domingo, 7 de agosto de 2016

Porque o Brasil é muito mais do que dizem!


abertura dos JO, no Rio (bela foto de Marisa Volonterio)
Nesta altura de Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, tempo de desporto, futebol e outras coisas como ameaça terrorista, problemas de crise, "golpe de estado" ainda sem solução... achei que devia falar do Brasil!

Do país amigo,  que fica do outro lado do mar, como diz a canção, e ao qual nos ligam tantas raízes, uma ligação íntima feita de coisas boas e de coisas más. 

Vou falar das coisas boas que nos levam a nunca esquecer o Brasil. Quero falar da Literatura maravilhosa, com nomes de nível internacional. 
Falo dos mais próximos (afectivamente), porque gosto de falar do que conheço e gosto.
Estudei Literatura Brasileira na Faculdade de Letras de Lisboa, com um professor especial, o escritor Vitorino Nemésio. Assisti a poucas aulas mas senti o fio que o prendia àquela literatura. Fazia-nos gostar porque 'vivia' o que nos ensinava. tenho pena de não ter assistido a mais aulas! Tinha casado e era aluna 'voluntária' o que significava que não tinha obrigação de ir às aulas. Não podia, tinha uma filha pequenina e fui estudando em casa. 
Então tinha de fazer, apenas, os exames de frequência –geralmente em Fevereiro- e os exames finais, em Junho. Havia ainda a época de Setembro, como hoje haverá. Sei que me formei um ano mais tarde porque o Manuel se esqueceu de me inscrever nos exames de Setembro! E por isso não esqueço essa 'época' de Setembro.
Na Universidade, tive de ler “Sertões”, de Euclides da Cunha e nunca mais esqueci esse autor grande da história das gentes do Brasil!

Euclides  da Cunha pertence ao período do Pré-Modernismo (1902-1922) que vai marcar uma transição. 
Período que faz a transição do Romantismo para o momento Moderno. O Romantismo onde encontrei os livros de encantar de José de Alencar, com o seu ‘indianismo’, os heróis índios, guaranis ou tupis: Iracema, Ubirajara, Guarani, A Pata  da Gazela
José de Alencar, 1828
É uma época de transição, ainda marcada pelo regionalismo, pelo positivismo, referindo os problemas sociais, os valores tradicionais, a linguagem coloquial.
Chegamos ao Modernismo (1922-1930), um dos períodos mais importantes da História do Brasil e de Portugal. Pela importância que teve a 'Semana de  Arte Moderna' de 1922. No Brasil. Pelo mundo fora.
Os pintores Anita Malfatti e Cavalcanti e os poetas Mário de Andrade e Oswaldo de Andrade (do Grupo dos 5) participam na Semana de Arte Moderna de 22.

Anita Malfatti, O Homem Amarelo


Cavalcanti 
Chegam os temas do nacionalismo, da vida quotidiana urbana, mais do que o quotidiano do campo. A linguagem procura um certo humor, os textos são directos. 
Lembro o poeta que muito amo ainda hoje, Manuel Bandeira (nasce no Recife em 19 de Abril de 1886 e morre no Rio em 13 de Outubro de 1968). Quem não recorda “Essa nega Fulô”? 

Conta Jorge Amado no prefácio ao livro de Graciliano Ramos Vidas Secas (Portugália Editora- Contemporânea, s/d):

"Em 1933 rumei para Maceió, onde morava Graciliano Ramos. Era nos tempos heróicos do 'movimento de 30', movimento literário que sucedia ao 'modernismo' somando um interesse real pelo homem brasileiro e seus problemas às conquistas formais da 'Semana de Arte Moderna' (1922). O 'modernismo'  processara-se na cúpula dos serões literários, em São Paulo e no Rio, e de revistas de pequena circulação. 
Só muitos anos depois o público viria a tomar conhecimento dos grandes nomes de 22."
É um pouco através da acção de Gilberto Freyre que isso vai acontecer, explica Jorge Amado. 
"Jovem pernambucano de formação científica (coisa  rara no Brasil de então) cujo bom gosto literário e qualidades de escritor  já eram evidentes que viu mais dos que os corifeus sulistas do 'modernismo'. À simples revolução estética dos paulistas ele opunha a visão dos problemas nacionais, o conhecimento do homem e do país. O 'movimento de 30' processou-se por assim dizer, no meio da rua, entre o povo. Esta a sua diferença essencial do 'modernismo'."

Os autores do Realismo, Neo-Realismo ou Naturalismo (1930-1945) esses conheci-os melhor. Os escritores denunciam os problemas sociais, as injustiças, as prepotências. Retomam, como no período anterior, os assuntos de um quotidiano urbano, além, também, dos assuntos místicos e religiosos. 
Machado de Assis
Há uma preocupação de ‘análise psicológica’, também, com o grande Machado de Assis, romancista e contista – um dos maiores escritores da Literatura de língua portuguesa! As suas “Memórias Póstumas de Brás Cuba” e “Dom Casmurro” são livros e personagens de grande riqueza que desenvolve numa profunda análise psicológica. Quem não lembra o inesquecível "Quincas berro d'água"!
"Vidas Secas”
E, depois, como não lembrar logo “Vidas Secas”, de  Graciliano Ramos? Aliás, ele é um dos grandes romancistas do seu tempo! Estilo bem seco, directo, com uma profundidade que nos leva ao fundo das almas dos deserdados da terra. Graciliano nasce no distrito de Alagoas, no sertão nordestino, em 27 de Agosto de 1892 e morre no Rio em 20 de Março de 1953.
Graciliano Ramos 


O escritor Jorge Amado (nascido em Itabuno, Bahia, em  10 de Agosto de 1912, morre São Salvador em 6 de Agosto de 2001) diz no referido Prefácio: 

"Em 1933, começa a falar-se de Graciliano Ramos. Maceió -onde ele vivia- era um centro cultural importante (...). Estavam os paraibanos José Lins do Rego e Santa Rosa, a cearense Rachel Queiroz, os alagoanos Jorge Lima e Aurélio Buarque  de Holanda."
E mais adiante: 
"Pode dizer-se que Graciliano foi  considerado um 'clássico' ainda quando era vivo. Escreveu romances Insónia, Angústia, São Bernardo e Vidas Secas.
"Com este último, 'Vidas Secas', retoma o tema que parecia esgotado das secas, do árido sertão de 'retirantes', deu à nossa literatura uma das suas obras-primas, livro de densidade incomum, de raro equilíbrio, de comovente beleza (...) Este sertanejo de Palmeirim dos Índios nasceu clássico, um clássico brasileiro. Sertanejo feito de uma só peça, um carácter, uma consciência. Não foi só um grande escritor, foi um grade homem" (pg 15)(...) Foi extraordinária a sua confiança no povo, sua fidelidade à literatura."
Escreverá outras obras, igualmente importantes, como "Memórias do Cárcere", relato dos anos passados na prisão, por motivos políticos.
Outro grande escritor é José Lins do Rego (3 de Junho de 1901 e morre no Rio em 12 de Setembro de 1957).

Quem melhor do que ele falou dos 'engenhos' e dos escravos das plantações de cana do açúcar : “Doidinho" e "Banguê”, “Usina”, “Fogo Morto” - livros com uma tal humanidade que não se esquecem nunca. 



Também Rachel Queiroz que não li muito. Mas cito dois dos seus livros, o seu famoso "O Quinze", sem esquecer a preocupação com a literatura infantil.
E como esquecer Jorge Amado? O “País do Carnaval” um dos seus melhores livros, dizem, sim, mas antes escolho a maravilha dos garotos de “Capitães da Areia” ou "Velhos Marinheiros".


Outro grande romancista é Erico Veríssimo que nasce em 17 de Dezembro de 1905 e morre em Porto Alegre, em 28 de Novembro de 1975. 

Quantas maravilhas descobri, ainda adolescente, nos seus livros? Poesia, simplicidade, a observação da natureza e dos outros, a adolescência: "Clarissa", "Olhai os Lírios do Campo"…

E os poetas? Carlos Drummond de Andrade e a sua delicada poesia intimista.
Ou a escritora Cecília Meireles (nasce no Rio de Janeiro, em 7 de Novembro de 1901 e morre no Rio em 9 de Novembro de 1964) e a sua poesia quase perfeita. E a sua literatura para crianças.


E o poeta Vinício de Moraes, de tantas canções, da bossa nova, o mestre da poesia de amor! Inesquecível o seu soneto do "Amor total"!

Depois de 1945-1960 estende-se o período dos romances intimistas e regionalistas.
Clarice Lispector, a que vem das perseguições aos judeus na Ucrânia,  durante a Guerra Civil, na Rússia (1918-1919), depois da revolução de 1917. Fugitiva, exilada, adaptou-se a outro mundo- tão diferente da sua terra natal .
Clarice Lispector, pintada por De Chirico


Escreveu “Laços de família”, por exemplo, onde recordou tempos idos e se queixou, dignamente, do sofrimento da partida e da 'não-pertença' com grande capacidade de criação. Dela, ficou-me, sobretudo, “Perto do Coração Selvagem”, mas sei que há muitos que não li com tanto amor. Não esqueço que a epígrafe de Perto do Coração Selvagem são palavras de James Joyce, outro exilado:
"Ele estava só. Estava
Abandonado, feliz, perto do
selvagem coração da vida."


Também li “Sagarana” e “Grande Sertão e Veredas”, de João Guimarães Rosa,  cuja leitura me aconselhou a Professora Luciana Stegagno Picchio, em Roma, ela mulher culta e estudiosa da literatura de expressão portuguesa. Mas, apesar de lhe reconhecer valor, é aos anteriores que me sinto mais ligada.




João Cabral de Melo Neto (9 de Janeiro de 1920- 9 de Outubro de 1999) com o seu romance “Vida e Morte Severina” - mais outro romancista importante.
É riquíssima, como vêem, a literatura do Brasil! E a sua variada Cultura também...

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Leonard Cohen - "So Long, Marianne"....Adeus, Marianne!

Quem não conhece a canção de Leonard Cohen, "So long Marianne"?
Mas quem era esta Marianne? 
A canção ‘So long Marianne’ do cantor canadiano bem nosso conhecido (nascido em 21 de Setembro de 1934) foi inspirada pela jovem norueguesa Marianne Jensen (quando casada com Axel Jansen, um compositor norueguês) e, mais tarde, Marianne Ihlen.
Era esta a bela Marianne que Leonard Cohen conheceu, nos anos 60, na ilha grega de  Hydra, e com quem viveu. Ela tinha sido recentemente abandonada, pelo marido, o tal Axel Jansen, com um filho de 8 meses

Leonard, 'grand seigneur', acompanhou-a de Hydra à casa dos pais dela, em Oslo. Mas depressa se reencontraram.

ilha de Hydra 

Costumava dizer que Marianne era a mulher mais bela que tinha encontrado na vida.  
Leonard e Marianne com amigos, no porto de Hydra
Mais tarde, convidou-a -e ao pequeno Axel- para irem viver com ele, para Montreal, e ela aceitou. 
Viveram juntos, durante grande parte dos anos sessenta, ora em Hydra, ora em Montreal, ora em New York. Ele escrevia poesia, criava músicas e letras de canções. Ela era a sua musa! 

Cohen escreveu, depois, sobre esta canção: "Comecei a escrever a canção em Montreal e acabei-a um ano ou dois mais tarde em New York. Eu não sabia que lhe estava a dizer adeus, mas afinal até talvez desconfiasse. Ela deu-me muitas canções e, antes, tinha dado muitas outras a outros. Ela é uma Musa!"

Leonard e Marianne ficaram amigos, depois decidiram ir viver juntos. Amaram-se. Separaram-se. Cada um teve a sua vida. 
Continuaram amigos? Talvez. A verdade é que foi na página Facebook do cantor que vi a notícia da morte de Marianne!

First we take Manhattan

Muitas outras canções de Leonard foram inspiradas por Marianne. Escritas para ela. É a ela que dedicou também o terceiro volume dea sua colectânea de Poesia, “Flores para Hitler” (de 1964). 
A foto dela aparece logo na capa do seu segundo disco, Songs from a Room.

Mais tarde, Marianne escreve um livro auto-biográfico, espécie de entrevista, sobre os anos passados, auxiliada por Kari Hesthamar que a entrevista. O livro intitula-se “So Long, Marianne”.

Marianne Jansen morreu no passado dia 29 de Julho de 2016 (notícia descoberta na Página do Facebook de Leonard Cohen). Era de facto uma linda mulher! Foi a figura lendária que inspirou a magnífica canção! Era a Musa!

Canções a re-escutar:
Flores para Hitler, 1964
So long, Marianne, 1967
Songs from a room, 1967
Songs of Love and Hate, 1970
I’m your man, 1988

This blue raincoat

SO LONG, MARIANNE
"Come over to the window, my little darling
I'd like to try to read your palm
I used to think I was some kind of Gypsy boy
before I let you take me home

Now so long, Marianne, it's time that we began
to laugh and cry and cry and laugh about it all again
Well you know that I love to live with you
but you make me forget so very much
I forget to pray for the angels
and then the angels forget to pray for us

Now so long, Marianne, it's time that we began
We met when we were almost young
deep in the green lilac park
You held on to me like I was a crucifix
as we went kneeling through the dark

Oh so long, Marianne, it's time that we began
Your letters they all say that you're beside me now
Then why do I feel alone?
I'm standing on a ledge and your fine spider web
is fastening my ankle to a stone

Now so long, Marianne, it's time that we began
For now I need your hidden love
I'm cold as a new razor blade
You left when I told you I was curious
I never said that I was brave


Oh so long, Marianne, it's time that we began
Oh, you are really such a pretty one
I see you've gone and changed your name again
And just when I climbed this whole mountainside
to wash my eyelids in the rain!

Oh so long, Marianne, it's time that we began."