quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Sim, Camilo é genial…


Acabei, há pouco, o I volume das Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco. Segunda leitura? Talvez, porque me lembrava ainda de muitas coisas.
Estas suas Memórias são uma pequena maravilha! Se bem que 'maravilha' não pareça a palavra adequada, a verdade é a que me apareceu logo: certas páginas são maravilhosas. Geniais!
Uma maravilha de ironia, sim, de melancolia também, de tristeza e de desalento, nas confissões, nas lembranças. 
E tanta, tanta desilusão. 
Era o primeiro dia de Outubro de 1860", quando Camilo Castelo Branco entra na 'Cadeia da Relação do Porto' (hoje Centro Português de Fotografia). 
Como ele próprio conta, entre poesia e um certo distanciamento, no Discurso Preliminar:
"O céu estava azul como nos meses estivos. O sol parecia vestido das suas galas de Abril, a bafagem do sul vinha ainda aquecida das últimas lufadas do Outono. Que formoso céu e sol, que suave respirar eu sentia, quando apeei da carruagem à porta da cadeia!” (pág 76)
Quase no início das 'memórias', fala da atracção do suicídio. Anda fugido, tem conhecimento de que vai ser preso em breve e, parado na ponte de Amarante, vai pensando na sua vida. Sentimos que essa ideia de acabar com a vida é para ele quase banal, tantas vezes lhe veio já à cabeça. "Uma coisa corriqueira". 
De facto, escreve:
O suicídio é-me tão habitual, que já nem poesia nem grandeza tem para mim. Logo que este modo de morrer, à força de ser meditado e premeditado, se desprestigiou, penso no suicídio como uma anasarca, se os intestinos me doem, ou uma congestão  cerebral, se me latejam as fontes. A este desprezo da morte vem de seu o desprezo da vida.”
Conta o que lhe viera à cabeça, em Amarante, na Ponte de São Gonçalo:
ponte sobre o Tâmega, em Amarante
À meia noite estava eu debruçado no parapeito da ponte, e não pensava nos feitos heróicos (…) contra os franceses naquela localidade. Pensava em medir o salto da ponte ao Tâmega, que derivava murmurando e desenrolando as fitas de prata, que lhe emprestava a lua.” (página 64)
Tem muito que recordar! Páginas atrás, falara de Fanny Owen e de José Augusto, seu amigo. 
José Augusto que lia, à mulher, textos de Byron “para entreter os últimos meses da vida de Fanny Owen, sua esposa”. 
 Fanny Owen -'Francisca', no filme de Oliveira
os dois volumes de Memórias do Cárcere
Esposa em quem nunca tocara, mesmo depois de ter casado com ela, devido a uma intriga que Camilo tecera –ele também interessado em Fanny como diabinho que era. O ciúme nunca morreu, em José Augusto, e a vida dos dois foi um inferno.
"Francisca", (Teresa Meneses e Diogo Dória)

Recorda-os agora, no alto da ponte, e imagina um diálogo com Fanny e José Augusto:
Vi agora o retrato de ambos. Sempre que os contemplo, creio que me falam, e dizem: 'E tu vives ainda! Nós, tão agourados da boa fortuna, caímos como duas flores da fronte duma formosa, ao luzir a manhã, e acabado o baile.' 
Camilo e Fanny-Francisca: "acabado o baile"
Camilo continua o seu diálogo-monólogo, doloroso e lúcido, sobre o irreparável: a infelicidade de que foi ele o causador. Acusam-no:
"cingido de serpentes", como a Medusa de Caravaggio
'"E tu, cingido pelas roscas de tantas serpentes, estás aí, como ileso, perguntando às nossas imagens por que fraqueza morremos!" (página 63)"
E, impiedoso, tentando talvez justificar-se aos próprios olhos, responde, pensando em Fanny.
Não saberá ela que eu, tantas vezes, encostado às grades do seu sepulcro, na Lapa, lhe tenho contado o segredo desta minha pertinácia em viver?"


o olhar da Medusa, de Caravaggio
E, com o seu olhar de Medusa, continua o monólogo, agora lamentando a triste sorte do amigo, José Augusto Pinto de Magalhães, "obscuro mártir da alma incompreensível" -para cuja desgraça tanto contribuíra.
"Não me ouviria José Augusto, no Cemitério do Alto de São João, perguntar às auras coadas por ciprestes em qual daquelas rasas sepulturas estavam as cinzas do obscuro mártir da alma incompreensível que Deus lhe dera?...”
Camilo e José Augusto, em "Francisca"
Desta história trágica de Camilo, tirou Agustina Bessa Luís um belo e terrível romance, Fanny Owen (1979), e nele se inspirou Manoel de Oliveira para o seu filme "Francisca" (1981), do qual aproveito algumas imagens. 
 Agustina Bessa Luís
Agustina tão esquecida! E, no entanto, ainda viva - mas quem fala dela? Escritora que é, também, em certas páginas, genial...
A verdade é que ela 'cria' uma Fanny viva, alegre, desejosa de viver mas sobre a qual cai o manto da desgraça. 
John Waterhouse, 1891
Como seria Fanny? Deixo algumas imagens de mulheres que poderiam ter sido como ela.
John Waterhouse teria visto assim Fanny?
Henry-Peach Robinson viu a morte dela assim?

reedição, em 2013, com Prefácio de M.Alzira Seixo
Que acrescentar mais? Entrar as Memórias do Cárcere é ‘mergulhar’ na análise cruel, na descrição, perfeita e crua,  do que foi a vida de Camilo, sem esconder nada, sem embelezar o que não era belo, sem perdoar, nem querer ser perdoado. 
Um livro extraordinário! Com histórias extraordinárias! 
A ler e reler este escritor genial…

(in “Memórias do Cárcere”, Parceria A.M. Pereira Lda, 8ª edição, 1966)

sobre Fanny Owen:

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Dorme o teu sono, coração liberto...

Para o meu pai:
"Dorme o teu sono, coração liberto",
recordando toda a beleza que amaste...
A Vitória de Samotrácia

 A Sibilla Delfica, de Michelangelo
.........
E lembro os versos do Poeta: 

"Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo e agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

(in Sonetos de Antero de Quental)
Sandro Botticelli

amanhã vai ser lua cheia!


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Lembrar Marrocos ...

Para os meus amigos, em Marrocos!

 Medina de Rabat (MJF)

 Medina de Rabat (net)
Lembrei-me  de Marrocos e de Rabat, onde vivi mais de dois anos. Vida nómada a nossa … 
De peripatéticos, diria Aristóteles, que o era a filosofar, a andar sempre dum lado para o outro.
A verdade, porém, é que acabámos por viver bastante tempo em cada um dos lugares : Itália, São Tomé, Israel, Marrocos!
Um périplo por alguns continentes e vários mundos:  cheios de coisas diferentes: gentes, costumes, línguas, culturas. A riqueza que traz a diversidade dos povos!

A verdade é que me lembrei de Marrocos, talvez devido aos fogos que têm girado o país de Norte a Sul, talvez por ver as pessoas desesperadas, os socorros entregues aos bombeiros, homens generosos, sacrificados, sem meios, de olhos perdidos, fatos chamuscados, rostos negros de fumo -como os mineiros! E Marrocos ajudou-nos !
bombeiros, foto do Facebook (Vasco Ganda)
Foram imagens que me deram vontade de chorar. E, ao ver que, ao lado da Itália, da Rússia e da Espanha (apenas!), Marrocos tinha mandado dois Canadair novos, prontos a intervir, senti um calor na alma, senti voltar um perfume de outros lugares – que me fazia bem! Lembrei Marrocos, Rabat, os amigos, os lugares,  a paz que ali sentia.
A Medina de Rabat na sua frescura, mesmo nos dias quentes de Verão, protegida que era por panos, telas, que não deixavam passar o calor.
E revi rostos. Fahtma, Hakima, Hassnâa, Hanane. Recordei pessoas que nos acompanharam ali e conviveram, em nossa casa. 
Lembrei a casa onde vivemos, arquitectura de bom gosto, um jardim de sonho, que pertencia a uma jovem mulher bela e inteligente que ficou uma grande amiga!
E tive saudades dela também.



A medina de Rabat era linda! Coberta por um tecto em vidro, como vitrais transparentes, encastoados em prata.
O cheiro a cominhos e a canela, a curcuma amarela, acre e perfumada, as pimentas coloridas, a paprika, os fiozinhos de açafrão verdadeiro que não têm nada que ver com o pó colorido que se compra por aqui e por ali. O açafrão que é no fundo uma parte da flor, os filamentos…
Medina de Rabat, rue des Consuls
Os vendedores da medina, comerciantes que tudo vendiam, e sempre –mas sempre!- com a eterna discussão do preço: o que constituía um prazer para ele - e um desafio à inteligência do comprador. 
Os barros, os artigos folclóricos para turistas, ou os móveis e as peças maravilhosas, esculpidas em raiz de tuya, as tigelas pintadas de branco e azul, modeladas à mão, os trabalhos delicados em prata, na Rue des Consuls, nas lojas dos judeus que ainda lá vivem. 


Ou as djellabas coloridas, espécie de túnicas até aos pés, tecidas em materiais diversos, para homem e para mulher, com capuz ou sem ele, para Inverno ou para Verão - na medina encontrava-se tudo. 
Descobri boas fotografias na internet que mostram bem a variedade de tudo  o que se encontrava e o colorido da medina
Muitas das que tirei perdi-as, mas há algumas que re-encontrei e também as ponho...

variedade de tapetes e tajines, os 'tachos' de barro

“Qual será o preço real de um objecto qualquer, em Marrocos?”, perguntava alguém. 
Foi o escritor Elias Canetti (Prémio Nobel de Literatura 1881) quem respondeu bem a essa pergunta, no seu livro “Vozes de Marraquexe”,(1954), publicada em Portugal pela editorial Dom Quixote:
É impossível saber, nas medinas de Marrocos, qual será o preço justo seja do que for, porque não existe um preço certo.
Depende do dia, do ‘mood’ - como se diz hoje- do vendedor, da  cara do cliente, da empatia que sentem – ou não- um pelo outro. E vem o chá quente e perfumado, com sabor a hortelã, em copos de vidro coloridos. E, com o chá, a conversa. O cliente senta-se e falam de outras coisas da vida que até podem ser íntimas.

Conservo o meu tabuleiro de chá, os copinhos de cristal e o velho bule onde a Hassnâa -e depois a Hanane- preparavam o chá. 
a Hanane
Deitavam-se umas colheres de chá verde no fundo do bule, uns quadradinhos de açúcar, em cima dos quais se punha um grande ramo de hortelã e se deitava água a ferver. Depois, para não sair por fora dos copos, nem pingar, erguia-se o bule e deitava-se o chá de alto! O chá pode ferver e referver e tem de ser muito açucarado. Em dias de calor, revela-se um bom remédio!
 ritual do chá marroquino
Também na medina tomávamos o chá, antes de se negociar. Havia o Yassin e os primos. O Yassin era um grande conversador e falava horas com o Manuel. Gostavam os dois muito de conversar...


"Quantas mulheres tens, mon ami?" Ou: "Então hoje trouxeste a outra mulher?"
Como se o negócio em si não interessasse a nenhum deles. Era um ‘ritual’ de reconhecimento? 

Acabava por ser também um prazer para quem comprava! E, se o cliente voltasse dias depois, era com gosto que reencontrava a conversa do vendedor, para quem ele era já “mon ami”. 
Que importava saber se o ami não era de verdade ami: havia uma relação, verdadeira essa, que se criava (ou não) e isso era importante para os dois.  
Havia outra Rabat, igualmente atractiva: a Kasbah des Oudayas, as suas ruelas, o Café Maure e a vista sobre o Bou Regreb.


Kasbah des Oudayas

Mausoléu Mohamed V (MJF)

Ou a Rabat moderna, com o Mausoléu do Rei Mohamed V, a rua principal, com os cafés e as pequenas praças e jardins. Mas era na medina que tudo parecia tão diferente!
Mausoleu Mohamed V (MJF)
Havia outras cidades bem diversas da capital de Marrocos. Por uma bela autoestrada, entre campos verdes salpicados de flores e flores amarelas e cor de laranja, na Primavera, chegava-se a Fez.
Fez, entrada da medina (net)
A sua labiríntica kasbah - que chegava a ser claustrofóbica, a vista espantosa que se tem sobre a medina, ao pôr do sol, quando as casas brancas ganham um tom rosado. Nunca vi burrinhos tão bonitos como na medina de Fez!

Fez, imagens da net
E nas mesquitas, os minaretes altosde onde, ao tombar da noite, se ouviam os 'chamamentos' para a oração, como um coro a várias vozes. 
E, na Maison Bleue jantava-se bem. Ou comiam-se os bolos de amêndoa com o chá de hortelã.
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tabuleiro de chá e bolos (internet)
 medina de Fez (MJF)
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burrinhos de Fez (MJF)
Fez, entrada e burrinhos (fotos de MJF)

Djema-el-Fna à noite
Ou Marraquexe e a praça Djema-el-Fna, os palácios, a Koutoubia, ou o Café de France onde, de Inverno, no terraço, se bebia uma tigela de 'harira' bem quente, à espera de ver o õr do sol detrás da Koutoubia, e a olhar as tendas e as luzes lá em baixo na praça, e toda a riqueza de cores, de cheiros, de barulhos e de pessoas! 



foto MJF

E, na costa, a delicadeza da Cité Portugaise, de El-Jadida, com a Cisterna Portuguesa do século XVI- que nos aparece como num sonho.

A simpatia das gentes de El-Jadida, do amigo que, na despedida, nos veio trazer a Rabat um belo cavalo árabe, de bronze, e uma djellaba com lindos tons de ocre e rosa que, por acaso, trago vestida hoje! 
vista do hotel, em El-Jadida (MJF)

El-Jadida, a Nova, é uma cidade linda sobre o mar. Muitos anos atrás tínhamos passado uns dias em El-Jadida.

El-Jadida, medina
El-Jadida, ou Mazagão, que foi uma vila portuguesa a partir do século XVI. Onde se fundou  a Cidadela e a "Cité Portugaise", onde se construíram belas fortificações e onde, depois de ser 'sala de armas', se criou a maravilha que a Cisterna, em estilo Manuelino, para aproveitamento da água das chuvas. 
Cisterna (imagem da net)
Cidadela de El Jadida (imagem da net)
Um trabalho de arquitectura maravilhoso, executado pelo italiano Benedetto da Ravenna e pelos irmãos Arruda, naturais de Évora, e construtores em Portugal de obras como a Torre de Belém, o Forte de São Julião da Barra: Francisco e Diogo Arruda. (*)


Cisterna (MJF)
Ou a costa, recortada, e cheia de areais junto ao mar azul, que vai até Essaouira. Essaouira onde os jovens olham para além do mar e esperam.
Essaouira, olhando para longe (MJF)
Essaouira e o porto, a sua Kasbah e os elegantes arcos das Três Portas
Três Portas (MJF)
E a medina cheia de coisas bonitas! Tantas obras diferentes em "tuya", a raiz da árvore, quase esculpida em formas e objectos únicos!
porta-cartas,em tuya (MJF) 
Essaouira, barcos em reparação (MJF)

Essaouira que, em tempos, se chamou Mogadouro (terra de todos os ventos?) e que, mais tarde, veio dar o nome da nossa Mogadouro, ao Norte de Portugal! E não ao contrário, como se possa julgar!
Essaouira (MJF)


Essaouira e gaivotas (MJF, 2002)
E a estrada continua para Sul, com areias finas e brancas, ao lado, junto ao mar e os precipícios quando se começa a subir pelas montanhas. 
Para o Norte, no Rif, outras cidades invulgares: há, por exemplo, a cidade azul de Chefchaouen, cidade inimaginável!
em Chefchaouen
a oliveira centenária em Chefchaouen (MJF)
 Chefchaouen azul (MP)
Fora da cidade é o campo. Os que vêm do campo para o mercado, param à entrada, cá em baixo, arrumam as suas camionetes, ou deixam os burrinhos e as mulas, a pastar. 


Chefchaouen, no alto da serra (MJF)

Depois, sobe-se e, de repente, rodeada de serras, o suave azul de Chefchaouen, a das casas caiadas de branco e azul-clarinho que, ao longe, me pareciam feitas de algodão. 
duas meninas de Chefchaouen (MP)

Que dizer mais? Nunca parava de lembrar o que vi em Marrocos. Tanto ficou para dizer!
Um dia, tivemos de regressar a casa. Quero recordar ainda Tânger, que conheci mal - e disso tive grande pena. Tânger acolhedora, e os seus cafés antigos, conheci-a só já de abalada para Portugal. 
Mas vejo os cafés, as ruas, a comida, as pessoas e a sensação de estar ‘em casa’ que tudo me dava!

Sim, hoje tive saudades de Marrocos!
adeus à casa de Marrocos (MJF)


(*) Sobre El-Jadida e a Cisterna Portuguesa: Mazagão foi uma vila portuguesa, em terras marroquinas, sob o domínio da Coroa desde 1486. Era um entreposto comercial. Os portugueses só se instalaram realmente na vila, em 1502. 
Em 1514, surgem as fortificações, a chamada Cidadela e, depois, a cisterna que deve ter servido inicialmente de "sala de armas" antes de ser transformada em reservatório de água. 
Em 1541, Francisco de Arruda e o irmão Diogo acompanham o italiano Benedetto da Ravenna a Mazagão. Este italiano de Ravenna concebe a bela fortificação da vila.
A Cité Portugaise de El-Jadida foi decretado Património Mundial da Humanidade, pela UNESCO.