a peça fosse representada no West End of London. (*)
Por essa razão, o conto ainda não foi publicado em Inglaterra (pois as representações continuam, como vimos no anúncio acima...) mas apareceu nos Estados Unidos, em 1950.
Quando escreveu a peça, Agatha concedeu os direitos da mesma ao neto, como prenda de aniversário.
Uma única versão anual da peça pode ser representada fora do West End, e, segundo os termos do contrato feito pela autora, nenhum filme pode ser realizado enquanto a produção do West End não tiver fechado, pelo menos há 6 meses.
The Mousetrap é uma peça no género policial, do crime misterioso, cheia de suspense...
É a peça que teve o maior número de representações do mundo, desde o seu início (23.000), em 1952.
É conhecida pelo seu "fim-enigma", em suspense total.
No final de cada representação, pede-se sempre à assistência que não revele o que aconteceu, nem quem é o criminoso...
Imagens no alto da página:
1.O teatro ,no West End, onde a peça é representada há mais de 56 anos, o St Martin's Theatre.
2. A inconfundível Lady do Crime.
3. Os actores em plena representação.
4. Anúncio luminoso do aniversário da 54ª representação.
(*) O West End é uma zona de Londres onde se encontram as maiores atracções a nível turístico, é uma área de lojas, do business e de teatros...
Podem procurar tudo, sobre "The Mousetrap", neste site:

Histórias da casa amarela: o circo




O circo chegou, como todos os verões e eu comecei a sonhar. Era Junho e há muito que as andorinhas tinham começado os seus voos loucos, movendo-se sobre a mancha escura dos pinhais da Serra. E eu via-as, destacando-se no azul, a correrem perdidamente, a perseguirem-se, a voltarem para trás, pontos negros abrindo e fechando as longas asas. Uma vez uma andorinha fizera o ninho em cima da janela do meu quarto.
Era Junho e chegara o calor e os dias de vento soão que nos não deixavam respirar até ao fundo. As noites começavam a ser quentes, abafava-se dentro de casa e eu puxava a cama para junto da janela e de noite olhava o céu escuro, a adivinhar as constelações, enquanto ouvia o vento soão chiar.
Era a feira das cerejas. Dias antes da feira começar, eu já sabia que o Circo vinha aí. Pelas ruas da cidade ecoavam as músicas estridentes e as vozes roufenhas lançadas pelos altifalantes de velhos carros:
“ No domingo! Venham todos ao Circo das Maravilhas!...”
Do fundo do jardim público, trazidas pelo vento, chegavam as notas de outras músicas vindas do carroussel que começava a girar, à tardinha.
À minha janela eu vivia os momentos mágicos da espera, sonhando com a noite em que as portas do Circo se abririam e, passando por debaixo da orquestra que acompanhava a trompette desafinada, deslumbrada pelas luzes fortes e pelas cores berrantes, iria à procura do meu lugar.
Esperando esse momento, íamos todas as noites passear com o meu pai e as minhas irmãs ao terreiro do Rossio que os feirantes enchiam de barracas, de luzes e de brinquedos.
Parávamos na mulher da massa frita, enorme, debruçada sobre um tacho de azeite a ferver onde ia deitando, em círculos concêntricos, uma massa leitosa que logo ficava dourada. Eu ficava pasmada a olhar. Adorava massa frita...
- Boa noite! Então o Senhor Doutor veio à feira, com as meninas?
- É verdade, D. Rosa..., dizia o meu pai, sempre tímido, à procura do dinheiro nos bolsos. E continuava:
- Quanto é, minha senhora?
- É pouco, senhor doutor...
- Muito obrigado, D. Rosa! Boa noite!..
- Até amanhã, senhor Doutor!
Sim, até amanhã, pensava eu. Todas as noites vínhamos, parávamos, e seguíamos, cada uma com o seu bocadinho de massa frita salpicada de açúcar e canela, embrulhada num papel pardo cheio de gordura.
Dos dois lados do jardim, surgia a fila de barracas que escondiam o Coreto, mas eu sabia que, no domingo da feira, ele se iluminaria de luzes e de música, com a banda, de fato novo, e os instrumentos a brilhar...
Detrás da velha Cascata, era o carroussel, com os cavalinhos e as girafas. Mais adiante, as barracas de tiro, os carrinhos de choque, onde não podíamos ir sozinhas.
Num desses anos apareceu mesmo o cilindro da morte. A moto, roncando, subia cada vez mais alta dentro de um cilindro metálico. Em cima, protegidas por uma rede, as pessoas seguiam de olhar fixo o homem da moto, a querer ver de perto a morte e o risco que se calhar não tinham a coragem de ir buscar sozinhas. Atraída pelo barulho, pela multidão, pelo meu próprio medo, pela vertigem e pela ânsia de rodar também eu naquele turbilhão de ruído e faíscas, eu não tirava os olhos das rodas em movimento e tremia.
Mas era o Circo que eu amava mais que tudo. O palhaço pobre, com o nariz em bola vermelha, a boca amarga onde desenhara um coração, os olhos tristes e cansados onde poisara uma cruz pequenina, com a sua cabeleira de palha, os risos, a poesia e a ingenuidade que me faziam rir e esquecer as tristezas dele. O palhaço-de-cara-branca, com o seu chapéu em cone com uma estrela, ridículo nas suas certezas e que eu desprezava porque eu gostava do palhaço de calças aos quadrados remendadas e a tropeçar nos sapatões.
Era tanta coisa o Circo ...
Era a equilibrista gorda e pintada que entrava em cena a correr, agradecendo os aplausos dando um saltinho e depois, deitada num pano de cetim azul com estrelas prateadas erguia alto nas pernas fortes um barril vermelho que ela fazia rodar, rodar cada vez mais depressa e que de repente o parava com um movimento rápido e o fazia saltar de novo e o punha a girar perdidamente em cima dos pés pequeninos.
Era a contorsionista que transformava o corpo magro num arco, pousava os pés na cabeça e andava de mãos no chão. Eram os saltos dos acrobatas, os gritos, os aplausos, o rufar do tambor a meio do silêncio, assinalando os números de maior perigo.
Mas, era acima de tudo a menina do trapézio, aquela figurinha branca lá no alto, cheia de lantejoulas, que me fazia ficar de coração apertado.
Como um elfo, diáfana, a brilhar e a baloiçar-se de um lado para o outro, recortada na tela escura do Circo. E a minha cabeça seguia-a, de um lado para o outro, de olhos bem abertos. Entontecida por aquele movimento, e angustiada sem saber porquê, tinha uma sensação de liberdade, como se fosse eu a voar lá em cima e não ela.
Por essa altura o meu avô era o dono do Café Central, para mim o Café mais bonito da terra. Ficava no Largo dos Correios e, no Verão, tinha uma esplanada com mesinhas de ferro pintadas de branco, espalhadas por debaixo de um enorme cedro, mesmo no meio da praça. E os criados atravessavam a rua, com as bandejas cheias de laranjadas, refrescos de groselha e das mazagrans que eu adorava.
Os meus avós viviam, nessa altura, por cima do Café. Lembro-me da varanda cheia de vasos de malvas e de hortelã perfumada.
Um dia o avô disse-nos:
- Estão cá os do Circo…
Fui logo espreitar.
Na sala dos banquetes e reuniões, onde havia grandes mesas e uma infinidade de cadeiras e grandes vidraças que davam para a rua. À volta duma dessas mesas estava um grupo ruidoso que conversava e ria. Aproximei-me devagar, para não me verem, mas logo ouvi atrás de mim a voz do meu avô. E vejo os seus olhos bons, a rirem:
- É a minha neta que tem a mania do Circo. De todos os baloiços e traves faz um trapézio!
Fiquei envergonhada. Era verdade que eu me pendurava de todos os baloiços e fazia equilíbrios no parapeito da janela perante a assistência entusiasmada, de olhos arregalados, das minha duas irmãs.
Mas não era para o avô lhes contar...
Da mesa levantou-se uma jovem mulher, alta e forte, de pele muito clara e rosto redondo emoldurado de caracóis. Era sardenta e tinha uns olhos azuis risonhos e foi a rir que me disse:
- Eu sou a trapezista... É verdade que gostas do Circo? Logo à noite vais ver-nos?
Tinha chegado o domingo, o grande dia. Corei e com a cara baixa e as sobrancelhas franzidas disse que sim com a cabeça, sem a olhar.
"Claro que ia!"
- Se te vir esta noite lá, dou-te uma lembrança minha...
Fui-me esconder na salinha da avó, deitada no divã coberto por um cobertor que tinha um leão que às vezes me metia medo.
Nessa noite, lá fomos as três para a primeira fila, com o meu pai e a minha mãe. A música desafinada estava à nossa espera, mais a trompete estridente, as cambalhotas e os palhaços e tudo.
No entento, sem o dizer a ninguém, o que eu esperava era a menina do trapézio...
E ela chegou, no maillot de lantejoulas prateadas, com os caracóis loiros atados com uma fita branca e a sua capa de estrelas. Veio a correr, parou e agradeceu com elegância os aplausos, olhou à volta, e veio até à beira do estrado, ao pé de mim.
- O que te prometi...
E tirou do peito uma fotografia que eu agarrei sem olhar. Não conseguia ver nada, nem ouvia as minhas irmãs, curiosas, a quererem ver o que era. Com as mãos espalmadas, apertando a fotografia da minha nova amiga, olhei para cima.
Ela tinha subido e, no alto, recortada na tela azul, baloiçava-se a tal figurinha branca a brilhar no seu fato de estrelas, enquanto cá em baixo soavam os aplausos.
Imagens:
Seurat, O Circo
Kandinsky, O Verão

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Histórias da casa amarela: o homem dos gelados



O Verão era também, para nós, o homem dos gelados...
Ouvia-se, na rua, uma campainha a aproximar-se e sabíamos que era o carrinho dos gelados. A Florinda era a primeira a dar conta e a avisar:
-“Meninas!, dizia baixinho, “é o homem dos gilaus”.
Nunca percebi por que chamava assim aos gelados, mas toda a vida o fez.
Lá vinha o homem a empurrar o carro, com o seu casaco branco muito curto. Era magro, tinha uma cor amarelada nas faces, cabelo ralo. Tinha ar de estar doente.
Era o que o meu pai dizia. De facto, estávamos proibidas pelo meu pai de lhe comprar gelados.
-“Há o perigo do contágio”, dizia-nos, “são coisas que demoram, ele pode ainda não estar curado...”
O pobre do homem tinha estado tuberculoso e nada convencia o meu pai que não pudesse ainda ter “bacilos”, como ele nos explicava, com todo o cuidado, dando imensos pormenores. Mas nós éramos crianças, inconscientes, e adorávamos os gelados. Não fazíamos caso do que nos recomendava, e, quando ele não estava em casa, com a cumplicidade da Florinda, conseguíamos fugir à proibição.
Às escondidas, sem fazer barulho, para a mãe não nos ouvir, corríamos ao porta-moedas da cozinha onde estavam os trocos do mercado e dávamos à Florinda:
-“Um de dois tostões! Chocolate e baunilha!”
Nisso estávamos as três de acordo.
-“Para as três... E um para a Rosalina e outro para ti!...”
Ela descia os dois andares, a correr, e voltava, pé ante pé, com os gelados numa cestinha de verga. Era uma festa!
A Rosalina punha sempre um ar comprometido, com remorsos daquela pequena traição que fazíamos à minha mãe, mas também pegava no seu gelado, com os olhos a brilhar.
Ainda me vejo a lamber o gelado, com ar de conspiradora, ao canto da janela, guardando para o fim o cone de barquilho, amolecido pelo chocolate a derreter-se.
A campainha ia-se afastando, trrim-trrim, pela rua acima.

domingo, 14 de junho de 2009

Histórias da casa amarela: quando passam as cegonhas



Passavam as cegonhas no azul dos céus. Lentas, um delicado bater de asa, e as patas esticadas para trás, e o corpo elegante quase na horizontal.

Sabia que, para os lados da estação, existiam grandes árvores, velhos eucaliptos meio desfolhados, no topo dos quais faziam os ninhos, ou, então, nos postes eléctricos em verdadeiro exercício de equilibristas. 

Por vezes, no campo, em cima das chaminés das casas abandonadas, víamo-las empinadas nas pernas finas, abrindo e fechando as grandes asas brancas e negras.

A minha irmã pequenina tinha nascido e, para nós, as mais velhas, era um enigma saber como é que ela tinha entrado, sem a gente a ver.

De um dia para o outro, ali estava ela deitada ao lado da nossa mãe. 

O meu tio tinha ido, de manhãzinha cedo, acordar-nos. Vestiu-nos e disse que tínhamos uma grande surpresa. Ficámos excitadas, a pensar nas coisas maravilhosas que ele sempre nos contava: tinha de ser uma surpresa importante!

Linda, coradinha, como uma verdadeira boneca de loiça que eu ia sempre espreitar nas lojas de brinquedos, antes do Natal, ali estava uma menina.
"Menina? Não... Era sim uma boneca de verdade..."

Ficámos a olhar pasmadas, desconfiadas também. O que era aquele bebé? Como tinha chegado o bébé? O que estava a fazer ao lado da nossa mãe?

Vendo o nosso espanto, o meu tio disse: "É a vossa irmã que chegou hoje! Não é bonita?"

A nossa mãe sorria, sempre bonita na sua camisa de dormir com rendas brancas.

Foi mais tarde a Florinda quem nos explicou o mistério:

-Então as meninas não vêem as cegonhas quando passam? Trazem sempre coisas no bico...Foi uma cegonha que trouxe a pequenina no bico!

Desconfiadas, olhávamos para ela.

- Uma cegonha?!, perguntei eu.

-Não se lembram de ver uma cegonha, uma vez a voar, ali na janela da cozinha?

Apontava o dedo espetado para lá. O céu azul por cima do quintal e das laranjeiras do nosso vizinho, o lavrador da Mesquita. E o pico da Serra da Penha.

-Eu acho que me lembro!, disse a minha irmã mais velha.
-Não acredito... , replicava eu. Como é que ela podia vir pelo céu?

-Veio pendurada num paninho que a cegonha segurava no bico....
-E não caía?!, tornava eu, incrédula.
-Não, porque as cegonhas voam sempre deitadas. Têm muito cuidado com os bebés, continuou a Florinda.

Meio convencidas meio desconfiadas, íamos, devagarinho, pé ante pé, espreitar a nossa irmã com atenção, a ver se não teria ficado magoada pelo bico da cegonha. 

Descíamos com cuidado as escadas da cozinha que levavam ao primeiro andar, ao quarto azul que era o quarto onde todas nascemos.
Empurrávamos a porta, metíamos a cabeça pela fisga, a espreitar. E lá estava ela adormecida nos braços da nossa mãe.


Umas bochechinhas cor de rosa, a pele aveludada um bocadinho suada, apenas vestida com a fralda branca, porque era um dia de Verão muito quente, como nos contou, depois, a minha mãe. Era um daqueles dias de calor terríveis que há no Alentejo em que as casas parecem arder todo o dia, e o fresco vem só durante a madrugada, ou abafado em vento suão.

Um dia descobrimos que a história não era verdadeira. Mas isso é outra história!

Muitos anos depois, contemplei o voo ondulante das cegonhas, nos céus de Marrocos, quando partiam em bandos sabe-se lá para onde, agitando lentas, em movimentos profundos e harmoniosos, as asas brancas e negras. 


Viagem de abalada que se interrompia, por vezes, num voo picado em que uma ou duas das aves baixavam e se atacavam, numa luta cruel, com gritos agudos lá no alto e bicadas que eu imaginava fazerem sangue.

Imagens belas, sim, mas tão distantes da doçura das cegonhas da minha infância que passavam, devagar, nas janelas da cozinha e traziam os bebés no bico esticado, como nos contava a Florinda.

Voando ao pôr do sol, nos céus vermelhos, para o ninho, lá para o lado da estação.


sábado, 13 de junho de 2009

Mizoguchi e Os Contos da Lua Vaga depois da chuva
































cena do filme "Contos da Lua Vaga depois da Chuva", Mizoguchi


Hoje vou falar de um filme que vi pela primeira vez, há muitos anos, tinha eu vinte e três anos, em Paris, o filme japonês Os Contos da Lua Vaga ("Ugetsu Monogatari", 1953), (ou “Contos da lua vaga depois da chuva”, título francês do filme, que eu acho ainda mais belo), do realizador Kenji Mizoguchi.
Foi um filme que me deslumbrou e, mais tarde, voltei-o a ver, sempre com a mesma sensação de descobrir uma coisa extraordinária, de beleza e delicadeza incomparáveis. De uma tristeza infinita.
O seu autor nasce em 1898 e, começando como estudante de Belas-Artes, abandonou a pintura pelo cinema em 1920. Depois de ter interpretado papéis (femininos) no cinema realizou o primeiro filme com 24 anos.
Os Contos da Lua Vaga, obra-prima de Kenji Mizoguchi (1898-1956), talvez seja o mais famoso da sua curta carreira (apenas dez anos e quase cento e cinquenta títulos), que lhe rendeu a fama de "cineasta das mulheres", pela sua “paixão” em retratar o sofrimento silencioso e o espírito de sacrifício femininos.
Diz Vê-Hô (*), no seu livro “Mizoguchi”, colecção Classiques du Cinéma (Éditions Universitaires, 1963), citando um crítico japonês: “ o universo de Mizoguchi está povoado de mulheres muito belas, movendo-se com graça à procura do tempo perdido...” E continua: “de facto, a maior parte das personagens que põe em cena são jovens raparigas ou mulheres; é também verdade que a delicadeza impregna a obra do realizador; que as personagens têm um encanto que nos comove e que a visão dos corpos, dos objectos, ou do enquadramento na sua obra tem algo de inefável. E é ,enfim, verdade que a memória desempenha nos seus filmes um papel tão decisivo como o sonho.”( pg.161)
Muitas histórias vêm da sua infância, histórias que o traumatizaram: a perda da fortuna e completa falência do pai levam-no a vender a irmã de Kenji, como gueixa, coisa que ele nunca esqueceu e retratou, melancolicamente, noutro filme, O’Haru, vida de uma cortesã (La vie de O'Haru, femme galante), que ganhou pela primeira vez o Leão de Prata no Festival de Veneza, em 1952, e que se inspira também numa história de amor, da China do século VIII -da época dos Imperadores Tô. Outros filmes que lembro dele (mais tarde, pude ver uma retrospectiva) são, por exemplo, A Imperatriz Yang Kwei-Fei e O Intendente Sansho. Todos falam de histórias de mulheres e da evocação do passado, no momento doloroso em que ele vem atingir o presente. A memória apaga o tempo e o espaço...
A história de Os Contos da Lua Vaga é narrada por dois homens, mas eles são apenas o pretexto para se falar dos sacrifícios e da sabedoria femininos.
Dois irmãos, no Japão Feudal dos finais do século XVI, fogem com as mulheres, à guerra civil e são tentados pela aventura. Um sonha ser samurai, e larga tudo, inclusive a mulher que ama, para lhe provar - e a si próprio - que seu sonho não é apenas uma fantasia. O outro, Genjuro, aspira a tornar-se rico, para dar o melhor à mulher, que, no entanto, queria apenas tê-lo ao pé de si. Parte para a cidade e fica seduzido pelo fantasma da princesa Wasaka. Quando o encantamento se dissipa, regressa a casa e...encontra outro fantasma.
Não quero desvendar o fim da história, espero que um dia possam ver o filme!
Conto de fadas e conto filosófico ao mesmo tempo, narrativa dramática, história de aventuras e poema, o filme mistura o sonho e a realidade, os seres reais e os fantasmas, o simbólico e o quotidiano.
N’ Os Contos da Lua Vaga, Mizoguchi usa uma narrativa fragmentada, partindo dos indivíduos para atingir um aspecto colectivo. É a reconstrução de uma história escrita em tábuas de madeira no Japão Feudal de 1776, por Uéda Akinari (Shusei Uéda, 1734-1809). Aliás, a maior parte dos seus filmes são adaptações de obras-primas da literatura clássica japonesa que se situam na época Feudal, mas Mizoguchi, ao utilizá-las, não cedeu nunca à tentação do exotismo.
Tudo é narrado com poesia e grande beleza visual, numa cuidadosa reconstituição de época, com muitos planos gerais e belos enquadramentos e com movimentos de câmara delicados e discretos e mais um toque de sobrenatural, com a predilecção que os japoneses têm por fantasmas e espíritos que voltam do além.
A cena mais recordada do filme é a do lago (que me levou a um dia fazer uma aguarela inspirado nela...), que sintetiza o seu clima misterioso e trágico.
Enfim, este filme é um grande clássico do cinema japonês, e é premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza, de 1953 (**).
Conta com a participação da grande atriz japonesa Machiko Kyo, grande dama do cinema nipónico. Nesse filme, a sua maquilhagem imita a máscara de uma princesa do teatro Nô.
Deixo outras imagens, de uma beleza invulgar, de outros filmes de Mizoguchi..., um desenho meu, e um pequeno vídeo youtube.
(*) Vê-Hô dirige uma revista literária e artística. É uma vietnamita, nascida em Saigão, em 1939, que estudou cinema em Paris, onde vive.
(**) A partir de 1952, os filmes de Mizoguchi apresentados em Festivais ganham todos os anos prémios, até à morte do criador, em 1956.
1. do filme: "A Imperatriz Yang-Kwei-Fei" (1955)
2. do filme: "O herói sacrílego" (1955)
3. do filme: "O Intendente Sansho" (1954)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Outra vez, a Lady do Crime: os detectives de Agatha...










Hercule Poirot














Miss Marple











Tommy e Tuppence

Poirot

Hercule Poirot, o detective belga criado por Agatha Christie, é uma das mais vivas e famosas personagens da ficção policial inglesa. Aparece em 33 histórias e 51 contos, publicados entre 1920 e 1975 (ver Agatha Christie), sendo a sua primeira intervenção no romance The Mysterious Affair at Styles (publicado em 1920) e a última aparição em Curtain, The Poirot's last case (publicado em 1975, um ano antes de A.Christie morrer).

Poirot foi a única personagem de ficção a ter direito a uma notícia necrológica. O New York Times do dia 6 de Agosto de 1975 dizia: "Morreu hoje o famoso detective belga Hercule Poirot. "
A relação de Agatha Christie com Poirot era complicada: em 1930, achava-o "insuportável" e, em 1960, dizia que ele era 'detestável, cansativo, egocêntrico'. Mas o público amava-o e a autora recusou-se a "matá-lo", dizendo que o seu dever era dar prazer ao seu público e o público gostava de Poirot...
O Capitão Hastings (seu inesquecível companheiro de aventuras, mais o Superintendente Japp) descreve-o assim, no primeiro encontro (The Mysterious Affair...):
"Com pouco mais de 7 pés e 4 polegadas, tinha no entanto um porte digno. A cabeça era exactamente da forma de um ovo e inclinava-se sempre um pouco para um lado. O bigode era elegante e com um toque militar..."

Além disso, Poirot tem o cabelo negro (apesar de no ecran aparecer muitas vezes calvo...) e olhos verdes que "brilham como os dos gatos", sobretudo quando lhe surge uma ideia genial.
Agatha Christie em The Murder on the Orient Express, logo nas primeiras páginas, apresenta-o :

"Um jovem tenente francês, de uniforme irrepreensível, falava com um homem pequeno e insignificante (Hercule Poirot), abafado num casaco até às orelhas, não deixando ver nada senão a pontinha do nariz cor de rosa e as pontas curvas para cima de um bigode."

No filme de Sydney Lumet, Assassínio no Expresso do Oriente, a figura de Poirot é o grande acto Albert Finney e conta com actores e actrizes de grande categoria. Lembro Ingrid Bergman, Lauren Bacall, Richard Widmark, etc.
Impossível esquecer as suas little grey cells que tornam o seu trabalho de investigação único, a vaidade, a alta auto-estima mas também o seu sentido da justiça e a grande humanidade.

Miss Marple

Jane Marple, usualmente conhecida pelo nome de Miss Marple, é outra das figuras escolhidas por Agatha para a resolução dos seus mistérios policiais. Aparece em doze dos romances de Agatha. É uma suave velha solteirona que age como um detective-amador, baseada na sua intuição psicológica e na observação das pessoas e casos da sua aldeia, St. Mary Mead.

Foi retratada várias vezes no cinema e nas séries televisivas (com actrizes fantásticas no seu papel, desde Margaret Rutherford, a Joan Hickson) e é uma das criações mais simpáticas da autora. Aparece pela primeira vez no conto: The tuesday Night Club, publicado em 1927 na revista The Royal Magazine. Mais tarde, este continho tornou-se no primeiro capítulo do livro The Thirteen Problems (1932).

A sua primeira aparição num romance é no livro The Murder at the Vicarage (1930) e a última no romance: Miss Marple’s Final Cases (1979, saído já póstumo). Mas o verdadeiro “último caso” de Miss Marple é The sleeping murder que Agatha escreve em 1940.


Tuppence e Tommy

Finalmente, o par constituído por Tuppence e Tommy, dois jovens amigos que entram pela primeira vez no mundo de Agatha no romance The Secret Adversary (1922) e, poucos anos depois, em Partners in crime (short stories, 1929 ). Os dois heróis podem parecer, inicialmente, aos leitores, um tiro na escuridão, mas o prazer que Agatha encontra ao falar neles é evidente. Especialmente Tuppence, ex-VAD (*), e a sua enorme capacidade de enfrentar os desafios, e a sua coragem. Tuppence -tal como Agatha o fora- é uma natureza solar, e uma jovem pragmática –com uma tendência infantil para as gulodices e para o dinheiro. É, no fundo, o tema deste livro: o dinheiro –de que Agatha tanto sentiu a falta, mas nunca chegando à pobreza de Tuppence: “money, money, money!”, diz ela, “penso em dinheiro de manhã à noite! Pareço mercenária...mas é mesmo assim!”

No entanto, não o era... Agatha parece entrar na pele da heróina, até quando, no fim, escolhe o amor, o velho amigoTommy, e recusa o casamento com um milionário...

-“Pelo menos, vai ser divertido...!", diz ela quando aceita casar com Tommy. Ele é a sua alma gémea e sê-lo-à sempre até ao último livro, o Postern of Fate, publicado pouco antes (1973) da morte de Agatha (12 de Janeiro de 1976), em que aparecem os dois já com uma certa idade, mas ainda, apaixonados...


(*) Nota sobre VADs: em 1909 foi decidido, em Inglaterra, formar o " Voluntary Aid Detachments" (VADs) para dar assistância médica em tempo de guerra. Dos 74.000 VADs dois terços eram mulheres.





E por hoje fico aqui. Voltarei brevemente com o sucesso único da peça "The mousetrap" (A Ratoeira) e com o mistério do desaparecimento de Agatha! E já agora, com as tais fotografias no Hotel Pera Palace, de Istambul...

sábado, 6 de junho de 2009

O meu aluno Albino

Chéri Samba, rapazes



Há muitos anos tive um aluno que nunca esqueci.
De todos eles, recordo sempre um gesto, um sorriso, uma travessura, um olhar, imagens que chegam envoltas numa espécie de névoa, onde aparece uma sala cheia de carteiras, de cadernos e livros, um quadro e um apagador, um cheiro a pó e a suor.
Chamava-se Albino e, dele, lembro tudo: o rosto, a maneira de falar, talvez por nada ter que prendesse a atenção, o que pode parecer um paradoxo.

Não era o aluno brilhante, ou o aluno divertido, ou o aluno tranquilo que não dá problemas e que é um descanso para o professor... Era uma figura sem graça, com uma pele sebácea e escura, o cabelo rapado, os dentes irregulares, estragados e um dos dentes da frente partido.
Mas os olhos vivos, sempre a brilhar, eram inteligentes, e tornavam-no num miúdo diferente. Irreverente, brincalhão, numa turma onde todos eram turbulentos, agitados, inconvenientes por falta de educação, a ironia da história era ser ele, muitas vezes, quem conseguia meter os outros na ordem. Para me ajudar...
Recordo-os ainda hoje a entrar na aula de roldão. Procuravam os lugares, agarravam-se aos tampos das carteiras, deixando um pé estendido para o próximo que passasse tropeçar e, antes que se sentassem e calassem todos, era uma luta entre mim e eles. Quando, finalmente, estavam sentados e eu pensava que podia começar, logo um se levantava e se virava o colega de trás, puxava-lhe o caderno, ou, sorrateiramente, deitavam-lhe os lápis para o chão.
Um sem número de tropelias repetidas que constituíam um divertimento e provocavam grandes gargalhadas a toda a turma. Como se, em cada aula, houvesse um desafio renovado: nenhum deveria parar a brincadeira antes dos outros: isso seria dar-se por vencido.
Recordo frases que hoje me fazem rir mas que nessa altura me enchiam os olhos de lágrimas, que me via aflita para esconder.
Lá seguia um papel, em bola, pelos ares e aterrava na cabeça de um:

-Ha! Ha! Embrulha e manda pró correio...

Logo, lá do fundo, uma voz:
- O quê?! O qué-que-disseste, pá?
- Cala o bico, ó Cristóvão! Vê lá se queres uma mise à galo!
O Cristóvão era um dos mais terríveis, sempre cheio de ideias loucas detrás dos caracóis despentedados e da cara suja.
Virava-se, imediatamente, para o que falara, com a cabeça a abanar, furioso:

- A mim? Uma mise à galo?! Vais ver lá fora!
Era uma risada geral.
Tudo lhes servia para brincar e fazer rir os outros.Os diálogos e os protestos cruzavam-se pelo ar e, com eles, voavam as tais bolinhas de papel, aviões, pedaços de giz que, não sei como, saíam dos bolsos cheios.
Eu olhava para eles espantada, dolorida e com uma certa raiva.
- “Por que me deram estas turmas!?”
Era o meu primeiro ano de ensino no Ciclo Preparatório, chegava jovem e sem experiência. E, de repente, via-me a ensinar francês, do 2º ano, a oito turmas de rapazes, cada uma com trinta alunos: da turma A à turma H.
Os alunos estavam “arrumados” por idades, comportamento ou dificuldade, correspondendo a turma A aos mais miúdos, alunos de doze ou onze anos. A idade e a dificuldade iam “subindo” com a letra, e a turma H era a mais difícil: nesta, os alunos tinham em média dezasseis anos, e provinham de meios sociais difíceis, de bairros deteriorados, com problemas de vários tipos que eu não estava preparada para enfrentar.
A turma H era a turma do Albino.
Eu fingia não ver nem ouvir, ia arrumando os papéis na secretária.
- “Se calhar, mais vale deixá-los expandirem-se um pouco, antes de começar...”, pensava.
Mas sabia que, no fundo, o fazia por não saber como os parar.
Depois, dava um grande suspiro e decidia começar de qualquer maneira.
Batia na mesa, com força, mandava-os calar. Viravam-se, surpreendidos, quase ofendidos pela interrupção.

E lá conseguia começar a aula.
Era uma turma fraca, mas o Albino era um bom aluno de francês. Gostava de responder primeiro do que os outros, queria ser ele a ler os textos e organizava a biblioteca da turma, tarefa que normalmente confiava aos alunos mais complicados e que eles desempenhavam bem.
Às vezes, vinha falar comigo, no intervalo. Deixava os outros sair e ficava a arrumar os cadernos dentro da tampa das carteiras.
- Posso apagar o quadro?
Havia uma expressão que ele usava a propósito de tudo:

- Ó stôra, viu a minha psicologia?
Até quando acabava de limpar o quadro e estava a bater com o apagador fora da janela, fazendo desenhos com o giz do apagador, ia dizendo:
- Viu esta psicologia?...
Muitas vezes, o Cristóvão “roubava-lhe” a expressão, a gozar:
- Como é que vai a tua psicologia, pá?
Furioso, o Albino protestava:

- Queres uma mise à galo?

Era a frase favorita...
À última hora de sexta-feira, era ainda mais difícil calá-los e para mim era um pesadelo ver essa hora chegar. Eu compreendia-os, sabia que já só pensavam no sábado, que estavam cansados de uma semana inteira de aulas, sonhavam com a liberdade. Tinham à frente dois dias livres...
Quando me via aflita, ou percebia a minha impaciência, o Albino olhava-me com um olhar cúmplice como a pedir licença e berrava:

- Calados, pá! Não vêem que a stôra quer falar?! A stôra vai dar a aula! É só uma hora, depois vamos para casa!
E a verdade é que lhe obedeciam.
Depois, nesses fins de tarde, vinha despedir-se e desejar-me bom fim de semana. Eu arrumava os livros e uma pilha de cadernos para corrigir os trabalhos, em casa.
Falávamos um pouco, ele procurava distrair-me porque me via triste. Ia contando coisas da vida dele, do que fazia para ajudar o pai, que tinha de ir buscar à taberna, que este sempre que o apanhava a jogar à bola lhe batia.
- Tem que ser...
Eu perguntava-lhe onde aprendera a falar francês. Dizia-me, com o seu ar malandro:
- Vou ali pró ténis do Estoril apanhar as bolas, stôra. Há lá muito franciú e eu aprendo com eles... Dão sempre boas gorgetas!
Sorria, a mostrar os dentes grandes, e despedia-se.
- Adeus, stôra, até segunda. Agora ainda vou jogar à bola, a ver se o meu pai não me apanha desta vez. Mas se precisa de ajuda prós livros, fico mais um bocado, ajudo-a até casa...
- Obrigada, Albino, não preciso de nada.
- Sempre às ordens...
O que eu gostaria de saber do Albino!




A imagem que escolhi é de Chéri Samba, pintor de origem congolesa, nascido em 1956, em Kinto M'Vuila, República Democrática do Congo. Vive e trabalha hoje em Kinshasa. Em 1972 deixa a escola para aprender com pintores como Kasa Vubu e pertence a um círculo de artistas que é uma das mais famosas escolas de pintura popular do nosso tempo.
O quadro que utilizei acima como ilustração, faz-me lembrar o Albino, na sua ingenuidade amadurecida à força, antes do tempo, pela dureza da vida que certas crianças têm em comum, vivam onde viverem: crescendo a correr, sem tempo para ser crianças...

Conhecia de Chéri Samba quadros fantásticos onde o humorismo se bate com a dureza da realidade, numa pintura sempre forte, como p.ex. , o quadro "luta contra os mosquitos"...


quinta-feira, 4 de junho de 2009

Histórias da casa amarela: As "Galapitas" e o Verão

Berthe Morisot, menina na varanda





Degas, bailarinas

As Galapitas apareciam mais para o Verão, com a chegada da Feira das Cerejas, em meados de Junho e, depois, meses mais tarde, na Feira das Cebolas, em Setembro.
Era no Rossio, o passeio público, que se montavam as barracas da feira, e, mais acima, por detrás da cascata artificial de pedrinhas e musgo, o carroussel, e o Circo. Estes os acontecimentos fundamentais naquela terra de província e, para mim, um divertimento que durava alguns dias.
Vejo-as a descer a rua, empoleiradas nas sandálias de saltos muito altos, com as saias curtas pregueadas, a bater nos joelhos magros, meias de nylon com risca preta atrás, blusas de seda. Tinham as caras pintadas, cheias de pó de arroz e de bâton bem vermelho, provocantes e imaginava o perfume forte que usariam.
A mãe, mais alta, magra, tinha os ombros largos e o peito grande. Usava óculos de aros castanhos e lentes muito grossas, tinha os cabelos oxigenados, compridos e presos dum lado com um grande travessão de pedras.
A filha, elegante, mais proporcionada, inclinava-se um pouco para a frente. Pintava-se como a mãe, tinha um rosto fino com o queixo fugidio e um pequeno nariz arrebitado. O cabelo era loiro e solto, encaracolado, caindo sobre os ombros.
Impressionavam-me aquelas duas figuras que imaginava no palco de um teatro da capital - ou até de Paris, pensava eu...- e não, ali, naquela rua duma simples cidade de província. Lembravam-me certos filmes, vistos no Cine-Parque, em que as mulheres eram cantoras e bailarinas, com lindas cabeleiras ruivas e fitas de cetim negro ao pescoço, ou belas aventureiras, sem escrúpulos, destruindo corações.
O modo de vestir, o andar assim ondulante, desequilibradas nos saltos, escorregando nas pedras da rua, as malas a tiracolo e as pulseiras douradas, tudo me dava uma curiosidade imensa de as ir ver passar. Como se um espectáculo se desenrolasse, só para mim, inesperadamente, à minha porta.
Dizia-se, cinicamente, na minha rua, que iam ter com “os do Circo” e que só voltavam para casa a altas horas da madrugada. E que deixavam o pobre Galapito sozinho em casa, a beber.
Não sei, nunca as vi voltar à noite, e não conhecia o Galapito...
Sei que gostava de as ver descer a minha rua.
Elas eram o sinal das férias, o Verão que chegava, cheio de coisas maravilhosas, os palhaços, o Circo, os saltos dos acrobatas pelos arcos de fogo. Enfim, a fantasia e um pouco de loucura. E o sonho!




Chagall

terça-feira, 2 de junho de 2009

Saudades de Portalegre...

Casa de José Régio

Hoje volto com José Régio e a obsidiante "Toada de Portalegre", cantilena repetitiva e obsessiva, num crescendo quase insuportável, que me faz sempre girar a cabeça -como o vento suão, de que me lembro tanto...

Com ela vêm as cores, os bons e maus cheiros, as oliveiras, os sobreiros, as "serras deitadas nas nuvens/vagas e azuis na distância/ azuis, cinzentas, lilases/roxas" .

Vejo as serras e penhascos, o amarelo e verde das searas, sinto a terra queimada pelo "vento suão/que enche o sono de pavores/faz febre/esfarela os ossos/ e atira aos deseperados/a corda com que se enforcam... "

Cidade que se entrega "ao sol que abrasa/ao frio que tosse e que gela/ao vento que anda e desanda e sarabanda e ciranda..."

Com as suas noites negras e "os céus estrelados/ boiando em lua/ou fechados"...

Foi disso tudo que tive saudades hoje.
Toada de Portalegre

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu
Morar nela...

Cheia dos maus e bons cheiros

Das casas que têm história, antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.

Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
( Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)

Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem fôr,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante de uma janela
Toda aberta ao sol que abrasa,

Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!


Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e
Amarelos,
Salpicados de
Oliveiras,
E que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
Daquele silêncio imenso,
Sentia o chão a fugir-me,
- Se abriam diante dela
DaquelaBelaVaranda
DaquelaMinhaJanela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego...
(...)

NOTA (1) Não a acabo, porque a "toada" não tem fim e é linda de se ler ... E tem suspense até ao fim! O que vai acontecer?
Vão lê-la!

NOTA (2 ) Já agora: o desenho de Portalegre fui eu que o fiz, a lápis de cor, há muitos, muitos anos! Quando ainda lá vivia.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Histórias da casa amarela: as nuvens







As nuvens subiam e desciam ao sabor do vento. Costumava sentar-me no degrau que dava para o quintal, e olhava o muro ao fundo.
Era um quintal pequeno. Nos cantos viam-se as ervas que rebentavam do muro, cresciam ao lado dos degraus, espreitavam nas pedras dos canteiros onde havia rosas amarelas. Nem sabia no que pensava. Apoiava o queixo na mão e o braço sobre o joelho.
Lá em cima, o céu e as poucas nuvens arrastadas pelo vento que começara a soprar, fresco, ao princípio da tarde. Eram essas nuvens que, momentos antes, me prendiam a atenção, ou parte dela.
Gostava de as contemplar. Conseguia descobrir coisas extraordinárias, composições que me maravilhavam pela estranheza e me faziam sorrir. Quantas vezes, à janela do quarto, uma janela alta, as vi correr sobre os pinheiros da Serra. Quantas vezes, inclinei a cabeça de lado para as poder olhar ao contrário, a imaginar-me por cima e elas a pairarem muito abaixo, parecia-me. Um jogo que me divertia mas que me deixava a cabeça um pouco tonta, quando a reerguia dessa posição incómoda.
- “É perigoso...E se caísse da janela?”, pensava. “Se a mamã soubesse...”
Hoje não queria ver as nuvens de pernas para o ar. Estava aborrecida, não me apetecia imaginar nada, nem divertir-me.
Sentira-me empurrada. Sozinha...
-"Perdoava muitas coisas..., ia pensando, lá isso é verdade”...
Mas desta vez não queria!
Aceitara até não ser bonita, saber que nunca seria como as actrizes que ia ver, às matinées do cinema, com a minha irmã. Filmes que me encantavam e me deixavam triste ao mesmo tempo. Nunca me esqueci daquele filme, com uma música linda que a mãe tocava às vezes ao piano, e que era sobre um poeta e uma mulher linda que devia ser a sua amada.
Contemplei os joelhos esfolados, cheios de pequenas cicatrizes de vários “acidentes”, cobertos por uma penugem que sempre me irritara, vi as pernas magras, os braços compridos, deselegantes. Pensei no nariz que era o que eu detestava acima de tudo: parecia-me largo de mais e com um espaço grande até à boca. E a boca também não me agradava.
Às vezes pintava-me, com o pó-de-arroz e os “bâtons” da minha mãe e, então, a meio do branco da face e do vermelho dos lábios, só via brilhar os olhos.
-“Achinesados...”, costumava dizer a mãe.
Via então os olhos, com as sobrancelhas finas, franzidas, que me davam um ar ainda mais irritado comigo própria e com a figura no espelho.
-“Só os olhos é que não são feios”, pensei.
Podiam até considerar-se mesmo bastante bonitos e, quando não estava aborrecida, tinham uma expressão doce... E as sobrancelhas também eram bem desenhadas, e tinha as pestanas compridas.
- "Não tão grandes como as da minha irmã, é verdade".
E mais aquele jeito que tinha de franzir as sobrancelhas, que me dava o ar de uma pequena fúria.
No fundo, talvez a culpa fosse minha. Não afastava eu as pessoas quando as sentia aproximarem-se? Pensava que vinham ter comigo por pena, porque era a mais feia das três...
Mas havia compensações, bem sabia. Quando tinha boas notas e os pais falavam dessas pequenas vitórias. E as tias chegavam ao serão e diziam:
- “Isso é verdade! Esperta, lá isso é...!”
E no “lá isso” sentia a restrição, a condescendência por tudo aquilo que os outros achavam que me faltava.
Seria eu que deturpava o sentido de tudo o que ouvia? Se calhar nem falavam de mim...
Por que havia de ter sempre aquela mania de ser infeliz? De me sentir preterida? Por não ser bonita?
- "Só a beleza é que nos pode dar segurança e confiança em nós?"
Pensava nisso, muitas vezes.
- "Não é possível!"
Mas a verdade é que muitas vezes me vira desajeitada nas festas das amigas, sem saber onde pousar as mãos, de olhos baixos, sentindo tudo a rodar, a fugir à volta, pensando que o vestido me ficava mal, que toda a gente estava a olhar para mim e a rir-se, ou que os sorrisos que via nos lábios das senhoras eram de comiseração.
- "Estou aqui a mais!..."
Por que é que não tinha ficado em casa, no meu cantinho do vão das escadas, a brincar, ou sentada à mesa, a ler, ou sem fazer nada?
Sozinha, sossegada no meu mundo, sem ver ninguém. Sem as outras...
As outras... As amigas, as que eram bonitas, que se sentiam à vontade nas festas, andando de um lado para o outro, rindo, tirando bombons, dizendo segredinhos, espreitando pelo cantinho do olho, risonhas, seguras, felizes...
Só eu é que estava sempre a mais, incapaz de fazer um gesto elegante, incapaz de estender a mão para a mesa sem ter medo de ver cair o prato dos bolos, entornar-se o copo da limonada ou cair a taça com o gelado...
Uma timidez que não conseguia vencer, um mal-estar muito conhecido, prendiam-me ao canto da parede onde me encostava. E então carregava o sobrolho, cruzava os braços e olhava de alto para toda a gente, sentindo-me antipática e desejando sê-lo ainda mais, engolindo no fundo da garganta um soluço, enquanto as lágrimas me afloravam aos olhos ofendidos.
Tudo me vinha à memória, agora, ali sentada, sentindo o frio dos degraus nas pernas.
Porque a avó me tinha ralhado injustamente e me pusera fora da sala.
-"Ou fui eu que fugi de lá, porque estava furiosa?"
Bem sabia que a irmã era a preferida, fora a primeira neta, muito mimadam, e que com ela não se podia brincar ao pé da avó.
- "A verdade, reconhecia, é que a culpa foi minha..."
Tinha levado a tarde inteira a implicar com ela, a fazer-lhe caretas que sabia bem como a enervavam. Não resistia à tentação de a provocar... Se ela não ligasse, talvez tivesse desistido... Mas só para ver a cara dela irritada, valia a pena! Até mesmo agora, ao lembrar-me, me vinha vontade de rir. E comecei a rir devagarinho.
Via a cara da minha irmã, vermelha de raiva, pegar no novelo da malha da avó e a ir pelos ares acertando na cabeça da avó... E a avó, a gritar:
- “Oh! Que feitio horrível! És insuportável! Sai daqui para fora!”
Teria mesmo dito “sai daqui para fora”?... Não me lembrava bem. Meio a rir, para não chorar, sem deixar que ninguém notasse, fugira da sala fazendo uma última careta e viera esconder-me no quintal.
Já não chorava, nem estava triste, começara a achar graça. Talvez no fim não devesse “fazer tragédias”. Uma coisa tão simples! Eu é que tinha a mania de sofrer com tudo, de imaginar que ninguém gostava de mim!
O dia estava a ficar lindo, pensei. Havia nuvens a voar. E aquele bom ventinho que lembrava o Outono. O Outono era a minha estação preferida. Nascera no Outono... Devia estar a chegar o dia dos meus anos!
Levantei-me de um pulo e pus-me a saltar. Alguém espreitava pela janela da cozinha.
- "Quero lá saber!"
Estava contente! Ri-me e continuei a dançar.