segunda-feira, 9 de abril de 2018

ACENDEU-SE UMA ESTRELA NO CÉU DO JAPÃO! OU FOI UM PIRILAMPO?





Ao abrir ontem o "Monde" (que comprara ontem) na página de Cultura leio do desaparecimento de Isao Takahata. Ouvira falar vagamente dele. Sabia da "Heidi",  banda desenhada em filme,  tinha sido famoso, e das histórias de "Marco".
Isao nasceu no dia 26 de Outubro de 1935 em Mie, província de Tóquio e morreu no passado dia 5 de Abril, num Hospital de Tóquio. Com um cancro nos pulmões.
Por que me lembrei de falar nele? É simples: foi um realizador de filmes de animação (os velhos “bonecos animados” )em que a poesia e a beleza e a ética prevaleciam sempre sobre a violência e a indiferença de tantos desses filmes para crianças e jovens!

O Japão é um país que adoraria conhecer. Nos seus paradoxos – que os tem e muitos. Basta lembrar a delicadeza dos gestos e das danças, a elegância das figuras femininas e do seu teatro. O ritual do chá e do Ikebana que em mais nenhuma terra existe deste modo.

A maravilha que são, no início, da Primavera os campos de pomares floridos: os cerejais, as ameixieiras brancas em flor como um mar de espuma. 
Primavera no Japão (foto da amiga Ryoko Kasai)

Esse amor à beleza e à contemplação leva-os  ao hábito que têm de viajar com os amigos, andando quilómetros só para irem vê-las.   
Ou as famílias que se reúnem com os seus cestos de pique-nique, para irem de passeio contemplar essas maravilhas da natureza, todos os anos. 
Como o mesmo acontece, no Outono, irem visitar, de comboio, as paisagens infindáveis de áceres vermelhos.
Massacre de chineses, Guerra de Nanquim
Povo em que existe um paradoxo entre delicadeza e violência simultaneamente. 
A contradição que é a violência como que esses japoneses delicados trataram os chineses, como torturaram, violaram.
O sentido da honra e do dever levaram milhares de jovens japoneses a aceitarem morrer como kamikazes, durante a Grande Guerra. 

Em casa, deixavam as cartas mais belas e mais saudosas evitando referir tudo o que poderia fazer sofre a mãe, a jovem namorada, o pai. Num cuidado enorme de não magoar, de ser delicado e suave...

Não foram os únicos e bem o sabemos: foi um rol infindável de barbáries até hoje, de Guerras que não poupam nada, nem ninguém: velhos, mulheres e crianças tudo é passado à espada. 
Que  voltaram a ser os escravos, as vítimas escolhidas para escudos humanos contra os ataques de mísseis, massacres brutais e são eles os primeiros a serem bombardeados e gaseados.
Tal como são os primeiros a morrerem, quando vão, perdidos, pelas montanhas geladas dos Alpes, ou nos desertos, ou afogados nos oceanos - à procura do El Dorado da Europa.

Por isso me deu ânimo “conhecer” hoje a obra de um homem bom e sábio. Que ama a beleza das figurinhas e as retrata com a suavidade e a poesia que nos impressionam.
Isao Takahata estudou, na famosa Universidade de Tóquio, Literatura Francesa. Interessou-se sempre pela Educação e tinha, com certeza um desejo de agir, para mudar as coisas para melhor, por amor à pedagogia, pelo pacifismo que sempre defendeu. 
Amava a Poesia e a simplicidade, por isso se apaixonou pela poesia do poeta francês Jacques Prévert. E apreciou o cinema de Truffaut. E amou a Literatura Francesa. Apreciou os seus desenhadores. Daí a beleza poética das suas criações no Cinema.

Em 1959, criou o estúdio de animação Toei, com outro cineasta, Hayao Miyazaki, mais novo uns anos do que ele. Mais tarde, em 1985, criaumo novo estúdio, o famoso Estúdio Ghibli – com Miyazaki. 
"Totoro, entregas ao domicílio", 1985

Conhecido nessa altura, sobretudo pelas séries “Heidi” e “Marco”, na sequência destas muitas outras histórias maravilhosas surgirão.

Em 2015, dois dos seus filmes (de ambos) foram nomeados para os Óscares : “O conto da Princesa Kaguya” e “O túmulo dos pirilampos”.


Hayao Miyazaki, 2015

Muito justamente, o título do artigo necrológico do jornal Le Monde de ontem sobre ele, era: “Isao foi ter com os seus pirilampos.”
Perdidos, no "Túmulo dos pirilampos"

Confesso que nada vi ainda do realizador japonês, mas vou interessar-me em encontrar e ver. Talvez o Monogatari da Princesa Kaguya.
Num mundo em que se vive tão violentamente e em que - às crianças-  é  apresentada uma realidade de horrores e de guerras -não só em filmes como nos telejornais - é bom saber que existem escritores, realizadores, enfim 'criadores de mundos humanos' que são como um “antídoto” para tanta maldade.
foto de Ryoko Kasai

Espero que os seus pirilampos fiquem contentes de o terem ao pé deles! Temos que acreditar nalguma coisa, não é verdade?

Tenho andado afastada do meu blog. O que se passa no mundo tem-me desanimado. Tira-me a vontade de falar : fico asténica e desiludida, sem vontade de me voltar a “iludir”. 
Penso muitas vezes: será apenas uma “ilusão” acreditar no que é bom?Fingir que sim – para continuarmos a querer ver um mundo melhor possível? É bom saber que há os que ainda acreditam que vale a pena!
Diz Isao numa entrevista realizada pelo jornal “Libération”, em 2014: “Tive uma vida vulgar e mesmo banal desde a infância passada no nordeste do Japão, numa cidade de importância média”.
"O túmulo dos pirilampos”, 2015

E o entrevistador acrescenta: “Sim, ‘uma vida banal’ na qual, no entanto, escapa à morte durante um bombardeamento americano."
Isao Takahata tinha então 9 anos. 

Vi-me perdido num inferno de chamas, com a minha irmã mais velha. Estávamos completamente isolados, errámos sem família durante muito tempo e fomos salvos providencialmente.” (idem)

Um fim feliz que não vai acontecer no filme em que fala desse caso verdadeiro, continua entrevistador. 

Refere-se ao último filme, “O túmulo pirilampos” (1988), considerado a sua obra-prima e  "no qual evoca directamente esse acontecimento real e onde conta o destino trágico de duas crianças entregues a si próprias depois de um bombardeamento.”

E insisto: vale a pena insistir, bater com a cabeça nas paredes e os dedos nas teclas do computador? Indignar-me?
Para quê? Quem nos ouve?
Depois, volto aos meus mestres da esperança. André Gide dizia: “Uma palavra pode alterar muitas coisas na vida de uma pessoa”. Para o bem e para o mal. “Nenhum gesto é inútil”.
Stephane Hessel escrevia: “Quando deixar de me indignar quer dizer que estou velho.”
E o meu Rabbi Nahman? Não insiste sempre ele, o bom Rabbi, que “um gesto pode abrir os corações mais duros”? 
Que não devemos desesperar: “porque é proibido desesperar!” 
Que devemos fazer tudo para que a alegria volte? 
“Cantar e dançar são um grande bem…” mesmo que nos sintamos ridículos. Porque tais gestos fazem bem. A nós e aos outros!

Portanto, aqui volto – com uma história que vale a pena e que quero dar a conhecer! Histórias como a dos pirilampos que se iluminam no céu, às vezes, ao lado das estrelas...
pirilampo



terça-feira, 27 de março de 2018

Morte de um escritor policial português...


Morreu Dick Haskins – aliás, o português António Andrade Albuquerque que escrevia romances policiais com esse pseudónimo.

Romances que, desde 1950, passaram a ser publicados não só em Portugal por várias editoras, como também no estrangeiro onde tiveram fama. Traduzido em mais de 30 países, era considerado o mais internacional dos escritores portugueses. 

Se tivesse publicado com outro nome teria tido o mesmo sucesso? Talvez sim, ou talvez não.

Nasceu em 11 de Setembro de 1929, em Lisboa, onde morreu na madrugada de 21 de Março. TTinha 88 anos.

Estudou Medicina até publicar o seu primeiro romance – que escreveu aos 25 anos e que se chamava O Sono da Morte. 
O livro chegou às livrarias em 1958. Foi nesse ano que o próprio autor criou uma colecção Policial, a Enigma, na Ática.

Desde esse ano, foi publicado por várias editoras portuguesas, além da 'Enigma': a 'Dêagá', a 'Reverso', a 'Vampiro' e a 'XIS'. E a 'Asa'.


No estrangeiro, publicaram-no editoras alemãs, australianas, nórdicas, britânicas, americanas, irlandesas, italianas, sul-americanas e outras.
O seu último livro saiu em 2016 e chama-se A Metáfora do Medo.
Fiquei com curiosidade de o ler. Recordo o nome de Dick Haskins, que talvez tenha lido algum na Vampiro. Confesso que não o li muito, preferia os seus Mestres, Dshiell Hammett e Chandler – grandes mestres da Literatura de todos os tempos, que me encantavam – e que ele seguia de perto. Ou ler outros da Vampiro como S.S. Van Dine, Erle Stanley Gardner, Hartley Howard - ou a inglesa Dorothy Sayers – escritores dos quais a Colecção Vampiro publicou variadíssimos títulos.
Outros livros do autor: LabirintoO Isqueiro de Oiro, O Espaço Vazio, 'O jantar é às oito.~
De qualquer modo, presto homenagem ao “nosso” escritor policial mais conhecido no mundo.



Engraçada esta história que me contou, sobre ele, o meu amigo Inácio Steinhardt, judeu polaco, cuja família fugiu para Portugal nos tempos das perseguições nazis, e aqui viveu. Um dia a família Steinhardt foi para Israel, onde, muito mais tarde, os conheci muito bem.

Contou-me ele que, há muitos anos atrás, ia num eléctrico em Lisboa e encontrou um jovem judeu holandês sentado a ler um livro de um autor inglês. Era um Dick Haskins ‘traduzido’ em português – segundo julgou...
Perguntou-lhe por que razão não lia o livro na versão original e ele explicou: “Este escritor é português mas tem um pseudónimo inglês, talvez para vender melhor. E eu acho que a língua coloquial se aprende nos livros policiais…”

No que tinha muita razão e, por isso, achei graça porque eu também aprendi o meu francês coloquial com um escritor policial : o grande Georges Simenon, talvez por o ter inicialmente lido na Vampiro...

Lendo a infinidade de bons livros que escreveu na sua vida- e aprendendo!
Espero que muitos "estrangeiros" tenham aprendido o seu português coloquial com os livros do português Dick Haskins...

Sobre a morte de Dick Haskins