terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

"Os olhos rasos de água", de Eugénio de Andrade



Picasso, "família"
Eugénio de Andrade - 
Os olhos rasos de água


Van Gogh, sol ardente sobre a seara


Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.

Van Gogh, o quarto em Arles


Claude Monet, mulher com sombrinha

João Vaz, Praia

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.


Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.


Eugénio de Andrade, in As palavras interditas

4 comentários:

  1. Belíssimo este poema. Muito intenso.
    As telas que o acompanham são igualmente lindas.
    Beijinho. :))

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  2. gostaria de saber mais sobre a tela de Van Gogh, Sol Ardente Sobre a Seara...
    adorei tudo...

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    1. Caro(a) anónimo(a)! Como posso dizer-lhe mais coisas sobre a seara ardente de Van Gogh se não sei para onde lhe mandar...
      Bom 1º de Maio!
      Volte sempre!

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