segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Leonard Cohen - Nevermind...Slowing...e Almost like the blues. E o "céu sereno"...

O Anjo Ferido, de Hugo Simberg

NEVER MIND... "Não te preocupes..." 



SLOW ... "Devagar"... 



ALMOST LIKE THE BLUES..."No fundo, é como nos "blues"...


Ottone Rosai, Via Leonardo à Firenze

Ouço as novas canções de Leonard Cohen.O disco saiu há pouco e tive de o comprar logo que o vi. Porque sim!

Porque gosto deles, porque é uma pessoa que viveu, que escolheu a vida, que se interessou pelo mundo e pelos seus problemas. E continua a interessar-se, num aparente desinteresse, quando diz que "deixei a vida para trás/cavei sepulturas/ que nunca encontrarás"... 



A história é a verdade dos factos e das mentiras contadas. Quando diz "nevermind" - "não importa!", "não te rales" - na verdade ele importa-se! 
E continua à procura, à espera, mesmo sob a indiferença do céu. Mas os anjos nem sempre nos guardam. Porque estão feridos.


Nascido judeu, acaba monge Zen, com o nome de "O Silencioso"...

Vai devagar? Mas vai! E chegará: com calma! "Alguns gostam de chegar depressa/ eu gosto de ir devagar...

E vai falando da realidade de hoje tão -ou mais- dura como sempre foi.  
A vida é uma história parecida com a tristeza dos blues... "Quase como nos blues..." 
O céu está parado lá no alto, ou tremendo e distante, como diz Camões.
"Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"
(Os Lusíadas Canto I)

Van Gogh, Céu estrelado

Morre-se um bocadinho todos os dias enquanto se pensa no que vai pelo mundo. E nem sempre os anjos estão a olhar. Ao fim de tanto pensar, morre-se ainda mais: assassínios, guerras e torturas, crianças desaparecidas...
Van Dongen, Céu e medas de trigo

E lamenta-se o poeta: "Oh, Meu Deus é como nos blues! "Lord, it's almost like the blues…"
Porque pouca coisa muda e a verdade está onde está - e todos a querem do seu lado.

Mas quem tem a verdade no bolso? Há verdades que matam e por verdades se morre. 
Há verdades que vivem, há verdades que morrem. Quais? "I don’t know which/ So never mind..."

E é verdade..."There’s truth that lives/And truth that dies". 

Escolhi algumas letras um pouco ao acaso. Ora ouçam...


NEVER MIND
"I had to leave
My life behind
I dug some graves
You’ll never find

The story’s told
With facts and lies
I had a name
But never mind

Never mind
Never mind
The war was lost
The treaty signed

There’s truth that lives
And truth that dies
I don’t know which
So never mind..."



SLOW...
"I’m slowing down the tune
I never liked it fast
You want to get there soon
I want to get there last

It’s not because I’m old
It’s not the life I led
I always liked it slow
That’s what my momma said..."



ALMOST LIKE THE BLUES
"I have to die a little
Between each murderous thought
And when I'm finished thinking
I have to die a lot
There's torture and there's killing
And there's all my bad reviews
The war, the children missing
Lord, it's almost like the blues…

So I let my heart get frozen
To keep away the rot
My father said I'm chosen
My mother said I'm not
I listened to their story
Of the Gypsies and the Jews
It was good, it wasn't boring
It was almost like the blues…"



http://www.leonardcohen.com/us/lyrics/asinger.html

domingo, 12 de outubro de 2014

Beethoven - Moonlight Sonata e Childe Hassam um impressionista americano e o luar...


Childe Hassam, "Paisagem marinha  ao luar" 

Childe Hassam, "O luar e a velha casa"

Para acompanhar esta "Moonlight Sonata", de Beethoven - que lembro desde que comecei a ouvir tocar piano- escolhi o luar das pinturas do impressionista americano, F.Childe Hassam, que "descobri" há dias...

Frederick Childe Hassam (17 de Outubro  de 1859 – 27 de Agosto 1935)

Childe Hassam, "Noite de luar na cidade" 






sábado, 11 de outubro de 2014

O Ratinho e o Ouricinho querem ir comigo…


A manhã parecia-me triste porque, depois de uns dias de sol, chuviscava. Eles olhavam através dos vidros molhados. Tinham ido buscar o livro da "Gata Borralheira"! Não sei onde o foram desencantar, não o via há anos!

- Levas-me contigo?, pergunta o Ratinho Poeta com um ar grave, enquanto folheava o livro.
Sabia onde ele queria chegar, mas fiz-me desentendida.
- Levar-te onde, Ratinho?
- Sabes muito bem. Como da outra vez em que fomos os dois sozinhos.
Virou-se para o Ouricinho Dan.

- Tu ainda cá não estavas. Fomos só os dois…
Suspirou. Olhou-me, apreensivo.
- Assustei-me tanto nesses dias…
- Eu sei, Ratinho, eu sei…



- Lembras-te de estarmos à janela a ver os arranha-céus do outro lado, ao longe?
- Sim, lembro-me muito bem.

- Eram tão altos! E via-se a ponte, não era? 
O Ouricinho perguntou, interessado:
- Aquela ponte bonita que eu conheço onde passamos quando vais à tua terra?

- Não... Outra ponte, também muito bonita.
- E ouvíamos os barcos no mar, lembras-te?, interrompeu o Ratinho…
- Não, Poeta querido, ali era o rio…
Não gostou que o contrariasse, mas concordou:
- Sim, era o rio. Mas eu sei que ouvia o barco-piloto!
O Ouricinho ouvia com atenção e girava a cabeça ora para um lado, ora para o outro.
- Onde vão? E eu não vou?
O Ratinho  riu, seguro de si:
- Vais, sim. Já aí tens a tua cama...
E, para mim:
- Ele vai connosco, não vai?
- Claro, desta vez vão os dois. 
- Sim, continuou o Ratinho. E fazemos-te companhia. Conversamos contigo! Levamos umas mantinhas para dormir ao pé de ti... Como os passarinhos da Gata Borralheira!



Não me apetecia pensar naquela viagem, confesso.
- E não te vai doer?, preocupou-se o Ratinho. Tantos dedinhos…
- Vão-te  cortar os dedinhos? Não quero! Não deixo!
O Ouricinho tapava os olhos com as patinhas, aflito.

- Não… Vão só endireitá-los!
- Que coisa tão estranha, estou tão baralhado! Nunca ouvi falar numa coisa dessas. 
O Ratinho já andava a mexer em tudo e a escolher o saco-cama para levarem, mas o Ouricinho continuava confuso, a olhar para o ar. 


- Os dedos! Os dos teus pezinhos? E depois ficas a andar bem?
- Dizem que sim!, atalhou logo o Ratinho. 
E continuava a estender-se em cima dos saquinhos que encontrava, sem se decidir por nenhum.
- Sim, Ouricinho, vou ficar muito melhor!
O Ratinho queria mostrar o seu conhecimento dos factos, porque ele é muito convencido como sabem.
- É claro que ela vai andar bem! Vem mas é experimentar o teu saco-cama, ó Dan!
E, virando-se para mim, disse, a rir, como se tivesse tido uma ideia genial:
- Olha! Depois até podes calçar sapatinho altos e bonitos. Como os da Cinderella!


sapatinhos da Cinderella, no Disney Store

Ah, a Cinderella e os desenhos de Walt Disney. Como eu adorei essas histórias! Até desenhei os bonecos num caderno... Os ratinhos que falavam com ela, o vestido a ser feito de lindas mousselines, os passarinhos a esvoaçar com os fios das linhas de tantas cores e as fitas de cetim...

Pensei nos passarinhos com um lencinho na cabeça. Tanta poesia, tanta beleza inesquecível! Ainda haverá livros assim encantadores para as crianças? Não sei, sinceramente, não creio.



E pensei nas irmãs dela e nos pés enormes que elas tinham!  E no sapatinho de cristal. Que história linda era!

- Sim! 
Sentia-me mais aliviada e quase contente:
- Tens razão, depois vou poder usar uns sapatinhos de cristal!

- Hihihi, e talvez tenhas sorte e o Manuel te leve ao baile...
O Ouricinho já não estava assustado e dizia a sua graça, para me animar...
Abracei-os. Eram os meus grandes amigos! Fico sempre a pensar nestas ocasiões: o que era de mim sem eles???



Roma, nun fa' la stupida stasera - Toquinho (Tribute to Trovajoli)



"Roma, nun fa' la stupida stasera..." 

Ouçam esta canção romana "pura", cantada aqui por Toquinho, em homenagem aos seu criador: Armando Trovajoli.
Foi o criador de inúmeras bandas sonoras de filmes italianos de Vittorio de Sica a Ettore Scola. Filmes como "I Mostri", ou "Una giornata particolare" ao genial "Maccheroni" com Mastroiani e Jack Lemon.
Uma das primeiras canções famosas é a que ficou conhecida por "Baião da Anna", do filme "Riso Amaro" (Arroz amargo) em que a palavra "riso" se presta a um jogo de palavras, pois "riso" significa em italiano "arroz" e também "riso". Amargo.
Silvana Mangano era a figura feminina, bela, sensual, a Anna do baião.



Trovajoli nasceu em 2 de Setembro de 1917 e morreu em 28 de Fevereiro de 2013, com 95 anos, em Roma. Todos os jornais italianos falaram da sua morte!

 A canção, essa, ouvi-a vezes sem fim na nossa viagem de regresso de Itália a Portugal, nos idos anos 89/90.
E já no Norte da Itália,  a passar em Génova, lembro-me que cantava e chorava lágrimas que não paravam de correr e escondia. Roma nun fa' la stupida stasera...
Dessa vez, era a voz de Lando Fiorino, numa velha cassette que, em Roma, nunca ouvia...







Lando Fiorini:

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Falando de Ebola: mais vale saber o que se passa, e, não, meter a cabeça debaixo da areia…



Cito M.Poppe quando lembra a frase de alguém: “Nós esquecemos a África, mas ela não nos esqueceu”.
Para o bem e para o mal, neste caso. Porque (todos) abandonámos África quando deixámos de “precisar” dela. Ou julgámos que já não precisávamos. 
No que por lá deixámos -todos os povos colonizadores em geral (*)- houve coisas positivas? Sim, algumas tem de haver. Uns mais do que outros...
Mas a verdade é  que nos esquecemos dessa terra generosa que tanto deu para todos ganharem! Porque não era a Fé, nem a solidariedade, mas era o lucro e a ganância que movia muitos.

Hoje não vou falar nisso. Inútil. Está mais que dito, está mais que visto, como diria o outro – que ninguém sabe quem foi.

Neste momento, quero lembrar os que, abnegadamente, têm partido em vagas sucessivas - ligados a ONGs de saúde, ou como simples “humanitários”- para “socorrer” os africanos. E que, por essa solidariedade mesma, têm sofrido na pele as epidemias, as guerras, os contágios. 
Nunca se lhes agradecerá o suficiente. E, quando morrem, ainda alguns dizem: "para que se foram lá meter? Ficassem em casa..."
Em casa? Há gente que não consegue ficar em casa a ver a desgraça dos outros. E, se pode, parte!
Li no jornal inglês Guardian o que escreve David Milliband antigo ministro do governo de Gordon Brown, em visita à Serra Leoa, a Freetown, na sua condição de Presidente do “International Rescue Committee” -Comité de Socorro Internacional, fundado por um pedido de Albert Einstein em 1930 (**). Curioso, não é? No entanto, não nos espanta...
Serra Leoa, Freetown


Libéria, Mesquita de Voinjama

Esta Organização tem mais de 500 membros a trabalhar na Libéria e na Serra Leoa - dois países marcados pela pobreza, pela guerra fratricida e, agora, pelo vírus do Ebola.
Monróvia, capital da Libéria

No caso da Libéria e da Serra Leoa, esta organização já se encontrava no território africano, para ajudar os sobreviventes das guerras civis nos dois países, e amparar as crianças órfãs abandonadas, a viver nas ruas, e os soldados-crianças. E foram ficando por lá. O vírus do Ebola apareceu há muitos anos.
 Miliband foi agradecer a esses 330 trabalhadores humanitários que estão na Serra Leoa e dar-lhes um apoio. Todo o “suporte” será pouco para essas pessoas altruístas que arriscam a vida pelos outros seres humanos.
soldados-crianças

Serra Leoa, aldeia depois da guerra civil

Libéria e o Ebola
E David Miliband revela - e a informação é assustadora: “Depois de 10  anos de um bom progresso para conter a doença, hoje esse progresso estagnou.”
(...) É um momento crucial e não basta apenas o tratamento para parar o número de mortos.”
Serra Leoa

Toda essa parte da África corre perigo. Uma parte já doente e a outra correndo o risco de ser infectada. Pelas condições de higiene, frágeis, pela promiscuidade das pessoas sãs com os doentes, nos lugares onde vivem. Pela falta de equipamentos sanitários. Pelo medo. Pelas fronteiras abertas, porosas, pelas comunicações entre países, pelas relações de comércio, que são muitas. Sem vigilância nas entradas e saídas.
Serra Leoa


“Uma coisa se tornou clara: não há zona cinzenta entre o controle da doença por um lado e o avançar da epidemia, pelo outro. Estamos num ponto de não retorno. Ou a doença é contida, limitando-se a umas dezenas de milhares de mortos, ou torna-se numa epidemia muito grave.” Invencível? Quem sabe se invencível?

Mas como vencê-la?  Menos guerras, mais investigação científica - isso de certeza! Todos pensamos o mesmo: que já estaria muito mais avançada a vacina e o próprio tratamento se o vírus tivesse chegado ao mundo ocidental - civilizado, como se lhe chama- mas calhou estar "instalado" apenas em África durante estes anos todos...
E quem se preocupa com África?

o vírus na Europa, Hospital em Madrid

Agora que o flagelo chegou à Europa e à América ... bem, tudo vai ser a sério, a pesquisa mais rápida. Esperemos só que não seja tarde...


(*) "Em 1462, o explorador português Pedro de Sintra mapeou as colinas onde agora se situa o Porto Freetown, cuja formação na época era em forma da Montanha de Leão (também chamada de Serra do Leão), que originou o nome do país.12 Comerciantes portugueses chegaram ao porto por volta de 1495, quando um forte que agiu como um posto de comércio foi construído.Os portugueses juntaram-se aos holandeses e franceses e todos estes passaram a usar o território da Serra Leoa como um ponto estratégico do comércio de escravos. Em 1562, a Inglaterra juntou-se aos três países no tráfico de seres humanos, quando Sir John Hawkins enviou 300 pessoas escravizadas para as novas colônias na América."

(* *) “International Rescue Committee” foi fundado a pedido de Albert Einstein (1930) e oferece ajuda de emergência e assistência a longo termo aos refugiados ou deslocados pelas guerras, perseguições ou desastres naturais. 
Existe hoje em cerca de 40 países. Trabalhadores “humanitários”, especialistas para o desenvolvimento, ajuda sanitária e educadora já assistiu milhões de pessoas no mundo desde a sua criação em 1933.