sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Se todas as pessoas do mundo quisessem.... E o azul!


Paul Klee, "Azul"

Burne-Jones, "O espelho de Vénus"

“Si toutes les filles du monde
Voulaient se donner la main
Tout autour de la mer
Elles pourraient faire une ronde...

Se todas as mulheres do mundo
Quisessem dar as mãos
Em redor do mar todo
Poderiam fazer uma roda

"Meninas de roda", Hans Thomas

"Dança", Anne-François- Louis Janmot (1814-1892)

(…)

Si tous les gars du monde
Voulaient bien être marin
Ils feraient avec leurs barques
Un joli pont sur Londres...


Heitor dos Prazeres, "Roda de Samba"

Se todos os homens do mundo
Quisessem ser marinheiros
Com os seus barcos
Fariam linda ponte, em Londres...

(…)
Alors on pourrait faire
Une ronde autour du monde
Si tous les gens du monde
Voulaient se donner la main…"


Dança de Roda, Alberto da Veiga Guignard (1954)

(…)
Então, poderíamos fazer
uma roda à volta do mundo
- se todas as pessoas do mundo
quisessem dar as mãos...


Paul Fort

Jules Jean Paul Fort, nasce em Reims (na região de Marne) no dia 1 de Fevereiro de 1872 et morre em 20 de Abril de 1960, em Montlhéry (no Essonne). 

Em 1878, o pai de Paul Fort vai com a família para Paris, e ele estuda no Liceu Louis-le-Grand onde conhece André Gide e Pierre Louÿs, ambos alunos da chamada "Escola" alsaciana.

É um poeta e um dramaturgo francês, autor de uma vasta obra poética, a maior parte reunida nas "Ballades françaises". Lirismo misto de simplicidade e de simbolismo.  Reunia-se com o grupo do Café Voltaire e da "Closerie des Lilas", poetas, músicos e pintores...

"Closerie des Lilas"

Ficou famoso o poema "Ronde autour du monde" que fala da possibilidade (remota? inverosímil? quem o sabe?) de "criar uma roda à volta do mar", do mundo, se todas as pessoas quisessem unir as mãos...

Paul Klee, "Margem"

Em 1956, Christian-Jacque (com guião de Henri-Georges Clouzot) realiza um filme cheio de bons sentimentos, baseado na solidariedade de um grupo de marinheiros durante a Guerra. 

Claude Monet, Glicínias

O filme vai ter sucesso, porque no fundo todo o homem anseia por ser capaz de dar algo de si! Quem não quereria acordar com o azul deste quadro de Claude Monet e com as suas "Glicínias"? Com a paz de esírito de ter realizado uma boa acção? De dar dado a mão a outro homem...

Sim, seria bom, mas na maior parte dos casos não consegue sair das limitações do egocentrismo, da inveja, de susceptibilidades várias em relação ao seu vizinho, ao seu "próximo"...


Este filme "redime" o homem? Não sei, não me lembro. E a poesia de Paul Fort serviu para alguma coisa? Daremos as mãos um dia?

"Então, poderíamos fazer uma roda à volta do mundo! Se todas as pessoas do mundo quisessem dar as mãos..."

Para evocar essa solidariedade possível -e tão dificilmente encontrada,  ou realizada- muitas vezes basta dizer o 1º verso da segunda estrofe "si tous les gars du monde, voulaient être marin"... 

Mas é indispensável a 1ª estrofe: "Si toutes les filles du monde voulaient se donner la main..."

Marc Chagall, "Violinista Azul"

Os Compagnons de la Chanson musicaram e cantaram a poesia também. Vamos ouvir?








quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O filme japonês "Still the Water", de Naomi Kawase e a natureza...



Falar de um filme que fala da natureza! Da relação forte que ainda existe nalguns lugares do mundo entre o homem e a natureza-protectora-mãe...

Sim, gostaria bem de ir ver o estranho filme “Still the Water”, de Naomi Kawase - selecionado para a Palma de Ouro para a competição principal no Festival de Cannes. Encontrei um artigo sobre ela no jornal Le Monde (5 de Outubro).
(Andará por cá o filme? Só a Isabel é que pode saber....)


Fui saber mais sobre a realizadora japonesa: nascida em Nara, em 30 de Maio de 1969, Naomi Kawase (ou Naomi Sento, apelido do marido) é uma realizadora japonesa que começou por ser fotógrafa. Foi aluna do famoso fotógrafo Shuji Dodo. 

O Templo de Nara e os dois grandes Budhas


Depois, começou a fazer documentários curtos, autobiográficos, como por exemplo "Embracing" onde conta a procura do pai que a abandonou, ou "Katatsumori", história da avó que a criou.

Nara e o pagode Kofuku-ji


No filme "Still the Water" vai buscar antigas tradições da ilha Amami, onde foi completamente filmado.


Ilhas do Japão e Amami

Ilha paradisíaca “cujos habitantes são herdeiros de uma cultura onde a actividade humana não se concebe sem ser em harmonia com a natureza”, como escreve Isabelle Régnier num artigo (Le Monde, 5 de Outubro) intitulado “A mutação animal regenera a imagem da ficção”.

o Parque natural de Nara

“E eles transmitiram aos seus descendentes a técnica do mergulhar nus nas águas, como os peixes.”

Flores, foto do amigo japonês Syuji Hyrai

Céu em Fukuoka-shi, Etsuko Nagamatsu 

Syuji Hyrai, mar em Fukuoka

A fauna e a flora riquíssimas, respeitadas, servem de "decor" à "passagem" quase ritual entre uma mãe Shaman e a filha adolescente. Uma adolescente-peixe que se abre para a vida.


Continua Isabelle Régnier: "Inscreve-se na linha da filosofia shintoísta japonesa, com a relação a fértil entre o homem e o animal".

em Nara, Parque das Corças

O filme deve estar a sair em Portugal, espero eu! Gostaria de o ver…
* * *
Outros filmes da mesma realizadora:
Em 1997, recebe o prémio Camera d’oro,  com o filme Susaku.

Em 2007, realiza  um filme que fala da relação homem-natureza: The Mourning Forest (Mogari no Mori)

E em 2011, sai o filme "Hanezu no tsuki"...


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

LEMBRAR O POETINHA ... COM ALEGRIA!



Angioletto Musicante, de Rosso Fiorentino



"Se tu queres que eu não chore mais, 
Diga ao tempo que não passe mais. 
Chora o tempo o mesmo pranto meu, ele e eu, tanto, 
Que só para não te entristecer, 
Que fazer, canto. 
Canto para que te lembres quando eu me for..."



Tanta poesia, tanto amor, tanta indulgência, tanta alegria para mascarar a dor - isto era o "Poetinha", como lhe chamavam os amigos. Lembremos, pois,  o Poetinha (que faria hoje 114 anos). Com o seu humor, claro!

“Quem pagará o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores? 
Quem, dentre amigos, tão amigo 
Para estar no caixão comigo? 
Quem, em meio ao funeral 
Dirá de mim:
- Nunca fez mal... 
Quem, bêbedo, chorará em voz alta 
De não me ter trazido nada? 
Quem virá despetalar pétalas 
No meu túmulo de poeta? 
Quem jogará timidamente 
Na terra um grão de semente? 
Quem elevará o olhar covarde 
Até a estrela da tarde? 
Quem me dirá palavras mágicas 
Capazes de empalidecer o mármore? 
Quem, oculta em véus escuros 
Se crucificará nos muros? 
Quem, macerada de desgosto 
Sorrirá: - Rei morto, rei posto... 
Quantas, debruçadas sobre o báratro 
Sentirão as dores do parto? 
Qual a que, branca de receio 
Tocará o botão do seio? 
Quem, louca, se jogará de bruços 
A soluçar tantos soluços 
Que há de despertar receios? 
Quantos, os maxilares contraídos 
O sangue a pulsar nas cicatrizes 
Dirão: - Foi um doido amigo... 
Quem, criança, olhando a terra 
Ao ver movimentar-se um verme 
Observará um ar de critério? 
Quem, em circunstância oficial 
Há de propor meu pedestal? 
Quais os que, vindos da montanha 
Terão circunspeção tamanha 
Que eu hei de rir branco de cal? 
Qual a que, o rosto sulcado de vento
 Lançará um punhado de sal 
Na minha cova de cimento? 
Quem cantará canções de amigo 
No dia do meu funeral? 
Qual a que não estará presente 
Por motivo circunstancial? 
Quem cravará no seio duro 
Uma lâmina enferrujada? 
Quem, em seu verbo inconsútil 
Há de orar:
- Deus o tenha em sua guarda.
 Qual o amigo que a sós consigo 
Pensará:- Não há de ser nada... 
Quem será a estranha figura 
A um tronco de árvore encostada 
Com um olhar frio e um ar de dúvida? 
Quem se abraçará comigo 
Que terá de ser arrancada?  
Quem vai pagar o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores?”


 "REGRA TRÊS"...  TOQUINHO & VINICIUS

sábado, 18 de outubro de 2014

Pronta a caminhar sobre a Lua! Ouvindo ."Nun me scuccia'..." e Pino Daniele

Si, pronti per andare sulla luna, ma i piedi mi fanno male.
Allora come dice Pino Daniele:

Lua em casa, foto (MJF)


"Nun me scuccia',
nun me scuccia'"


"Luar" foto de Marisa Volonterio Meira

Emil Nolde, Noite de Luar (1914) 





Nun me scuccia',
nun me scuccia',
cerca di stare almeno un'ora
senza parla'...
Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
Nun me scuccia',
nun me scuccia'
coi tuoi discorsi

Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
tanto muore pure tu...
A che serve 

sta' accussì
sempe 'ncazzati, ma po' pe chi?
Oggi fa friddo e nun voglio asci'!
A che serve sta'accussì
sempe 'ncazzati, ma po' pe chi?

Fora fa friddo...
Nun me scuccia',
nun me scuccia',
statte quieto ca po' vene 'a sete
a furia 'e parla'...

Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
tanto muore pure tu...

Bom fim de semana! "Je so pazzo" Pino Daniele