quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Ratinho e Ouricinho e o regresso a casa…


vidrinhos de Veneza, de Burano

Pois é, fui viajar uns dias e, desta vez, “eles” ficaram em casa. Eles, claro, são o Ratinho Poeta e o Ouricinho Dan. 
Andei por Veneza e Trieste. De avião, de comboio e de vaporetto. Voltámos ontem.
Estão tristes, ali, num canto. Calados, a ver-me acabar de desfazer as malas, atarefada. Os meus amigos se calhar teriam gostado de ir. Ao olhá-los, pensei que estavam com inveja do burrinho Alonso, que levou as chaves dos cadeados. Percebi que tinha de lhes explicar alguma coisa. Tinha de quebrar aquele silêncio tão sentido da parte deles.
- Era complicado, amigos queridos. Preparei a viagem a correr. Achei arriscado irem, foi melhor ficarem em casa…
- E por que não nos perguntaste?
Era o Ouricinho, queixoso.
- Deixa lá, sei que fizeste tudo a correr, disse o Ratinho.
E não resistiu à ironia.
- Como sempre…
- Tens razão. E levámos coisas a mais!
- Como sempre, repetiu ele abanando a cabeça.
- Fomos carregados de roupas inúteis. Um peso horrível e um desconforto a arrastar as malas de rodinhas por aqui e por ali.
- Ora…tu vais sempre carregada! Com tralhas e mais tralhas que nunca usas!
Tinha razão o Ratinho.  Olhavam-me os dois de dentro da gaveta da cómoda. O Ouricinho calara-se e estava melancólico, de olhar perdido no vazio.  De repente, apontou para o burrinho Alonso:
- Mas a ele, levaste-o!
- Tive que levar, Ouricinho. Ele é que tem as chaves das malas.
- Sim, claro. Eu é que sou o porta-chaves.
E o burrinho Alonso inchou o peito onde, na camisola, se destacava uma ferradura bordada.
- Eu também era capaz de as levar!, resmungou o Ouricinho.
 Tinha pegado na chave de um cadeado pequenino e girava-a na patinha.
- Não, disse o Alonso. Não é o teu trabalho, tu não foste preparado para seres porta-chaves! É uma responsabilidade.
Eu corroborei a afirmação, mas pensei que era demasiado convencido o Alonso:
- Sim, Ouricinho. Ele é que sabe levar as chaves e encontrá-las quando são precisas.
Era uma desculpa inventada a correr. O Ratinho percebeu e respondeu logo:
- Não tens que te justificar! A escolha é tua. Nós gostamos de ti e aceitamos o que decidires. Estávamos só com um bocadinho de inveja do Alonso que se fartou de ver coisas bonitas. Imagino!
O Ouricinho acrescentou:

- Sim! Trieste e Veneza, são lindas de certeza… As pontes, a Laguna, os vaporetti dum lado para o outro! Ele viu tudo isso...





- Oh! Eu?…eu fiquei sempre a tomar conta das chaves, disse o burrinho. E não vi nada.

Eles riram-se, finalmente, aliviados e bem dispostos. Que malandrecos! Eu pensava de facto que tinha sido melhor para eles ficarem em casa. Continuei:
- Por lá houve chuvadas horríveis, ventanias…
- Por cá também!, não resistiu o Ouricinho, a protestar um pouco mais. Viste  como está a varanda, não viste? Os vasos no chão, a terra entornada, etc.
- Sim, vi. Mas por lá foi pior! Enchentes, tufões por todo o norte da Itália. Acqua alta, em Veneza.
-Estavas lá?, entusiasmou-se o Ratinho.
- Não, já estávamos em Trieste, confessei.
 Trieste, noutro ano...

- Trieste também já conhecias. Pelo que contaste, ali vivia-se bem… Descansaste. Vê-se na tua cara.
Era o Ratinho, a amenizar a conversa.
- Mas havia a “bora” triestina! Um vento gélido que faz entontecer a gente!
- Sim -protestou outra vez o Ouricinho. Mas viste a Regata Histórica Internacional. A regata da Barcolana! Devia ser bem giro…
- Estava muito perigoso o tempo! Podias até ter voado porque és pequenino! Havia a bora, mas não era a “bora nera” que essa é de fugir, dizem os triestinos. De fugir!  Céu fechado, chuvas batidas e muito frio!
- Sim, mas viste a feira e as barracas… E as comidas! E os barcos!

O Ouricinho fixava-me, pensativo. 
- Devia ser bonito. E à noite então...
- Sim, Ouricinho, era muito bonito à noite! 

Lembrei-me da bela Piazza dell'Unità ao cair da noite, com o chão molhado e a luz azulada dos candeeiros. 

E os cafés 'históricos' de Trieste. Com a sua carga de escritores e de livros. James Joyce e Italo Svevo. Umberto Saba e Giorgio Voghera. 
James Joyce, no Ponterosso


O Café dos Espelhos, o Café San Marco, o Café Urbanis. O Tommaseo. E por aí adiante...
Caffè San Marco

Caffè Degli Specchi

O Ratinho atalhou:
- Voltaram bem e isso é que importa. Estás aqui com o Manuel. Estiveram contentes. E nós tomámos conta da casa! Está tudo em ordem!
O Ouricinho riu-se:
- É verdade! Deu-nos um trabalhão! 
- Imagino....
Mas o Ouricinho já não estava triste e disse:
E vais-nos contar tudo o que viste! 


12 comentários:

  1. Que bonito!
    Adorei! Já tinha saudades destes diálogos!
    Pois é...coitadinhos dos amiguitos; ficaram cá tristes e sozinhos...mas felizmente agora já está tudo como de costume!
    Tem um amiguito novo, o Alonso! É muito giro e embora o relacionamento entre eles não tenha começado da melhor maneira, tenho cá o pressentimento que se vão dar bem e ainda aí vão aparecer histórias fantásticas com todos!

    As fotos estão lindas! Não há dúvida que são belas paragens! Um encanto aqueles cafés!

    Isso de levar as malas cheias e depois nem metade se usar, é sempre também o meu problema!

    Bem, estou muito contente que tenha regressado com os seus post que adoro:)

    Um beijinho grande:) :) :)

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    1. Não sei se vai ser uma grande amizade, tens razão. Para já o burrinho Alonso meteu-se na gaveta com as chaves... E eles contentes!
      Beijinhos

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  2. Muitos Parabéns pelo seu aniversário, Maria João! Espero que tenham sido umas férias fabulosas!
    Adorei a fotografia a preto e branco que encima o blogue. Muito bonita!
    Bjinho :-)

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    1. Obrigada, Presepio do Canal! beijinho também

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  3. Gostei tanto deste post e estive-me a rir com o diálogo deles, agora também com o burrinho Alonzo. O melhor mesmo será fazer uma nova viagem e agora levar os três.
    um grande beijinho
    Gábi

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  4. Um deslumbramento!
    Vou voltar para ver tudo em detalhe num ecrã decente.
    Passo, a correr, para lhe desejar as maiores felicidades na vida e saúde, muita! Soube agora pelo blogue da Ana (in) que foi aniversariante no passado dia 16.

    Bj de parabéns.

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  5. Nós por cá também estávamos tristes e com saudades.... Não é Isabel?
    Falámos muito nos nossos amigos Manuel e M. João.
    Fico feliz que a viagem tenha sido um sucesso!
    Que tenham regressado com a alma e os olhos repletos de coisas bonitas.

    mas tem de nos prometer que da próxima vez, leva menos uma camisola na mala, e lugar dela, coloca os nossos amiguinhos...:))

    Um abraço apertado, amiga!

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    1. Estávamos, sim!

      Ainda bem que estão de regresso! :)

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  6. ~~~
    ~~~~~ Grata pela interessante partilha.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    ~ Beijinhos com votos de excelente semana.
    ~ ~ ~ ~

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  7. Adorei a fotografia que escolheu para o rosto do blog.
    Claro, o diálogo com os nossos amigos fazem-me sorrir.
    Eles lá compreenderam.
    Também sofro do mesmo mal, levo sempre coisas a mais... mas já consegui diminuir o volume.
    As fotografias estão lindas e faz-nos desejar conhecer aquelas paragens.
    Tinha saudades mas acho que a viagem foi num momento especial e congratulo-me.
    Beijinhos. :))

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  8. Tb gostei do post e gostava de ir a Trieste.
    Bom fim de semana!

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  9. O mesmo digo, gostei do post, gosto de ti e gostava de ir a Trieste de certeza.
    Feliz regresso a casa! Beijinhos

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