sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Revendo e repensando Manet, com Bourdieu...


Manet, "L'execution de l'empereur Maximilien" (1888)

Inesgotável a interpretação da pintura. Nunca tudo foi dito, há sempre tanto para acrescentar...

Vou falar de um pintor de que gosto muito: Edouard Manet. O que é para mim? Ou o que foi...  Uma descoberta fantástica, no Jeu de Paume, em Paris, da primeira vez que lá fui, há uma data de anos! E, sempre, de outras vezes,  o deslumbramento que foi para mim ver Manet e os outros Impressionistas!


eu e o meu pai, em Paris

Albert Marquet, Quai du Louvre, 1906

Sentia a diferença dele: O traço do mestre, o respeito pela “perfeição” da forma, o conhecimento da pintura que se lhe antecipou. Courbet? O Realismo? Claro.


Courbet, retrato de Verlaine jovem



Manet, O repouso

No entanto, distinguia-se já o gosto de transgredir esses “moldes”. Há em Manet esfumaturas que não existiam nos pintores que o precederam. E a clareza das cores, o brilho dos rostos, a luminosidade, a sugestão do movimento, nos mares, nas prias, nos céus.

Manet, retrato de Carolus Duran

Manet, Auto-retrato


Berthe Morisot, pintada por Manet

Manet, "A la plage"

Manet, "Le studio de Monet"

"Materialista" chamam-lhe num livrinho que comprei na National Gallery : “The Isms...” (Os ismos que tanto nos confundem sempre...)



Manet, Clair de Lune sur le port de Boulogne


Onde Materialismo ou "realismo social"  é  definido como “crença de que uma pessoa é moralmente, intelectualmente ou emocionalmente moldada por aquilo que a rodeia.”

Incluem nesse grupo Manet (1832-1883).

Lembrei-me de Manet porque  hoje sai (ontem saíu ...), em França, um livro sobre ele : “Sur Manet. Une Révolution Symbolique”, (Colecção de textos de Pierre Bourdieu, Editions du Seuil, 778 pgs)



Reúne os pensamentos sobre a Arte, do sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002), ao longo das suas lições  no Collège de France,  de 1998 a 2000.


Como romper com o academismo? O que é uma revolução em arte – são algumas das perguntas a que pretende responder.

Durante anos esses pensamentos perseguiram-no, interrogou-se sobre eles. Um dos artistas que o interessou mais foi Edouard Manet a quem dedicou muitas aulas dos seus cursos. Manet que aproxima do grande Gustave  Flaubert.

“No caso de Flaubert e de Manet, dizia, penso que são personagens que devem ser consideradas, no fundo, como “fundadores de campos”, que partilham a paixão pelos mestres antigos, gigantes que sentem estar em oposição aos contemporâneos, medíocres” (citado por Roger Chartier, Le Monde (1), de  1 de Novembro).

"A constituição desses campos artísticos novos  implica, pois, a destruição do corpo académico que ditara as estéticas, monopolizava as distinções e pronunciava as exclusões e as consagrações.” (in artigo citado).

E as “revoluções simbólicas” são as que  “estabelecem novas categorias de percepção e de conhecimento que se tornam tão naturais, tão evidentes, que dificilmente se imaginará a violência da ruptura que instauraram.”

Bourdieu pretende analisar a história das lutas que os pintores - e especialmente Manet - tiveram de sustentar para conquistarem a sua autonomia "frente à Academia.”

Mediocridade? Eles defendem a contradição “pintar bem, pintando o medíocre”, pensaria Manet, seguindo a afirmação de Flaubert:

“Ecrire bien le medíocre", insistia. Ou o vulgar?

Tal era a obsessão do escritor em escrever bem: a tensão existente entre a exigência formal (escrever, pintar bem) e o conteúdo (que podia ser medíocr, por vezes).

Flaubert e Manet funcionaram como “heresiarcas” (assim lhes chama Pierre Bourdieu), portadores de “heresias” (in Les Règles de l'Art, Seuil, 1992).



 Revolucionários que impõem, de dentro, um modo de percepção estética diversa, no seio da classe social a que pertencem e do próprio mundo em que se criaram. Aprenderam com os “doutores” (com os Mestres) mas depois vieram para a praça pública divulgar os segredos e criticar os mestres...

“Revolucionários capitalistas” chamou-lhes Bourdieu porque revolucionam dentro do próprio campo, a grande burguesia, classe a que os dois pertenceram.

Partilham ambos a recusa da ilusão realista, pretendem a pluralidade de pontos de vista no conto ou romance, como no quadro pintado. Quebraram os temas, escolhendo assuntos “imorais” no seu tempo. Porque quebravam os standards, aceitos no seu tempo,  do bom gosto! 
relógio de outro tempo...

Edouard Manet vai "chocar" propositadamente os seus contemporâneos? Não voluntariamente. Ele tem que fazer a sua pintura, ele quer destruir o academismo da pintura que se faz no seu tempo. Por isso, necessariamente, a sua pintura é uma provocação...



Olympia, pormenor

Quer se trate do quadro Olympia ou do Déjeuner sur l’herbe, vai ser o “uso” de uma figura de mulher nua, fora do contexto! 

Manet e a primeira versão da "Execução" (1887)

É "L'execution de l' Imperador Maximilien" (1868) que traz o escândalo.

Manet ataca aqui um género nobre -um acontecimento histórico e trágico. Fazia nele uma referência ao quadro de Francisco Goya, Tres de Mayo, 1814 (1746-1828). Depois do Levantamento de Dois de Maio que Goya pintou igualmente.

Levantamento do "Dos de Mayo" e "Tres de Mayo", Goya


No entanto, apesar desta dupla "referência cultural",  Manet não parece levar a sério o tema, a perspectiva que apresenta é confusa: um soldado carrega a espingarda; os "futuros"  fuzilados parecem estar encostados ao cano da espingarda. As leis da perspectiva falham, pensam os críticos.



E lá atrás um grupo de personagens, contemplando o espectáculo, empoleirados no muro, tornam a cena irrisória. No entanto, são os que vibram mais, entre desespero e pura contemplação da tragédia do imperador...


Como se o autor do quadro parodiasse a cena...

Os contemporâneos exasperaram-se com o que sentiram: o tom que havia de “paródia”, divertimento, no que era provocação.

Não há compreensão para o pintor: vão criticar, como erros, ou faltas, o que o pintor pretende que sejam transgressões. As cenas de nus já tinham deixado "perplexos" (é o mínimo que se possa dizer...) os contemporâneos do pintor. 

Em 1862 pinta o Déjeuner sur l'herbe, em 1863 pinta Olympia, dois quadros que vão criar polémica.


1862

1863

A nudez era permitida nos temas, nas molduras, clássicos. Num contexto mitológico: as deusas, as ninfas, Vénus e etc, tudo perfeito.

Mas aqui, entre o comum dos mortais? Uma mulher nua, tão deslocada naquele piquenique de burgueses?

Ou aquela outra, numa cama vulgar, acompanhada de uma negra? Quem é esta mulher?? Como se atreve o pintor???


O quadro choca porque não há nele as tais referências clássicas: é apenas uma mulher nua, uma "mundana" num ambiente contemporâneo, anódino dir-se-ia...

Como chocaram algumas figuras e situações de Flaubert, o “idiota da família” como lhe chamou Sartre: sem ofensa nenhuma!

Gustave Flaubert, por Eugène Giraud

Apenas porque, “em vez de seguir os passos do pai (conhecido médico), se desvia para uma carreira inexistente, um caminho não balizado, sem segurança, sem certificado ou garantia dadas pelo Estado”.


De facto, os dois artistas, Manet e Flaubert- escolhem uma profissão sem nome: a profissão de Mestre existe, mas o artista não existe ...


Por isso, diz Boudieu, esse desvio “vai ser para eles um verdadeiro salto no vazio”... 


Túmulo de Pierre Bourdieu, no Père Lachaise


(1) Roger Chartier, no artigo de Le Monde, intitulado "Bourdieu au miroir de Manet", no suplemento de Cultura, de 1 de Novembro de 2013.


Sobre Edouard Manet:

Sobre Pierre Bourdieu:

Sobre o livro em si:

Debate entre Pierre Bourdieu e Roger Chartier:
http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=99617936017





quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Singing the blues...

Cantando os blues...
a cantora de blues, Bessie Smith

Desde miúda que me atraíram os gospel e os coros africanos. Lembro-me de ouvir os espirituais negros, num disco que o meu pai um dia comprou, e de me impressionar a voz de Paul Robeson ou de Mahalia Jackson.


Pouco a pouco, descobri os blues. O gosto pelo  Jazz veio bastante mais tarde.

Vozes soltas, juntas, grupos que cantam, se fazem companhia. Ou a voz que vibra, solitária, que se exprime,  que sente, sofre e se lamenta, e que grita. Nos espirituais, os cantores faziam uso do corpo, em movimentos rítmicos, usando as mãos batendo palmas como acompanhamento. Nos blues, os mesmos movimentos acompanham a música...

O que me impressionava e impressiona,  ainda, é  esse ritmo suave, sincopado, hesitante, o quase embalar da voz, que nos leva a outros espaços, a outros céus: aos campos e às plantações de algodão, no Sul dos Estados da América, na zona do Mississipi. Aos escravos de outros tempos...




Toda a sugestão dessa outra realidade parece entrar dentro de nós, abanar-nos, despertar-nos! É o que eu sinto, pelo menos.

E, quando acompanhados de instrumentos - que funcionam como outras tantas vozes-, é igualmente emocionante.

Hoje procurei num dicionário de música italiano ("Dizionario della musica e dei musicisti", Garzanti, Le Garzantine, Musica) aquilo que desejava saber, mais profundamente. A wikipedia ajuda em certos casos, é mais rápida, mas nada como o verdadeiro dicionário!

Encontrei coisas que vos deixo:


“Blues é um canto popular africano, criado nos Estados Unidos. Seguia um ritmo sob a forma de 3 versos de 12 sílabas (dos quais se repetem os dois primeiros), e baseia-se numa escala tonal oscilante, entre o modo maior e o modo menor, por causa das notas chamadas "blues notes"
(1) ou "notas incertas", que surgem do encontro entre a escala pentatónica africana (cinco tons) e a escala heptatónica europeia. 

De inspiração profana e adaptados à expressão dos sentimentos individuais, enquanto o gospel ou os espirituais têm um carácter religioso e colectivo, os blues têm a sua origem, individual, nos cantos de trabalho dos escravos (work songs), ou dos gritos de chamamentos nos campos de algodão e de milho (shouts e hollers).

Espalha-se, presumivelmente, na 2ª metade do século XIX, pelo resto da América, depois já da emancipação dos escravos, nos estados camponeses do sul, em especial na zona do rio Mississipi.

É a primeira expressão musical negra autóctone, já que não sofreu qualquer influência do fluxo musical europeu, como o ragtime pianístico. Mas é a junção dos dois, fundindo-se, que vão dar origem ao Jazz, do qual vai ser sempre uma componente essencial.”

Descobrimos, pois, que os blues que se vão encontrar mais tarde em New York, ou espalhados pelos estados do norte, levados por esses escravos emancipados, os chamados urban blues, têm um carácter mais duro, menos doce, enquanto os country blues tinham a suavidade dos momentos que não passavam mais, dos dias e da monotonia dos trabalhos repetitivos...


Cantores de blues? São imensos. Parece que a primeira cantora de blues foi Ma Rainey, depois veio Mamie Smith (1883-1946), seguida  de Bessie Smith (1894-1937), e de Martha Smith (todas se chamavam Smith...).



Thomas Dorsey, compositor de gospel


Thomas Dorsey, compositor dos primeiros cânticos evangélicos gospel, acompanhou, antes, a cantora de blues Ma Rainey.



Os anos 20 andavam por ali perto, eram os tempos do Jazz Age de que fala Scott Fitzgerald, eram os tempos em que o Jazz aparece ligado às orquestras brancas que tinham chegado da Europa, orquestras de baile. É o tempo de swingar.

 "Em 1912, William Christopher Handy publica a canção "Memphis Blues", que compusera inspirando-se directamente nos cantos populares. 




(...) Levado para Norte, seguindo as migrações das massas negras, o blues desenvolveu-se nos guetos das grandes cidades (Atlanta, Memphis, St. Louis, Detroit, Chicago) caracterizando-se por uma maior dureza."

Desde Big Billy Broonzy a John Lee Hooker...




um minstrel negro

Os "transmissores" desta música nova, vão ser os minstrels, que cantam nos bares e tabernas mal-famadas (honky tonky) das cidades e aí aparece, a dada altura,  a guitarra, a acompanhar como uma segunda voz. Mais tarde é substituída pelo piano. O blues passa a ter uma forma instrumental, e vai dar origem ao boogie woogie. 


"Mas a sua primeira dimensão de espectáculo, surge  com as cantoras dos Anos Vinte, misturando-se agora com o jazz. Entre as mais famosas expoentes destes anos temos Ma Rayney, Mamie Smith e o seu "Crazy Blues", que foi, em 1920, o primeiro disco a ser gravado. Ou Bessie Smit, a mais importante."

E mais ainda fiquei a saber: o boogie woogie encontra nos anos 30, a sua primeira "band", em Kansas City: a de Count Basie!


Count Basie e a sua orquestra


"Do boogie woogie derivam as várias formas de rythm and blues (inicialmente chamado jump), do qual descende, como versão branca, o rock; por sua vez, fundindo-se com a outra matriz do canto popular, o gospel, deu vida ao funky, à música soul e, por fim, à disco music." (op.cit. Pg 95)

Nota (1): "As "blues notes" eram frequentes nos blues conferindo a esta  música uma indefinição tonal muito característica, pois num contexto harmónico se encontram em maior se apresentam baixadas de um semi-tom, como se pertencessem ao modo "menor". (op. cit. p.94)

exemplo de "blues notes"...

Podem ouvir alguns spirituals e blues... Antigos e mais modernos...


1)Paul Robeson e Old man river


Mahalia Jackson e Canções de Natal

2) Ma Rainey e Moaning Blues

Três canções por Bessie Smith : 
Poor man’s blues
Careless love
After you’ve gone


3) J. Lee Hooker


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Os meninos negros e os anjos ...


um anjinho negro, no blog "Chez George Sand"

Raffaello Sanzio, pormenor de um quadro: um "anjo"

Publicado no dia 24 de Dezembro de 2010, dia de Natal, no blog “Stormy Weather”, chocou-me este post, quando há poucos dias o li. 


Pensei e pensei em imagens de anjos e não encontrei um anjo negro nas belas pinturas renascimentais onde os anjos nos deslumbram. 

Vittore Carpaccio e os seus anjinhos "musicanti"


Nem vi em nenhum lugar querubins negros. Não descobri os "musicanti" negros.

Como foi que Deus se esqueceu deles? Ou foi o homem que não os soube ver?
Filippo Lippi "Madonna e angeli"

Por sorte, encontrei noutro blog (Chez George Sand) um anjinho negro que aqui vos deixo. Não foi pintado por ninguém, mas existe e tem umas asas de anjo!

De facto, eles andam por aí, a dançar...


Leiam este poema belíssimo! Se puderem, se souberem ... respondam-me!

"A um Deus branco"...

Anjos Negros

Mãe, nunca vi um anjo negro. Não há anjos negros, mãe?
Todos os anjos são brancos. Não há anjos como eu?
Olha, todas as asas são brancas. Como os anjos que estão no céu.
Mãe, eu nunca vou ter asas? Não há anjos como eu?
Mãe, não há meninos negros entre os anjos.
Onde estão os meninos negros anjos, mãe?
Mãe, onde fica o nosso céu?
Queria ser um anjo, mãe.

Não posso... Não há anjos como eu."

Esta menina era a ilustração do post...


Negros e brancos: 



domingo, 3 de novembro de 2013

O Saxofone e o Jazz...


"Jazz", óleo do pintor português Stuart Carvalhais

saxofone tenor

O saxofone teve o seu “brevet” em 1840. Inventado pelo belga Adolphe Sax, com características semelhantes às do clarinete, era porém de metal e não de madeira. 
Podia ter vários timbres: sopranino, soprano, contralto, tenor, barítono, baixo e contrabaixo, tal como acontece na voz humana...

Levado da Europa para a Améria, entrou a fazer parte das orquestras brancas de música ligeira e de baile, nos anos 20. Os tempos de Scott Fitzgerald e dos seus contos do Jazz Age.



Adquiriu fisionomia própria como instrumento solístico na música negra com Sidney Bechet, Johnny Hodges, Benny carter e, sobretudo, Coleman Hawkins a quem se deve a criação da técnica das "notas ligadas". E, ainda, Lester Young, Charlie Parker. E, last but not least, Louis Amstrong, claro




John Coltrane

Com o prevalecer do Jazz de improvisação singular, na polifonia de New Orleans, o sax transformou-se no símbolo desta música.


New Orleans e o rio Mississipi...


Também pelas suas qualidades de timbre, mais próximas da voz, no canto, do qual o jazz instrumental deriva, afinal de contas. Também pelo facto de não esta ligado a uma tradição de música culta, pôde ser re-inventado pelos músicos afro-americanos.

Coleman Hawkins e o jovem Miles Davis

Alguns saxofonistas célebres:

Lee Konitz no cool jazz, Sonny Rollins no hard pop, Ornette Coleman no free jazz  - além da  figura dominante de John Coltrane...


John Lurie


Hoje: lembrar nomes como John Lurie, Anthony Braxton, Roscoe Mitchell... 

Podem ouvir!

Anthony Braxton
Roscoe Mitchell
John Lurie
Louis Amstrong
 J. Coltrane e Duke
Coleman Hawkins
Lester Young e Charlie Parker