segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Amos Oz: Os livros esses amigos!



Hiroshige, Crisântemo 

Há instantes difíceis em que a ausência dos que se foram nos pesa - sobretudo se esse alguém foi importante na nossa vida e marcou a nossa infância. Ficamos atordoados e temos a sensação de que o tempo passou depressa de mais. E que é tarde para tanta coisa! 

meio da beleza que nos rodeia, efémera também, essa ausência deixa-nos tristes e perplexos. E pensamos que, agora, estamos nós na linha da frente. E que não temos a protecção deles. Cabe-nos a nós a tarefa de proteger outros. De ser o ponto de referência, o 'marco' de que falava José Régio, na sua "Carta a um Juvenil Individualista" (*)
Berthe Morisot, Menina com pássaro

Senti necessidade de reencontrar a paz interior. Voltei aos livros, abandonados na mesa de cabeceira, porque não há como um livro para nos inspirar tranquilidade. E, simultaneamente, dar-nos uma certa paz e aceitação. Nada é para sempre, nada é verdadeiramente nosso, a não ser a paz interior e a frescura do ar, escreveu Kobayashi Issa.  

“Nada me pertence –
Só a paz interior
E a frescura do ar”
Passemos aos livros. Retomei a leitura de “Uma história de Amor e Trevas”, de Amos Oz, que vou lendo devagarinho. Tem mais de 800 páginas! Abri-o, ao acaso, nas páginas em que recorda a mãe, que se chamava Fania. Lembra a sua morte que o deixa abalado até ao âmago. Uma dor sem explicação, uma morte sem absolvição, porque ele não perdoa à mãe tê-lo abandonado, suicidando-se com 39 anos e deixando-o, sozinho, no principiar da vida. 
Tinha doze anos e meio. Sofre e rebela-se. Revolta-se contra o mundo: porque a nossa dor é como se fosse culpa do mundo inteiro! 
E o jovem Amos não entende por que lhe foi dada essa dor. Pensa na mãe com raiva, sem perdão. Não consegue desculpar esse abandono!

"No decorrer das semanas e meses que seguiram a sua morte, não pensei nem um momento no sofrimento dela. Tapei os ouvidos para não ouvir o grito de desespero silencioso que sucedera a essa morte e que soava na casa toda. (...) Sentia apenas humilhação e cólera. (...) Não lhe perdoava ter-se ido embora sem uma palavra de adeus, sem um beijo, sem uma explicação."
Mais tarde, depois da publicação do livros "Jusqu'à la Mort", a melhor amiga da mãe, Lilenka,  escreve-lhe: "Sinto-me o último dos Mohicanos agora que os meus amigos se foram. Gostava de falar da tua mãe. Um dia será..." 
Lilenka relembra, brevemente, essa amizade enorme -que vinha de Rovno, a pequena cidade da Polónia onde tinham crescido, no seu mundo de judeus, da escola  hebraica, a Tarbout, antes do cataclismo que os obrigou a irem para Israel. 
A mãe, Fania Mussman, é a última a partir. Primeiro seguem os pais, depois as irmãs, Sonia e Haïa.  Tinham estudado todas em Praga porque a Polónia se tornara  demasiado perigosa para os judeus. Acabado o curso, partiram para não voltar mais.
Há muito tempo que os judeus de Rovno se sentiam inseguros, como sobre um vulcão prestes a explodir. 
Reuven Rubin, Concerto com vista
Procuraram o lugar onde estariam a salvo mas em que muitos não encontraram o sonho que esperavam. "Essa aspiração ou desejo de alguma coisa que não pertence a este mundo".
Nem a paz de espírito. Nem a frescura do ar. Jerusalém era uma cidade agreste dura, gelada de Inverno, escaldante de Verão, uma cidade pobre. 
Reuven Rubin, Jerusalém

O resto da família de Fania, foi trucidada, nos anos 43-44, pelos nazis, secundados por Ucranianos e Lituanos, sob a indiferença dos Polacos. Como desapareceram muitos, por parte da família do pai, os Klauzner, entre os quais o irmão mais velho com a mulher e um filho de 3 anos.

"Testemunhas e vítimas do ódio crescente que lhes votavam os vizinhos polacos, ucranianos e alemães e que se exprimia pelo anti-semitismo católico e ortodoxo." (pg.318)

Nesse ano 1943-44, 25.000 almas, jovens, mulheres, velhos e crianças foram conduzidas à floresta de Sosenki onde a mãe e as amigas costumavam passear, no Verão. 
Escreve Amos Oz (pg. 366): "entre os ramos, os pássaros, os cogumelos, as groselhas dos arbustos e as bagas, os Alemães e comparsas, em dois dias apenas, fuzilaram-nos, ao lado das fossas já cavadas."
"A tua mãe vinha de uma família destruída e destruiu a vossa", escrevia Lilenka, tentando explicar o inexplicável, o suicídio de Fania. 
Todos mortos: os condiscípulos da mãe e das suas irmãs, os professores da escola, o director por quem as meninas se apaixonavam, o professor distraído, a professora de ginástica, o professor de pintura, até os idiotas lá da terra. 

"Os ricos, os proletários, os religiosos, os assimilados, os baptizados, os tesoureiros, (...) os aguadeiros, os comunistas e os sionistas, os intelectuais, os artistas e os idiotas e quatro mil crianças." (pg.366).
"Toda a gente", diz Oz.
Mais tarde, o escritor interrogar-se-à sobre a melancolia do olhar da mãe. "Havia como um fino véu de tristeza sonhadora nela. Emoções secretas e sofrimentos românticos, nessas meninas de boa família de Rovna." (...) Alguma coisa nesse ensino do liceu desses anos 20 uma espécie de musgo romântico enchera a alma da minha mãe e dessas amigas, havia na sua juventude uma bruma afectiva muito densa, russo-polaca, a meio caminho entre Chopin e Mickiewicz. 

Entre o sofrimento do jovem 'Werther' e de Byron, algo de crepuscular entre o sublime, o tormento, o sonho e a solidão dos pirilampos enganadores e das aspirações e do desejo que obcecaram a minha mãe praticamente toda a vida e a seduziram até ao momento em que, presa na armadilha, se suicida, em 1952."

A relação com o pai -muito tímido sem capacidade de mostrar a afectividade- era diferente, afastada. Não conseguem entender-se, na dor enorme,  fechados um ao outro, cada um no seu sofrimento. Vivem isolados do resto do mundo, e da família também, sem receber ninguém, durante quase uma ano. Aos 13 anos, Amos Oz quer ir viver e estudar para o 'kibbutz' de Houlda. 
"Foi nessa altura que me pus a pensar um pouco nela. À noite, depois das aulas, do trabalho e do duche (...) eu ficava sozinho e ia-me abrigar num banco de madeira da sala de aula. (...) E cada pormenor dos últimos tempos me passava frente aos olhos."

Lembra uma passagem, tirada do conto de S. Y. Agnon, 'À fleur de l'âge', escritor que ele conheceu, na infância e juventude em Jerusalém,  e que admira profundamente. Escreveu Agnon:
"A minha mãe morreu na flor da idade. Com trinta e uma nos de uma vida amarga e efémera. Passava os dias fechada. Não saía, não via as amigas. Não queria. (...) A nossa casa triste e silenciosa não se abria para ninguém. A minha mãe deitada, pouco falava. Mas quando à mínima palavra para mim era como se asas imaculadas se abrissem e me levassem para as esferas celestes."

Sente companhia nesta dor semelhante à sua. Imagina a mãe de outro modo, vítima da vida que lhe caíra em sorte: desadaptada ao clima duro, ao calor e ao gelo, à pobreza dos judeus askhenazitas de Jerusalém. 
Vê-a, agora, numa "aura de solidão e de melancolia que flutuam, em redor dos aristocratas introvertidos, nas peças de Tchekhov ou nos contos de Gnessin." 
A páginas 459, fala do amor pelos livros, desde rapazinho, e das conversas que tinha com a mãe e como ela o levou a amá-los. Todas as noites inventava uma historia para ele, de duendes, fadas, feiticeiras. Na noite seguinte, tinha de ser ele a inventar uma história para contar à mãe. 
“Tinha eu sete ou oito anos - (…) a minha mãe disse-me que, com o passar do tempo, os livros podiam mudar -pelo menos tanto como mudam os seres humanos- com esta diferença que as pessoas deixam-te mais cedo ou mais tarde, basta que não encontrem já em ti algum proveito, ou prazer, ou interesse, ou sentimento, enquanto que os livros nunca te abandonam. Podes esquecê-los muitas vezes, ou pô-los de parte durante longos anos, ou para sempre. Mas mesmo que os tenhas atraiçoado, eles nunca te pregarão nenhuma partida: vão esperar, silenciosamente, humildemente, na prateleira. Dezenas de anos mesmo. Sem uma queixa. E, de repente, na noite, sentirás um desejo enorme de procurar um livro – um livro que puseste de parte ou que praticamente se apagou da tua memória muitos anos antes. Mesmo assim, ele não te desiludirá, descerá do seu poleiro para te fazer companhia quando precisares. Sem reserva, sem procurar pretextos, sem se perguntar se vale a pena, se tu o mereces. Responderá imediatamente ao teu apelo. Nunca te abandonará.”
A mãe explica-lhe como os livros podem ser os nossos grandes amigos. Os mais fiéis! Como não  assinalar o pessimismo destas palavras de Fania Mussman... 

Para escrever as suas histórias simples, sobre "aquilo que está à nossa volta”, da banalidade dos dias e das pessoas (in)vulgares que, no entanto, encheram o nosso passado, e acompanham o nosso presente, 'ajudou-o' o escritor americano, Sherwood Anderson (*): "Winesburg, Ohio" cuja tradução Oz lê em 1959. 
Sherwood Anderson

Quantas vezes  li e reli esse livro! Chama-se "Cidade dos Estranhos", na velha edição da colecção Miniatura, e tinha uma capa de Bernardo Marques. Hoje, existe uma nova edição, intitulada Winesburg, Ohio (saída em 2010, nas edições Ahab, com uma nova tradução).

Porque o escritor não tem de descobrir assuntos sublimes! Tem de ser original, de falar do que viveu e sentiu, de um modo pessoal, do que lhe for mais próprio. Influencia-o, pois, na escolha de assuntos  simples da vida, do passado, da família, dos sítios onde nada acontece e onde tudo aconteceu! 
Dizia Amos Oz: “O mundo escrito…anda sempre à volta da mão que o escreve, onde quer que aconteça o que ele escrever: onde tu estiveres, é o centro do mundo.” Histórias de amor e trevas
Uma história de amor e trevas, 
filme de Natalie Portman

Passe-se a história -seja ela qual for!- em  Winesburg, no Ohio ou Telavive, esteja o escritor onde estiver, o centro do mundo é ele e o que vai escrever!
Assim, eis-me a abrir outra vez o livro que deixei inacabado, muitos meses atrás. E a descobrir novas coisas. Como acontece sempre com os livros.

"Os outros deixam-te, mais cedo ou mais tarde, basta que não encontrem já em ti algum proveito, ou prazer, ou interesse, ou sentimento, enquanto que os livros nunca te abandonam."


(*) José Régio, Lição inútil ou carta a um Juvenil Individualista, “presença”, nº 14/15, de 23 de Junho de 1928

7 comentários:

  1. Muito interessante e completo como é hábito.
    Obrigada por esta partilha em palavras e imagens.
    Beijinhos.:))

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  2. Gostei muito do post. Gosto da maneira como escreve, apesar de haver tanta tristeza no que conta.
    Vi o filme e gostei.

    A vida não é fácil, mas para alguns é muito mais difícil.

    Um beijinho grande:)

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    1. Tu vês sempre os filmes bons, Isabel...beijinhos

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  3. Quero que Amos Oz seja a minha próxima leitura, mas são tantos os títulos e tão apetitosos, que nem sei qual comprar (por internet, claro). Resumes muito bem as obras, és uma artista.
    Sabes, não creio que um livro, por muito dentro que nos chegue, seja mais nosso que o amor de algumas pessoas, poucas, mas certas. Quero acreditar que há duas ou tres que me querem como eu a elas. Àparte de outras que já não estão, claro. Sem o amor verdadeiro de alguém, a vida não teria nenhum sentido. Gosto da vida porque me sinto querida, é essa certeza que dá forças para enfrentar-nos a tudo, às vezes a coisas terríveis.
    Bjs

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    1. Podes começar por este... Dá uma ideia de muitas coisas importantes. Claro que os amigos também são humanos às vezes, quase sempre! Mas um livrinho na hora certa é fantástico! beijinhos

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  4. Excelente dissertação sobre literatura e a escrita de Amos Oz.
    Para mim, foi uma apresentação, pois ainda não o li e fiquei
    curiosíssima, o que também aconteceu com o filme protagonizado
    por Natalie Portman.
    ~ Abraço grato, MJ ~

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    1. Obrigada pelas suas palavras, Majo! Uma boa noite

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