quinta-feira, 7 de maio de 2015

Histórias banais e maravilhosas!…


Aconteceu uma coisa bonita, na minha varanda. Gosto de olhar para fora, através dos cortinados, com a porta-vidraça meio aberta. É bom sentir a realidade suavizada pela transparência e pelo movimento do pano que o vento da Primavera agita.
De manhã, há dias, dei por uma certa agitação que não era costume have por ali. Uma pomba ia e vinha, ia e vinha. 
Atenta, olhava bem os vasos, subia para uns, descia e passava por detrás de outros- e voltava a descer para o ladrilho branco. Arrancou umas folhas secas e finas da palmeira e lá andava de um lado para  o outro, com uma coisita no bico enquanto se passeava. Folhas, fitinhas. Aproximei-me e afastei de leve os cortinados. 
Nunca pensei que estivesse a acontecer o que via. Ou nunca pensei ver o que estava a acontecer? Ia instalar-se na minha varanda?
De facto, a pomba sentara-se no vaso que estava escondido detrás do vaso grande do aloendro que este Inverno secou. 
Por baixo dela, saíam as tais folhas secas com que a vira passear-se de um lado para o outro.
Disse para mim: “Queres ver que vai pôr um ovo ali mesmo?” Espreitei-a e via-a concentrada, imóvel, cinzenta e negra e com o pescoço verde esmeralda. Parecia ter uma peninha branca em cima do bico. Apenas o seu olhinho vermelho não parava de se mover.
Via-me? Estava assustada? Ou apenas vigilante? Esteve assim umas horas. Eu, entretanto, fui ler e esqueci-me dela. A tarde desceu, a luz do céu tornou-se de um azul transparente muito vivo. Quando voltei a olhar pela vidraça, ela tinha deixado o seu poiso. Foi-se embora…” e quase tive pena. 
A varanda está cheia de lindas flores que desabrocharam nestes últimos dias de mais calor. Os bolbos da Gui  finalmente deram flores. E são variadíssimas, todas com um colorido entre o rosa fucsia e o roxo e o azul. Anémonas, goivos e sei lá que mais. 


Passei por cima do basílico e cheguei-me ao parapeito, perto do lugar onde vira a pomba instalar-se. Onde teria ido? Por que se tinha ido embora?
E, de repente, vi-o! Sim, lá estava o ovo! Branquinho, perfeito, sobre as palhinhas cor de oiro, compridas, no meio da terra negra do meu vaso de ibiscos, parecia brilhar na luz azulado do fim do dia.
"Maravilha da natureza na sua beleza e perfeição", pensei. "Um pássaro poisa na tua varanda, pede-te licença, olhando-te, para ficar e escolhe a tua casa para ser sua por uns tempos."
Passou um dia, dois dias e a pomba passa o tempo entre o chocar do ovo e o afastar-se e subir até ao alto do prédio em frente enquanto eu vou regar as plantas, pôr água no seu pratinho e um pouco de cevadinha e sementes de girassol noutro. 
Outras vezes é ela que decide sair do ninho e ir vigiar o local. Passam muitas gaivotas perto da minha casa e nem sempre as pombas vivem em paz com as gaivotas.
Quando fecho o vidro, ela desce num voo picado e elegante até ao seu sítio, o vaso de ibiscos.
Hoje, espanto!, havia um segundo ovo no vaso dos ibiscos...
Será que ela decidiu que "isto" é a maternidade das pombas? Quantos ovinhos vai pôr ainda?
A verdade é que me afeiçoei à minha nova amiga! Eu que tanto medo tive sempre dos "perigos" e doenças que trazem as pombas, esqueci tudo!

Sei que, depressa, quando os pombinhos nascerem, eles voarão com ela, um dia.
E sei que vou ter saudades! E não vou ser só eu!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Ouvir John Coltrane (Quartet Ballads full jazz album), um dos meus preferidos...

Coltrane, 1963

John Coltrane nasceu em 23 de Setembro 1926, na Carolina do Norte, na cidade de Hamlet e morreu em 17 de Julho de 1976 em Long Island, Nova Iorque. 
Foi um compositor e saxofonista de jazz, considerado mesmo o maior sax-tenor de jazz e um dos melhores jazzistas e compositores de jazz de todos os tempos. Teve grande influência na música do seu tempo – e depois- não só dentro do género jazz mas também  do rock  e da música clássica ou erudita.
Em 1945, entra para a Marinha Americana e faz parte da banda militar - os chamados Melody Makers- tocando clarinete. 
Participa num quarteto de marinheiros e gravam um disco. 

Mas, depois de ouvir na rádio, Johnny Hodges tocar na Big Band de Duke Ellington, escolhe o saxofone alto. Mais tarde ainda, troca o saxofone alto pelo saxofone tenor. Vai viver para Filadélfia.

Em 1946 toca com Charlie  Parker.
Charlie  Parker e Miles Davis

Em 1955, o grande trompetista  Miles Davis telefona-lhe e convida-o para entrar no grupo que está a preparar. Aceita. Vai participar no célebre Miles Davis Quintet. O problema de Coltrane é o álcool e as drogas. O de Miles Davies também. 

Em 1957 separam-se. Em 1957 toca durante uns tempos no Quarteto de Thelonius Monk. Coltrane tenta desintoxicar-se. Pára de tocar.
Thelonius Monk

Em 1959, volta a tocar no Quinteto de Miles (depois Sexteto) quando Miles grava o belo álbum “Kind of Blue”, um dos seus melhores. 




Em 1960, Coltrane começa a tocar em solo. Em 1964, sai o seu álbum Crescent e fala-se num novo jazz, o estilo livre de Coltrane. O álbum A Love Supreme é outro sucesso. 



Morre prematuramente, com um cancro do fígado, aos 40 anos.
Oiçam-no. É magnífico!

terça-feira, 5 de maio de 2015

Ruth Rendell, a grande escritora policial morreu...



Ruth (Barbara) Rendell – Baronesa Rendell de Babergh – nasceu em Londres em 17 de Fevereiro de 1930 e morreu no passado dia 2 de Maio. E faz-me pena pensar que não vai escrever mais livros! Tinha-me habituado a ler, de vez em quando, um novo romance dela. Normalmente era a minha filha Gui que mos oferecia. Éramos as duas grandes fãs dela. 

Ainda há pouco tempo tínhamos tido uma conversa ao telefone (grandes conversas costumávamos ter ao telefone…) depois de ter morrido outra escritora policial britânica, P.D. James. 
Estávamos de acordo em gostar mais de Ruth Rendell e de achar o 'seu' detective-chefe, Reginal Wexford, mais humano, mais agradável, mais compreensivo do que o calmo e circunspecto e distante Chief Inspector Adam Dalguiesh, poeta e detective, de P.D. James, reconhecendo o bom nível das duas escritoras.


Os pais de Ruth Rendell eram professores (a mãe de nacionalidade sueca e o pai inglês)e ela estudou em Loughton High School no Essex.
O seu nome de família era Grasemann.
Escritora de romances policiais, e mundialmente famosa, mostra um grande pessimismo em relação ao bicho-homem
A partir de 1986,  cria outro tipo de romances policiais, sob o pseudónimo de Barbara Vine. Confesso que me entusiasmavam menos porque demasiado “duros” onde a alienação mental, ou os segredos de família, as taras herdadas, a perversidade e o medo podem levar ao crime conseguem ser ainda mais chocantes.



Vai-me fazer falta esta escritora... 
Há quem não aprecie livros policiais. E prefira romances soft ou light. Ou clássicos. Ou “bons romances” como costumam dizer para denegrir o romance negro. Como há quem goste ou não goste do amarelo. Porque “bons romances” são os que são bons e basta.
Há quem pense: “ O quê? Tu gostas destes livros horríveis e violentos? O que terás lá dentro da cabeça!” 
Bem, não vou explicar que sou tão normal como os que não gostam de literatura policial. Porque se trata de Literatura. E eu adoro ler! E gosto de bons livros. De bons escritores. 

Não há dúvida que há grandes escritores policiais, que são bons escritores “tout court”. E lá virá  citado Simenon, Dashell Hammett ou Raymond Chandler, nomes “clássicos”. 
Para mim é sempre o ser humano que me interessa – que tento compreender em todos os aspectos. Sem julgar. “Compreender e não julgar” já dizia o Comissário Maigret? Talvez. Ou como diz a judaica “Ética dos Pais”: "Não julgues o teu semelhante enquanto não viveres o que ele viveu e não te vires na situação em que ele se viu.”
Ruth Rendell fazia-o. Tentava compreender e “diagnosticar” o mal, apresentando os problemas e tentando aprofundar, através deles, o conhecimento dos homens.
Por que razão um jovem, aparentemente normal, um dia pega numa faca e mata alguém? E volta a pegar na faca e a matar... Ou não volta. Por que aconteceu?
Quantas vezes hoje nós próprios nos interrogamos ao ver certas notícias: como é possível? Um homem banal assassina a mulher. Outro pega na carabina e mata a família toda. Um adolescente de repente chega à escola e dispara sobre os colegas. Ou mata o professor. Como foi possível acontecer?
Os livros dela são, além de mistério, suspense e crime, análise psicológica –ou “estudos” de psicologia criminal – e ela leva bem longe essa pesquisa da “normalidade” ou “anormalidade”.
Policiais psicológicos, thrillers em que se exploram as obsessões, a comunicação impossível, a exclusão afectiva ou social, a força do momento ou do acaso (existe o acaso ou é o álibi do humano?) para “despoletar” o medo, a violência, a morte.
Tudo tem ou teve antes uma “raiz”. Ruth Rendell tenta pesquisar essa “causa” porque, conhecendo-a, podem-se evitar outros crimes. 

Assim procede Reginald Wexford, o humaníssimo comissário cuja figura cria em 1964, em "From Doon with Death". Inesquecível Reginald Wexford, detective da pequena comunidade que a escritora inventa: Kingsmarkham
George Baker, Wexford, na série da BBC
Ele que tem os problemas da sua família: a mulher, a tranquila Dora, e as duas filhas que vão crescendo ao longo dos romances, com as suas crises, amores, aspirações e desilusões.

Leio sobre Ruth Rendell esta frase no “Monde” de hoje: “Os seus livros oferecem-nos um quadro espantoso da sociedade inglesa do século XX como também da cidade de Londres que conhecia perfeitamente”. (…)
Mais adiante leio: “Juntamente com P.D. James, Ruth Rendell contribuiu muitíssimo para renovar o género policial, introduzindo uma boa parte de análise psicológica e de contexto social nos seus romances. Acreditava que os romances podiam contribuir para mudar o mundo, chamando a atenção sobre os males da sociedade, do racismo ou da droga, por exemplo.” Só para citar alguns.

A sua acção estende-se também no campo da política. Ruth Rendell ,nomeada “baronesa” do Império, em 1997, distingue-se como deputada do Labour (Partido Trabalhista), na Câmara dos Lordes. Activa em todas as ocasiões em que surgiam problemas ligados à condição das mulheres, às violências domésticas, ou às exclusões sociais.
Saúdo a Escritora e a Mulher.


domingo, 3 de maio de 2015

"Tantas flores! Assim é que é Primavera!", disse o Ratinho Poeta...


Os amigos têm andado 'hibernados'. Poucas brincadeiras, pouca conversa. Estão ali pelo quarto, tocam umas musiquitas mas pouco mais. Sentia-os parados, absortos e preocupados. Tenho andado distraída e pouco lhes tenho ligado, é certo. E ressentem-se logo! Estavam deitados no cestinho, no canto da janela, com todos os amigos à volta. E as guitarras.

- Estás triste é por a Gui ter ido embora?, perguntou o Ouricinho esta manhã.
- Por que perguntas, Ouricinho?
- Estás tão longe de nós, disse o Ratinho, saltando do cesto e chegando-se para mim.
- Sim!, acrescentou o Ouricinho. Pareces alheia, como dizia a Adélia.
Ri-me. Lembrei a querida amiga Adélia que conheço quase desde que nasci e que agora vejo menos vezes. 
Quando se despedia, à porta da rua, nos últimos tempos dizia-me sempre: “Será que deixo cá alguma coisa? Parece que vou alheia…"
O Ouricinho continuou:
- E, se calhar, veres as flores dela aqui em casa ainda te entristece mais.

- Não, que disparate! Eu não estou triste! Posso é ter saudades…

- Como tens do Diogo, não é?
Era o Ouricinho, meigo, com o seu sorriso doce.
- Mas não estás sozinha… Tens-nos a nós!
E o ratinho abanava a cabeça, para dar mais força ao que dissera.
- E tens o Manuel!
O Ouricinho olhava-me de lado a ver o que eu dizia.
- Claro, queridos amigos! É isso. Não estou sozinha! E está um dia lindo!
E fui até à varanda. Eles seguiram-me, com a gatinha japonesa atrás. Começaram a espreitar as flores que nasceram este ano, uma surpresa que viera com os bolbos que a Gui trouxera. 
O Ratinho exclamou, teatral:
- Agora sim que é Primavera!
- Hihihi, riu-se o Ouricinho. Está a chuviscar…
E tapou-se com as flores da buganvília.

Não estava um lindo dia, que costuma dizer-se dos dias de sol - e o céu cinzento ameaçava chuva. Bem o dissera o passarinho negro, ao acordar…
Brincaram por cima das flores, do limoeiro novo e até acharam graça às mini florinhas da oliveira.

- Tira fotografias para o teu blog!, pediu o Ouricinho.





Aqui as deixo, enquanto penso:

“Mas quem disse que um dia de chuva não é um dia bonito?! Depende tanto de nós... E há tantas flores bonitas por aí!"

Bom domingo! Com Chet Baker - You're my thrill