terça-feira, 19 de maio de 2020

O Cristo da Paixão e o pintor Rosso Fiorentino



Rosso Fiorentino (ou o "Ruivo Florentino") ou, simplesmente, Il Rosso.
 O seu nome era Giovan Battista di Jacopo, nasceu em Florença em 1494 e morreu em Fontainebleau, em 1540, onde o chamara o rei François I, em 1427, para trabalhar no castelo de Fontainebleau.
A sua obra-prima, dizem, é a Descida da Cruz que está em Volterra, Itália. 
Mas eu não resisto a pôr aqui o lindíssimo "angelo musicante" que é o meu anjinho preferido...
  
 http://youtu.be/EMEo2PgQErE








quarta-feira, 13 de maio de 2020

A jovem morta da minha rua

eu, a Berta, a avó Branca e o meu avô

Nos anos da infância não pensava na morte, ela não existia para mim. O tempo passava-se entre a escola, as brincadeiras, correrias, leituras.
Entrara para o Liceu, os estudos interessavam-me e gostava de ouvir as novidades que vinham da rua trazidas pela Florinda ou pela Tia Zézinha, irmã da minha avó materna, quando passavam depois do jantar - ela e as irmãs. 
Lá vinha a minha avó, que se chamava Branca, a tia Leopoldina e a tia Mariquinhas. O meu avô acompanhava-as até à porta da nossa casa, ia ao café ter com os amigos ou ao cinema e vinha buscá-las por volta da meia noite.

O meu avô era um homem  bonito e elegante, com uma doçura enorme, incapaz de magoar fosse quem fosse. Era muito respeitado na nossa cidade, ao ponto de os autocarros pararem na rua para ele subir. 
Mais tarde, quando já viviam na Vila Branca na serra de São Mamede o avô ia da cidade para a serra, de autocarro à hora do almoço; a avó já tinha o almoço preparado, ele sentava-se à mesa, comia tranquilamente enquanto o autocarro ia dar a volta lá em cima.
 vista da Vila Branca
Não era preciso mais nada. Se o avô já estivesse pronto, pegava na pasta e ia apanhar o transporte - mas se ainda estivesse a comer, o condutor dizia à minha avó: "não se preocupe, D. Branca, deixe o seu marido tomar o cafezinho em paz..."  E o meu avô despedia-se e lá ia no seu passo vagaroso e com um sorriso.
  da janela da minha casa
Voltando aos serões de Inverno, com a braseira debaixo da mesa, as eram uma forma de irmos conhecendo o que se passava lá fora na cidade, as conversas satisfaziam-nos a curiosidade natural.
Por vezes falava-se da morte, ou de histórias do “outro mundo”, até de fantasmas, mas tudo pertencia um pouco à imaginação criadora e rica de quem contava e à necessidade de histórias fantásticas de quem ouvia.  E a conversa não tinha fim e íamos para a cama mais tarde.

Mas a ideia de morrer, do sofrimento que podia trazer o desaparecimento para sempre de alguém amado ou a ideia de o mundo acabar quando eu morresse - era uma coisa que não conseguia materializar. 
Um dia de manhã, a Florinda entrou pela casa dentro, agitada e muito nervosa: trazia uma notícia terrível. Sentou-se na cozinha, afogueada, a abanar-se com um lenço e pediu um copo de água.
Tinha morrido uma menina que era nossa vizinha. Vivia nas traseiras da minha casa, na rua da Mouraria, paralela à rua dos Canastreiros. Parece que estava muito doente mas nós não sabíamos.
Portalegre, João Tavares
A morte estava tão longe de mim, das minhas preocupações, da minha realidade que se ligava sobretudo à vida. 
“Sentira” a morte apenas nos romances que lia e comoviam-me até às lágrimas, pelo sofrimento que os seus autores sabiam descrever ao ponto de o tornarem “real”. No entanto, continuava longe, muito longe o que era morrer.

 "Ofélia" do pré-rafaelita Millais

E, de repente, aquela notícia desorientava-me. Não compreendia como podia morrer uma menina que morava perto da minha rua. E lembro-me dela, uma jovem bonita, com os cabelos loiros e uma pele muito branca. Imaginei-a como a Ofélia do Hamlet - de olhos fechados, linda e cheia de flores em volta do seu corpo afogado.
Jovem e flores, Laura Knight (1877-1970)

Mas ela não morrera assim, tinha sido uma doença que a levara para sempre. Vi-a, então, com um vestido branco e uma fita de cetim azul a servir de cinto, no seu jardim, entre as flores da Primavera, como um quadro da grande pintora inglesa Dame Laura Knight. Ou num campo a apanhar flores na Primavera.
Ou pronta para uma festa, a escolher uma flor para se enfeitar. E fiquei muito triste.
Pré-rafaelita, John Waterhouse

a minha casa amarela, na rua dos Canastreiros


As ruas da minha cidade eram um micro mundo comunicante. Depressa todos lá em casa sabíamos a história da menina morta. Morrera com uma leucemia, doença de que pouco se falava naqueles tempos: “doença sem cura”, disseram logo à Florinda as senhoras que estavam à porta da casa dela.
O quintal do lavrador da Mesquita, o quintal que eu via da janela da cozinha cheio de limoeiros, dava para a essa rua que descia até ao Rossio.  
Nesse bocadinho de rua, vivera aquela jovem  a sua curta vida e morrera.
O que era morrer? Nunca me tinham falado nisso, além das tais histórias contadas pela tia Zézinha – mas a ideia da morte estava tão distante de mim e era tão vaga.
Amigas, Vittorio Bollaffio

A morte referia-se sempre a pessoas já velhas, ou doentes, pessoas chegadas ao fim da vida. Mas esta menina que eu sabia tão nova, com tanta beleza – por que tinha de morrer? Por que não poderia ter tido a vida dela? Por que não tivera direito a um futuro? A viver ao sol, a ir à praia, ver o céu azul, falar às suas amigas...
Laura Knight , Verão

Andávamos pela casa silenciosas, não quisemos ligar o rádio nem o gira-discos. Uma tristeza invadiu-me, misturada de espanto.
Dias mais tarde, alguém veio deixar em nossa casa uma fotografia da morta, em que a mãe agradecia o cartãozinho de pêsames que a minha mãe mandara.
Lembro o rosto bonito, o sorriso, o cabelo loiro separado ao meio e apanhado por detrás das orelhas.
Arthur Hughes, Pré-rafaelita 
Chamava-se Sofia Amélia e nunca esqueci o dia da sua morte. O seu nome podia ser o de uma heroína  de Camilo Castelo Branco e a verdade é que a recordo com se fosse uma personagem de romance. 

sábado, 2 de maio de 2020

Em tempo de Coronavirus II


Um dia recordaremos este parêntesis nas nossas vidas “normais” que foram agitadas pela tempestade que nos caiu em cima e que a muitos “deitou abaixo.  E tantas novidades trouxe, tantas incompreensões, tantos medos.
Todas as mudanças que aconteceram de há cerca de dois meses para cá, levaram-nos a aceitar ver imagens estranhas.
Não falo só das mortes, falo de uma liberdade roubada, de um viver confinados sem saber até quando nem como tudo terminará.
Sentimo-lo necessário sem dúvida para nos proteger da pandemia mas perturbador devo dizer.
Porque tudo o que acontece é "inexplicável" (por enquanto) e perturbador - com acontecimentos estranhíssimos que só esta pandemia pode justificar. 

Ruas desertas, sem gentes e sem carros, sem cães mas com a invasão de outros animais que aparecem das florestas perto, desorientados também como os homens, perdidos na cidade que parece abandonada, à procura de comida. 
Bandos de veados, bambis, javalis, macacos invadem as cidades - do Japão, da Ásia mas igualmente em lugares mais perto de nós. 

Devemos achar normal? Não dar por nada como se nada existisse de estrambótico lá fora e cá dentro? A falarmos uns com os outros de longe?Não podemos.
Talvez seja mais angustiante o deixar passar fingindo que não se dá por nada, que as medidas estão certas, que é só aguardar uns tempos.
A sentir sempre uma bola no estômago a fazer-nos pensar: quando é que isto acaba?
Quando? Meses - quantos? Ou será que temos de pensar num ano ou mesmo anos?
Tive a ingenuidade de pensar quando veio a “ordem” de confinamento: “bem, vou aproveitar esta pausa de vida para ler um pouco mais, arrumar as estantes com os livros deitados uns em cima dos outros, alguns a precisarem de cola e de um pouco de amor”
E até sonhei fazer mais coisas: “arrumar, na casa, o que está há anos por arrumar, as gavetas principalmente, mas também armários, e deitar fora todas aquelas coisas inúteis de que nunca mais me servirei, para libertar espaços..."
Tanta estupidez e ingenuidade minhas! Ainda arranjei uma vez as gavetas do meu quarto, mas muito pouco duraram arrumadas, com o frenesim em que vivo hoje. Nada melhorou em casa e as costas é que ficaram mal. 
Faço tudo hoje em grande agitação, quase correndo: faço isto, aquilo, tudo inútil para fingir que faço,  a adiar o momento em que finalmente me vou poder sentar confortavelmente a ler um livro.

Mas logo me distraio a "falar" com os meus amigos "bichos humanos". Têm sempre opiniões e queixam-se muito de solidão e de aborrecimento. Respeitam as distâncias, fazem ginástica, conversam a distância, mas aborrecem-se! O mais mimoso é o meu Ouricinho Dan que se queixa de solidão e não aceita desculpas!
Vou escolher um livro, olho em volta e vejo as pilhas de coisas: máquinas de roupa para lavar, roupa para estender, roupa para passar, num ritmo frenético. 
E lá vou outra vez - agora a mil à hora, buscar a tábua de passar, o ferro e, em vez de me sentar no sofá com o tal livro, fico ali em pé a passar a ferro.
Penso com muitas saudades na Svitlana, minha ajudante nestas coisas todas, que me sabe aliviar com um sorriso ou uma gargalhada e nunca se queixa deste trabalho que tanto custa. 

Confinada ela, confinada eu, confinados todos, foi um drama para organizar a nossa vida, ao nível mais essencial. De facto, o essencial passou a ser “comer”, variar o que cozinho, lembrar-me de pôr vegetais - e comer fruta – e já agora também comer umas leguminosas – as tais proteínas vegetais ou lá como lhes chamam.
Ao fim de pouco tempo percebi que não há variação possível e que já não me apetecia comer nem carne, nem peixe (poucas vezes tentei), só me sabem ainda bem os ovos cozidos,
Acabei por me fixar num jantar: uma taça de leite quente com muesli, corn flakes e frutas secas. Acabaram as idas à pastelaria Bijou em Cascais.
Não posso esquecer a alternativa que é umas fatias de pão alentejano com queijo (como boa alentejana que sou).
Tenho de inventar coisas para me adoçarem a quarentena. E escolho outros "petiscos". E, então, recordo a velha amiga Adélia, irmã da minha querida Florinda - a da infância e a da minha casa de São João, já com ela a tratar dos meus filhos. 
A Florinda que não quis ir connosco para Roma, preferiu ficar em Alegrete, na sua terra, porque não podia deixar cá as irmãs e os sobrinhos. E a sobrinha preferida, a Maria Helena, que viveu e estudou também em minha casa alguns anos.
Pois a "minha" Adélia explicava-me que nada melhor havia no mundo do que uma chávena de café acompanhada com pão com queijo. 
Claro que não tem nada que ver com o capuccino no Caffè degli Specchi, com um "strudel".
De preferência, escolho pão alentejano e um queijinho alentejano que por aqui aparece, de Nisa ou Tolosa. Aqui por São João e arredores, vivem muitos alentejanos o que é bom!
Estou a ficar como a Adélia. Comer? Ah, sim, mas só se for uma fatia de pão com queijo e um café!
Não me parece que a situação volte alguma vez a ser o que foi. Talvez acabem até os queijinhos alentejanos.
 Hoje, quando a noite chegar, vou tentar seguir um conselho da Gui: jogar um jogo de sociedade: o "Backgamon". 

Tenho um lindo estojo com entalhes de nácar que creio trouxe do Cairo, mas sei que a Gui me trouxe outro de Baku. O problema maior vai ser arranjar um parceiro: o Manuel não gosta de se divertir com jogos. 
O mais certo é voltarmos ao filme da Netflix, uma boa série inglesa chamada "VEXED". Com humor (inglês), acção, bons actores, boas histórias!


Como vai ser?, insisto. Não sei o que responder, recuso-me a pensar. Voltaremos às festas, aos natais de antes? Sei que vai dar uma volta completa aos nossos hábitos, aos encontros (distantes), aos contactos, às amizades.
Se ao menos a volta fosse uma “volta por cima”! E finalmente pudesse ler os meus livro à vontade, ver o que se passa na rua, ver um sol a brilhar...