quarta-feira, 20 de junho de 2018

Quando o mar é uma companhia...

“Dádivas do Mar”, de Anne Morrow Lindbergh, é como certos livros que ensinar escolhas, atitudes e nos fazem companhia em momentos especiais.
Lembro-me de ter lido “Dádivas do Mar”(*) num período bastante difícil da minha vida.
Oferecera-mo, anos antes, uma amiga, psicóloga, mas não me apeteceu ler nessa altura. Um dia, num daqueles dias que o destino traz e para os quais nunca nos sentimos preparados, adoeci.
Foi um momento de grande solidão comigo mesma - apesar de rodeada de amor e de amigos.  

Quando abri o livro, deixei-me embalar pelo ritmo tranquilo das palavras que traziam consolação mas sobretudo ajudava a um impulso, mudança de atitude, interrogações e esperança. O encontro connosco, nos pequenos gestos, que nos permitem continuar a querer ajudar outras pessoa.
O livro tem uma capa de cores suaves, sobre o azul, em todas as traduções. Na edição portuguesa vemos um búzio em tons de azuis e prata e o brilho das ondas. Foi publicado numa Editora só de mulheres, a Livros de Seda (*).

A autora, Anne Morrow Lindbergh, foi mulher do conhecido aviador Charles Lindbergh. Com ele participou em alguns voos - considerada ela própria uma pioneira e uma heroína da aviação.
Anne e Charles Lindbergh e o voo transatlântico
Quando lembramos este casal, pensamos inevitavelmente no drama que os atingiu: jovens, o primeiro filho ainda bebé, e este foi raptado e depois tragicamente assassinado. (**)

Anne era uma mulher forte com certeza, mas um golpe assim, inexorável e inesperado, traz muita amargura e desorientação, penso.

Foi pela escrita talvez que recuperou o equilíbrio perdido. Anne Morrow era filha de um senador americano e da poeta feminista Elisabeth Cutter Morrow, que participou das primeiras lutas feministas nos USA.
Anne Morrow em 1918

Anne estuda, aplicada e conclui o bacharelato em Artes, mais tarde recebeu três doutoramentos ‘honoris causa’ por diversas universidades conceituadas.
Não é da vida dela que vou falar, mas sim do livro. Durante a leitura senti a sugestão do som constante do mar distante, na recordação e na imagem que nos ela descreve.

Não só “ouvimos” o mar como “vemos” os búzios e as conchas nacaradas que nos descreve, enquanto vai pensando.

Sente que tem de simplificar a vida, deixar para trás tudo o que é inútil. Cansada da pressão que nos persegue nas cidades, no trabalho, na pressa, na ausência de um repouso para nós, do silêncio em que possamos ouvir o silêncio e a nossa voz, pensar por nós.

Anne nasce em 1906, em Englewood, é uma criança  normal, com pais que lhe dão uma boa educação. 
Casa com Charles Lindbergh (***) e, apesar de um casamento feliz e do nascimento de mais cinco filhos (nascidos depois da morte do bebé), refugia-se, a dada altura da sua vida, numa ilha isolada, numa simples casa de praia - quase uma barraca -  sem conforto.
O mar de Luís A. Tinoco

Apanhar um búzio, num dia de sol, com um céu e um mar brilhantes de azul e cor de prata, ver as estrias, a cor rosada pode encher o dia. O nácar da concha e, lá dentro, uma escada de caracol por onde ela espreita como se fosse a linha do seu pensamento.


E nesse perder-se dentro de um búzio, sente que dá oportunidade ao respirar e viver de outro modo, lentamente, com tempo. Isso permite-lhe sossegar e parar no presente. Como o movimento do mar, igual, a ondular, a chegada e partida das marés. Sem tempo. Sem pressa. Deixar correr a areia do búzio... a ouvir o mar.


Na procura da harmonia interior, essencialmente espiritual que possa traduzir-se numa harmonia exterior”, escreve a autora.
Na vida de todos os dias, com um marido e cinco filhos, não é tarefa fácil.
Há muitos modos de conseguir essa harmonia interior e exterior”, explica. E lembra a frase de Sócrates no Diálogo “Fedro”.
Fazei com que o interior e o exterior se harmonizem.” Há vários caminhos a seguir – e a simplificação é um deles.
Mas a simplificação na vida do dia a dia não é simples, reconhece.
Há as exigências familiares, nacionais, internacionais, a preocupação de se ser um bom cidadão, há as pressões socioculturais, jornais, revistas, rádio (e televisão!, acrescento eu), as campanhas políticas (…)”
É uma vida não de simplicidade mas, sim, de ‘multiplicidade’. Sinto vertigens com tanta pressão”, queixa-se.

Há na vida do ser humano, sobretudo na da mulher, uma série de ‘distracções’ (chamemos-lhe assim) que “destroem a alma”, diz. E que a impedem de se encontrar, de estar bem consigo.

A insatisfação constante, a vontade de fazer mais; de querer isto e aquilo; o orgulho de se ter uma casa assim, ou assado, limpa, com belos objectos; há, ainda, a hipocrisia (involuntária ou voluntária) das relações humanas. No fundo, as armadilhas da modernidade.
Agora, nas breves férias, na casa de praia, sem objectos que não sejam as suas conchas, entende como se pode viver sem o supérfluo, sem especial conforto, como na concha vazia de um búzio - em silêncio e concentrada no que é essencial para viver. Trata-se de uma longa meditação, sem dúvida.

É um livro talvez mais dedicado à mulher que, apesar de igual do homem em direitos e deveres (quando isso existe), tem de ir buscar em si, na solidão de um momento, de um dia, de uma semana – ou apenas de uma hora – aquilo de que necessita para poder continuar a dar. E o equilíbrio.
E isso pode ser a realização das pequenas coisas que cria, no pensamento que divaga, na página que escreve, no jardim que cuida; no arranjo das flores na jarra.
A leitura, Berthe Morisot

Ou na leitura, enfim naquilo que é importante para ela : onde vai buscar novas forças: naquilo que é o encontro consigo, e que é uma dádiva a si mesma para continuar a “dar”.
Todos os momentos são diferentes e incomparáveis. Não existe o incomparável tout court: existem momentos únicos e incomparáveis.
E a escritora continua na insistência da auto-observação, do auto-conhecimento -e no conhecimento dos outros - através das conchas, da simplicidade e beleza delas. Conchas cheias de areia que deixa escorrer pelas mãos nuas e que, vazias, são perfeitas. Cada uma dessas conchas é símbolo de uma coisa diversa.
A mente liberta-se, concentrada, por momentos, no que lhe parece essencial: viver numa concha da qual pode sair.
O tempo passa, então, mais lentamente, e ela prepara o regresso à casa, à cidade barulhenta, à vida quotidiana. Traz consigo, porém, um conhecimento novo pois, tendo aprendido a simplificação, trouxe com ela a vontade de buscar nas coisas simples e essenciais a vida.
 A simplificação da existência pode ajudar a uma verdadeira compreensão da vida: procurar um trabalho sem pressão, ter um espaço para si, conquistar um tempo para a necessária solidão consigo, para a beleza e para a dádiva. A pérola será o absoluto, dentro de nós, ironizo eu.

O livro que Anne Lindbergh escreve é uma conversa lúcida, poética, bem escrita.

No fundo, basta uma meia dúzia de conchas” diz ela, para se ter tudo. Para se ter paz, sobretudo, e poder amar.

(*) “Dádivas do Mar”, de Anne Morrow Lindbergh, editora Livros de Seda, tradução de Luís Coimbra, 2007.

(**) Anne Morrow Lindbergh nasceu em 22 de Junho de 1906,  em Englewood, no New Jersey (USA) e morreu em 7 de Fevereiro de 2001, em Vermont (USA)
um Vermont outonal

(***) Sobre  o aviador Charles Lindberg,  Billy Wilder realizou um filme "A águia solitária", em 1957, com James Stewart. 

Em 1976, Buzz Kulik realiza "O caso do rapto do bebé Lindbergh", com Anthony Hopkins e Joseph Cotten, sobre o rapto do bebé Lindbergh

sábado, 16 de junho de 2018

TELAVIVE, A CIDADE BRANCA E O ESTILO ‘BAUHAUS’



Telavive é a mais bela cidade em estilo Bauhaus (*) do mundo. Em 2003, essa zona foi, justamente, considerada Património Mundial Cultural, pela UNESCO.

Foram contabilizados mais de 1500 edifícios, “sujeitos a diversos planos de restauro e de preservação”. E considerados protegidos, a partir de então. Muitos tinham sido deitados abaixo, mas outros salvaram-se e têm uma perspectiva de restauro em vista.

Há mais casas neste estilo em Telavive do que no resto do mundo. Cidade construída pelos arquitectos, artistas e técnicos - judeus fugidos da Alemanha nazi, na década de 1930.
E ajudaram à construção e à urbanização da “cidade branca”, como lhe chamaram.

Lembro-me de ver esses edifícios, de grande simplicidade arquitectónica, na rehov Bialik, na Rotschild, na Kikar Dizengoff  (com a sua fonte colorida), na rehov Sheinkin, na Ben Yehuda.

Ou, na Sederot Ben Gurion, o edifício do Café Apropo, onde foi deflagrada uma bomba poucos meses depois de termos chegado a Israel. O “Apropo” é um belo Café em estilo Bauhaus onde costumávamos ir – e onde o Manuel passava todos os dias antes de ir almoçar. 

O atentado kamikaze ocorreu no dia 21 de Março de 1997, na véspera do Purim, que é a festa das crianças, espécie de carnaval. Morreram três jovens mulheres uma delas grávida. 
Nunca esqueci a foto de um bebé de 6 meses, vestido de clown que se salvou porque a mãe se deitou por cima dele e o salvou, morrendo. Recordo o jornal do dia seguinte em que uma jovem polícia agarrava o bébé nos braços.
Na manhã seguinte, o Café Apropo, com a esplanada e as vidraças destruídas completamente e parte da mobília lá dentro, abriu normalmente.
Vieram empregados, amigos e clientes e -ou quem passava – e todos varreram vidros, endireitaram as cadeiras, limparam, lavaram, arranjaram o que tinha arranjo, deitaram fora o resto. No final, em copos de papel, bebemos café, chá, sumo de romã e comemos os bolinhos que cada um levou. Hoje existe no jardim em frente um monumento às três vítimas.

A cidade começou a ser construída por volta de 1909 quando sessenta famílias vindas da Europa ocuparam o areal de dunas frente ao mar, nas proximidades da cidade portuária de Jaffa, Era um espaço, vazio e desértico, onde se estende hoje a Promenade junto ao mar o passeio público que vai até Jaffa.

S. J. Agnon (**), grande escritor israelita que ganhou o Prémio Nobel em 1970, conta essa odisseia no seu livro mais famoso, “Tmol Shilshom” : Ontem e Anteontem.

Shmuel Joseph Agnon nasceu em 1887 em Butshatsh, na Galicia oriental, então região da Polónia e morreu em Telavive em 1970. Recebeu o Prémio Nobel em 1967 com a escritora Nelly Sachs.
Em 1908 vai viver para a antiga Palestina ainda pertencente ao Império Otomano. 
 Cerca de sessenta chefes de família reúnem-se e formam uma Sociedade Imobiliária porque todos querem construir uma casa naquela Terra santa para eles. (…)
E continua:
Construiremos belas casas, plantaremos diante de cada uma pequenos jardins, traçaremos ruas largas e direitas. Faremos reinar o nosso espírito de um puro Israel nestes lugares e assim que pudermos, teremos autonomia.”
"o terreno desértico onde constroem a cidade..."
Decidem que cada um dá 20 francos e começam à procura dum terreno. Decidem que a cidade terá de ser criada longe da cidade velha. “Encontrámos o terreno no deserto da cidade; mas não se encontrou dinheiro para o pagar.”

Esse areal de dunas foi, pois, dividido, loteado e sorteado e cada uma das tais famílias de que falei se encarregou de construir, em comunidade, casas, traçar estradas e desenhar ruas.
Como explica Agnon, compraram  “um terreno, formado em parte por colinas de areia e, em parte, de vales e ravinas.”com a ajuda de Kéren Kayémeth." (***)

E a grande tarefa começa. “Arrasam-se as colinas, deita-se a areia nos vales, trazem-se pedras do mar e enterram-na. Partem-se pedras, os martelos soam todo os dia e os rolos compressores aplainam. (…) nivelam-se os fossos. Camelos e burros transportam a areia.”
E a cidade de Telavive cresce em todos os sentidos. Uma das zonas, a central, ainda hoje, vista do alto, no meio dos arranha-céus moderníssimos, distingue-se facilmente das outras: um agrupamento de casas baixas, “pequenos edifícios com formas de caixas e tecto branco” – que reflectem o estilo tradicional da arquitectura modernista  Bauhaus.

São cerca de 3000 os edifícios construídos, entre 1931-1939, num estilo simples e funcional mas “artístico”.

***
O que significa o estilo Bauhaus, ou Escola Arquitectónica Bauhaus? Fundada, em 25 de Abril de 1919, por Walter Gropius - cuja intenção era combinar e juntar arquitectura, artesanato e academias de arte.
Walter Gropius (1883-1969)
estilo Bauhaus, Gropius em Dessau

Cafetaria, em Dessau

Subsidiada, inicialmente, pela República de Weimar (república em democracia representativa semi-presidencial, criada depois do fim da Iª guerra), após a mudança do governo de Weimar, em 1925, a escola desloca-se para Dessau, cujo Município era liberal. 


Em 1932,  fugindo às perseguições nazis, a escola muda para Berlim. Em 1933, os Nazis proíbem a escola Bauhaus - acusada de ser um foco de judaísmo e bolchevismo - e fecham-na, definitivamente. 

Era considerada pelo Nazismo uma 'frente'comunista e judaica porque muitos dos que ali trabalhavam e estudavam eram na maioria judeus alemães e judeus russos.
Art Nouveau

Era um movimento que vinha no seguimento da Art Nouveau e do movimento Arts & Crafts: a tentativa de unir as artes plásticas, consideradas até ali artes superiores, ao artesanato e ao trabalho manual (artes inferiores, dando-lhes a mesma importância).
edifício de Walter Gropius, estilo Bauhaus

Walter Gropius, e um grupo de arquitectos e artistas de vanguarda, conseguem unificar as duas visões com o Bauhaus (‘casa estatal de construção’).
Kandinsky, Composição 8, 1923
Wassily Kandinsky(1866-1944)

Wassily Kandinsky, Paul Klee e outros pintores e artistas de várias nacionalidades estiveram intimamente ligados ao Bauhaus
Kandinsky nasceu em Moscovo mas, em 1928 , nacionalizou-se alemão e foi professor na Escola Bauhaus. Mais tarde, fugido aos nazis nacionalizou-se francês, em 1939. Introdutor da abstracção no campo das artes visuais, foi professor na Universidade Bauhaus.

A cadeira "Wassily"

Marcel Breuer outro arquitecto e designer, inspirado no estilo Bauhaus, desenhou esta bela cadeira a que chamou "Wassily".
 Marcel Breuer, edifício Bauhaus, nos USA


 Marcel Breuer 
Marcel Breuer 

Paul Klee foi amigo de Kandinsky e ensinaram os dois na Escola Bauhaus. Nasceu no cantão suíço, perto de Berna, em  18 de Dezembro de 1879 e morreu em Muralto (Suíça) em 29 de Junho de 1940. Viveu na Alemanha. 
Desenhista nato, Klee realizou experiências sobre a cor e escreveu sobre a teoria da cor. Foi um expoente do cubismo, expressionismo e surrealismo. 

Paul Klee (1879-1940)
Paul Klee, 1931

Walter Gropius (1883-1969)

Foi Gropius que acreditava num ensino experimental e uma visão interdisciplinar e defendia a integração da arte com a técnica que permitiu este 'intercâmbio' de "artes" e nacionalidades. 
O seu movimento Bauhaus e Modernismo no design e na arquitectura, foi a primeira escola de Design no mundo.
Tel Aviv

O Bauhaus teve um impacto fundamental no desenvolvimento não só da arquitectura do ocidente europeu, como, também, em Israel, nos USA e no Brasil onde se exilaram muitos dos que vinham fugidos do regime nazi. 
***

(*) A Escola Arquitectónica Bauhaus  foi fundada, em 25 de Abril de 1919, por Walter Gropius. Escola de design, artes plásticas e arquitectura de vanguarda iniciada na Alemanha, em Weimar. A República de Weimar era uma democracia representativa semi-presidencial, criada depois do fim da Iª Guerra.

 (**) Shai J. Agnon (1888-1970) viveu em Israel de 1909 a 1913 e participou na fundação de Telavive. O livro “Tmol Shilshom” sai em Israel, em 1946. Leio-o na tradução francesa, “Le chien Balak”, Éditions Albin Michel, 1971. 
"O cão Balak" é a segunda personagem principal do livro. “Simboliza o judeu perseguido mas igualmente o homem em geral, na sua procura de verdade de perfeição e de absoluto.” Em inglês, o título é “Only Yesterday”.
(***) Kéren Kayémeth LeIsrael (K.K.L.) é o Fundo Nacional Judaico, fundado em 1902, que provinha das colectas para auxiliar os refugiados, comprando terrenos na Palestina para a criação de um Estado.