Para a minha amiga Maria, uma andaluza portuguesa, que ama a poesia de Miguel Hernandez
Múrcia, Praça da Catedral
Miguel Hernandez nasceu em 30 de Outubro de 1910, na terrinha
de Orihuela, perto de Múrcia, no sudeste da Espanha.
Os pais eram pobres, tinham umas terrinhas e ovelhas e Miguel foi pastor dos rebanhos de seu pai.
Depressa se sentiu poeta, mas o pai desencorajou-o, a vida era
dura, como pensar em poesias?
Teimoso, consciente da sua verdade e da vocação
sincera que sentia, conseguiu com a ajuda de amigos e graças à sua memória fantástica ir estudando a Literatura Espanhola, saber da
Cultura, interessar-se pelo que lhe era à partida proibido.
Em 13 de Janeiro de 1930 sai o seu primeiro poema “Pastoril”,
no “Pueblo de Orihuela”.
Sijé (Ramón Marín
Gutierrez ), conhecido por Ramón Sijé, ajuda-o nesse seu desejo de cultura, foi o
seu mentor e amigo
mais velho.
o amigo e poeta Ramóm Sijé (1915-1935)
E Miguel Hernandez continua a escrever os seus poemas.
Em 1931, passa os primeiros seis meses em Madrid.
Volta a Orihuela e apaixona-se. O noivado com Josefina Manresa é longo. Só casarão em 1937.
Em 1937, com a mulher, em Jaén, onde vão viver uns tempos
Em 1933, publica o primeiro livro “Perito em luas”.
Em 1934, nova estadia
em Madrid.
Desta vez conhece outros
escritores Pablo Neruda, Francisco Garcia Lorca e Vicente Aleixandre.
Aproxima-se ideologicamente destes poetas - próximos do Governo
Republicano- e das suas ideias socialistas.
Afasta-se de Orihuela, de Sijé e do seu catolicismo. Quando o
amigo vem a Madrid visitá-lo, percebem que um fosso os separa. Mas a amizade
perdura.
Em 1935, participa na Homenagem a Pablo Neruda o que lhe traz inimizades fortes e incompreensões.
Sijé não lhe perdoa o que considera uma traição.
Nesse ano, Ramón Sijé morre, com uma pneumonia, e Miguel Hernandez
sente-se culpado, sofre por se terem afastado, por não se terem visto.
E é então que escreve
a belíssima “Elegia” a ele dedicada.
"En Orihuela, su pueblo y el mío,/se me ha muerto como del rayo Ramón Sigeiro, / a quien tanto quería."
E solta o seu lamento. “A las desalentadas amapolas/daró tu corazón come alimento”...
E desola-se por a morte lhe ter “arrancado” o
seu amigo. A morte não tem perdão...
“Yo quiero ser llorando
el hortelano
De latierra que ocupas
y estercolas,
Companero del alma, tan
temprano.
Alimentando lluvias,
caracolas
Y órganos mi dolor sin
instrumento
A las desalentadas
amapolas
daré tu corazón por
alimento.
tanto dolor se agupa en
mi costado
que por doler me duele
hasta el aliento.”
E mais:
(...)
“Temprano levanto la
muerte el vuelo,
temprano madrugo la
madrugada,
temprano está rodando
por el suelo.
No perdono a la muerte
enamorada,
No perdono a la vida desatenta,
No perdono a la tierra ni a la nada.”
Em 1936, a 18 de Julho, dá-se o golpe de estado fascista do Generalíssimo
Francisco Franco, a partir de Melilla, Norte de África.
bandeira das Forças de Franco
Franco entra em Espanha pelo Sul.
Miguel Hernandez, em 1936, lendo os seus poemas
Miguel Hernandez, em 1936, na Radio
brigadas republicanas, 1936
Estala a Guerra Civil Espanhola. Que vai durar até 1939, e vai ser sangrenta. Com milhares de mortos de parte a parte.
Madrid, ruínas de um bunker, 1936
Alcazar de Toledo
Brigadas Internacionais, brigada polaca, 1936
Chegam a Espanha as Brigadas Internacionias que vêm em auxilio do Governo legal Republicano. Entre eles virá os escritores André Malraux, Hemingway e tantos outros.
Miguel Hernadez
escolhera o seu campo: arrola-se nas Forças Combatentes Republicanas, no 5ª Regimento.
Conhece Rafael Alberti e Luis Cernuda. Durante a República
participa em vários encontros de intelectuais antifascistas. Faz parte dos
grupos ou “Missões” que procuram levar a cultura e a educação às zonas mais
desfavorecidas de Espanha.
El- Andalus, em Granada
Nesse mesmo ano, entre outros acontecimentos, há a prisão e
assassínio do poeta Garcia Lorca, em Granada - onde viera buscar sossego na sua
Andaluzia natal.
a bela Cádiz, na Andaluzia
baterias das Forças Republicanas
Durante a Guerra, Hernandez participa no "Congresso Internacional de
Escritores", em Madrid e em Valência.
Miguel Hernamdez, em Moscovo~
Em 1939 está em Moscovo onde vai assistir ao “5º Festival de Teatro de Moscovo”.
Ruínas em Corbera, dos tempos da Batalha do Ebro
A guerra de Espanha continua um pouco mais.
Depois destas atitudes, sabe que corre perigo na Espanha franquista, mas não procura exilar-se por lá.
Acabada a Guerra, tenta refugiar-se na Embaixada do
Chile sem sucesso. Tenta fugir mas é apanhado na fronteira portuguesa em Rosal da
Fronteira: se de lá estava Franco, de cá
estava Salazar, não havia muita escolha.
É preso, libertado com pena suspensa.
Mas em Setembro de 1939 é denunciado por um oriolano quando
volta à terra a visitar os pais de Sijé e é preso outra vez. Desta vez é levado para a prisão de Torena em
Madrid.
Em 1940, é julgado e condenado à morte. Depois, a sentença é comutada em
30 anos.
Miguel Hernandez num desenho de Buero Vallejo, numa das prisões onde se encontraram
Com a mulher, em 1939, talvez
Fragilizado, tuberculoso, Miguel Hernandez morre na prisão de
Alicante, em 28 de Março de 1942.
Fez há pouco 70 anos que morreu...
“A las desalentadas
amapolas/ daré tu corazón por alimento”...
NOTA: Óptimo site sobre Miguel Hernandez: "enorihuela" de onde retirei a maior parte das fotografias que usei, a quem muito agradeço.
http://www.enorihuela.com/miguelhdez.html
Mais informações úteis:
http://www.poetryfoundation.org/bio/miguel-hernandez
E sobre a Guerra de Espanha: