quinta-feira, 15 de junho de 2017

PORTALEGRE: A SÉ CATEDRAL E SEUS ARTISTAS

Em Portalegre, reencontro tanta coisa esquecida e revisitada uma vez mais. E tanta coisa a aprender ainda...

Portalegre tem muito encanto, penso eu. Muitos recantos, ruelas íngremes e estreitinhas, caiadas de branco, às vezes com uma barra amarela. 
fotografia de José Fernando SP

E tem belas igrejas e monumentos e casas solarengas, com brasões vários. E tem passeios para dar aos domingos e 'vistas' maravilhosas lá do alto da Serra e de tantos outros ângulos diferentes. E lembro as fotografias de um amigo desaparecido, José Fernando SP, que a 'imaginou' de todo os modos! 
nevoeiro de Setembro (José Fernando SP)

Portalegre tem uma história, curta mas agitada, com pequenas lutas fratricidas. 
Leio por exemplo sobre a disputa entre os dois irmãos Álvares Pereira  nos tempos conturbados que se seguem à morte de D. Fernando (1383). 

O irmão de do Condestável D. Nuno Álvares, Pedro Álvares, Prior do Hospital e Prior do Crato, defende a causa de Castela, é o alcaide da cidade.

E Nuno Álvares Pereira, partidário de D. João, que vem com os companheiro de armas libertar o Castelo apreendido: “acorre e, ajudado pela arraia miúda – pelos ‘ventre ao sol’ no dizer do cronista Fernão Lopes-, consegue tomar o castelo” (pg. 418, ‘Guia de Portugal’, Raul Proença). 
D. Pedro Álvares Pereira, era ferrenho partidário de Leonor de Castela e alcaide do castelo de Portalegre. Perante essas posições de apoio a Castela, o povo de Portalegre revolta-se e cercou o castelo. 
D. Nuno Álvares vem ajudar a cidade. Vencido, D. Pedro foge para o Crato.
Batalha de Aljbarrota


Em anterior luta fratricida, Portalegre tomara o partido de D. Afonso irmão de D. Dinis – ambos filhos de D. Afonso III que, em 1259,  lhe concedera o foral de vila. 
“Aquando das desavenças entre Afonso e seu irmão – o Rei- a vila segue o seu senhor, irmão do Rei legítimo. Em 1299, o Rei D. Dinis vem em pessoa pôr cerco à vila até à capitulação de D. Afonso.”

Fora o pai deles,  o rei D. Afonso III, quem mandara erigir a fortaleza da cidade que ficou incompleta. Em 1271, doou ao seu segundo filho, Afonso, as vilas de Portalegre e Marvão e os senhorios de Vide e Arronches. 
Quando morre, porém, em 1279, o infante D. Afonso, seu filho segundo, pretende suceder-lhe ao trono, alegando que D. Dinis era filho ilegítimo. Não foi aceita tal sua pretensão, mas provocou desavenças entre os irmãos, conflito que se arrastou. 
Em 1299, Portalegre é cercada pelo rei D. Dinis. O cerco dura seis meses. Após esses meses, D. Afonso rende-se.
Cancioneiros da Ajuda

Entre 1320 e 1324 houve outra guerra civil que opôs, desta vez, o rei D. Dinis ao filho, o futuro Afonso IV. O infante receava que o pai desse o trono ao filho bastardo, Dom Afonso Sanches, que era o seu preferido. Afonso Sanches, peta como seu pai, não será Rei, mas o pai, D. Dinis. vai deixar Portalegre em testamento ao filho bem-amado, legitimado com 15 anos, D. Afonso Sanches, juntamente com as vilas de Marvão e as senhorias de Vide e Arronches. 
Portalegre hoje (MJF)

Portalegre, vista por Arsénio da Ressurreição 

Continuando a história de Portalegre, pelos vistos muito acidentada: “(…) Em 1511, D. Manuel dá um novo foral à vila que foi depois elevada a cidade e feita sede de bispado em 1550”, criada em 1549 pelo Papa Paulo III, o que leva o rei D. João III a conceder-lhe o foro de cidade.
D. João III, na Corredoura (MJF)
Data de então o começo da sua importância e prosperidade. Multiplicam-se os solares, as casas mais ou menos opulentas dos fidalgos.” (in Carta Régia de Maio de 1550)
Fábrica Real hoje Câmara Municipal (MJF)

Não vou alargar-me mas lembro, ainda, a importância que teve a cidade quando o Marquês de Pombal fundou a Fábrica Real de Lanifícios de PortalegreÉ desse tempo uma quadra popular que diz:
“Oh cidade de Portalegre,
duas cousas tens em ti:
A Fábrica Real
E o Senhor do Bonfi.”
Câmara Municipal : pórtico de entrada (MJF)
A Fábrica Real, à noite (MJF)

A indústria dos lanifícios é antiga na cidade, datando dos princípios do século XVI. Constam dessa altura as primeiras referências ao ‘pano de Portalegre’.
a Sé (António Mão de Ferro)

E passo, rapidamente, para a Igreja da Sé. Quando volto à cidade, sabe-me bem avistá-la, com as torres do castelo do outro lado.

A Sé Catedral foi construída por cima da Igreja Nossa Senhora do Castelo. Iniciada em 1555, a primeira pedra é lançada em 1556 pelo bispo espanhol, D. Julián d’ Alva, capelão da Rainha de Áustria, D. Catarina e primeiro bispo da Cidade. 
A Sé, vista da cidade (MJF) 

O segundo bispo, D. André de Noronha, continuou a as obras e a Sé foi concluída, no último quartel do século XVI, pelo terceiro bispo da cidade,  D. Frei Amador Arrais, autor dos “Diálogos” (*).
A bela entrada da 'Fábrica Real', à noite

"A fachada, já no século XVIII, é enriquecida por duas torres muito agudas, piramidais octogonais", (in Guia de Portugal, pg. 422) e é-lhe acrescentado o Claustro.

A Sé Catedral apresenta várias formas de arte e de materiais - desde grades em ferro forjado (séc. XVII) aos azulejos policromáticos (séc. XVIII) e é “um dos maiores conjuntos nacionais de pintura maneirista, de consagrados mestres nacionais e estrangeiros.”
Fernão Gomes


Pesquisando na internet encontrei, no blogue Montalvo e as ciências do nosso tempo’, blogue que muito aprecio pela qualidade e interesse das informações, mais documentação sobre a Catedral. Nele, soube muito do que aqui vou referindo. 
De facto, é Frei Amador Arrais que, em 1582, encomenda vários retábulos maneiristas e escolhe Gaspar Coelho, artesão marceneiro-entalhador portalegrense, que já trabalhara em Espanha com mestres espanhóis e italianos.
Foi este bispo quem mais contribuiu para a riqueza artística da Sé e para a sua ornamentação variadíssima.
Altar-mor  de Gaspar Coelho

"Dos doze altares existentes,o altar da capela maior’ é o mais imponente e grandioso. (…) A obra foi confiada, em 1582, pelo prelado, ao Mestre entalhador Gaspar Coelho, artista portalegrense que trabalhou em Espanha, em Badajoz em 1571, onde aprendeu a sua arte com mestres entalhadores espanhóis e outros estrangeiros do Norte da Europa (…) e na sua construção foram gastos o equivalente a três mil cruzados.”
o belo Anjo da Guarda
Desta vez, observei com mais atenção o belo retábulo do altar-mor da Sé. É um retábulo barroco, em talha dourada, que veio substituir os antigos retábulos primitivos. Esculpido por Gaspar Coelho e seu irmão Domingues, nas esculturas do retábulo, aliam-se a educação artística e o saber à sensibilidade.
Para mim, que pude conhecer tão bem a arte italiana e o ‘maneirismo’ na pintura, foi a Itália que me veio à ideia. Encontrei a mesma suavidade nos tons, nos rostos, e as formas fortes e arredondadas nos corpos. 
No folheto, que trouxe da Sé, leio agora: “As figuras de estilo maneirista e formas robustas e arredondadas, sugerem-nos a plástica das figuras de Miguel Ângelo na Capela Sistina do Vaticano.”
Michelangelo, A serpente Vermelha (Sixtina)

Este 'corpo central' compreende três pinturas intercaladas com as esculturas e, mais acima, outro grupo de duas esculturas que, ‘à moda antiga’, separam três outras pinturas. 
Leio o nome dos magníficos pintores: “(…) Fernão Gomes, Simão Rodrigues (contratados por Amador Arrais, o bispo culto e sensível às artes), Francisco Venegas e outros.” (**)
Francisco Venegas, tecto da Igreja de São Roque (1588)

Francisco Venegas

Fernão Gomes é um pintor português de origem espanhola, nascido perto de Badajoz, que foi estudar para Delft, na Holanda (estamos na época de Carlos V, Imperador da Áustria e Rei de Espanha) onde trabalhou com Anthonie Blockglandt (1570-1572). Dali, parte para Portugal à procura de um lugar onde pudesse desenvolver a sua obra. 
Camões, retrato de Fernão Gomes

É da sua autoria o único retrato verdadeiro de Camões, provavelmente realizado entre 1573-75, “retrato pintado a vermelho do poeta Luís  de Camões (…) único e precioso documento fidedigno” que representa o poeta.
 Trabalhou com Simão Rodrigues na execução do Retábulo da Sé de Portalegre, em 1595.
"A Virgem e o Menino", de Simão Rodrigues

Este outro pintor maneirista, Simão Rodrigues, nasceu em Alcácer do Sal, em 1560, e foi cedo viver para Lisboa. Além deste trabalho em Portalegre, pintou o Retábulo da Igreja de São Domingos, em Elvas (1595). 
Como diz o autor do blogue "montalvo" que referi, “estes artistas erguem uma monumental peça de marcenaria, entalhadura e douramento”, peças aliadas com pinturas maneiristas de grande beleza.
Francisco Venegas, Anunciação (postal)

 “Toda a ornamentação retabular se articula segundo os moldes do maneirismo, bem vivo nos frisos de anjos, festões, medalhões, cestos de flores e de frutas nas bases das colunas (…) que os artistas portalegrenses esculpiram ‘à maneira’ italiana”, inspirando-se provavelmente em imagens e gravuras da Itália e do Norte da Europa.

Entre as pinturas de que mais gostei, está outra suave “Anunciação” que fotografei (e aqui está, acima) e de que ignoro o autor. E também “O Nascimento da Virgem”. 

Outra descoberta, neste lindo Retábulo maneirista do Altar-mor, é Francisco Venegas, pintor maneirista, nascido em Sevilha, por volta de 1525, que trabalhou em Portugal, no último quartel do século XVI. 
Francisco Venegas, Madalena

o maneirista Rosso Fiorentino, Deposição do Cristo
Viveu em Roma um certo tempo e contactou com a arte maneirista italiana dessa época. Morreu em Portugal, em 1594, “com muitas honrarias”.
Retábulo da Sé, Altar-mor (net)

Talvez por causa desse ‘toque’ italiano, me tenham emocionado tanto aquelas magníficas obras maneiristas do Retábulo da Sé.

***
(*) D. Frei Amador Arrais nasceu, em 1530, em Beja, e morreu em Coimbra, em 1600. Religioso, frade carmelita, mas também escritor e homem de vasta cultura. Muito lhe ficou a dever a cidade como vimos acima. Foi um escritor: são dele os "Diálogos" que escreve falando dum homem culto, doente, deprimido, e das conversas com os que o vêm visitar.  Foi igualmente um dos que mais contribuíram, com o seu esforço e humanidade, para o resgate dos prisioneiros de Alcácer Quibir.

Em 1596, Frei Amador Arrais resigna e vai viver no Colégio do Carmo, em Coimbra. O seu túmulo foi erigido por Gaspar Coelho que tanto admirou e protegeu.

(*)  Frei Amador Arrais
https://pt.wikipedia.org/wiki/Frei_Amador_Arrais

(**) Os pintores da Sé
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fern%C3%A3o_Gomes_(pintor)

sábado, 10 de junho de 2017

O (verdadeiro) retrato de Camões e o seu autor, Fernão Gomes


Camões, o retrato vermelho de Fernão Gomes

Hoje, Dia de Camões, falarei de Fernão Gomes, que foi um pintor português de origem espanhola, nascido perto de Badajoz. 

Era o tempo de Carlos V -ou Carlos II de Espanha-, Imperador da Áustria e, assim, Gomes foi estudar para Delft, na Holanda - que pertencia ao Império. 

Carlos V , pintado (talvez) por Tiziano

Ali  trabalhou com o Mestre Anthonie Blockglandt (1570-1572). Depois veio para Portugal à procura de um lugar onde pudesse desenvolver a sua obra. 
Fernão Gomes afasta-se da pintura holandesa e tem já outros "traços" e a escolha de apresentar as figuras religiosas, de modo "maneirista", dos pintores do "maneirismo italiano" e que a Igreja censura. 
Giacomo da Pontormo, Deposição do Cristo
Rosso Fiorentino, Moises defende as filhas de Jehtro

De facto a sua "Soror Maria da Visitação" -quadro pintado para o Mosteiro da Anunciada- desaparece não durante o Terramoto de 1755, como infelizmente outras obras suas,  mas "às mãos" do Santo Ofício que a manda destruir.



É da sua autoria o único retrato verdadeiro de Camões, provavelmente realizado entre 1573-75, “retrato pintado a vermelho do poeta Luís de Camões (…) único e precioso documento fidedigno” que representa o poeta. E que é, afinal, uma cópia do original de Gomes. 


Fernão Gomes, na Sé do Funchal
Trata-se de uma cópia executada, a pedido do Duque de Lafões, por José Luís Pereira de Resende (1760-1847), "a partir do original, que fora encontrado num saco de seda verde nos escombros do incêndio do “magnífico e grandioso palácio dos Condes da Ericeira (…) e que entretanto desapareceu.” (*)

Este artista trabalhou com Simão Rodrigues (outro pintor manierista) na execução do Retábulo da Sé de Portalegre, em 1595, por isso me interessei por ele.

Fernão Gomes foi nomeado “pintor da Ordem de sua Majestade", por Filipe II, em 1594. E, em 1601, “pintor dos Mestrados das Ordens Militares". Em 1602, é um dos nove pintores que fundam a 'Irmandade de S. Lucas', confraria dos pintores da cidade.

Em 1612, ano da sua morte, vem a ser, ainda, um dos doze pintores que “assumem um movimento de reivindicação que vai conduzir ao reconhecimento da Pintura como “Arte liberal”.

“Soror Maria da Visitação” quadro pintado para o Mosteiro da Anunciada desaparece não durante o Terramoto de 1755 mas às mãos do Santo Ofício.



Nascido Em Espanha, como referi atrás, em Albuquerque em 1548, Fernão Gomes (Hernán Gomez Román), ou Fernando Gomes morre em Lisboa, em 1612. 
Muitas das suas obras desapareceram no Terramoto de Lisboa de 1755.






(*) O retrato pintado a vermelho”, V. Graça Moura, aparece na revista Oceanos, em Junho 1989.
Mais tarde sai um livro da autoria de Graça Moura e Vítor Serrão, "Fernão Gomes e o retrato de Camões", saído aquando da Comemoração das Viagens Portuguesas, editado pela Fundação do Oriente/Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1989.

( **)  Ainda o retrato:

“O que se conhece desse retrato é uma cópia, feita a pedido do 3º duque de Lafões, executada por Luís José Pereira de Resende (1760-1847) entre 1819 e 1844, a partir do original que foi encontrado num saco de seda verde nos escombros do incêndio do 'magnífico e grandioso palácio dos Ex.mos Condes da Ericeira, Marqueses de Louriçal, junto da Annunciada' e que entretanto desapareceu. 
É uma «fidelíssima cópia» que, "pelas dimensões restritas do desenho, a textura da sanguínea, criando manchas de distribuição dos valores, o rigor dos contornos e a definição dos planos contrastados, o neutro reticulado que harmoniza o fundo e faz ressaltar o busto do retratado, o tipo da barra envolvente nos limites da qual corre em baixo a esclarecedora assinatura.
Enfim, o aparato simbólico da imagem, captada em pose de ilustração gráfica de livro, «se devia destinar à abertura de uma gravura a buril sobre chapa cúprica», «para ilustração de uma das primeiras edições de Os Lusíadas».


quinta-feira, 8 de junho de 2017

THOMAS HARDY E A INQUIETAÇÂO...



Há uns tempos, li  “Judas, o Obscuro”. Li-o na “Poche”, em francês, e talvez tenha feito mal pois o inglês que Hardy escreve é muito bom de ler.  Um inglês perfeito e não muito difícil, dizem os entendidos.

"Thomas Hardy é um pessimista!, pensei. "Que livro tão triste! Parece fechar todas as portas! Não há saída..." 
Será ele um pessimista, realmente? Fui 'consultar' a Biografia de Claire Tomalin -autora de outra biografia muito interessante: a de Jane Austen- mulher inteligente e sensível: “Thomas Hardy, The Time-Torn Man” (*).  


Pessimista, Hardy? Sobre esse assunto, escreve Tomalin

“Por vezes negava ser um pessimista, e é verdade que mantinha a sua alegre vida social em Londres. Ia, assiduamente, a festas, fazia férias por toda a parte, teve amores, e escreveu várias histórias ligeiras ao mesmo tempo que ia trabalhando nos romances mais duros.”(*)

E, nestes romances, a visão sombria das coisas ia-se acentuando de livro para livro.
Os três romances que publicou, na década 1885-1895, a saber, The Master of Carterbridge (1886), Tess of the de Ubervilles (1891) e Judes The Obscur (1895), foram marcados pela interrogação e crítica feroz sobre as ideias geralmente aceitas pela sociedade do seu tempo. E a sua tristeza é crescente, num aparente paradoxo.
Havia nele uma barreira profunda entre a “pessoa tranquila e educada que vivia e apreciava a sociedade de Londres, e o revoltado, ferido, íntimo que castigava os valores do mundo em que vivia”. (op. cit. pg. 218)
As obras-primas Tess dos Ubervilles e Judas o Obscuro incomodavam os críticos no que Hardy parecia sugerir, isto é,  “que o ser humano pode ser destruído por forças malignas que existem no mundo, usando o seu poder para transformar as coisas num inferno de maldade.”

A felicidade é, para ele, “o episódio ocasional do drama geral da dor”: é o que pensa a sua personagem Elysabeth-Jane, no final de The Master of Carterbridge.
Outras mulheres como Tess (Ubervilles), Batsheva (Longe da Multidão), Sue (Judes, l'Obscure) - além da Elysabeth-Jane (The Master) - são grandes figuras dos seus romances. A verdade é que Hardy é um pintor de figuras femininas extraordinárias!

"Judas" é um livro doloroso. E um livro estranho. Há livros que nos "doem" mais do que outros e, nisso, Dostoievsky é inigualável - um verdadeiro mestre do sofrimento, nas suas histórias - a provocar dor nas personagens, dor que trespassa também o leitor. Judas o Obscuro fez-me sofrer. O romance cria uma tal ansiedade, há um sentimento tal de tristeza contínua que nos prende do princípio ao fim.
"Longe da Multidão", uma boa tradução

E pensava, ao lê-lo: “mas porquê”? E, afinal, "por que não?” Havia a expectativa e o desejo que o enredo dramático da história mudasse! E, sempre, o livro avançava no sentido da desgraça, da incompreensão do outro, daquele de quem, no entanto, queremos aproximar-nos de verdade. O outro quem é? É o ‘desconhecido’ que se ama. Ou se detesta. Mas isso é mais fácil... 

Há dias uma amiga ensinou-me um ditado romano: “Só conheces verdadeiramente alguém, depois de teres comido com ele um quilo de sal”… 
Conhecer o outro, no dia a dia, a comer e a beber e a conversar com o outro? Talvez nem um quilo de sal chegasse para Thomas Hardy.
Judas Fawley é uma criança, órfã, recolhida pela tia que tem uma padaria. Trabalha desde pequenino a fazer pão e a ir vendê-lo. Feliz ou infeliz, limita-se a viver como outra criança, ao sabor dos dias. Que sabe ele da infelicidade? Ou da felicidade? Espera apenas ter de comer, sabe que tem de ajudar a tia e isso basta-lhe. No entanto o seu sonho é aprender.
O primeiro desgosto e as primeiras lágrimas são quando o professor que lhe dava aulas à noite, depois do trabalho, se vai embora da aldeia. O professor era, para Judas, a personagem ‘ideal’, aquela que detém o saber.
Não te vou esquecer, Judas, disse ele sorrindo, enquanto a carruagem se afastava. Porta-te bem, sê bom para os animais e para os pássaros e lê tudo o que puderes!” (pág.19, da ed. Poche)
Mas o professor esquece-o.
Judas quer ir estudar para Christianminster. Talvez encontre lá o professor. Decide ir trabalhar para a seara dum lavrador, a ver se ganhava algum dinheiro e passa os dias junto das medas de trigo, a afastar os pássaros. Um dia, o patrão bate-lhe porque ele tinha deixa do os corvos comer. 
De facto, sentado na meda de trigo, afasta-os, agitando um pau. "Estão famintos, pensa". Lembrou-se que “os pássaros, tal como ele, viviam num mundo hostil. Para quê assustá-los? E cada vez mais apareciam aos seus olhos como doces amigos…”
Judas não queria tornar-se num homem.
“A lógica da natureza era demasiado horrível para se preocupar com ela. A ideia de que o que para uns era compaixão se tornava crueldade noutros destruíra qualquer sentimento de harmonia.” (pág.28)
"Se ao menos pudesse impedir-se de crescer!
Hardy e a segunda mulher, Florence (1912)

E o pequeno Judas começa a sonhar com a Cidade para onde fora viver o professor: “Tornou-se uma coisa tangível, sempre presente, que estendia uma influência sobre a sua vida (…) porque o homem cuja ciência e projectos lho inspiraram tal respeito vivia ali. Rodeado de uma multidão de pensadores, daqueles cujo espírito brilha com a maior luz”.
A cidade de Christianminster, que para ele é a Jerusalém celeste. À noite, sozinho, estuda, afincadamente, grego e latim, no seu quartinho despido de tudo – porque o seu sonho é fazer parte um dia desses espíritos brilhantes! É a Cidade cujas luzinhas via ao longe, ainda adolescente.
Mas Judas é um jovem ingénuo, inexperiente, rodeado de perigos desconhecidos.
O desconhecido é a jovem mulher vivida -que ele julga amar - e que se finge grávida, para o obrigar a casar, como reparação. Precisa dum marido que trabalhe a terra, lhe mate os bezerros para vender no mercado e a faça enriquecer depressa.

O desconhecido é também a jovem Sue que mais tarde vai encontrar, na ‘cidade das luzes’, e que o atrai. E que ama. E que não se deixa amar, amando-o, porque preza, acima de tudo, a sua liberdade e independência. A mulher que acaba por se ‘enterrar’ numa situação sem amor, numa casa sem alegria, que as trevas invadem depressa, ao fim do dia.

Ao correr das páginas, passam os anos, acontecem coisas entre incompreensão e desencontro, infelicidade atrás de infelicidade. E nós seguimos, sem respirar, os acontecimentos. Adivinhando o que não queríamos adivinhar.
Sombras, trevas e luz cruzam-se na sua obra. A charneca castanha e a secura da vegetação rala e escura. Temas que se repetem, horas do dia que evocam as sombras e a escuridão, sentimentos que fazem doer.

sobre um quadro de Navarro Hogan
Em Tess (**), escreve: “As tintas meio acinzentadas do nascer do dia não são as mesmas do cair da noite, se bem que o seu grau de 'matizes' possa ser o mesmo. No crepúsculo da manhã, a luz é activa e as trevas passivas; no crepúsculo da tarde, são as trevas que se tornam activas e invasoras e a luz adormece”.


Em The Return of the Native (O Regresso do Nativo), Thomas Hardy fala da charneca que se espraia pelo horizonte visível, quando se acendem as fogueiras da festa e a escuridão da noite se aproxima, "retardando a aurora": 
A charneca (M.J.F)

Pela sua cor castanha, o rosto da charneca acrescentava à tarde mais meia hora de escuro; tinha também o poder de retardar a aurora, entristecer a manhã, anunciar com antecedência a ameaça da tempestade apenas iniciadas e aumentar a opacidade da meia-noite sem lua ao ponto de provocar o medo” (***)
 Navarro Hogan

"Onde está a felicidade?", perguntava Camilo, no título dum seu romance. 
"A felicidade é apenas um episódio acidental num drama feito de sofrimento.” 
Esta é a resposta de Thomas Hardy no final do romance The Master of Casterbridge, através do que pensa, quando a heroína Elisabeth-Jane diz: 
Espantava-se com persistência do imprevisto na vida, pois ela que tinha atingido na maturidade uma paz perfeita, era a mesma a quem a juventude tinha ensinado que a felicidade é apenas um episódio acidental num drama feito de sofrimento.

Em Judas o Obscuro, são as trevas que o rodeiam sempre, encobrindo o céu e as luzes. Pobre pequeno Judas! Tanta vontade, tanto estudo, tanto sonho, tanta esperança! 
Ah! Como o destino vai ser cruel! Sim. Onde está a felicidade, Judas? Onde está a cidade das luzes?
Subindo para Jerusalém, de Reuven Rubin

(*)  "Thomas Hardy, The Time-Torn Man”, Penguin Books, London, 2006 cap. The Blighted Star, pg. 219

(**) "Tess des d’ Ubervilles", Livre de Poche, pág. 170