domingo, 25 de setembro de 2016

Recordando um filme que faz bem " The Blues Brothers", de John landis


Como esquecer estes dois? John Belushi e Dan Aykroyd figuras extraordinárias dum filme especial.
Estes dois fizeram parte de uma banda de Jazz de rythm and blues, nos anos 70. Apresentavam-se até num show na televisão: intitulado Saturday Night Show. 
O primeiro espectáculo foi na noite de 22 de Abril de 1978. Eram os Blues Brothers, Jack e Elwood Blues...
Steve Cruppers, Tom Malone, Lou Marini e  Matt Murphy faziam parte da banda. 
os 'blues' de John Lee Hoocker

Outros, já famosos, vêm retocar o filme com a maravilha que são: Cab Calloway, John Lee Hoocker, e Ray Charles a Aretha Franklin passando pelo grande James Brown! Até Steven Spielberg entra no elenco, num pequeno papel...
James Brown
Cab Calloway, jovem...

John Landis
Daí parte o filme de John Landis, com o regresso da “band” agora “em missão por conta de Deus” para salvar da falência o orfanato onde tinham sido recolhidos, em miúdos.
Filme de bons sentimentos, de humor. Esta é a história. O resto são momentos de boa disposição, ternura, sob o olhar complacente e bom, de Landis, e a inteligência dos dois actores e a quantidade de cantores e artistas! 
uma 'endiabrada' Aretha Franklin

Ray Charles


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

'O MUNDO DE ONTEM', DE STEFAN ZWEIG E A EUROPA...


Dizia Goethe: “Ele aprendeu, ele pode ensinar”! E nada é tão verdadeiro.
Aprender, ensinar –tão importante como viver! Porque viver sem aprender é como passar pela vida “sicut pecora” (como as ovelhas), já diziam os romanos.
Ler é aprender sempre. A mim, ler alivia-me a alma. Gosto de saber coisas que não sabia, descobrir vidas que não conhecia, modos de pensar que me levam a pensar de outro modo.  Ou a aceitar outros modos de pensar. Por isso, continuo a ler, a escrever, a dizer o que vou encontrando nos livros que leio.

Vou falar-vos de “O Mundo de Ontem” (Il mondo di ieri, que li em italiano), de Stefan Zweig. O mundo de ontem que ainda foi há tão pouco tempo. Tão igual e tão diferente. 

As coisas que Stefan Zweig conta, as pessoas com quem conviveu, as recordações, os desejos, os anseios -como se repetem! 
As coisas de que fala do mundo de 'ontem' e que continuam a mover o mundo de 'hoje'!
Interessou-me o que vi nele:  um verdadeiro amor pela paz, pela defesa da tolerância - único modo, segundo ele, de a conseguir.
Stefan Zweig e o irmão (1900)
Tudo tão difícil ontem, como o é hoje, e quantos homens desesperaram. Certos dias também eu desespero e penso que nada vale a pena, ('para quê escrever?  quem me lê? a quem posso ajudar?') que o mundo não tem emenda –e quem sou eu para o desejar diferente? Nesses momentos, decido desinteressar-me do mundo e das suas gentes, dos chefes políticos e dos governados sem governo. Encolho a minha esperança e desisto, sinto o peito apertado. Guerras e massacres criados dos erros de quem não tem nada a perder com isso -porque longe e protegidos, mortes, torturas, estupros, violências inúteis.  Tantos desentendimentos, tanta luta, tanta desilusão: o que se conquista, logo se perde.

E vejo Stefan Zweig, no início do século XX, queixar-se do mesmo. O que se passava ontem, volta a passar-se hoje. Para o bem e para o mal, sobretudo para o mal! 
Não se tirou lição alguma do passado? Se muito se conquistou, muito se perdeu e se perderá se não houver uma consciencialização a nível universal, sendo global hoje o mundo em que vivemos.
E, para me consolar, penso: a única forma de ajudar é aprender. Aprender dos outros, com os outros, as diferenças e as semelhanças que no fundo são apenas do homem! Aprender para poder ensinar. “Porque se aprendermos, podemos ensinar”.
Romain Rolland, 1915
Stefan Zweig judeu do Império austro-húngaro, nasce em Viena, em 28 de Setembro de 1881. Escritor, jornalista, biógrafo de vários escritores (Balzac, Dickens, Dostoievski) torna-se uma figura conhecida das letras da mitteleuropa.
Com a IIª Guerra, torna-se num fugitivo -através de vários países- e salva-se do Holocausto, acabando no Brasil. 
Stefan Zweig e Joseph Roth
Mesmo exilado, ajuda os que ficaram para trás. Até ao fim da vida, ajudou Joseph Roth, um grande escritor judeu - autor da bela e triste história "Legenda del santo bevitore"- que acaba por se perder no álcool e no desespero. A quem nunca deixa de escrever e de auxiliar com dinheiro.
E leio o encontro de Zweig, em Paris, no ano de 1913, com alguém com quem muito se aprendeu: Romain Rolland, escritor e humanista e homem de paz. Que nos comunica valores eternos! (p.175)
Foi por mero acaso que descobri a tempo Romain Rolland. Uma escultora russa convidara-me, em Florença, para tomar chá com ela, para mostrar-me os seus trabalhos e tentar fazer o meu retrato. (…)”
Enquanto espera na sala dessa senhora, Zweig viu um exemplar dos 'Cahiers de la Quinzaine' e, folheando-o, encontra “L’Aube” ("A Manhã"), o primeiro volume do Jean Christophe, de Romain Rolland. "(...)Comecei a ler, cada vez mais espantado e interessado. (…) Perguntei-lhe: 'mas quem é este Romain Rolland'?”
No regresso a Paris, procura outros fascículos dos Cahiers de la Quinzaine. E descobre um escritor e uma obra que iam no sentido do que lhe interessava: a compreensão, a tolerância, a fraternidade.
“Descobri que tinha encontrado a obra que finalmente não se dirigia apenas a uma única nação europeia, mas a todas, e à sua irmandade. Estava ali o homem e o poeta que punha em jogo todas as forças morais: compreensão afectuosa e leal desejo de entender, sentido sublimado de justiça e forte fé na missão de solidariedade e ligação fraternal da arte.
Enquanto nós nos dispersávamos em pequenas manifestações, ele, tenaz e paciente, passara à acção, ao dever de fazer conhecer reciprocamente os povos, por aqueles dotes em que, individualmente, são mais apreciáveis; era o primeiro romance conscientemente europeu, era o primeiro apelo decidido à fraternidade, mais eficaz porque acessível a mais amplas massas (…), mais persuasivo do que todos os manifestos e protestos; que, enfim, tinha sido criada em silêncio a obra que todos inconscientemente tínhamos desejado e esperado.

É esta atitude de 'fraternidade', e de inclinação para o outro, que Zweig admira em  Rolland Procura-o, pois, em Paris, e criam uma profunda amizade – amizade de que falarei mais, de outra vez.

Estava-se em 1913, ainda tempo de paz, mas Romain Rolland manteve a sua atitude pacifista e conciliadora quando a Guerra de 14-18 rebentou. E muitos o julgaram mal.

Em 1921, Zweig escreve a biografia “Romain Rolland: sa vie, son oeuvre” -acrescentando mais tarde um pouco do que se passou de 1921 a 1929.  É uma homenagem ao amigo e ao mestre a quem se refere como “um dos maiores escritores da França actual”.


Para ele, o livro 'Jean Christophe' representava uma “profissão de fé” na unidade da Europa e um aviso aos povos para que tornassem atentos. Era tempo de se tornarem activos. 
Agir, cada um no próprio país, no próprio lugar, na própria língua. Agir e tornarem-se vigilantes, cada vez mais vigilantes. As forças que empurravam para o ódio exactamente pela sua natureza inferior eram bem mais fortes e agressivas do que as forças conciliadoras. (…) O mal existia e actuava: lutar contra ele tornara-se ainda mais importante do que servir a arte.” 
Seguindo os ensinamentos dos humanistas Erasmo e Castellio -representantes do primeiro humanismo europeu e paladinos da liberdade de consciência-, defende que “só uma coisa pode salvar o mundo da barbárie: a tolerância” (in (Erasmus e Castellius contra Calvino).

Sejamos indulgentes uns para os outros, e não condenemos a fé dos outros homens.” 
A coexistência, dentro da diferença… O que nos poderia salvar hoje, Europeus desavindos e sem convicção? Talvez sim. Será a Europa capaz dessa solidariedade, dessa fraternidade salvadora?

Entretanto os anos passaram, outra Guerra surgiu. E, como judeu, Stefan Zweig vai ter de fugir. A sua Viena -da luz e da música, das festas e da importância dada à Cultura, a Salzburgo onde viveu quinze anos com a primeira mulher, a Áustria, é anexada pelas tropas nazis em 1938 e todo esse mundo antigo é destruído . 
Casara em 1915 com Friederike Maria Burger mas o casal desentende-se quando tudo começa a correr mal.
a primeira mulher Friederike Maria 

Entre Londres e Salisburgo, de novo em Londres, viaja, num exílio forçado, e tenta continuar a escrever. Faz conferências que têm por tema a solidariedade e compreensão recíproca dos povos, pregando a conciliação. É tarde de mais. Depressão, ansiedade e angústia levam-no a uma agitação constante. Deixa a casa de Salzburgo e a mulher, vai definitivamente para Londres.
Em 1940, consegue a nacionalidade inglesa. Entretanto separara-se da primeira mulher, e casa com a jovem secretária, que o seguirá por toda a parte, Charlotte Elysabeth Altmann. 


Transfere-se com ela para Nova Iorque, em 1941, e, depois, para o Brasil. Vão viver para Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, cidade de Pedro II, o Imperador Pedro I.
Lotte Zweig será a companheira dos últimos no Brasil. Ela que o seguirá até na morte. 
Sobre o Brasil escreve um artigo entusiasta: "Brasil, País do Futuro.Admira o que se passa no Brasil, um mundo novo, a 'miscigenação' do país, que no fundo os portugueses fizeram: "A nação brasileira tem sido construída sobre o princípio de uma miscigenação livre e não filtrada." 
Petrópolis
Desiludido pelo velho mundo perdido, escreveu: “Considerando que o nosso velho mundo é, mais do que nunca, governado pela tentativa insã de criar pessoas 'racicamente' puras, como cavalos e cães de corrida, ao longo dos séculos a nação brasileira tem sido construída sobre o princípio de uma miscigenação livre e não filtrada, com a ‘equalização’ completa do preto e branco, do castanho e do amarelo!”
"O jogador de xadrez”, filme de Gerd Oswald, 1960
É no Brasil, entre 1941-42, que termina a autobiografia, intitulada “O mundo em que vivi”, escreve “O jogador de xadrez” (metáfora da vida) e “O mundo de Ontem”.

Em 23 de Fevereiro de 1942, deprimido com o que se passa na Europa das perseguições raciais, do totalitarismo e da intolerância - e sem grandes esperanças no futuro da humanidade- Stefan Zweig e a mulher, Lotte Altmann, suicidam-se, na casa onde viviam, em Petrópolis, hoje Museu Stefan Zweig.




O que nos deixa Zweig? O testemunho de atento e imparcial sobre o seu tempo num momento  tremendo, cuja tragédia partilha.
"O mal existia e actuava -escrevia ele- e lutar contra ele tornara-se ainda mais importante do que servir a arte.” 
O mal existe e actua. O único modo de o vencer é 'agir'. Lutar contra a ignorância e ser tolerante!
filme de Andrew Birkin, 1988


"Paura" ("Medo"), de Roberto Rossellini (1954)

"Carta de uma desconhecida", Max Ophüls (1948)
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domingo, 18 de setembro de 2016

Leo Ferré nasceu há 100 anos! avec le temps tout s'en va...


Leo Ferré nasce, no Principado de Mónaco, em 24 de Agosto de 1916, mas a sua família vem de Itália. 
Em 1935, vai para Paris viver a vida de artista. Em 1945, depois da libertação de Paris, canta num cabaret “Le boeuf sur le toit”. A vida é difícil.
Acaba por ter o sucesso que merece. Criticado pela sua falta de "empenhamento", durante Maio 68, a verdade é que toda a sua vida foi um empenhar-se em várias lutas, a começar por defender a liberdade interior, a liberdade artística de cada um. 
Anarquista, talvez, mas, sobretudo, 'ele-próprio' sempre - como soube cantar "Les anarchistes" ou "L'Affiche Rouge", com versos de Aragon.
Jacques Brel, Leo Ferré e Georges Brassens, 1969, Paris


O seu terceiro casamento leva-o a Castellina del Chianti.  Acaba por ir viver na sua Itália. 


Tive a sorte de o ouvir cantar em Itália, em Poggibonsi, perto de Siena. Chegou todo vestido de preto, os cabelos brancos despenteados, e um lenço vermelho no bolso da camisa. É assim que o lembro!
Terá começado a cantar “Les Anarchistes”? Não recordo. Mas sei que cantou essa canção! E 'vejo-o' cantar!
Outras maravilhosas canções que recordo e recordarei sempre "Avec le Temps" (sensação indefinível...), "Jolie Môme", "Vingt ans", "l'Affiche Rouge", "La mémoire et la mer", ou "Ostende" que é uma das mais belas e melancólicas canções de Léo Ferré. 


"On voyait les chevaux d'la mer
 qui fonçaient la têt' la première
 et qui fracassaient leurs crinières
 devant le casino désert...
la barmaid avait dix-huit ans
et moi qui suis vieux comme l'hiver
au lieu de me noyer dans un verre
je me suis balladé dans l' printemps
de ses yeux taillés en amande
Ni gris ni verts, ni gris ni verts,
Comme à Ostende et comm' partout
quand sur la ville tombe la pluie
et qu'on se demande 
si c'est utile et, puis, surtout,
si ça vaut le coup si ça vaut le coup 
vivre sa vie..."

Léo Ferré morre em Castellina del Chianti, Toscana, em 14 de Julho de 1993.