segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O CLUBE DOS QUE ACREDITAM NA VIDA - E ROBERT SABATIER



Pelas palavras das crianças e dos amigos podemos ir, confiantes… 
Escreveu-me há tempos uma jovem e grande amiga: 
“Se ser sensível, atenta ao mundo e às belezas das coisas, presentes e passadas, então já somos duas. Se há coisas horríveis neste mundo, também há coisas muito belas e, por vezes, esquecidas e invisíveis – a precisarem de ser resgatadas da invisibilidade e do esquecimento.” 

No fim e ao cabo, é sempre uma questão de palavras que se dizem para expressar os sentimentos. Se hesitamos, a pensar que já está tudo dito e que a desgraça e infelicidade dos homens é inevitável,  ou duvidamos se “vale a pena” arriscarmo-nos a repetir o que os outros disseram, aí está tudo mal - porque nos arriscamos a não acentuar o que está certo - dizendo-o de outro modo, é certo, pois todos temos o nosso “modo”, bem particular de dizer. Se formos sinceros, há sempre uma maneira nova de dizer!
Importante é não ter medo de “fazer os gestos” de afirmação e compreensão e de aproximação, de que falava John Steinbeck. De não termos medo de sermos nós e afirmarmos aquilo em que acreditamos.  
Citando ainda a minha amiga L.S., esses gestos são os que mostram “a sensibilidade e um amor ao Outro /a e à Vida que torna vívido tudo o que “tocamos”.  
Ouço coisas que me indignam pelo que revelam de resignação e de amargura, de falta de confiança na vida e em si próprios, de frustração e de covardia, com a sua lenga-lenga:
“Ah, isto é inevitável... Ah, os portugueses foram sempre assim...Ah, os chineses são amarelos…Ah, os árabes têm sede de sangue! Ah, os são maus judeus mataram o Cristo!" 
Não é verdade! Tudo pode ser diferente se nós acreditarmos e se nós quisermos ajudar, realmente, os outros. 
Sem egoísmos, sem desconfianças, sem narcisismos. Aceitando as razões deles, apenas, defendendo o nosso ponto de vista, mas  sem o impormos.
E certos escritores ajudam-nos a criar essa confiança no Outro e a escolher os caminhos do encontro.
Comecei a ler Robert Sabatier, quase por brincadeira, porque a minha amiga Marie, depois de me cortar o cabelo quase todo,  mo emprestou. 
Chama-se “Trois Sucettes à la Menthe” (que faz parte da trilogia-“saga” "Le roman d’Olivier").
Dizia-me ela: “lê por favor, pois gostava de saber se este livro que tanto me encantou na adolescência é mesmo um livro bom. Marcou a minha infância mas não o leio há muito tempo.”
A Marie, pelos vistos, tem confiança no meu gosto. Isto foi há uns meses e como vou voltar depressa à Marie pensei: “tenho que ler o livro!"

E comecei. E gostei: faltam 10 páginas para o acabar. É um livro bom, daqueles que nos fazem comover, ao lembrar outras histórias da nossa vida - e da vida que encontrámos noutros livros que nos educaram na nossa maneira de ser. 
Um livro que nos leva a pensar sobre o que é justo ou injusto, o que se pode fazer ou não. Os tais gestos de que falava Steinbeck!
Sabatier é um escritor francês que escreveu muito sobre a infância e a adolescência.
Nasceu, em 17 de Agosto de 1923, em Paris, Montmartre, onde vai viver parte da sua infância. E morre, em 28 de Junho de 2012, com 88 anos.
Órfão aos 12 anos, muito cedo,  sente a necessidade de escrever sobre a sua adolescência difícil e, tantas vezes, solitária. De escrever sobre a solidão, o brutal sentimento de abandono quando a mãe morre e se vê obrigado a ir viver com os tios, que não conhecia sequer e que viviam na zona do Canal Saint-Martin.
Um dos seus primeiros livros, de 1969, “Les Allumettes suédoises”, que fala da infância, tem um grande sucesso e, adaptado por Jacques Ertaud, será, em 1995, uma apreciada série televisiva. 

 Outros romances se lhe seguem, como “Alain et le Nègre”, do qual Jean Duvivier fez um filme, em 1953, e de que Aragon dizia ser o primeiro livro anti-racista francês. 
E “La Mort du Figuier”, “Canard au sang” e "les Noisettes Sauvages". 

Li apenas “Trois Sucettes à la menthe”: um belo livro sobre a infância e adolescência para juntar aos tantos que se escreveram no mundo.

Descobri, nele, a páginas tantas, uma referência a uma canção de que gosto muito, Gloomy Sunday, que cantada por Billie Holiday é arrasante e bela.

Tratava-se dum momento de desespero do pequeno Olivier, de castigo por ter imitado a assinatura do tio, na caderneta escolar, em que sente saudades dos tempos da rue Labat, onde a mãe tinha a sua retrosaria e onde fora tão feliz com os amigos, a brincar livremente pelas ruas. (pg.252) 

E chora. E pensa que “as pessoas que se suicidavam depois de ouvir “Sombre Dimanche” (cantada por Billie é uma canção “triste à mourir!) deviam encontrar-se no mesmo estado de espírito que ele”. Volta à escola e o professor põe-o de castigo a copiar frases  de um livro de Louis Pergaud. Achei graça encontrar este escritor no livro dele pois Pergaud é um autor de que, ainda há pouco tempo, ouvi falar. Num artigo do El País sobre os escritores franceses que morreram jovens, na I Guerra, alguns dos quais desaparecidos para sempre, pois os corpos nunca foram encontrados. 

É o caso de Louis Pergaud que nasceu, em Doubs, em 1882, e morre na batalha de Woëvre (Meuse) em 1915. Autor do “poemario”, “De Goupil à Margot” (1910), livro de sucesso, e de "La Guerre des Boutons "(1912) de que conheço apenas o filme de Yves Robert (1962). 
Em 2011, saiu outra versão, de Yann Samuel.
No artigo, falavam também de outro escritor, Alain-Fournier, autor do maravilhoso livro sobre a adolescência que se chama "Le Grand Meaulnes". 

Henri Alain-Fournier cujos restos foram descobertos apenas em 1991 em Saint-Remy-la-Calonne, juntamente com outros soldados do seu regimento. Alain-Fournier, mobilizado em Agosto de 1914, participa em três batalhas mortíferas na zona da Meuse. 
Em fins de Setembro, é dado como desaparecido, nos Hauts de la Meuse, durante muitos anos de mistério. Soube-se, em 1991, quando se encontraram os restos do regimento inteiro, que fora executado, em 22 de Setembro, com o capitão e todos os soldados.


túmulo de Alain-Fournier

Tantas ilusões, tanta juventude e que preço tão duro pagaram estes jovens escritores. E recordo os triestinos Slataper e Stuparich mortos na mesma guerra, ainda tão novos. Ou George Duhamel. Ou Emile Guillaumin. 
Ou Apollinaire, gravemente ferido na cabeça, em 1916, tendo sofrido uma trepanação, e que, com essas sequelas, e fragilizado, vai morrer em 1918 com a "gripe espanhola".
Apollinaire e a mulher, em 1918



Também os poetas ingleses Robert Graves ou Wilfried Owen que sobreviveram para contar os horrores da Guerra.
Wilfried Owen

Voltando a Robert Sabatier, que belo livro Trois sucettes à la menthe!
Dá vontade de viver porque a verdade é que ele transforma a tristeza da morte da mãe de Olivier, o abandono, a solidão, a nova vida junto de uns tios desconhecidos, num desafio, numa criação diária em que cada coisa é uma conquista apreciada e vivida com amor, em que os gestos contam.

Nota: 
Poeta e romancista, Robert Sabatier dedicou a sua vida à literatura, participando activamente na vida literária. Pertenceu à Académie Goncourt. Escreveu uma História de Poesia Francesa muito considerada. Ganhou o Prémio de Poesia da Académie Française, em 1969.
Aos 20 anos, Robert Sabatier entra na Resistência Francesa, no “maquis” de Saugues.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

MÚSICA E ORFEÃO DE PORTALEGRE NESTE NATAL


Para que serve a música? Que pergunta idiota, não é? A música serve para tudo...
Ouvir música que sensação nos dá? Sem dúvida, sensações diferentes, mas que se centram numa forma de bem-estar, em que os nossos sentidos se distendem com a harmonia dos sons.

Seja na música “clássica” (ou erudita), ao ouvirmos Chopin, ou Mozart, Beethoven ou Bach, ou Vivaldi, música essa enraizada mais ou menos nas tradições da música secular ou litúrgica.
Chopin
Seja nas canções populares e tradicionais, que retomam essa tradição; seja no "gospel", nos blues que nos vêm da África negra, dos tempos da escravatura, passando pelo Mississipi.
De New Orleans, que é a cidade mais importante do estado da Louisiana, entre o rio Mississipi e o Golfo do México, onde coabitaram brancos, nativos americanos, afro-americanos, asiáticos ou mesmo islandeses do Pacífico parte a música dos blues.
coro de "gospel"

Os blues que vêm dos espirituais negros, dos cânticos de escravos do Sul, da Nova Orleans e do Mississipi. Vozes que são cantos ou gritos, que entoam canções do trabalho (como tantas das nossas canções alentejanas), lamentos, protestos, fugas… E desses queixumes nasce a música nostálgica de blues. 
o rio Mississipi
Os blues que "vão subindo" para Norte e  influenciam toda a música popular ocidental: desde o jazz, que tem a mesma origem trajectória, aos rhytm and blues, à country music, ou rock and roll, ou a soul music, etc., a música é sempre um deslumbramento! 
E os instrumentos são magníficos! E a voz humana - é música pura!



Charlie Parker
Adoro a música seja ela qual for, desde que tenha qualidade: de Chopin ao "Bird" Charlie Parker ou  Chet Baker e Bill Evans, ou Miles Davis, ao "gospel".
Do "rock", "hard rock", ou do "cante alentejano" passando pela magnífica canção Amazing Grace cantada pelo Orfeão de Portalegre, é a mesma maravilha. 
Mas é do Orfeão de Portalegre que hoje venho falar. Mais um grupo de concertos porque o Natal vem aí e são belos os cânticos do Natal. Com lindas canções como "O meninos nas palhas"...

Sandro Botticelli, Madonna e Coro de Anjos

Para que servem os músicos? Para que  sacrificam, ao frio, nas Igrejas geladas, ou nos concertos ao ar livre, ou nas salas onde o público pode ser assustador para os mais tímidos, sim, para que servem?

Uma resposta encontrei-a nas palavras de  Apresentação destes novos concertos, num artigo de M.A.M. no jornal Fonte Nova, intitulado O Orfeão e a Esperança.  
Os músicos? Os que fazem música ou a interpretam? Quem são? Os músicos trazem com eles a Esperança!
"(...) São estas as pessoas que estão a salvar o mundo e nos dão esperança, porque nos reconciliam com tudo aquilo que na vida existe que é rasteiro, sombrio e absurdo."

"O que é então a esperança? É certamente o desejo abstrato de que algo, que nos parece inatingível e sem garantias, aconteça, como necessidade real, é a visão contra a descrença, é o oposto ao desalento, ao negativo. Acreditando nos homens que estão salvando o mundo e até mesmo nos homens que estão ausentes do mundo." 
(...)
"É a revelação dum sentimento que combate a dúvida e o pessimismo, justamente num mundo de indiferença, afundado em crises como o nosso. É um estado de espírito que nos transmite uma espécie de felicidade libertadora. Ter esperança é, na verdade, ir em frente, caminhar, confiar!   
  
E aqui volta o nosso Orfeão a ser falado:  
                           
"Com todo o seu dinamismo e toda a sua contagiante alegria, tem sido sempre um exemplo de esperança, caminhando em frente, lutando contra o desalento e o pessimismo e confiando na sua sobrevivência, apesar de muitas dificuldades financeiras, persistindo na divulgação e promoção de música coral com verdadeira qualidade."

De facto, desde os "Encontros de Coros Nacionais, Ibéricos e Internacionais" -que o nosso Orfeão de Portalegre organiza, anualmente- que se sente a aceitação, o reconhecimento e o respeito do público, que o Orfeão conseguiu, em especial “lá por fora”." 
Para finalizar, deixo o "programa" das Festas deste Natal: O primeiro concerto é já amanhã, no Assumar, na Igreja Matriz. 
"O Orfeão irá actuar neste Natal, a 11 de Dezembro, em Assumar (Igreja Matriz), a 12 de Dezembro em Brinches ( Serpa ), e que o Concerto de Natal do Orfeão de Portalegre na nossa cidade será este ano a 18 de Dezembro, às 21 horas, na Sé de Portalegre."

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Boa música! Chet Baker - Time After Time






Time after time
I tell myself that I'm
So lucky to be loving you 
So lucky to be
The one you run to see
In the evening when the day is through

I only know what I know
The passing years will show
You've kept my love so young, so new

And time after time
You'll hear me say that I'm
So lucky to be loving you

I only know what I know
The passing years will show
You've kept my love so young, so new

And time after time
You'll hear me say that I'm
So lucky to be loving you

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Vai chegar o Natal e faltam os amigos!

Edouard Manet, Jarra com rosas e tulipas

Quando os amigos morrer, chega o Natal e falta-nos alguma coisa. Sim, vai para o segundo natal que morreu um amigo, um amigo bom, inteligente e sensível, dedicado aos seus amigos. Nunca recebemos postais de boas festas tão delicados como os que ele enviava, com uma palavra especial, não as palavras comuns das felicitações, quase obrigação, que recebemos e mandamos.

Sim, um amigo. O Agostinho Castro. Gostaria de falar um pouco dele, pessoa de personalidade fina e reservada, capaz de admirar sem inveja, capaz de ler para aprender mais, ou para nos aconselhar. 
Uma vez disse-me, a propósito das pessoas que procuram uma "solução" que sabem não existir ou ser difícil de encontrar: "não poderemos resolver tudo, nem valer a tudo, mas que algo poderemos fazer, sim. Como soubermos. E porque, afinal, parece, já nascemos bastante sábios."
Edouard Manet, Evasão

Sim, bastante sábio era, mas sempre insatisfeito. Que ambições tinha de escrever, de publicar o seu livro, ele que sabia tão bem ler os livros dos outros e "abri-los". Conhecia os bons escritores, apreciava-os em todas as faces e ângulos. Observava, imaginava e "revivia" dentro de si o que lia. E quando falava deles, quantas vezes não estaria a falar de si? O que sonhou? Quantos moinhos de vento lutaram contra ele? Quantos venceu?
Edouard Manet, Moinhos na Holanda

Durante uns anos, escrevi-me regularmente com ele. O Agostinho, em Guimarães, eu, em São João, gostávamos de falar de livros e eu apreciava muito a sua opinião sobre as 'coisas' que ia escrevendo. Aconselhava-me, sugeria delicadamente, aprovava às vezes com entusiasmo quase infantil. Falava do livro que gostaria de escrever.
Sabia ver a beleza, procurava-a, entendia-a, amava-a. Mas não só a beleza: a honestidade também e a seriedade dos artistas verdadeiros. Porque ele respeitava os escritores sinceros. Conhecia a pintura e gostava dos artistas verdadeiros.
Berthe Morisot, Tarde no campo

De facto, escrevia-me, em 2008:
"(...) devemos um agradecimento ao escritor sincero porque nos ajudou nas lembranças, ou porventura algo de novo nos ensine, mas sóbrio por sabermos também que, antes de mais, o escritor escreveu para si próprio e que a emoção maior, a própria alegria do que estava a escrever, como o ver, ou redescobrir, antes de nós nesse mundo diferente, já ele a teve."

Em 2004, foi um dos primeiros leitores dos meus livros policiais inéditos – talvez um dos poucos que leu o meu 'segundo' livro. Eu era uma neófita nos escritos literários e ele animou-me a continuar.

"Ali, a páginas tantas, eu lia e parecia-me ouvir a voz daquele detective Marlowe de que passavam filmes na televisão (...) lembro-me que em certa altura li dessa literatura em que precisava de conhecer outros mundos, citadinos, de lugares distantes, o que pensava e sofria essa gente, que tipo de problemas poderia haver que para ela fossem talvez insolúveis. No fundo, que 'mensagem' tinha para o que eu procurava, se eram mundos universais ou tão só pequenos mundos fechados.. É claro, as conclusões nunca as as tiramos logo. Lemos outras coisas, mudamos, até sem dar conta, porquê?, porque estamos sempre a procurar, porque há muito a procurar."
Empurrava-me em frente, entusiasmando-me para continuar a escrever, e ser livre, sem me preocupar com o facto de não me lerem. 
E dizia ele - a propósito da carta que lhe escrevi sobre essa primeira experiência policial, em que lhe confiei que, nos dois heróis principais, "pretendera" pôr os meus filhos, tal como os via.

"Há no que se escreve, quando autenticamente, e nos permitindo a construção de um mundo autónomo, aquilo que são os nossos valores as emoções que tivemos, os sonhos que alimentámos, as pessoas que realmente nos dizem."

E, à espera da segunda parte do novo policial, escrevia com o humor (por vezes bem negro) que nunca o abandonou: "Espero que chegue essa parte já escrita do seu outro romance policial, sobretudo na minha especialidade de "detective de gralhas". De facto, era minucioso a corrigir as gralhas, as distracções ou os erros.
Nunca mais esqueci uma coisa que me disse sobre uma personagem desse livro (ainda sem nome definido, talvez Morte em Roma), que eu pretendia "afogar" num jacuzzi : “Não, Maria João, não lhe faça isso. Ela já sofreu tanto!”
E salvei-a! Sorri na altura e sorrio agora, com tristeza: um amigo que vai embora é uma coisa tremenda!

Em Junho de 2006, dizia-se desiludido com os “novos” escritores: “Ando (ainda!!!) a ler coisas. Já leio muito menos –sinto que cheguei a um ponto em que tenho de dizer que o que tinha para aprender já aprendi – ou conheci (…) É bom isto. Este patamar de conhecimento. E não me angustia o (este quase já) não ter de ler. Mas ainda leio. Isto e aquilo. Com calma, sempre a atenção, o interesse, mas já não me surpreendendo de, na avaliação, ter de o fazer por menos, porque estão a dizer o já há muito dito, porque (quantas vezes!) apenas exploram a ilusão do leitor ignorante.” 
Sentia-se defraudado o meu amigo por certos “novos” escritores que se "aproveitavam" das modas, do "fácil", do "acessível". Era exigente o o Agostinho. E penso no que escrevia Régio, em 1964 (*): 
 “A maior parte dos pretensos poetas de hoje carecem quase totalmente de ingenuidade. De íntima e transcendente ingenuidade. Por isso não são poetas.” 
Ambos exigiam a autenticidade!

"Há no que se escreve, quando autenticamente (...) aquilo que são os nossos valores as emoções que tivemos, os sonhos que alimentámos."

Falava da sinceridade e da originalidade, daquilo que é nosso e que só do que "sabemos" devemos escrever. E que, no fim e ao cabo, toca os outros porque, na verdade, encontramos um mesmo mundo -quando falamos dele com verdade. Os homens anseiam, esperam, sofrem, amam. 
Os mundos dos homens na sua profundidade são iguais. E o Agostinho dizia - e era verdade:
"(...) vivemos a pensar, escrevendo ou não, que temos um mundo só nosso, e quanto lemos vemos que os nossos mundos são todos iguais."

Um amigo, sim. Era também um leitor atento do que os amigos escreviam, um conselheiro, um "editor", com uma paciência enorme para ler, sugerir e corrigir! 

Uma pessoa que procurava, que procurava sempre: "Lemos outras coisas, mudamos, até sem dar conta, porquê?, porque estamos sempre a procurar, porque há muito a procurar."

Em Julho de 2008, a propósito da literatura sincera de Karen Blixen, escrevia:
"(...) sobre a evocação de sentires puros, pouco ou nada a um leitor se oferece dizer. Identifica-se com eles. E é então isso que pode dizer a quem escreveu. O que penso que deveria ser com todos os livros. Que o autor tenha falado claro, sido sincero consigo, deverá saber quanto o que escreveu será a própria vida, uma vida que o leitor há-de ver como a sua própria." 
"Porque todos vivemos a pensar, escrevendo ou não, que temos um mundo só nosso, e quanto lemos vemos que os nossos mundos são todos iguais. É então da iluminação dessa verdade que o leitor agradece a quem escreve. Mas também mostrando que sendo sóbrio e verdadeiro, porque em sinceridade toda a resposta que a um escritor deveríamos dar só deveria ser assim: Sim, percebi tudo, é verdade. Escreveu-o bem. E, sim, obrigado por o ter escrito, porque me veio ajudar a ver melhor. Ou, a ver novamente."


E, ainda, José Régio: "Cada vez mais me convenço de que toda a verdadeira arte é humana, e afunda as raízes nas entranhas do criador. Só assim provoca profundas ressonâncias no leitor.”

Por isso, tem razão Agostinho: "e quanto lemos vemos que os nossos mundos são todos iguais. É então da iluminação dessa verdade que o leitor agradece a quem escreve."

Na mesma carta, escreve, de modo sóbrio e sensível, de outros contos.
"Eu vivi aquilo. Textualmente. A chuva, o seu cantar, a sua velocidade, as ondinhas estreitas margens dos regos, saltando pedritas... E as tábuas do soalhos com os buracos, assombras, o escurecer quando uma nuvem passava. E a contemplação das árvores altas, o vento a passar nelas, a desejar saber o que estava para lá..."
E mais:
"Porque todos vivemos a pensar, escrevendo ou não, que temos um mundo só nosso, e, quanto lemos, vemos que os nossos mundos são todos iguais."


Em 2009, a nossa correspondência começou a rarear. Preguiça de escrever? A internet que começava a  absorver-nos tanto? Culpo-me disso.
Fomos-nos encontrando, com todos os amigos, na Guarda, em Guimarães, no Porto, e até esteve em nossa casa com a minha amiga Lívia.
Em Agosto de 2009, depois de ler as minhas histórias de São Tomé, responde-me, brincando, como se fosse a "Milly", a minha cozinheira são-tomense de que eu tanto falo.
"Da Milly para a Dôtôra, venho agradecer à Dôtôra os livrinhos que me mandou das suas escritas onde também fala de mim. A Dôtôra era uma pessoa boa, amiga. Mas eu era uma fúria, é verdade. Acho que agora já não sou."
Continua, normalmente, a falar-me dessas minhas histórias de África, chamando-me sempre Dôtôra. E aconselha-me uma leitura:
"(...) já agora, gostava de referir à Dôtôra um livro que acabo de ler, é "Rumo ao Farol", de Virginia Woolf. Aconselho-lho sinceramente. Se ainda não o leu, aconselho (que leia). A Dôtôra vai lá encontrar muito do que é a sua própria sensibilidade, muito de si. É da Relógio de Água."

Virginia Woolf, pela irmã Vanessa Bell

De facto, o livro saíra, no ano anterior, bela tradução de Mário Cláudio. No fundo, o Agostinho era o leitor comum a que se dirigia Virginia Woolf!

E fala das mulheres-escritoras, que admirava: "Lembro-me de 'Jane Eyre', a sensibilidade das escritoras, das mulheres, quando se dão à escrita. É realmente outro mundo, tão profundo como o dos homens (escritores), e porém quão na verdade muito mais sereno. A observação delas sem fim... 

(...) VirginiaWoolf diz lá tudo o que é a questão humana:, e que eu nunca tinha encontrado em ninguém, numa simples expressão. É, na página 40: "vir em auxílio do homem que para sempre fica à porta do ascensor. Isto diz a grande escritora, a mesma socialista, humanista".

E o meu amigo, na voz da “Milly”, despede-se de mim: "A Dôtôra que andava só a ouvir, afinal respeitava tanto as nossas palavras distraídas."
Comoveu-me reler as cartas do meu amigo! O meu amigo optimista, que acreditava na bondade do homem, e pensava que devíamos acima de tudo "identificar nisso uma natureza que nos dotou de bondade."
Bondade sim. A lembrar talvez a criança que foi - que fomos. 
"Ah! a criança, essa!", diria ele, "essa criança permanece em nós, se nós deixarmos..." 
desenho de  Zélia Falcão
"Acho que continuamos hoje a ser assim. A olhar o mundo com o mesmo desejo de compreender, de ver além. E talvez o que devamos fazer antes de mais é identificar nisso uma natureza que nos dotou de bondade. E já sabemos o que segue: que não poderemos resolver tudo, nem valer a tudo, mas que algo poderemos fazer. Como soubermos.”


Numa carta, de finais de Setembro, fala do Outono que amava. "Entrei hoje nas minhas férias de Outono, já quase habituais. Um tempo mais calmo."
Um dia, nos meus anos, ofereceu-me um pássaro de vidro que tenho guardado. Um pássaro de um belo amarelo-vivo, quase cor de laranja.

Hoje, tenho apenas as recordações e um molhinho de cartas, que guardei numa caixa bonita, cartas onde tudo o que ele escrevia tinha sentido. Sentido. Delicado. Verdadeiro. Como esquecer a sua amizade? 
Um amigo é insubstituível. Deixa-nos mais sozinhos e o mundo fica mais vazio. 
Mas quero continuar a seguir o conselho que me deixa: "Olhar o mundo com o mesmo desejo de compreender, de ver além. (...) Sabemos o que segue: que não poderemos resolver tudo, nem valer a tudo, mas que algo poderemos fazer. Como soubermos.” Sim, como soubermos - mas sabendo que alguma coisa poderemos fazer! 

Lembro John Steinbeck, que leio neste momento, e me traz a  mesma forma de 'esperança': "podemos escolher, podemos fazer." 
"Porque  tu podes!" escreve Steinbeck (**). "Porque podemos  escolher e isso dá grandeza ao homem que o souber e fizer! " E essa é a diferença.
cena da Acácia Vermelha
Vi o Agostinho, pela última  vez, no Porto, na estreia de uma peça de Manuel Poppe, A Acácia Vermelha, encenada por Valdemar Santos.Na noite, um pouco enevoada, à porta do Teatro Sá da Bandeira, ouço-o protestar, indignado, contra as injustiças da vida, contra os “roubos” constantes do governo, contra os atentados à “cultura” verdadeira. Contra os aldrabões e vendilhões do Templo de todos os tempos e de todos os templos.

E o livro? Será que o Agostinho Castro escreveu o "seu" livro? 
Quem me  dera que sim! Tinha tanto para dizer e sabia escrever tão bem…

(*) Escreve José Régio, no dia 3 de Dezembro de 1964 (Páginas de Diário Íntimo, Imprensa nacional/Casa da Moeda)
(**) John Steinbeck : East of Eden (edição francesa Livre de Poche, páginas 150-155)