quinta-feira, 15 de junho de 2017

PORTALEGRE: A SÉ CATEDRAL E SEUS ARTISTAS

Em Portalegre, reencontro tanta coisa esquecida e revisitada uma vez mais. E tanta coisa a aprender ainda...

Portalegre tem muito encanto, penso eu. Muitos recantos, ruelas íngremes e estreitinhas, caiadas de branco, às vezes com uma barra amarela. 
fotografia de José Fernando SP

E tem belas igrejas e monumentos e casas solarengas, com brasões vários. E tem passeios para dar aos domingos e 'vistas' maravilhosas lá do alto da Serra e de tantos outros ângulos diferentes. E lembro as fotografias de um amigo desaparecido, José Fernando SP, que a 'imaginou' de todo os modos! 
nevoeiro de Setembro (José Fernando SP)

Portalegre tem uma história, curta mas agitada, com pequenas lutas fratricidas. 
Leio por exemplo sobre a disputa entre os dois irmãos Álvares Pereira  nos tempos conturbados que se seguem à morte de D. Fernando (1383). 

O irmão de do Condestável D. Nuno Álvares, Pedro Álvares, Prior do Hospital e Prior do Crato, defende a causa de Castela, é o alcaide da cidade.

E Nuno Álvares Pereira, partidário de D. João, que vem com os companheiro de armas libertar o Castelo apreendido: “acorre e, ajudado pela arraia miúda – pelos ‘ventre ao sol’ no dizer do cronista Fernão Lopes-, consegue tomar o castelo” (pg. 418, ‘Guia de Portugal’, Raul Proença). 
D. Pedro Álvares Pereira, era ferrenho partidário de Leonor de Castela e alcaide do castelo de Portalegre. Perante essas posições de apoio a Castela, o povo de Portalegre revolta-se e cercou o castelo. 
D. Nuno Álvares vem ajudar a cidade. Vencido, D. Pedro foge para o Crato.
Batalha de Aljbarrota


Em anterior luta fratricida, Portalegre tomara o partido de D. Afonso irmão de D. Dinis – ambos filhos de D. Afonso III que, em 1259,  lhe concedera o foral de vila. 
“Aquando das desavenças entre Afonso e seu irmão – o Rei- a vila segue o seu senhor, irmão do Rei legítimo. Em 1299, o Rei D. Dinis vem em pessoa pôr cerco à vila até à capitulação de D. Afonso.”

Fora o pai deles,  o rei D. Afonso III, quem mandara erigir a fortaleza da cidade que ficou incompleta. Em 1271, doou ao seu segundo filho, Afonso, as vilas de Portalegre e Marvão e os senhorios de Vide e Arronches. 
Quando morre, porém, em 1279, o infante D. Afonso, seu filho segundo, pretende suceder-lhe ao trono, alegando que D. Dinis era filho ilegítimo. Não foi aceita tal sua pretensão, mas provocou desavenças entre os irmãos, conflito que se arrastou. 
Em 1299, Portalegre é cercada pelo rei D. Dinis. O cerco dura seis meses. Após esses meses, D. Afonso rende-se.
Cancioneiros da Ajuda

Entre 1320 e 1324 houve outra guerra civil que opôs, desta vez, o rei D. Dinis ao filho, o futuro Afonso IV. O infante receava que o pai desse o trono ao filho bastardo, Dom Afonso Sanches, que era o seu preferido. Afonso Sanches, peta como seu pai, não será Rei, mas o pai, D. Dinis. vai deixar Portalegre em testamento ao filho bem-amado, legitimado com 15 anos, D. Afonso Sanches, juntamente com as vilas de Marvão e as senhorias de Vide e Arronches. 
Portalegre hoje (MJF)

Portalegre, vista por Arsénio da Ressurreição 

Continuando a história de Portalegre, pelos vistos muito acidentada: “(…) Em 1511, D. Manuel dá um novo foral à vila que foi depois elevada a cidade e feita sede de bispado em 1550”, criada em 1549 pelo Papa Paulo III, o que leva o rei D. João III a conceder-lhe o foro de cidade.
D. João III, na Corredoura (MJF)
Data de então o começo da sua importância e prosperidade. Multiplicam-se os solares, as casas mais ou menos opulentas dos fidalgos.” (in Carta Régia de Maio de 1550)
Fábrica Real hoje Câmara Municipal (MJF)

Não vou alargar-me mas lembro, ainda, a importância que teve a cidade quando o Marquês de Pombal fundou a Fábrica Real de Lanifícios de PortalegreÉ desse tempo uma quadra popular que diz:
“Oh cidade de Portalegre,
duas cousas tens em ti:
A Fábrica Real
E o Senhor do Bonfi.”
Câmara Municipal : pórtico de entrada (MJF)
A Fábrica Real, à noite (MJF)

A indústria dos lanifícios é antiga na cidade, datando dos princípios do século XVI. Constam dessa altura as primeiras referências ao ‘pano de Portalegre’.
a Sé (António Mão de Ferro)

E passo, rapidamente, para a Igreja da Sé. Quando volto à cidade, sabe-me bem avistá-la, com as torres do castelo do outro lado.

A Sé Catedral foi construída por cima da Igreja Nossa Senhora do Castelo. Iniciada em 1555, a primeira pedra é lançada em 1556 pelo bispo espanhol, D. Julián d’ Alva, capelão da Rainha de Áustria, D. Catarina e primeiro bispo da Cidade. 
A Sé, vista da cidade (MJF) 

O segundo bispo, D. André de Noronha, continuou a as obras e a Sé foi concluída, no último quartel do século XVI, pelo terceiro bispo da cidade,  D. Frei Amador Arrais, autor dos “Diálogos” (*).
A bela entrada da 'Fábrica Real', à noite

"A fachada, já no século XVIII, é enriquecida por duas torres muito agudas, piramidais octogonais", (in Guia de Portugal, pg. 422) e é-lhe acrescentado o Claustro.

A Sé Catedral apresenta várias formas de arte e de materiais - desde grades em ferro forjado (séc. XVII) aos azulejos policromáticos (séc. XVIII) e é “um dos maiores conjuntos nacionais de pintura maneirista, de consagrados mestres nacionais e estrangeiros.”
Fernão Gomes


Pesquisando na internet encontrei, no blogue Montalvo e as ciências do nosso tempo’, blogue que muito aprecio pela qualidade e interesse das informações, mais documentação sobre a Catedral. Nele, soube muito do que aqui vou referindo. 
De facto, é Frei Amador Arrais que, em 1582, encomenda vários retábulos maneiristas e escolhe Gaspar Coelho, artesão marceneiro-entalhador portalegrense, que já trabalhara em Espanha com mestres espanhóis e italianos.
Foi este bispo quem mais contribuiu para a riqueza artística da Sé e para a sua ornamentação variadíssima.
Altar-mor  de Gaspar Coelho

"Dos doze altares existentes,o altar da capela maior’ é o mais imponente e grandioso. (…) A obra foi confiada, em 1582, pelo prelado, ao Mestre entalhador Gaspar Coelho, artista portalegrense que trabalhou em Espanha, em Badajoz em 1571, onde aprendeu a sua arte com mestres entalhadores espanhóis e outros estrangeiros do Norte da Europa (…) e na sua construção foram gastos o equivalente a três mil cruzados.”
o belo Anjo da Guarda
Desta vez, observei com mais atenção o belo retábulo do altar-mor da Sé. É um retábulo barroco, em talha dourada, que veio substituir os antigos retábulos primitivos. Esculpido por Gaspar Coelho e seu irmão Domingues, nas esculturas do retábulo, aliam-se a educação artística e o saber à sensibilidade.
Para mim, que pude conhecer tão bem a arte italiana e o ‘maneirismo’ na pintura, foi a Itália que me veio à ideia. Encontrei a mesma suavidade nos tons, nos rostos, e as formas fortes e arredondadas nos corpos. 
No folheto, que trouxe da Sé, leio agora: “As figuras de estilo maneirista e formas robustas e arredondadas, sugerem-nos a plástica das figuras de Miguel Ângelo na Capela Sistina do Vaticano.”
Michelangelo, A serpente Vermelha (Sixtina)

Este 'corpo central' compreende três pinturas intercaladas com as esculturas e, mais acima, outro grupo de duas esculturas que, ‘à moda antiga’, separam três outras pinturas. 
Leio o nome dos magníficos pintores: “(…) Fernão Gomes, Simão Rodrigues (contratados por Amador Arrais, o bispo culto e sensível às artes), Francisco Venegas e outros.” (**)
Francisco Venegas, tecto da Igreja de São Roque (1588)

Francisco Venegas

Fernão Gomes é um pintor português de origem espanhola, nascido perto de Badajoz, que foi estudar para Delft, na Holanda (estamos na época de Carlos V, Imperador da Áustria e Rei de Espanha) onde trabalhou com Anthonie Blockglandt (1570-1572). Dali, parte para Portugal à procura de um lugar onde pudesse desenvolver a sua obra. 
Camões, retrato de Fernão Gomes

É da sua autoria o único retrato verdadeiro de Camões, provavelmente realizado entre 1573-75, “retrato pintado a vermelho do poeta Luís  de Camões (…) único e precioso documento fidedigno” que representa o poeta.
 Trabalhou com Simão Rodrigues na execução do Retábulo da Sé de Portalegre, em 1595.
"A Virgem e o Menino", de Simão Rodrigues

Este outro pintor maneirista, Simão Rodrigues, nasceu em Alcácer do Sal, em 1560, e foi cedo viver para Lisboa. Além deste trabalho em Portalegre, pintou o Retábulo da Igreja de São Domingos, em Elvas (1595). 
Como diz o autor do blogue "montalvo" que referi, “estes artistas erguem uma monumental peça de marcenaria, entalhadura e douramento”, peças aliadas com pinturas maneiristas de grande beleza.
Francisco Venegas, Anunciação (postal)

 “Toda a ornamentação retabular se articula segundo os moldes do maneirismo, bem vivo nos frisos de anjos, festões, medalhões, cestos de flores e de frutas nas bases das colunas (…) que os artistas portalegrenses esculpiram ‘à maneira’ italiana”, inspirando-se provavelmente em imagens e gravuras da Itália e do Norte da Europa.

Entre as pinturas de que mais gostei, está outra suave “Anunciação” que fotografei (e aqui está, acima) e de que ignoro o autor. E também “O Nascimento da Virgem”. 

Outra descoberta, neste lindo Retábulo maneirista do Altar-mor, é Francisco Venegas, pintor maneirista, nascido em Sevilha, por volta de 1525, que trabalhou em Portugal, no último quartel do século XVI. 
Francisco Venegas, Madalena

o maneirista Rosso Fiorentino, Deposição do Cristo
Viveu em Roma um certo tempo e contactou com a arte maneirista italiana dessa época. Morreu em Portugal, em 1594, “com muitas honrarias”.
Retábulo da Sé, Altar-mor (net)

Talvez por causa desse ‘toque’ italiano, me tenham emocionado tanto aquelas magníficas obras maneiristas do Retábulo da Sé.

***
(*) D. Frei Amador Arrais nasceu, em 1530, em Beja, e morreu em Coimbra, em 1600. Religioso, frade carmelita, mas também escritor e homem de vasta cultura. Muito lhe ficou a dever a cidade como vimos acima. Foi um escritor: são dele os "Diálogos" que escreve falando dum homem culto, doente, deprimido, e das conversas com os que o vêm visitar.  Foi igualmente um dos que mais contribuíram, com o seu esforço e humanidade, para o resgate dos prisioneiros de Alcácer Quibir.

Em 1596, Frei Amador Arrais resigna e vai viver no Colégio do Carmo, em Coimbra. O seu túmulo foi erigido por Gaspar Coelho que tanto admirou e protegeu.

(*)  Frei Amador Arrais
https://pt.wikipedia.org/wiki/Frei_Amador_Arrais

(**) Os pintores da Sé
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fern%C3%A3o_Gomes_(pintor)

5 comentários:

  1. Não conheço, por isso também gostei muito deste post, um dia gostaria de ir passear por lá :)
    um beijinho e uma boa noite

    Gábi

    ResponderEliminar
  2. Gostei muito deste estudo e descrição sensível sobre a arte sacra da catedral da sua muito amada, cidade de Évora.
    Grata pelo conhecimento e leitura.
    Um fim de semana agradabilíssimo.
    ~~~ Beijinhos ~~~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. obrigada por ter vindo. Tenho tentado deixar msg no seu blogue mas NUNCA consigo... Bom dia tórrido!

      Eliminar
  3. Gostei muito da história dos irmãos Álvares Pereira. E quanto à Sé de Portalegre, deu-me muita pena ter estado tantas vezes nessa cidade tão ligada à minha infância, e não ter visto nunca essas maravilhas (a pintura manierista "chega-me" muito). Sei que farias um post esplêndido sobre esse tema, aqui fica a sugerência...
    Estamos agora mesmo a 40 graus, coisa rara aqui. E ainda nem chegou o verão!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É linda a Sé. Ultimamente é que comecei a reparar nela...beijinhos

      Eliminar