terça-feira, 23 de agosto de 2016

Para a Ana Paula, minha 'Branca de Neve' inesquecível!


Um dia voltei ao liceu onde, muitos anos antes, ensinara. Tantas esperanças, tantas ilusões, e, ao mesmo tempo, tanto medo. Sentia-me insegura, sozinha.
Vivera muitos anos fora. Como saber até que ponto me prejudicara o afastamento do país? Evoluíra noutras realidades, conhecera países distantes, com usos diferentes, aprendera com essa gente muita coisa. Mas o ensino parecia-me tão longe agora.

Escolhi a escola da noite, com um ritmo mais suave, alunos crescidos, um horário reduzido. Ainda assim, cheia de incertezas, com dúvidas angustiantes no momento de começar as aulas, o tal medo. A noite teria sido a escolha certa? 

Mas tive a sorte de encontrar, quando me fui apresentar, uma mulher maravilhosa. Linda, generosa, sorridente. 
Creio que simpatizámos. Eu era mais velha o suficiente para ela querer proteger-me, escolhendo-me um horário suave de Português e Francês à noite, com uma turma apenas do 12º de manhã. 
- É uma boa turma, não tenhas medo!
E assim foi. Ajudou-me sempre que eu precisava, nunca se furtou a explicar fosse o que fosse, aconselhou-me as pessoas a quem perguntar se me sentisse em dúvida com os programas tão diferentes!

Passava todas as noites pelo Conselho Executivo, antes de ir para a aula. Parava para uma conversa, um beijo, comer um chocolatinho.

Ela era tão bonita que eu chamava-lhe Branca de Neve!
Quando tive de fazer o meu primeiro relatório sobre o trabalho feito, as impressões,para poder passar ao nível seguinte, deu-me o seu próprio relatório para eu ver.
- Podes 'inspirar-te'  à vontade!

O Miguel, o filhito mais novo, às vezes andava por ali, depois das inúmeras descidas e subidas, no skateboard, em frente da Escola.
Um dia tirei-lhes esta fotografia! 

Quando deixei aquela escola a caminho de Sintra, lembro-me de ter chorado, inconsolável, agarrada a ela.
Era a minha escola de sempre, em frente  da minha casa de São João que eu perdia, eram os meus amigos, as salas de aula conhecidas, tantos anos atrás. E era, sobretudo a Ana Paula! A minha Branca de Neve!


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um dia mau! Morreu o jazzista belga Toots Thielemans!


Toots Thielemans (Jean Baptiste Isidore, barão Thielemans nasceu em Bruxelas, em 29 de Abril de 1922, e morreu hoje. 
O mais conhecido jazzista belga que se distinguiu por ser o mais importante tocador de harmónica de boca, em música de jazz, um 'gaitista' (?) profissional que antes fora guitarrista. 
Em Paris participa numa jam session com Sydney Bechet, Charlie Parker e Max Roach e Miles Davis.



Em 1962 em muito sucesso a canção "Bluesette" em que toca guitarra enquanto assobia...

Bem conhecida é a sua banda sonora do filme de Schelesinger, Midnight Cowboy, o Cowboy da Meia-noite, com Dustin Hoffman e  John Voigt, 1969.


domingo, 21 de agosto de 2016

Lembrar Susie : Porque não devemos esquecer!

Chuviscava ontem e estava uma manhã triste. É Verão, mas não parece. Pesava-me o dia cinzento à minha volta. 
E, de repente, pensei na Susie. Entristeci. Nunca a esqueço e passaram tantos anos! Há muito que não tenho notícias dela. E pensei que ela já não andava por cá. E tive saudades! E quis lembrá-la!
Já falei dela e do seu passado mas, para mim, é sempre pouco recordar esses horrores. É importante não esquecer. Porque o mal esquecido, repete-se. 
Infelizmente, a condição humana leva a agredir, a ferir, a odiar e a matar - mais do que a amar, a compreender e perdoar.
Na minha rua, a rehov Lassalle, havia um jardim, o do Ulpan - a escola de hebraico para os que vêm para Israel, imigrantes ou não, judeus ou não, e onde aprendi hebraico. Nesse jardim, havia estátuas de olhos apagados, finas como lâminas de mármore, e uma frase "Shadows are memories". Sim, as sombras que ali víamos eram memórias dos que tinham morrido no Holocausto.

Hoje penso nessas estátuas, ao lembrar-me da Susie. A Susie era uma sobrevivente de Auschwitz, e ensinou-me muitas coisas sobre a vida. Sobre a vida e a morte, sobre o sofrimento, sobre as 'marcas' que a vida nos deixa gravadas e com as quais temos de viver.
Foi talvez a minha maior amiga em Telavive! E é, para mim, uma figura inesquecível. 
Encontrei-a por acaso. Em Telavive, como já contei tantas vezes, vive-se intensamente, porque não é fácil encontrar um sentido para a fragilidade e a precariedade da vida que se tem por ali. Nem é fácil deixar de pensar nos mortos amados que ficam pelo caminho. Matar ou morrer - é o dilema de Israel- a vida uma "noite breve". Talvez por isso, em Telavive, as pessoas relacionam-se facilmente: para aproveitar o átimo fugaz que é a vida... Como escreveu o poeta japonês Masaoka Shiki, com muita verdade.
"Noite breve
quantos dias ainda
 para viver?"
O meu amigo Inácio costumava dizer-nos: "Em Telavive, esquece-se logo o dia que passou, e vive-se o presente avidamente e espera-se que outro momento venha, igualmente intenso, no dia seguinte."
Porque não se sabe se haverá um dia seguinte. Sim, "noite breve". Conheci pessoas, vi vidas dilaceradas, senti dúvidas, tive surpresas, ganhei e perdi esperanças. 
E não me canso de falar disto! Não posso calar-me! Não devo calar-me! Porque existe a Utopia! Porque quero acreditar que um dia...quem sabe? Como escreveu outro judeu, Daniel Cohn-Bendit:
"A utopia é o sonho necessário,
a realidade é o desejo permanente..."
Sei que falar de Israel é falar de uma Utopia! Paz? Medo? Ódio? O que é justo? Todos os dias nos interrogamos e a resposta não é simples.
Cito Ari Shavit, lúcido jornalista israelita:
"Só há poucos anos entendi que os meus medos têm que ver também com o futuro do meu país. O que vai acontecer? Até quando se pode suportar esta loucura? Chegará um dia em que a vitalidade pela qual são conhecidos os israelitas se deva render às forças mortíferas que os rodeiam e querem destruir-nos"?
 Nelly Toll, desenho feito em Auschwitz
Passaram 71 anos sobre a libertação do Campo de Concentração e de Extermínio de Auschwitz
E a existência continua complicada para os judeus, fora de Israel, e difícil para os israelitas que criaram o seu lugar: Israel. Falar de Israel não pode nunca ser a apologia da destruição de Israel. Mas é-o para muitos países que o cercam e nem lhe reconhecem existência. É-o para muita gente no mundo.
Diz Shavit: 
"Israel é a única nação ocidental que ocupa o território de outro povo; é também o único Estado ocidental cuja existência está ameaçada constantemente."
Por isso quero lembrar a história da Susie, cuja vida sai fora das vidas que imaginamos.
Encontrámo-nos, por acaso, passeando no Boulevard Ben Gurion
eu na casa da Lassalle street

Eu tinha chegado nesse Agosto de 1996 e costumava ir dar uma volta com o meu cão, de manhã. Havia sempre pessoas a passear os cães, muita gente nova. Israel é um país de gente nova. Gostava de conversar com as jovens imigradas russas que varriam o jardim. Falávamos em inglês, 'arranhava' um pouco de russo, porque eu não sabia hebraico. Com o tempo iria aprendendo umas frases até arriscar -me na loucura de aprender hebraico, no 'Ulpan' da minha rua.
O meu cão Zac adorava aquele passeio - também ele se divertia. Havia cores, havia gentes, havia barulho, havia música. E nós tínhamos estado um pouco com falta dessas coisas noutro país. Por isso lhe apetecia sempre ir à rua e saltava à minha volta logo que via a sua trela encarnada.
Saíamos de casa e virávamos à esquerda, na Hayarkon -via rápida, e feia, cheia de carros e de movimento. Atravessávamos o viaduto que conduzia à Kikar Atarik, a praça onde havia a velha discoteca abandonada, uma construção surrealista octogonal, toda envidraçada! 
Do alto das escadas, ao pé do Café Panorama, víamos o mar espreguiçar-se, ao longo da Promenade.
Às vezes, tomava o primeiro café no Panorama, e falava das novidades que ia descobrindo. A dona do café, a Danit, era jovem judia vinda da Áustria, cheia de força e de entusiasmo.
Depois, eu e o Zac, descíamos a escadaria e passeávamos junto ao mar seguindo até ao Migdalot, uma torre arranha-céus, em forma de farol, que vimos construir! 
Às vezes, mais ousados, íamos até ao Café Segafredo, que ficava mais longe, na Dizzengoff st, que era a rua preferida do Zac. 
o Café Segafredo, na Dizzengoff st.
Mas, geralmente, depois da conversa com a Danit, voltávamos para trás, indo  pelo boulevard Ben Gourion.
E um belo dia, vi uma senhora de certa idade, figura pequenina,e frágil,  com um olhar de pássaro. Trazia um chapéu de palha branco, elegante e uns óculos escuros com aros brancos. Curiosa, virava a cabeça para todos os lados, enquanto ralhava com os dois cães que levava pela trela. 
Gelsomino, non fare questo! Lascia la Pizzy! Vieni qua...

Como a palavra gelsomino quer dizer “jasmim” em italiano - e eu tinha vivido muitos anos em Itália- essa melodia encantou-me e fez-me saudades de Roma e de tanta coisa. Acabara de chegar a um país novo, amigos ainda não tinha. 
Ouvir uma língua que conhecia bem foi tão bom! Ouvir falar italiano, tão longe da Itália,  parecia-me um sonho!
E a ideia de chamar 'jasmim' a um cão fez-me sorrir, era uma ideia poética, muito especial. A Susie era sem dúvida uma pessoa especial.  Dirigi-me a ela. Olhou-me primeiro desconfiada. Depois, conversámos uma, duas vezes, três vezes e, a partir daí, passámos a encontrar-nos todos os dias, com os cães dela, o Gelsomino e a Pizzy. 
O Zac já sabia e aguardava impacientemente o momento de lhe pôr a trela encarnada. Então, dava saltos e saltos, rodando sobre si mesmo, excitadíssimo!

Falei muito dela e desses encontro ao Manuel e um dia  decidimos ir a casa dela passar o serão: era mesmo ao lado da Lassalle, casa de um andar só, com certeza das primeiras que foram construídas em Telavive, perto do mar.
Assim, fomos criando uma boa amizade. Amizade que se foi aprofundando. 
Juntava-se a nós, nessas noites, o amigo Aaron, médico de origem polaca, americano e religioso, ao contrário da Susie que era ateia. E como usava sempre uma 'kippá' tricotada, chamávamos-lhe 'rabbi'. 
Conheciam-se há anos e discutiam de tudo, a toda a hora, ele religioso, ela agnóstica. 
Ela explicava-me: "estas discussões fazem bem à cabeça, aos neurónios, e não nos deixam envelhecer!"
Marc Chagall
ainda o Café Segafredo, o meu preferido

Susie Heffez era uma mulher culta que, pela agitação da vida que fora a sua, falava oito línguas! Tudo a interessava, tudo queria estudar, a ciência (estudara química), a arte, a literatura! Tudo criticava nem sempre com justiça porque era uma pessoa impulsiva e afectiva. Explodia com facilidade! 

Contei-lhe da nossa vida em África, dos amigos, das paisagens lindas, da pobreza, do verde da floresta, do obó a perder de vista, do mar límpido, das praias isoladas com sete ondas a desfazerem-se na areia. Do meu cão que ela agora conhecia e que nascera em Roma.
Ela falava-me dela e dos filhos, mas pouco se referia ao passado. Um vivia na América, casara, tinha uma menina, que ela sonhava conhecer. A filha mais velha vivera no Japão porque amava a língua e a cultura japonesa que estudara na Universidade de Telavive.  
A Susie tinha uma relação complicada com a filha, Leah. Relação feita de ódio-amor recíproco, de dor e de prepotência, de ressentimento e de culpa, por parte de ambas.
Fui entendendo os excessos do seu feitio contestador e duro. De revoltada. De lutadora. De sobrevivente. Aceitei as mudanças de humor, a generosidade e, logo, a vontade de agredir, a impaciência, como se alguma coisa a espicaçasse lá por dentro. 
Mulher complexa, 'cheia de paradoxos existenciais', dizia de si. Amava a vida e detestava-a ao mesmo tempo. O suicídio passara-lhe muitas vezes pela cabeça. E tentara-o. Um dia revelou-me porquê.
Eu sou uma pessoa calma, ouço mais do que falo, e ela entregava-se. Ouvi-lhe as queixas. Dava-lhe ternura, o mimo de que tanto precisava. Era fácil adivinhar como era carente de festas e de atenção, apesar de se mostrar por vezes indiferente ou mesmo seca.
Um dia, levantando a manga da blusa, mostrou-me o braço. Na parte interior, na pele muito branca, tinha um número tatuado, em caracteres pequenos mas bem visíveis. 
Reuven Rubin, Galileia
Passara pouco tempo desde o atentado na esplanada do Café Apropo, ao fundo da Sderot Ben Gourion, onde hoje está um monumento que o recorda. Morreu uma jovem mulher grávida e houve feridos.
frente ao Café Apropo
Ergui as sobrancelhas, numa pergunta muda, ao ver o número tatuado. Respondeu-me, simplesmente, numa voz neutra e controlada, como se falasse de uma coisa banal:
- Estive em Auschwitz. Em vários campos de trabalho até acabarmos em Auschwitz.

- Tu?
Arregalei os olhos, sustive a respiração, como se tivesse levado um murro no peito. Não consegui dizer mais nada. O que poderia dizer-lhe? Que palavras existem para interrogar, para saber mais? Com que direito? Calei-me, pois. Fiquei imóvel, deixei que falasse, e ela continuou  no mesmo tom impessoal com que começara a conversa:
- Sim, eu, os meus pais e a minha irmã mais velha.
- Como, Susie?, gaguejei.
- Sou uma judia polaca. O meu pai era médico numa pequena cidade da Polónia. Quando a Guerra começou, eu e a minha irmã estávamos no liceu,  Um dia, os alemães chegaram...
"numa pequena cidade da Polónia"
Sem querer, comecei a imaginar a cena, vista nos filmes. Sabia que no ano de 1942, partiram -só de França!-  seis comboios, de Junho a Setembro, levando 6079 judeus para Auschwitz. Fez agora 71 anos.
Leo Haas, Chegada ao campo
Félix Nussbaum (1904-Auschwitz,1944)
Acontecer à Susie? À minha amiga? A Susie, uma figura de carne e osso, ali sentada ao meu lado, em quem eu podia tocar, que era como nós, eu e a minha família? Porque, no fundo, a verdade é que referimos sempre tudo a 'nós' .
"A Susie, uma como eu, igual às pessoas que conheço, de quem sou amiga!"
Moritz Müller, Telhados de Auschwitz
Com um olhar quase provocador, a tentar um sorriso, perante o meu espanto, continuou, com amargura:
-Tinha doze anos e a minha irmã dezassete. Primeiro, num campo de trabalho. Ficámos dois anos nos campos. 
Sacudiu a cabeça:
- A ironia da sorte! Fazíamos armas para os nazis nos matarem depois!
"Como tudo era absurdo!", pensei. 
- Que horror! Como foi? 
Sabia da separaço impiedosa das famílias, a promiscuidade, os cabelos rapados, as barracas, o frio, a neve, a dor, a fome... E a morte rondando sempre.

Ela respondeu:
- Ficámos juntos por milagre. Como te disse, o meu pai era médico, era útil, como os químicos ou os engenheiros.
Pensei noutro sobrevivente, Primo Levi, cientista, que fora 'aproveitado' mas nunca se libertara do pesadelo vivido. Suicidar-se-à, anos mais tarde, estava eu nessa altura em Roma. 
- Os que tivessem “utilidade” prática eram aproveitados. A minha mãe fingiu que era enfermeira. Isso salvou-nos.
 "O principal é deixá-la falar", pensei.
 - Tu não podes imaginar, Maria!, dizia-me.
Como se adivinhasse as imagens que eu ia vendo passar na minha cabeça. 
- Ninguém pode imaginar! 
Depois, abanava a cabeça, desta vez com grande tristeza.
- Ninguém pode...
Eu queria imaginar! Queria estar perto dela! A Susie foi contando. Do primeiro campo seguiram para outro, a situação ia-se tornando cada vez mais dura, mais inumana. 
'Primavera 1941', Karl Bodek E Kurt Conrad Löw

Lembrou a chegada, o choque, as mulheres nuas à sua roda, com a cabeça rapada, os duches, o cheiro.
- A fragilidade das mulheres! Nuas, Maria, e sem defesa! Não consigo esquecer o sangue que corria pelas pernas de algumas delas, como fios finíssimos, na pele muito branca...
E, detrás do olhar dela, via essas mulheres, na nudez, e no pasmo, abraçadas aos filhos. 
libertação de Auschwitz: crianças

Lembrei-me de ter ouvido, num programa: "Elas morriam gazeadas abraçadas aos filhos pequeninos e nem depois de mortos conseguiam separar os corpos."
Pavel Fantl
- Estas imagens perseguem-me! O braço tatuado eram só uma  parte do horror...
 Repetia, agitando o corpo todo, num arrepio sem fim:
- Ninguém pode saber. Tão desprotegidas!
- Sim, ninguém pode entender...
- O que me salvou, a mim, ser pequenino sem serventia, foi a minha mãe que me escondia nas cozinhas e me levava pendurada num saco, embrulhada nos lençóis, para onde quer que fôssemos. 
De Auschwitz, seguram na marcha da morte. Mas alguns salvaram-se e foram levados para a Suécia: o governo sueco contratou e salvou muitos judeus. 
A Susie estudou, casou com um judeu egípcio, seu colega em Estocolmo, e foram viver para Milão. 
-Era feliz! A vida voltava a ter sentido. Nasceram os filhos.
- Oh! Susie!
Eu só queria ouvir que tinha sido feliz! Mas ela continuou, implacável, na lembrança:
- Um dia, o meu marido, ao levantar-se, teve um aneurisma e morreu...
- Queria tanto que tivesses sido feliz! 
A depressão em que mergulha é profunda.  Fala-me da clínica na Suíça que a irmã lhe pagara. E onde tentara matar-se.
- O pesadelo recomeçara. Para alguns a felicidade não existe. 
Anton Zora Music, em Dachau
- Passava os dias como louca. Entrei e saí de várias casas de saúde.
O tempo passou e não melhorava. Os tratamentos não davam resultado, procurava a morte.
- Deram-me litium, a droga para esquecer. Eu não esquecia.  Giravam imagens na minha cabeça vazia, misturavam-se...
Um dia, a  irmã levou-a para Telavive, cidade branca, luminosa. Pensava que, num país novo, a crescer, em movimento contínuo, pudesse encontrar o seu lugar, entre outros que como ela tinham sofrido. Não foi isso que aconteceu, pelo menos, não logo. A filha, com doze anos, passou a ser a sua enfermeira.
 Nelly Toll, desenho feito em Auschwitz

- A minha querida filha! O trabalho que lhe dei! Não me perdoo, percebes, Maria? Estraguei a adolescência dela, a minha filha nunca foi uma criança...
Lembro-me de Leah, nesses anos. Tinha um ar duro, uma amargura cheia de raiva. 
Ria, agora num sorriso culpado:
- Um dia acordei! Sentia-me bem, e quis viver, viver!
 Nelly Toll, "Primavera" (feito em Auschwitz)
- Quis apaixonar-me, ir à praia, brincar, namorar. Voltei a casar, uma, duas vezes. Inconsciente que eu era! Quis esquecer, viver a vida, loucamente! Ignorei os meus filhos, abstraindo-me de tudo que não fosse eu.
Baixinho, murmurou:
- Pobres filhos. Esqueci-me deles.

 Nelly Toll, sobrevivente, (feito em Auschwitz *)

No ano 2001 saímos de Telavive. Antes de nos separarmos, disse-me: "Os filhos dos sobreviventes têm as suas marcas, tão graves como as dos pais..." Era uma preocupação constante. Uma culpa.
A Susie ofereceu-me uma corujinha de cristal (símbolo da sabedoria) para me dar sorte.
Mais tarde, já em Marrocos, soube que ela fora viver para Paris. Escreveu-me, a contar. Vivia no Marais e gostava muito do bairro. Deixara o Gelsomino e a Pizzy com o "rabbi" Aharon. E escrevêmo-nos durante anos.
Desde o ano passado que não tenho notícias. Escrevi e voltei a escrever, sem resposta. Andava muito deprimida nos últimos tempos. "Estou cansada. Vivi muito!"
Agora, o telefone está desligado. Não quero acreditar, o coração bate-me com força: sinto que a Susie não existe. Nunca me deu o telefone da Leah que vive em Paris. Quando deixou de escrever, não soube como contactá-la. No entanto, anda por aqui. Como uma borboleta, ouço as suas asas...
Não me esqueço do seu abanar de cabeça, a dizer-me:
- Ninguém pode imaginar a fragilidade daquelas mulheres... 
noite de lua cheia (MJF)

NOTA: As pinturas sobre os 'campos' estão no Museu Yad Vashem de Jerusalém e foram realizados por judeus, quando presos nos campos. Alguns sobreviveram (poucos, como Nelly Toll), outros conseguiram mandar para fora os seus desenhos. Nelly pintava de memória o que se lembrava da vida antes de ser presa.
Em 2016, foi feita na Alemanha uma Exposição com todos estas obras, intitulada "Arte do Holocausto".
Felix Nussbaum, Esqueletos

Alguns pintores são bem conhecidos como Felix Nussbaum (preso em 1940, na Bélgica, com a mulher, morrem em Auschwitz em 1944), outros menos, como o esloveno não-judeu, Zoran Music, que sobrevive mas pinta o que viu em Dachau).  Como Nelly Toll que ainda vive.
Ou Karl Bodek e Kurt Conrad Löw que pintaram "Uma Primavera 1941". Ou Moritz Müller (morre em 1944, Auschwitz). 

E Pavel Fantl, judeu checo, que morre no campo de Auschwitz em 1945.