sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Trieste, pintura e tragédia: o judeu Arturo Nathan e outros


Nathan, Nave na Tempestade, 1930

Encontrei, em Trieste, algumas pinturas de Arturo Nathan - pintor que conhecia através de imagens da internet - quando, há uns tempos, me interessei por pintores e artistas que morreram em campos de concentração.
Vi-as, no Museu Rivoltella, um museu interessantíssimo - e muito completo-  sobre a pintura e escultura triestina. 
Museu Revoltella, tela de Alberto Rieger, 1985
Arturo Nathan, Auto-retrato de olhos fechados

Arturo Nathan, judeu, nasceu em Trieste, em 17 de Dezembro de 1891, filho de Jacob Nathan e de Alice Luzzato. (Por curiosidade, lembro a minha amiga, médica em Telavive, Lea Luzzato - que era neta do grande-Rabi de Génova!)

O pai de Arturo nascera em Bombaim e era cidadão britânico. Por isso, Arturo fez o serviço militar em Londres, enquanto súbdito de Sua Majestade.

Passados alguns tempos em Génova, onde os pais esperavam que fizesse uma carreira económica, Arturo, em 1919, decide ir para Trieste. Passara a Primeira Guerra, e decide-se pela Filosofia e pelas artes. Tem 30 anos e começa a frequentar os ambientes artístico-literários  da cidade. 
Encontra o estudioso Edoardo Weiss, quase da sua idade, e interessa-se pelo estudo da Psicanálise. 
Weiss era um psicanalista famoso e, em Trieste, vivem-se os chamados "anos da psicanálise" (título de um livro de Giorgio Voghera -que tive a sorte de conhecer, em Trieste, há muitos anos, pessoa extraordinária!).

Trieste era uma cidade onde confluíam várias culturas - as do Império Austro-húngaro- em contacto com uma comunidade hebraica, muito culta, e também eslovenos, croatas, dálmatas...  
Anton Zoran Music, pintor dálmata

A certa altura, em Trieste, vivem-se anos difíceis com a chegada do regime fascista e de Mussolini ao poder. Com as medidas de discriminação racial que se abatem sobre os judeus de Trieste. O ghetto de Trieste vai ser destruído.
Mais tarde, em 1941, dá-se a anexação de Trieste, pelo IIIº Reich. Arturo tem 50 anos.

Marcello Mascherini, "Monumento a Auschwitz", 1958

Arturo Nathan foi exilado com outros judeus, para a Província das Marcas. Anos depois, é internado no campo de Bergen Belsen e, depois, no de Biberach na der RiB - onde morreu, em 1944.
Não posso deixar de referir algumas informações sobre essa anexação nazi e das suas horríveis consequências. Em Trieste existiu, a partir desse ano, um campo de internamento e de extermínio. 

Visitei o local terrível (de que falarei com mais pormenor um dia), a Risiera de San Sabba (**). 
Na sala enorme -onde eram acumulados os prisioneiros à chegada, estão hoje reunidas as 'homenagens' que recordam esses mortos e lembram os acontecimentos. 
E vemos documentos de rara dureza e simplicidade, que revelam o mais terrível sentimento de dor e de tristeza! 



Inicialmente, o edifício servira para a secagem do arroz (risiera, de 'riso', arroz). Depois, em 1943, o local foi adaptado como caserna da Polícia alemã, e depois, ainda, transformou-se  num lager nazi.


sala de interrogatório e tortura

Local sinistro por onde passaram dezenas de milhares (entre 3000 e 5000) de prisioneiros políticos e de judeus, eslovenos, dálmatas, croatas, ‘partigiani’: para morrerem ali. 
Anton Zoran Music, pintor sobrevivente de outro campo
Alguns, apenas, de passagem, em direcção a outros campos. Havia, neste edifício, a “cela da morte” e mais outras 17 'mini-celas'- cubículos-, onde viviam seis ou mais pessoas, à espera de morrer ou de serem transferidos para outro  campo. 
As duas primeiras 'celas' serviam para os interrogatórios e para tortura. 
O lager tinha um forno crematório. Ao fim da noite, vinham os soldados SS, trazer sacos carregados de cinzas humanas que despejavam no Canal Grande. 
Em 1965, o edifício foi declarado monumento nacional. Hoje, restaurado completamente, é um museu visitado, anualmente, por milhares de italianos.
Existe, felizmente, em Itália, a preocupação de levar os alunos das escolas, de Norte a Sul do país, não só a visitar os grandes Museus do Renascimento ou do Barroco, como irem a estes lugares de história negra do passado - e ter conhecimento do que ali se passou. Vêm igualmente visitá-lo muitos estrangeiros.
Mas voltemos ao pintor que aqui me trouxe hoje, Arturo Nathan. Leio sobre ele, na 'wikipedia': 
"Foi autodidacta no início, mas a sua formação como pintor faz-se no clima romano dos anos 20 onde contacta com o substrato 'mitteleuropeu' da pintura metafísica de Giorgio De Chirico e de Alfredo Savini." São desse período os auto-retratos  e os manequins que todos pintam.
Giorgio De Chirico, "Nostalgia do Infinito"

Em 1925, está, pois, em Roma, onde conhece aquele que vai mudar a sua maneira de pintar: Giorgio De Chirico. Espaços vazios, 'interiores', estátuas, figuras da antiguidade, ruínas, cavalos imóveis. Mistério e melancolia... E nostalgia...
Giorgio De Chirico, "Interior metafísico", 1916

"O elemento "metafísico" dessa pintura será o desenvolvimento futuro do pintor triestino: atmosferas mágicas e visões". 

'Metafísica' significa 'para além da física'... E todos nos lembramos de estudar essa 'definição' nos nossos manuais de Filosofia. Mundo do não-físico, pois. Do imaterial?, do onírico?, do visionário?
Arturo Nathan, "O abandonado"

Giorgio De Chirico, "Cavalete com cavalo"
Giorgio De Chirico, "Mistério e Melancolia de uma rua"
Giorgio De Chirico, "Piazza d' Italia"

Choca-me "ver" a presciência de Nathan que, cedo, pinta temas e acontecimentos estranhos, algo de angustioso, de escuro, de isolamento,  de solidão, de irremediável desespero. Como se adivinhasse...

Arturo Nathan, "Silêncio e luz"

Nathan, "Nave encalhada", 1937

Onde me parece que Nathan antecipa acontecimentos, tragédias apenas "adivinhados", que irão realizar-se na sua cidade - e, na sua vida atormentada de perseguido e de judeu que acabou assassinado num outro "lager", está a sua "poética", o seu "mal de viver". 
Arturo Nathan, "Auto-retrato", 1924
("Le mal de vivre" - que cantava Barbara- "qu'il faut bien vivre...!/On peut le mettre en bandoulière/ou comme un bijou à la main/comme une fleure en boutonnière...ou juste à la pointe du sein"...)
Arnold Böcklin, "Ilha da Morte", 1888
Arnold Böcklin, "Ruínas e mar"


Encontro esta explicação de Renato Santoro sobre essa "poética": “a perseguição contínua de naves entre gelos, de veleiros encalhados, o insistir no naufrágio e nas ruínas abandonadas à beira mar, são indícios do seu mundo poético que se alimentou do existencialismo à maneira de Kierkegaard, do pessimismo cósmico leopardiano, de sugestões desencadeadas pelo imaginário de Böcklin (*) e de De Chirico; mas são também traços, deixados como marcas  na tela, das suas angústias, inquietações, do mal-estar quotidiano, numa palavra do seu 'disagio di vivere'."
O tal mal de viver de que falei? A nostalgia do infinito? A sede do absoluto?
Arturo Nathan, "O mar gelado"

Nathan, "Costa com ruínas", 1935

Giorgio De Chirico, "Canção de amor"

Arturo Nathan, "O exilado", 1928

Deixei as imagens que me chocaram, pela desolação, solidão, imagens de destruição dum passado antigo, feita de ruínas, de restos de estátuas, de abandono e de névoa. Como pode ele ter adivinhado?
paisagem dos arredores de Trieste (MJF)

Dizia: "Só de olhos fechados conseguimos apreender a realidade que se revela para lá do véu do visível, transformando-nos a nós próprios numa caixa de ressonância para o silêncio que envolve o mundo sensível."



Arnold Böcklin, "Auto-retrato"

(*) Arnold Böcklin - Pintor suíço, simbolista, ainda  muito influenciado pelo Romantismo (1827-1901)
(**) as fotografias da Risiera di San Sabba são minhas, dolorosamente as vi e fotografei, com uma emoção que nunca esquecerei...