quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O MEU PAI MORREU HÁ 30 ANOS




Li, numa biografia de Van Gogh, a descrição do seu enterro. O meu pai adorava Van Gogh. O enterro dele foi muito semelhante ao do pintor.

Van Gogh, Searas e corvos

“O enterro realizou-se por volta do meio-dia. Um calor tórrido. O cemitério estava rodeado de searas.”

Nenhum outro texto me deu a sensação de reviver um momento como este: tocou-me profundamente porque foi como se revisitasse,  nestas poucas palavras, o dia do enterro do meu pai.
O mesmo sol ardente do meio-dia, num Agosto quente, o calor tórrido sobre a cabeça das pessoas que, compungidos, alguns chorosos, viam a última “imagem” de um Homem, de um Amigo.
Van Gogh

O cemitério de Portalegre, os ciprestes altos, o silêncio fundo que envolvia agora tudo - depois do ruído de passos que se ouviram pelo caminho - desde a Capela do Hospital até ao portão de ferro pintado de verde do cemitério. 
Em redor, o nosso olhar abrangia campos e campos até ao fim da vista. 
Etienne Martin, Searas  e papoilas


Eram as mesmas searas a arder dos quadros de Van Gogh, douradas e salpicadas de uma ou outra papoila. 
O horizonte longínquo envolto numa bruma leve, quase um fumozinho que se escapasse de uma chaminé, ou nuvem criada pela humidade da manhã e pela evaporação – quem sabe? - era uma pintura de Etienne Martin.
Tudo se fechara ali, na minha relação com o meu pai enquanto vivo. Tudo começara muito tempo antes, no momento em que a parteira me embrulhara na toalha e me levara ao meu pai...
o meu pai, por Sartori, veneziano, amigo de Aldo Zari

“Pôs-me nas mãos suaves do meu pai. Ele olhou-a, numa interrogação muda. Julgara que eu era um rapaz. Ela disse-lhe, abanando docemente a cabeça:
- Não, Sr. Doutor, é mais uma menina.
Eu era muito pequenina e tinha uns olhos de chinesinha, meio fechados, uns cabelos negros e lisos, espetados no ar, com a minha franja de farripas. O meu pai segurou-me com as suas mãos grandes, e olhou-me. Teria sido uma desilusão?
Devo tê-lo olhado também e "sei" que me senti segura naquelas mãos - e protegida pelo olhar do meu pai. 
Sei que essa sensação de segurança a guardei pela vida fora. Até ao fim.”
Passaram tantos e tantos anos. Sombras lentas passaram, vidas foram cortadas. As searas verdejaram e douraram. As folhas de Outono amareleceram e caíram -e foram pelo ar, varridas pelo vento forte. "Sombras, folhas secas caídas e arrastadas pelo vento" é a linguagem dos Salmos quando referem a efemeridade da vida.

Falo-lhe, agora, com saudade:
Mas sabes? as rosinhas de toucar que cresciam, livres, na azinhaga da quinta, de que gostavas tanto, voltam todos os anos na Primavera. No mesmo lugar onde as fui colher para ti, nessa manhã de Agosto. 
E voltam as madressilvas perfumadas aos bosques, os lírios, as joaninhas, os grilos. E voltam os pássaros de que nos ensinavas os nomes..."
um passarinho de Van Gogh
Sim, o resto da nossa "relação" ia ser, para mim, a memória de pequenos átimos vividos, de um sorriso, um olhar, um entendimento sem palavras mas com ternura  - e está  fechada no coração.
flores de Maio, as 'boninas' dos campos
Quando chega esse mês, encho-me de angústia invencível. O meu pai morreu num dia 17 de Agosto.
Para sempre separados? Nunca mais ? E os anjos de Botticelli?

Anjo, de Botticelli
Never more, never more” - grasnava o corvo de E. A. Pöe, a frase que escreveste na dedicatória no último livro que me ofereceste,  em Roma.
"Never more"? Não, pai! Para sempre. Como a beleza das coisas. As árvores floridas de lilases. As searas ou os girassóis ardentes de Van Gogh.



domingo, 12 de agosto de 2018

As papelarias das minhas terras ...


canetas e cadernos (foto de M.J.F.)
Estava eu, na Praceta de São João, sentada num dos bancos de madeira, e pus-me a pensar.
árvores e céu azul (foto de M.J.F.)
A praceta, cheia de árvores, que em tempos foi soturna e sombria, com as pedrinhas soltas e os buracos onde ficava a chuva e as folhas de Outono a apodrecerem, é hoje um lugar luminoso.
Dantes, tinha casas em volta, lojas e, no centro, um quadrado, cercado por um muro baixinho com algumas flores sempre secas.
Havia três ou quatro passagens abertas no muro para as pessoas atravessarem ou para a cruzarem em diagonal para apanhar a rua da estação. À roda, giravam os carros que paravam e buzinavam para deixar alguém em frente de uma loja, ou arrumado em qualquer canto por umas horas.
Há uns anos, a praça foi completamente reestruturada por um jovem arquitecto que, por acaso, é um dos amigos de infância do meu filho. Dois gémeos, os chamados por nós “Zés” porque um era o Manel Zé e o outro o Zé Manel. Um é comandante da TAP e o outro, Manuel José Ayres, é o arquitecto.
A praceta ficou com mais luz, sem o muro que eu detestava, um chão plano onde não se tropeça nas pedrinhas da calçada portuguesa, onde as crianças podem correr ou jogar à bola e onde há mesmo um pequeno parque infantil cheio de cores. 
Praça de São João foto de M.J.F.)

Os carros não circulam, nem buzinam, há um pequeno parque para arrumar quatro ou cinco carros e mais nada.
Tem uma escadaria aberta para a estação e é fácil apanhar o comboio sem ir dar uma volta e, quando se sai dele, está a praça logo em frente. Há mesas de madeira com cadeiras onde os alunos do liceu podem estudar (?), ler, conversar, namorar – o que é positivo. 
Uma das mesas tem mesmo um tabuleiro de xadrez e damas desenhado, e muitos senhores mais crescidos, reformados, ficam ali a jogar e a conversar com os amigos, de boné enterrado na cabeça.
Outros ficam nos bancos, pensativos, a olhar para trás, para o passado, enquanto vêem passar diante deles a miudagem do liceu. O que pensam não sei. Há uma certa nostalgia no olhar deles. Como se nem eles nem o banco onde se sentam exista de verdade.
o banco e a memória (foto de M.J.F.)
Mas eu queria falar era de papelarias! De facto, na praceta, há duas papelarias de que me lembro desde que para aqui viemos viver – quando fui colocada no Liceu de São João.
Papelaria Bonanza (foto de M.J.F.)

Papelaria Ricco (foto de M.J.F.)

Papelaria Bonanza, (foto de M.J.F.)

São a Papelaria Bonanza e a Papelaria Ricco que continuam a servir toda a gente. Mudou a gerência, mas tudo permanece idêntico, se bem que com nova decoração.

Papelaria Ricco (foto de M.J.F.)

Papelaria Ricco e livros novos e usados (M.J.F.)

Papelaria Ricco  (M.J.F.)

Adorei sempre o ambiente e o cheiro das papelarias desde que era miúda e ia à Papelaria Viriato, entre o Rossio e a Igreja de São Lourenço, em Portalegre, comprar as coisas de que mais gostava: livros, lápis de cor e aguarelas, cadernos, apara-lápis e borrachas de todas as cores. Algumas borrachas até tinham cheiro de frutas!
Portalegre (foto M.J.F.)


Portalegre (foto M.J.F.)
Subindo pela Rua Direita, havia mais papelarias, claro. Havia, perto da casa dos meus avós – que moravam na Rua da Sé, paralela à Rua Direita, a Livraria-Papelaria do Sr. Tiago Morgado, dirigida pelo filho, também Tiago, que sempre conhecemos como Sr. Tiaguinho. 
Quantos livros comprei nessas papelarias. Havia a magnífica colecção Romano Torres que publicava traduções (consideradas “versões”) de muito bons de romances ingleses e outros.
Portalegre (foto M.J.F.)

Comprei – e sofri - com David Copperfield e Tempos Difíceis o Charles Dickens, ou “Sem Família” seguido de “Em família”, de Hector Mallot.
Li, encantada, as aventuras de “Ivanhoe”, de Sir Walter Scott, “A Mulher de Branco” ou “O Diamante da Lua”, Wilkie Collins que íamos comprar na Papelaria do Senhor Tiago.


Continuando a subir a rua, do lado direito, havia a Papelaria Margalho onde me recordo de ver, além dos artigos de papelaria, livros para crianças, brinquedos e todos os jornalinhos da B.D. dessa época: “Diabrete”, “O Cavaleiro Andante”, e as histórias do Tintin.
Havia, nesses anos, uma revista que eu preferia acima de todas: era “O Mundo de Aventuras”, mas esse ia-o buscar à Tipografia Casaca, do meu querido avô, que o guardava para nós.
os meus avós, na Serra com o meu filho Diogo e o Zé Manel e o João, meus sobrinhos
Por isso, à saída do Liceu, na 5ª feira, lá estávamos - a minha irmã mais velha e eu – a buscá-lo. Um beijo ao avô, sentado na sua secretária, ao fundo da tipografia, a corrigir as eternas provas d’ A Rabeca, o semanário republicano mais importante da nossa terra. Quando chegávamos a casa, era separado em páginas soltas e dividido por nós e pela nossa mãe que gostava de o ler como nós!
Café Alentejano, anos 50
Café Alentejano, hoje

Havia também, antes de chegar ao Café Alentejano, a Papelaria do Sr. Silvino, onde pouco parávamos porque quando chegávamos lá acima já tínhamos comprado tudo.
Portalegre (foto M.J.F.)
Finalmente, para lá do histórico - e ainda “vivo”- Café Alentejano, perto da Porta de Alegrete, ficava  a Papelaria de Maximiliano Rato que, para além de tudo o que havia nas outras lojas, tinha as “sonhadas” bonecas -as mais belas da cidade - e os melhores brinquedos.
Era passagem obrigatória, antes do Natal para podermos fixar bem o que iríamos pedir ao Pai Natal e ficar à espera da surpresa que vinha pela chaminé e ficava junto do fogão da cozinha.
Portalegre (foto M.J.F.)
Surpresa, sim, porque a verdade é que pensávamos: “Como pode ele lembrar-se das prendas todas”? Ou: “Será que este ano vai fazer confusão?” A nossa surpresa era ver que ele acertava em quase tudo o que lhe pedíramos na “cartinha” (obrigatória) que escrevíamos para a “Estrada do Céu”.
Natal 
Sempre a mesma “ilusão” desses tempos quando entro numa Papelaria: o que vou descobrir de especial?
A verdade é que hoje encontrei uma novidade: uma ‘Bic’ a escrever “roxo vivo” e, outra, “azul turquesa”.
E, para grande alegria encontrei ainda uma esferográfica Parker que me atraiu pela sua cor vermelha, pois nunca vira esse tipo de caneta  em encarnado - e que me custou 15 euros.
bela foto do amigo J.F. hoje desaparecido

Saí, contente. As papelarias a mim nunca me desiludem…E, na memória, voltei à minha cidade natal, Portalegre! E sonhei com mais livros!


sábado, 4 de agosto de 2018

Férias, livros e escritores...


Falar de escritores é falar de livros e vice-versa, uns levam inevitavelmente aos outros. Igualmente, ao que escrevem nos livros e ao que pensam sobre os livros que escrevem. 
E, já agora, aos conselhos que gostaríamos de dar sobre leituras.
Virginia Woolf pintada pela irmã, Vanessa Bell

No entanto, hesito, penso na frase de Virginia Woolf e…não aconselho nada desta vez:
O único conselho que uma pessoa pode dar a outra a propósito da leitura é é de não pedir conselho nenhum, seguir sim o seu próprio instinto, usar a razão, chegar às suas próprias conclusões”, escrevia Virginia Woolf. (The art of fiction).
(nascida em 1882, suicida-se em 1941)

                                                    ***
Vou “reflectir” com os que lêem o meu blog. Sempre as mesmas perguntas: Para que se escreve? Para quem? Para que servem os livros?

Pessoalmente, penso que se escreve para falar com alguém. Comunicar. Já que mais não seja, para falarmos connosco e pormos em letra aquilo que sentimos necessidade de "deitar cá para fora". 

A pensar que um dia alguém lerá o que escrevemos. Queremos dar um testemunho do que se viveu, para que outros possam ler e – quem sabe? - comparar as nossas com as próprias experiências vividas.

Para que se lêem livros? Esta resposta é mais fácil: porque necessitamos deles como de água quando se tem sede!

José Régio falava da finalidade da Literatura, no nº 9 da revista “presença” (1928):
A finalidade da arte é apenas produzir-nos uma emoção tão particular, tão misteriosa, e talvez tão complexa: a emoção estética”. (*)
Orquídea, de Barbara Coleman DuBois

Literatura é pura e simplesmente um meio de expressão artística – como a pintura, a escultura, o cinema, a dança, a arquitectura, a música.” Provocar no outro uma emoção especial... e, assim, estabelece-se a relação privilegiada autor-leitor.
livros de Régio, em promoção, na Livraria Galileo

“Essa emoção estética – experimentamo-la quando o artista consegue despertar o nosso próprio instinto de recriação do mundo, encaminhando-o no sentido do seu. (…) A verdade é que na obra de arte o mundo existe através da individualidade do artista.”
na Livraria Galileo

Falar de nós, é falar do que “está à nossa volta”, falar da aparente banalidade dos dias das pessoas vulgares e que no entanto ‘enchem’ os seus dias. E que têm coisas importantes 'para eles' que querem contar. O escritor não tem de encontrar assuntos sublimes! 
Qualquer assunto pode ser o tema de algo que se escreva desde que com verdade, originalidade e necessidade de comunicar.
Dizia Amos Oz, que nasceu em 4 de Maio de 1939: “O mundo escrito…anda sempre à volta da mão que o escreve, onde quer que aconteça o que ele escrever: onde tu estiveres, é o centro do mundo.” (**)

Assim, eis-me a falar outra vez do livro dum escritor de que gosto e descobriu muito cedo a paixão de ler. E reencontro uma voz, uma companhia. Quando fala do amor pelos livros desde rapazinho e das conversas que tinha com a mãe sobre eles e como ela o empurrou para os amar e procurar sempre.
“Um dia (…) a minha mãe disse-me que, com o passar dos tempo, os livros podiam mudar talvez tanto como mudam os seres humanos. Com a diferença: os homens deixam-te mais cedo ou mais tarde, basta que não encontrem já em ti algum proveito, ou prazer, ou interesse, ou sentimento. Os livros nunca te abandonam. Podes esquecê-los muitas vezes, ou pô-los de parte durante longos anos, ou mesmo para sempre. (…) Mesmo que os abandones, e os tenhas atraiçoado, nunca to farão sentir: vão esperar, silenciosamente, humildemente, na prateleira. 

Dezenas de anos mesmo. Sem uma queixa. Até ao momento em que, de repente, na noite, sentirás um desejo enorme de um livro – o livro que puseste de parte ou que praticamente se apagou da tua memória muitos anos antes. (…) E ele não te desiludirá, descerá do seu poleiro para te fazer companhia quando precisares. Sem reserva, sem procurar pretextos, sem se perguntar se vale a pena, se tu o mereces. Responderá imediatamente ao teu apelo. Nunca te abandonará.”
Penso muitas vezes nesta particularidade dos livros: a companhia e a fidelidade, porque permanecem fiéis ao que vimos neles, não mudam - nós é que podemos mudar e ter outra "leitura", mas a companhia verdadeira permanece.
Amos Oz refere um escritor americano que o influenciou na escolha dos temas simples da vida, coisas do passado, da família, do quotidiano. Do frágil e desinteressante dia a dia que, de repente, nos aparece com uma luz especial. Dos sítios onde nada parece acontecer e onde tudo aconteceu.
Esse escritor é Sherwood Anderson esse escritor e o livro de ‘short stories’ – intitulado ‘Winesburg, Ohio’ que lê, em 1959, traduzido.
Sherwood Anderson
E pensa: Winesburg, Ohio, ou Telavive, ou seja lá onde for - "onde o escritor estiver, o centro do mundo é ele e o que ele escreve".
A “substância” do romance ou novela é exactamente o que vemos e nos impressiona e que sentimos que só nós o poderemos dizer de uma certa maneira diferente da dos outros.
Reabro o livro de Oz que deixei abandonado na estante, há muitos meses. E reencontro uma voz, uma companhia.

"Nada me pertence –
Só a paz interior
E a frescura do ar”,

escreveu o poeta japonês, Kobayashi Issa, e sinto que os livros fazem parte daquele pouco que nos pertence na vida de bom: a paz interior e a frescura do ar.
Outro escritor que fala de livros - e do que escrever significou para ele -é Giorgio Voghera, judeu triestino, dos chamados “anos da Psicanáliese” (***). 
O livro onde fala sobretudo dos outros e muito pouco de si, é "Gli anni di Trieste".
Trieste hoje (MJF)

Um dia, com uma certa idade, decide começar a escrever. E justifica-se, simplesmente, tal como escreve. 

Tive sempre a impressão de que a importância de uma obra narrativa, fosse ela qual fosse, era a capacidade de ‘testemunhar’ que oferece nos casos humanos, nas ‘tranches de vie’, que expõe”. 
Tinha coisas a contar e queria contribuir com o seu testemunho: as pessoas que conheceu, o que viveu, o que existiu “à sua roda”, o que o marcou.
Italo Svevo

Porque o olhar de cada um traz um aspecto novo da realidade existente – que nunca será igual ao de outro : sejam pessoas, lugares ou objectos.
Dizia-o José Régio: cada um tem olhar seu e as suas coisas para contar, por pouco importantes que pareçam. Dizer de uma certa maneira diferente, referia Régio. Desde que tenha o seu “tom”, pessoal e único. Desde que seja original.
                                      Giacomo Leopardi (1798-1837)

Voghera cita Leopardi: “De nada poderemos falar com tanta eficácia e verdade como daquilo que nos diz respeito pessoalmente. (…) não nos devem interessar somente os nossos pequenos problemas materiais mas, também, as paixões e os sofrimentos humanos e universais. Mesmo que seja através dos efeitos que eles tenham sobre a ‘nossa’ psique..”

E continua: “Do que não podemos duvidar é do sofrimento humano. (E também do dos animais, segundo o que eu penso.” – acrescenta Voghera.
 “Para mim, é importante ter qualquer coisa para dizer; não a perfeição formal, nem a página bonita, ou o pensamento poético. Todo o meu esforço consiste em dizer o que me ‘toca’ e ser o mais claro possível.” 

A clareza é de facto uma das qualidades de Voghera. Outra é a generosidade com que escreve dos outros, dos que foram da sua geração, dos amigos, dos mais velhos - dos quais quer deixar uma lembrança viva. Falar de si pouco lhe importa e só aparece quando estritamente necessária a sua aparição.

Gostaria de referir também, brevemente, o que escreveu Doris Lessing (****), em 1963.
Como escritora, interessam-me sobretudo os romances e os contos, apesar de acreditar que as artes – ou os diversos “géneros”- exerçam influência contínua umas sobre as outras, e o que está numa delas, em determinada época, estará provavelmente também nas outras.”
A mim, interessa-me especialmente o que ela escreve, logo a seguir:

Segundo creio, o ponto mais alto alcançado pela Literatura foi o romance do século XIX: a obra de Tolstoi e Dostoievski, Balzac, Turgueniev e Tchekhov – ou seja: a obra dos grandes “realistas”, e entendo realismo como a arte que emana, com vigor e naturalidade, de um ponto de vista intensamente defendido (…) são a forma mais elevada da literatura em prosa.”

E nota: “Os grandes homens desse século não tinham em comum nem a religião, nem a política, nem os princípios estéticos. Mas o que tinham em comum era um clima de discernimento estético; compartilhavam certos valores; eram humanistas. 
(…) Continuo sempre a ler Tolstoi, Sthendal, Balzac (…), o mesmo faz muita gente que conheço, sejam de esquerda ou de direita, comprometidos ou não, religiosos ou anti-religiosos mas que têm algo em comum: lêem livros – como me parece que devem ser lidos: para obterem inspiração alargar a nossa perspectiva de vida. 

(…) Voltar a ler Tolstoi ou Stendhal, porquê? O que procuraria neles era o calor, a compaixão, a humanidade, o amor pelas pessoas que ilumina a literatura do século XIX e que converte todos esses romances numa declaração de fé no homem.”
Tchekhov, por Isaac Levitan (1886)

Outra opinião sobre o que são os livros, ou qual a sua “substância” é a de Virginia Woolf :

"A 'substância própria do romance' não existe. Tudo é a substância própria do romance, todo o sentimento, todo o pensamento; toda a qualidade do intelecto ou da alma nos serve; nenhuma percepção se deve afastar."
Quem escreve, deve escolher dentro de si, dentro da sua experiência o que o “tocou”, o que “viu”, o que viveu intensamente, o que quer comunicar ao outro ser humano… Tudo pode, pois, ser essa substância!
E recordo Isaac Bashevis Singer que dizia isto mais ou menos: “cada um tem as suas histórias “próprias” para contar porque cada um tem a sua maneira própria de “ver” e de “falar delas”.
Todos os escritores têm (ou não) a particularidade de tratar os “mesmos assuntos”, de um modo especial, o  seu. E Singer soube escrever sobre todos os assuntos, com ternura e generosidade e com tanto pessimismo por vezes...

Bashevis Singer e os pombos seus amigos

Serão “artistas” completos se tiverem a sua mundividência própria, a sua voz, o seu tom pessoal. O que não está longe do que diz Wolf:
Todos os métodos (e assuntos) são bons, cada método serve desde que expresse o que queremos expressar – se formos escritores - ou que nos aproxime das intenções do escritor, se formos leitores.”

E mais: “O problema que se põe hoje aos escritores (1919), e que se pôs de certeza aos escritores do passado, é inventar os meios de exprimir livremente o que se quer exprimir. Devem ter a coragem de dizer que aquilo que lhes interessa escrever já não é “isto”, mas sim “aquilo”; e que será apenas a partir “daquilo” que irão construir a sua obra!” (p.18)

Como sombras, passamos e, connosco, tudo passa, mas, através dos anos, o escritor, o artista procura a sua razão de escrever - e o tempo pára por um momento, para o leitor...
sombras de Hogan

 A vida humana não dura se não um segundo. (…) É com tudo isso, é nessa atmosfera de dúvida e de conflito que os romancistas hoje devem criar.” (*****)
a maravilha que é a Livraria Galileo
em Cascais...

O que posso  dizer mais? Creio haver aqui muito que nos fará pensar sobre a importância livros...
***

(*) Literatura livresca e literatura viva”, in nº 9 da “presença”, de 9 de Fevereiro de 1928. Artigo reeditado, em Crítica e Ensaio I (refiro-me à colecção do Círculo dos Leitores)
(**) Amos Oz, "Une histoire d'amour et de ténèbres", Folio, Gallimard, 2002
(***)  “Gli anni di Trieste”, pg.208
(****) “Depoimentos dos Angry Men”, Perspectivas, Editorial Presença, 1963
(*****) Virginia Woolf “L’ art du roman,” A porta estreita da Arte, artigo de 1922, (pg. 67)