segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Lembrar Marrocos ...

Para os meus amigos, em Marrocos!

 Medina de Rabat (MJF)

 Medina de Rabat (net)
Lembrei-me  de Marrocos e de Rabat, onde vivi mais de dois anos. Vida nómada a nossa … 
De peripatéticos, diria Aristóteles, que o era a filosofar, a andar sempre dum lado para o outro.
A verdade, porém, é que acabámos por viver bastante tempo em cada um dos lugares : Itália, São Tomé, Israel, Marrocos!
Um périplo por alguns continentes e vários mundos:  cheios de coisas diferentes: gentes, costumes, línguas, culturas. A riqueza que traz a diversidade dos povos!

A verdade é que me lembrei de Marrocos, talvez devido aos fogos que têm girado o país de Norte a Sul, talvez por ver as pessoas desesperadas, os socorros entregues aos bombeiros, homens generosos, sacrificados, sem meios, de olhos perdidos, fatos chamuscados, rostos negros de fumo -como os mineiros! E Marrocos ajudou-nos !
bombeiros, foto do Facebook (Vasco Ganda)
Foram imagens que me deram vontade de chorar. E, ao ver que, ao lado da Itália, da Rússia e da Espanha (apenas!), Marrocos tinha mandado dois Canadair novos, prontos a intervir, senti um calor na alma, senti voltar um perfume de outros lugares – que me fazia bem! Lembrei Marrocos, Rabat, os amigos, os lugares,  a paz que ali sentia.
A Medina de Rabat na sua frescura, mesmo nos dias quentes de Verão, protegida que era por panos, telas, que não deixavam passar o calor.
E revi rostos. Fahtma, Hakima, Hassnâa, Hanane. Recordei pessoas que nos acompanharam ali e conviveram, em nossa casa. 
Lembrei a casa onde vivemos, arquitectura de bom gosto, um jardim de sonho, que pertencia a uma jovem mulher bela e inteligente que ficou uma grande amiga!
E tive saudades dela também.



A medina de Rabat era linda! Coberta por um tecto em vidro, como vitrais transparentes, encastoados em prata.
O cheiro a cominhos e a canela, a curcuma amarela, acre e perfumada, as pimentas coloridas, a paprika, os fiozinhos de açafrão verdadeiro que não têm nada que ver com o pó colorido que se compra por aqui e por ali. O açafrão que é no fundo uma parte da flor, os filamentos…
Medina de Rabat, rue des Consuls
Os vendedores da medina, comerciantes que tudo vendiam, e sempre –mas sempre!- com a eterna discussão do preço: o que constituía um prazer para ele - e um desafio à inteligência do comprador. 
Os barros, os artigos folclóricos para turistas, ou os móveis e as peças maravilhosas, esculpidas em raiz de tuya, as tigelas pintadas de branco e azul, modeladas à mão, os trabalhos delicados em prata, na Rue des Consuls, nas lojas dos judeus que ainda lá vivem. 


Ou as djellabas coloridas, espécie de túnicas até aos pés, tecidas em materiais diversos, para homem e para mulher, com capuz ou sem ele, para Inverno ou para Verão - na medina encontrava-se tudo. 
Descobri boas fotografias na internet que mostram bem a variedade de tudo  o que se encontrava e o colorido da medina
Muitas das que tirei perdi-as, mas há algumas que re-encontrei e também as ponho...

variedade de tapetes e tajines, os 'tachos' de barro

“Qual será o preço real de um objecto qualquer, em Marrocos?”, perguntava alguém. 
Foi o escritor Elias Canetti (Prémio Nobel de Literatura 1881) quem respondeu bem a essa pergunta, no seu livro “Vozes de Marraquexe”,(1954), publicada em Portugal pela editorial Dom Quixote:
É impossível saber, nas medinas de Marrocos, qual será o preço justo seja do que for, porque não existe um preço certo.
Depende do dia, do ‘mood’ - como se diz hoje- do vendedor, da  cara do cliente, da empatia que sentem – ou não- um pelo outro. E vem o chá quente e perfumado, com sabor a hortelã, em copos de vidro coloridos. E, com o chá, a conversa. O cliente senta-se e falam de outras coisas da vida que até podem ser íntimas.

Conservo o meu tabuleiro de chá, os copinhos de cristal e o velho bule onde a Hassnâa -e depois a Hanane- preparavam o chá. 
a Hanane
Deitavam-se umas colheres de chá verde no fundo do bule, uns quadradinhos de açúcar, em cima dos quais se punha um grande ramo de hortelã e se deitava água a ferver. Depois, para não sair por fora dos copos, nem pingar, erguia-se o bule e deitava-se o chá de alto! O chá pode ferver e referver e tem de ser muito açucarado. Em dias de calor, revela-se um bom remédio!
 ritual do chá marroquino
Também na medina tomávamos o chá, antes de se negociar. Havia o Yassin e os primos. O Yassin era um grande conversador e falava horas com o Manuel. Gostavam os dois muito de conversar...


"Quantas mulheres tens, mon ami?" Ou: "Então hoje trouxeste a outra mulher?"
Como se o negócio em si não interessasse a nenhum deles. Era um ‘ritual’ de reconhecimento? 

Acabava por ser também um prazer para quem comprava! E, se o cliente voltasse dias depois, era com gosto que reencontrava a conversa do vendedor, para quem ele era já “mon ami”. 
Que importava saber se o ami não era de verdade ami: havia uma relação, verdadeira essa, que se criava (ou não) e isso era importante para os dois.  
Havia outra Rabat, igualmente atractiva: a Kasbah des Oudayas, as suas ruelas, o Café Maure e a vista sobre o Bou Regreb.


Kasbah des Oudayas

Mausoléu Mohamed V (MJF)

Ou a Rabat moderna, com o Mausoléu do Rei Mohamed V, a rua principal, com os cafés e as pequenas praças e jardins. Mas era na medina que tudo parecia tão diferente!
Mausoleu Mohamed V (MJF)
Havia outras cidades bem diversas da capital de Marrocos. Por uma bela autoestrada, entre campos verdes salpicados de flores e flores amarelas e cor de laranja, na Primavera, chegava-se a Fez.
Fez, entrada da medina (net)
A sua labiríntica kasbah - que chegava a ser claustrofóbica, a vista espantosa que se tem sobre a medina, ao pôr do sol, quando as casas brancas ganham um tom rosado. Nunca vi burrinhos tão bonitos como na medina de Fez!

Fez, imagens da net
E nas mesquitas, os minaretes altosde onde, ao tombar da noite, se ouviam os 'chamamentos' para a oração, como um coro a várias vozes. 
E, na Maison Bleue jantava-se bem. Ou comiam-se os bolos de amêndoa com o chá de hortelã.
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tabuleiro de chá e bolos (internet)
 medina de Fez (MJF)
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burrinhos de Fez (MJF)
Fez, entrada e burrinhos (fotos de MJF)

Djema-el-Fna à noite
Ou Marraquexe e a praça Djema-el-Fna, os palácios, a Koutoubia, ou o Café de France onde, de Inverno, no terraço, se bebia uma tigela de 'harira' bem quente, à espera de ver o õr do sol detrás da Koutoubia, e a olhar as tendas e as luzes lá em baixo na praça, e toda a riqueza de cores, de cheiros, de barulhos e de pessoas! 



foto MJF

E, na costa, a delicadeza da Cité Portugaise, de El-Jadida, com a Cisterna Portuguesa do século XVI- que nos aparece como num sonho.

A simpatia das gentes de El-Jadida, do amigo que, na despedida, nos veio trazer a Rabat um belo cavalo árabe, de bronze, e uma djellaba com lindos tons de ocre e rosa que, por acaso, trago vestida hoje! 
vista do hotel, em El-Jadida (MJF)

El-Jadida, a Nova, é uma cidade linda sobre o mar. Muitos anos atrás tínhamos passado uns dias em El-Jadida.

El-Jadida, medina
El-Jadida, ou Mazagão, que foi uma vila portuguesa a partir do século XVI. Onde se fundou  a Cidadela e a "Cité Portugaise", onde se construíram belas fortificações e onde, depois de ser 'sala de armas', se criou a maravilha que a Cisterna, em estilo Manuelino, para aproveitamento da água das chuvas. 
Cisterna (imagem da net)
Cidadela de El Jadida (imagem da net)
Um trabalho de arquitectura maravilhoso, executado pelo italiano Benedetto da Ravenna e pelos irmãos Arruda, naturais de Évora, e construtores em Portugal de obras como a Torre de Belém, o Forte de São Julião da Barra: Francisco e Diogo Arruda. (*)


Cisterna (MJF)
Ou a costa, recortada, e cheia de areais junto ao mar azul, que vai até Essaouira. Essaouira onde os jovens olham para além do mar e esperam.
Essaouira, olhando para longe (MJF)
Essaouira e o porto, a sua Kasbah e os elegantes arcos das Três Portas
Três Portas (MJF)
E a medina cheia de coisas bonitas! Tantas obras diferentes em "tuya", a raiz da árvore, quase esculpida em formas e objectos únicos!
porta-cartas,em tuya (MJF) 
Essaouira, barcos em reparação (MJF)

Essaouira que, em tempos, se chamou Mogadouro (terra de todos os ventos?) e que, mais tarde, veio dar o nome da nossa Mogadouro, ao Norte de Portugal! E não ao contrário, como se possa julgar!
Essaouira (MJF)


Essaouira e gaivotas (MJF, 2002)
E a estrada continua para Sul, com areias finas e brancas, ao lado, junto ao mar e os precipícios quando se começa a subir pelas montanhas. 
Para o Norte, no Rif, outras cidades invulgares: há, por exemplo, a cidade azul de Chefchaouen, cidade inimaginável!
em Chefchaouen
a oliveira centenária em Chefchaouen (MJF)
 Chefchaouen azul (MP)
Fora da cidade é o campo. Os que vêm do campo para o mercado, param à entrada, cá em baixo, arrumam as suas camionetes, ou deixam os burrinhos e as mulas, a pastar. 


Chefchaouen, no alto da serra (MJF)

Depois, sobe-se e, de repente, rodeada de serras, o suave azul de Chefchaouen, a das casas caiadas de branco e azul-clarinho que, ao longe, me pareciam feitas de algodão. 
duas meninas de Chefchaouen (MP)

Que dizer mais? Nunca parava de lembrar o que vi em Marrocos. Tanto ficou para dizer!
Um dia, tivemos de regressar a casa. Quero recordar ainda Tânger, que conheci mal - e disso tive grande pena. Tânger acolhedora, e os seus cafés antigos, conheci-a só já de abalada para Portugal. 
Mas vejo os cafés, as ruas, a comida, as pessoas e a sensação de estar ‘em casa’ que tudo me dava!

Sim, hoje tive saudades de Marrocos!
adeus à casa de Marrocos (MJF)


(*) Sobre El-Jadida e a Cisterna Portuguesa: Mazagão foi uma vila portuguesa, em terras marroquinas, sob o domínio da Coroa desde 1486. Era um entreposto comercial. Os portugueses só se instalaram realmente na vila, em 1502. 
Em 1514, surgem as fortificações, a chamada Cidadela e, depois, a cisterna que deve ter servido inicialmente de "sala de armas" antes de ser transformada em reservatório de água. 
Em 1541, Francisco de Arruda e o irmão Diogo acompanham o italiano Benedetto da Ravenna a Mazagão. Este italiano de Ravenna concebe a bela fortificação da vila.
A Cité Portugaise de El-Jadida foi decretado Património Mundial da Humanidade, pela UNESCO.



sexta-feira, 12 de agosto de 2016

LITERATURA POLICIAL AMERICANA: CHESTER HIMES


Chester Himes, in Le Monde

Chester Bomar Himes nasce em Jefferson City, no Misssouri, em 1909 (29 de Julho) filho de um pai negro e de uma mãe negra mas de pele clara. Netos de escravos. Os pais eram professores. O pai considerava-se um ‘peripatético’ (nómada, viajante sem destino). Lembro-me de ouvir falar de Aristóteles como filósofo 'peripatético' - isso referia-se à sua mania de 'filosofar, andando sempre...
tenda de nómadas

A mãe tivera estudos e ensinava no Scotia Seminary, escola criada depois da Guerra Civil para as jovens negras terem a possibilidade de aceder a outra coisa que não fosse a velha ‘profissão’ de criadas domésticas ou trabalhadoras da terra, na colheita do algodão, como os escravos de outra era.
Scotia Seminary

Segundo a jornalista de Le Monde (7-8 de Agosto), Stéphanie Le Bars, num bom artigo intitulado “Himes, plume de bagnard”, o escritor poderia até nem ter imaginação nenhuma, porque a sua vida desorientada e a sua raiva bastariam para compor a sua obra.  
Rebelde  e impulsivo, eterno inadaptado, Chester era um miúdo esperto. Criado na rua, um pouco ao deus-dará -apesar de os pais pertencerem à classe ‘média’ negra-, acabou na prisão por pequenos furtos. 
1939, em Oklahoma, 'água' para negros

O primeiro grande choque da sua vida acontece quando o irmão mais novo tem um acidente, ao misturar explosivos na escola, e é atingido na cara. Quando chegam às urgências do hospital de Jefferson City, os médicos recusam-se a deixar entrar esse jovem negro, devido às leis raciais, ainda vigentes, as Leis de Jim Craw. O irmão perde um dos olhos. Chester sente que essa injustiça era inaceitável! 
sala de espera para negros, 1940

Conta na  autobiografia, The Quality of Hurt: “Esse momento da minha vida magoou-me mais do que todos os que os outros todos que sofri depois”. Tinha 12 anos e descobre o problema racial.

“Adorava o meu irmão Joseph, nunca tínhamos estado separados e quando aquilo aconteceu foi como se tivesse sido eu (…).”

Recorda, com raiva: “O meu pai chorava como uma criança. A minha mãe meteu a mão na mala para tirar um lenço e a verdade é que eu tive a esperança que ela tirasse uma arma.”
Ainda vem longe a marcha de Martin Luther King, em 1963, sobre Washington. E o sonho: "I have a dream"... 
E só em Julho de 1964 o Presidente Lyndon Johnson assina o Civil Rights Act.

A família muda para Cleveland à procura de outros mundos melhores. É mais outra terra, onde eles, 'migrantes' eternos, tentam encontrar o 'seu' lugar, mas aqui, como ali, é sempre a mesma vida miserável dos 'negros'. 
Tudo corre mal. Os pais separam-se. A vida de Chester é como um filme de terror: histórias de assaltos, roubos, gangs e prisão
Penitenciária do Missouri
E, sempre, a consciência da brecha descomunal de oportunidades entre a "raça negra" e a chamada "raça caucásica", ou "raça branca". O tratamento bem diferente entre uns e outros, as leis raciais e a segregação racial existente.  
Revoltado, vai participando em assaltos cada vez audaciosos,  com uma capacidade enorme de 'auto-destruição'. Como se nada lhe importasse. Vai parar à cadeia por pequenos roubos.
Quando consegue entrar para a Universidade, os sarilhos continuam. Um dia, há um assalto mais grave e o juiz Mac Mahon (cujo nome nunca mais esquecerá!) condena-o a vinte e cinco anos de trabalhos forçados. Um choque brutal: sabe que a sua vida está acabada. Tem 19 anos.
Penitenciária do Ohio (1931)

O que será, ele, Chester, depois de 25 anos numa penitenciária americana - a do Ohio- construída para 1500 presos e onde estão, de facto, 5000? 
Como descreverá nos seus livros: os muros altos de tijolos, os beliches empilhados até ao alto, onde se encontra a janela gradeada. A violência física, os abusos, as condições mal-sãs, a comida nojenta, os ratos? 
Nessa prisão, super-povoada a abarrotar de delinquentes, onde se vive nas condições mais primitivas e, depois noutras prisões, vai viver sete anos. A pena é comutada para sete anos. 
Quando sai, dificilmente se recompõe do choque. "Nunca mais ninguém na vida me fará o mal que ele me fez com esta condenação!", escreverá.
Recompor-se, como? É na prisão que passa da adolescência à idade adulta. É detrás das grades que vai encontrar a realidade dos seu livros.
“Uma obra negra, atormentada, marcada pela violência social, e pela violência física, impregnada do racismo da América, anterior à conquista dos ‘direitos civis’, impregnada do ‘absurdo’ do destino humano, que descobrira ainda muito jovem. Uma obra atravessada também por um humor inesperado. Celebrado como o pai do romance policial afro-americano, este neto de escravos vai buscar na sua história para pintar os cenários e as personagens à deriva que povoam a sua obra.”

Obra dura, negra -em toda a acepção da palavra. O dia a dia descreve-o no livro "Yesterday will make you cry". 
Os primeiros contos, escritos na prisão, são publicados na revista Esquire, uma revista para homens. Em 1931, publica The Bronzeman e, em 1934, To What Red Hell.
London Prison Farm

É nesse ano que é transferido para outra prisão, a London Prison Farm. Em 1936,  sai em liberdade condicionada, sob a custódia da mãe. Arranja trabalhos diferentes em part-time e vai escrevendo. 
Sobre o herói de "Yesterday will make you cry, escreve Stéphanie Le Bars: "Jimmy Monroe, o protagonista é o 'alter-ego' branco do jovem Himes, é uma pintura social e psicológica preciosa, sobre a violência moral e a proximidade da morte que rondava sempre."
Retrato precioso até porque o escritor, nas suas auto-biografias, poucas linhas dedica a esses anos.
Langston Hughes
Nas suas deambulações por editoras e jornais, encontra o escritor e activista -poeta de jazz também-  Langston Hughes que o inicia no mundo literário para ele, até então,  desconhecido. 
Em 1950, vai viver para França. Tem sucesso. Em 1958, ganha o prémio francês de romances policiais, o Prix de Littérature Policière. Era o momento dos grandes autores policiais franceses: Auguste Le Breton, Albert Simonin, etc



Vários livros de Himes foram adaptados ao cinema; organiza guiões; escreve uma série policial  para a televisão americana, Detective em Harlem.
1958


Morre em 12 de Novembro de 1984, em Espanha, em Moraira, na Costa Blanca, para onde se retirara algum tempo antes.