sábado, 11 de abril de 2009

a vida era assim em S. Tomé...










um caroceiro à beira-mar



Viver em São Tomé não era sempre simples. Coisas boas, coisas menos boas, momentos inesquecíveis, momentos duros.
Como sempre. Como em toda a parte.
Não esqueço as paisagens belíssimas, as praias de areal branco, vasto, enquadrado de coqueiros de uma doçura de formas como nunca vi, de vegetação variada, o óbó (a floresta virgem), com todos os tons de verde, verde-cinza, verde-vivo, brilhante, na névoa, isto era a beleza de São Tomé.
Os aspectos difíceis também existiam a par da beleza.
A temperatura subia quase a 40º, com humidade de 90%, na estação das chuvas que durava oito meses, nos outro quatro meses (os meses sem "r", Maio, Junho, Julho e Agosto) era a estação da Gravana, fresca e seca, em que a temperatura rondava os vinte e tal graus.
Os são-tomenses adoeciam muito mais neste período, por estranho que pareça.
Diziam que era da secura do ar que fazia "arder a garganta", por causa das poeiras que o vento trazia.
A verdade é que tinham tosses estranhas, queixavam-se de frio e constipavam-se.
A única doença que baixava de virulência era o paludismo. A explicação era simples: as águas paradas das chuvas secavam, os pântanos também, os caules das bananeiras não guardavam já, na conchinha junto dos ramos, as gotinhas de água, sítios esses onde a fêmea do mosquito anofeles se escondia e depositava os ovos.
Nessa altura era possível jantar no jardim, estar ali a ver o céu estrelado com suas constelações variadas, diversas do hemisfério norte, como a constelação do Cruzeiro do Sul que eu considerava uma coisa misteriosa.
Ou ir passear à beira do Água Grande, ou ver a balaustrada da Baía de Ana Chaves, junto aos enormes caroceiros que tinham, nessa altura, maravilhosos tons de vermelho, rôxo, dourado, cor de ferrugem.
Tropeçávamos junto às raízes salientes que se alçavam do chão, levantando as pedrinhas brancas dos passeios junto ao mar.
Espalhavam-se ao longo da Rua Morta que ia desembocar no rio Água Grande, onde vivi uns meses antes de escolher a casa da Rua de Goa, não muito longe do velho Clube Náutico arruinado, casa onde vivi cinco anos.
Lembro uma história que escrevi nessa altura e que mais tarde juntei a outras num livrinho cuja publicação devo à minha amiga Alda Espirito Santo, que hoje já não existe e muita saudade me deixou.

"A Rua Morta

Chove na Rua Morta. Vejo passar em frente da janela, indiferentes, cobertos com sombrinhas sem varetas, tapando-se com sacos de plástico, uma simples folha de bananeira na cabeça, as pessoas da minha rua.
É a estação das chuvas.
Com ela vem o fascínio das histórias lidas na adolescência, a sugestão de aventura e de perigo.

Chove sempre. A chuva fina cai, sem parar, a humidade entranha-se no corpo, nos cabelos, forma pequenas gotas que pingam devagar ou se prendem, como diamantes minúsculos, nas teias de aranha dos ramos das árvores.
Pela rua abaixo, erguem-se caroceiros de troncos rugosos e folhas acetinadas, verdes e tenras, que as cabrinhas selvagens tentam roer junto às raízes salientes.
Têm frutos como amêndoas grandes que os miúdos cobiçam e vão buscar, trepando pela árvore até ao alto, equilibrando-se em malabarismos assustadores, ou fazem cair dos ramos lançando-lhes pedras. Pedras que, tantas vezes, ferem outro miúdo parado à espera.
É a estação das chuvas.

A chuva cai forte, bate nas caixas dos ares condicionados, com um ruído que lembra tambores de guerra. Torrentes de água suja descem pela rua inclinada. Longe, detrás de tudo, mas sempre presente, a floresta impenetrável, com a sua névoa eterna envolvendo a copa das árvores e, mais longe ainda, os picos das montanhas das quais nunca se vê o contorno definido.
Em cima, o céu cinzento, a alternar com azul, nos dias sufocantes, quando a chuva cai e é sorvida pela terra barrenta, gretada e seca. A floresta parece então afastar-se de nós e, no limiar do horizonte, o ôbô brilha em todos os tons de verde.

Em São Tomé, minha terra de passagem, que não aceitei ao chegar e que me fascinou, mais tarde, no mistério da vegetação, na doçura dos coqueiros inclinados sobre a areia branca das praias, na água azul, verde, ou cor de leite da baía Ana de Chaves, rubra ao poente.
Com a enorme acácia rubra ao lado da velha igrejinha desconsagrada.

Quantas vezes a renegarei? Quantas vezes me deixarei fascinar?

É a estação das chuvas.

Parece-me ouvir o mar, agora embravecido, ao longe, onde o céu escurece.

Os barcos baloiçam doidos no branco intenso da espuma. Da minha janela vejo passar as gentes da minha rua.
Continua a chover na Rua Morta.
(in "Ilhas na bruma", UNEAS, S.Tomé, 2006)

terça-feira, 7 de abril de 2009

"Ilhas na bruma", o paludismo e a Ilha de São Tomé

óleo de Nezó, pintor de São Tomé

a Milly, no jardim de São Tomé

Paludismo


Hoje a Milly tem paludismo.

O corpo agita-se, estremece, o rosto molhado está frio, apesar da temperatura ser quente àquela hora do dia.
Os olhos dela, virados para o tecto, parecem nem me ver.

Está deitada no pequeno divã do quarto do anexo da minha casa, que tinha sido arranjado quando cheguei, mas que, pouco a pouco, a força da natureza deteriorara –o clima quente e húmido facilita a invasão de todos os bichos, as chuvas contínuas vão descolorindo as tintas, estragando os telhados e sujando as paredes que ficam de um tom acinzentado.



As redes mosquiteiras furadas pelas brincadeiras dos miúdos da Milly deixam entrar insectos de todos os tipos e, com certeza, ao cair da noite, enchem-se de mosquitos. De repente, levantam-se baratas vermelhas que voam à nossa frente e nos assustam. Vou descobri-las em todos os cantos, até mesmo na dispensa, apesar de limpa a toda a hora.

- Então, Milly?, perguntei, limpando-lhe a testa com o avental que pusera à volta da cabeça.
- Dói todo o osso de corpo, dôtôra..., articula com dificuldade. Dói cabeça, dói corpo muito. Tenho muita febre, dôtôra!

E tinha. Pus-lhe a mão na testa e escaldava. O suor perla-lhe o rosto, uma mosca tenta poisar-lhe na cara e ela sacode-a com um pano.
Logo de manhãzinha, antes de vir para o trabalho, fora fazer a análise, a “gota espessa”, como já aprendera a chamar-lhe.

Tal como sabia agora distinguir os diversos tipos de paludismo: disseram-me logo que, na Ilha, eram quatro : o malariae, o vivax, o falcíparo e o ovale...

O Nini trouxera o resultado.
- É "F6", dôtôra, foi o Sr. Alcântara que disse...

Era o falcíparo, o plasmodium falciparum, de grau 6, daí o “F6”.

Dei-lhe a Resochina, que estava habituada a tomar mas que nem sempre fazia efeito.

Era o remédio que se tomava como prevenção, ao chegar a São Tomé, mas que, ao fim de três anos, deixara de me fazer efeito.

Passei então a ter crises ligeiras, que nunca iam além de F2,F3, raramente F4, e que não davam febre alta.

Que voltavam quase todos os meses.

Já vira a Milly sofrer com febres.

Lembro-me da ida a casa dela, pela primeira vez. Estava doente, tinha paludismo.

Eu tinha chegado há pouco e ela trabalhava há pouco tempo lá em casa. Nessa manhã, não tinha vindo e mandara a Daý substituí-la, dizendo que estava muito mal.

- A mamã está muito doente, dôtôrra, está cheia de febre, tem muita dor no corpo! , disse a Dáy na sua voz um pouco rouca.

Assustei-me e decidi ir vê-la.

Estava deitada dentro de uma espécie de caixote, tapada com panos de cores e sem colchão, encostando o corpo dorido e a cabeça febril numa grande almofada de cetim cor de rosa. Foi esta a primeira visão que tive da casa dela e só, então, percebi como viviam.
- Não temos cama, dôtôra, dormimos aqui todos... Marido não tenho, foi embora.

Dormia com os três filhos, os dois miúdos para os pés, ela e a Daý para a cabeceira, como ela me explicou. Parecia envergonhada ao contar-me isto.
Os filhos à volta dela olhavam-me, de olhos arregalados, curiosos, ainda não me conheciam.

Era uma casa tosca, de madeira, construída sobre estacas, que era a forma de proteger as pobres habitações das enxurradas que desciam lá de cima, quando chegavam as grandes chuvas.
Ficava num bairro da cidade, na subida da estrada que ia para a Trindade, continuava a subir até às roça do Monte Café e, por fim, chegava à antiga Pousada.

À entrada, três degraus, de madeira inchada pela água, inclinados, inseguros, com pregos a espreitar, soltos, onde os sapatos se prendiam.

Num cubículo estava a mesa e um fogareiro de carvão, algumas panelas e pratos, garfos e colheres soltas -isto era cozinha e sala. O calor, a humidade, abafavam-nos, no pequeno quarto, de janela sem vidros nem mosquiteiro, apenas um pano branco pendurado a fazer de cortina. Tudo me confrangia.

Ali estava ela agora, outra vez, a sofrer. Agora o paludismo era, infelizmente, uma coisa minha conhecida.

A propósito disto, recordo uma crise de paludismo, a mais forte que tive. Nenhum tratamento dos que costumava fazer (Halfan era um deles, dos poucos que se encontravam na ilha e vinha de França) me fez efeito e acabei por tomar comprimidos de quinino.

Devíamos viajar ao Gabão no dia seguinte.

Devo confessar que ir ao Gabão era um dos poucos divertimentos que eram possíveis, fora da ilha.

Ia-se num aviãozinho da Força Aérea, a viagem era curta e levava-nos de repente ao continente africano, a um mundo completamente diferente do da ilha.

Libreville era uma grande cidade, com cafés, bons hotéis, lojas, mercados onde se encontrava todo o tipo de artesanato: desde os colares de malaquite com o seu verde baço fantástico, aos marfins; dos panos do Gabão de cores vivas e desenhos alegres, aos objectos de couro delicadamente trabalhado e às elegantes estatuetas cópia dos bronzes do Benim; dos objectos de ébano aos panos em batik.

Nessa madrugada, acordei a tremer, com a cabeça pesada e oca, e o corpo a doer. Como dizia a Milly, “dói todo o osso de corpo!”. Era verdade.
Na véspera, tínhamos ido a S. João dos Angolares e já ali me sentira mal, enjoada, sem saber de quê.
eu e o meu cão Zac, em São João dos Angolares

Quando nos levaram a ver o lagar de óleo de palma, recordo ter tido a sensação que levara uma pancada no estômago, tive que olhar para o lado, não suportava ver aquela papa amarela dourada a enrolar, a ser mexida, a girar a girar.

Pensei que ia vomitar, senti-me tonta, e já nem suportei comer o calulu que geralmente adorava, nem aguentava o cheiro que vinha das arcas frigoríficas quando as abriam para tirar bebidas frescas: cheiro a peixe seco, a verduras, ervas, tudo misturado com aquela cor melada e com cheiro do óleo de palma. Julguei que me sentia mal e ia desmaiar.

Era paludismo. Chegámos a casa e não consegui comer nada, deitei-me. Era paludismo. Foi nessa madrugada que adoeci.

Pela primeira vez na vida tive de tomar quinino porque era um "F4", grau que até aí nunca tivera, e o tratamento normal não resultou.

Durante dois dias a cabeça doeu e parecia-me ter lá dentro um rádio roufenho, a tocar, que não me deixava aperceber de nenhum outro ruído.

Perdi a noção das coisas, do tempo que passava, e, quando acordei, sem ter dado pela passagem do dia e da noite, vi que tinha a mão mordida –uma barata picara-me e jazia morta, ao lado da minha cama.


O meu fiel cão Zac, ufano, olhava-me, contente de me ver acordar e com a pata ainda em cima da barata, como se quisesse mostrar-me o que fizera por mim.

Tantas histórias...

Nunca esquecerei a ilha, nem a Milly, nem o paludismo.

______________


(Nota: O Plasmodium é um parasita humano unicelular protozoário, que infecta os eritrócitos, causando a Malária. É espalhado em seres humanos pela picada da fêmea do mosquito Anopheles... Há quatro espécies que infectam humanos: P. falciparum, P. vivax, P. ovale e P. malariae.)

domingo, 5 de abril de 2009

a tentação da ficção policial... Why not?

(esta é a minha tentativa de ficção policial: uma história que se passa em vários lugares; o meu herói chama-se Michael Brenner e não tem nada de particular para ser um herói... só que se vê obrigado a resolver um enigma...

Estes capítulos da III parte do livro são quase o fim da história. Mas há o "antes" e o "depois". Quando publicar o livro, se publicar, podem ver... )



Os Olhos de Jade




III PARTE

Capítulo 1
O avião começava a baixar sobre a ilha de S. Tomé. Via-se mar, apenas mar e o avião baixava rapidamente. Onde iria pousar?

Michael sentiu-se mal. O avião aterrara.
Desapertou o colarinho da camisa colorida que Liliana lhe dera. Sufocava. Quando as portas abriram, desceu as escadas do avião recebendo no rosto o ar quente e húmido, denso e perfumado, cheirando a terra molhada e a especiarias.
Seguiu pela pista, a pé, atrás dos outros passageiros, até à aero-gare onde a multidão se acumulava, agitando-se, empurrando, procurando apanhar as malas e pacotes variados, meio desfeitos, amontoados numa carreta de madeira puxada por dois empregados e atirada com força de encontro à bancada de pedra, espécie de varandim descoberto onde as malas pareciam sugadas por braços invisíveis.
Conseguiu arrancar do monte a velha mala de couro e foi abrindo caminho até ao guichet dos passaportes e da vistoria de saúde. A confusão era indescritível: um aglomerado de pessoas, de braços esticados, agitava-se com os passaportes e os livrinhos amarelos das vacinas na mão. Empurrou, deu uns encontrões até ser arrastado, com os outros, para a saída.
Respirou fundo o ar pesado.
Vivera ali parte da infância e quase tinha esquecido tudo. Como se tivesse querido apagar da memória a lembrança. O abandono do pai? O choque do regresso a Inglaterra?

Era uma imagem estilhaçada que os cheiros da terra lhe vinham trazendo. Como num caleidoscópio, os bocadinhos de vidro colavam-se e desfaziam-se. A mãe, um chapéu de palha com fitas soltas, o riso dela, um jardim cheio de plantas verdes...
Pensou que estava em África, sobre o risco do Equador, de onde já se podia avistar a constelação do Cruzeiro do Sul, e onde as noites são iguais aos dias.
Era a estação das chuvas. O bafo da noite, o perfume enjoativo da terra, a frutos maduros, a canela, as magnólias, o suor que lhe molhava a testa e escorria para dentro da camisa, pesavam.
Parou a ver a noite negra e as luzes fora. Desceu os degraus da aerogare, olhando em volta. Tirou o casaco e dobrou-o. Lembrou-se de Joan, da angústia dos últimos dias passados ao pé dela. A imagem da mãe voltou com força. Recordou a poesia que o obcecara nos últimos tempos. Sempre a morte, a separação.
“I go this way, you go that”, dizia a poesia.
Caminhos separados, para sempre... Assim seria. Passou a mão pela testa encharcada. Em frente, num largo com algumas árvores de flores coloridas, dois ou três táxis velhos, um ou outro carro em melhor estado, alguns jeeps modernos. As pessoas riam, gritavam, agitavam as mãos, saudando os familiares ou os conhecidos que tinham ido esperar o avião que chegava uma vez por semana de Lisboa. Do outro lado do mundo, da Europa distante.

Um motorista veio pegar-lhe na mala.
-“Hotel Miramar, chefe?”
-Sim, sim, pode ser o Hotel Miramar...- respondeu com voz arrastada.
Qualquer servia. Já se habituara a ser conduzido nesta viagem. Queria era ver um quarto fresco, uma cama e poder dormir. De repente lembrou-se que o Capitão, no Bairro Alto, lhe falara de um encontro no Hotel Miramar.
-“Óptimo”, pensou, e encostou-se para trás.

O táxi bamboleava, lentamente, travando a cada momento para se desviar dos buracos que crivavam a estrada. A praia, de areia branca e contornos suaves, com coqueiros debruçados sobre o mar, via-se do lado esquerdo, a lua amarela e enorme espreitava por detrás das nuvens negras. De repente, uma subida brusca que o táxi fez ruidosamente, embalando-se depois na descida. E, a seguir a uma curva mais pronunciada, surgiu diante dele o fulgor de uma baía que mais tarde soube chamar-se Ana Chaves e que nunca mais pôde esquecer. Os reflexos dos barcos parados, as luzes dos edifícios da Alfândega, fixas, que os iluminavam frouxamente. A escuridão, o agitar das águas negras, o tremeluzir de uma ponta de luar nos contornos doces da baía.
Michael olhava, fascinado.
- É maravilhosa, bolas! - exclamou.


O táxi seguia agora depressa demais para o seu gosto. Virou-se para trás e, pelo vidro sujo, olhou ainda a baía que se via agora do lado contrário, sobre o recorte das montanhas altas, que pareciam inclinar-se por detrás dela, e das casas baixas à entrada da cidade.
- Linda!
Do meio da noite, árvores enormes, com grossas raízes retorcidas à flor da terra, surgiam agora do passeio ao lado da balaustrada branca que corria ao longo do mar. Adiante, uma fortificação pequena, branca, quadrangular, recortada no negro do céu, com três estátuas gigantescas junto de uns velhos canhões ferrugentos, a apontar para o mar. O silêncio era interrompido apenas pelo bater das ondas de encontro às rochas vulcânicas onde se entrelaçavam os rebentos de algumas plantas como se o verde da ilha se quisesse prolongar até à água. Nunca tinha visto uma beleza natural assim.
De manhã dir-lhe-iam que as árvores das raízes grossas eram caroceiros e que as crianças deitavam pedras para fazer cair o fruto, o “caroço” e viu-lhes as folhas verdes e acetinadas. E que na estação seca, a Gravana, ganhavam todos os tons do Outono europeu, desde o castanho dourado ao vermelho rubi e ao roxo. Dir-lhe-iam que as estátuas eram dos descobridores da ilha.

Mas neste momento só sonhava com a penumbra de um quarto razoavelmente confortável e fresco. Sobretudo fresco!
O hotel tinha uma aparência agradável. Era uma construção baixa, um pavilhão grande, de formato irregular, com telhado de telhas escuras, muito inclinado. Pintado de branco, tinha uma forma estranha, quase nórdica que destoava naquela paisagem tropical.
Do outro lado da estrada, que era um caminho de passagem, alcatroado, debruçado sobre a praia, havia um falso cais de colunas, cortando o fio contínuo da balaustrada branca. Dentro do hotel cheirava a mofo, a pó, a flores e o hall estava, absurdamente, mobilado com sofás de pele branca que se pegavam ao corpo suado e quente das pessoas. À volta das paredes, o verde das folhas a nascer dos côcos meio enterrados em canteiros de cimento, cheios de terra negra. Num canto, junto da grande vidraça da entrada, uma exposição de esculturas de madeira, em raízes retorcidas, que o fizeram pensar em corpos enterrados. O ar condicionado funcionava mal e os mosquitos entravam cada vez que alguém abria a porta.
- Óptimo para o paludismo, não há dúvida!, pensou.
Encolheu os ombros e dirigiu-se ao balcão que se via ao fundo, do lado direito do hall.
- Queria um quarto, mas ainda não sei por quanto tempo. Confortável, com muita luz e, se possível, com vista para o mar...
- O Doutor não se preocupe, que vai ter um belo quarto! Luz não falta!
Era um rapaz forte com um sorriso agradável no rosto redondo.
- Quer que o acordem?
- Sim, pode ser às oito. Com o pequeno almoço, por favor. Não, não vale a pena, eu depois desço. Espero que uns amigos me contactem. Ligue-me para o quarto se alguém me chamar, seja a que hora for...
- Ok, chefe. Boa noite. Vai ver que gosta do quarto!

Assim que entrou, estendeu-se em cima da cama, com o corpo mole e transpirado. Depois levantou-se e fumou um cigarro. O ar condicionado era fraco e barulhento, mas, quando o desligou, entraram pela janela que vedava mal os ruídos da rua: vozes esganiçadas, risos, um galo a cantar, cães que uivavam em matilhas, iam e vinham como se fossem dar a volta ao quarteirão onde ficava situado o hotel. E o rumor do mar, constante e surdo.
Pelas frestas das venezianas entrava o reflexo da lua que se poisava no soalho de madeira escura. Abriu as vidraças e as portadas.
A lua enorme pairava no céu, agora mais baixa, bola de fogo que se reflectia como riscos na água negra. Inspirou fundo e deitou fora o cigarro, mas pareceu-lhe que os pulmões não recebiam ar. Voltou a fechar, aplicadamente, as portadas de ripinhas envernizadas, os mosquiteiros e os vidros. Ligou o aparelho de ar condicionado e o ruído arrastado encheu de novo o quarto.
- Melhor assim! Respira-se...
A mala estava aberta ao fundo da cama. Pensou em arrumar alguma roupa mas quando abriu as portas do armário, o cheiro a bolor e a naftalina foi tão intenso que voltou a fechá-las.
- Amanhã!..., pensou.
Espalhou o fato claro de linho e o blaser azul pelas cadeiras do quarto, dobrou as calças e as camisas sobre o braço do sofá.
- Não vou usar nada disto. Com o calor que está...

Foi à casa de banho arrumar a escova dos dentes, o frasco de perfume e um saco com as coisas da barba. Olhou-se no espelho e não gostou do que viu.
- Que aspecto horrível, tenho olheiras e até parece que nem fiz a barba!... Bem, mas amanhã tudo muda! Fumar menos... Vida saudável!
Lavou os dentes, vestiu um pijama fresco e arrastou-se para a cama. Adormeceu instantaneamente.

Acordou-o a luz do dia que entrava pelas frestas. Pouco passava das cinco horas. Tapou a cabeça com a almofada e deixou-se dormir até ouvir o toque do telefone. Ninguém telefonara e na recepção também não havia qualquer mensagem para ele. Disseram-lhe que era fácil arranjar um jeep com um condutor experiente.

-“O Doutor pode ir ver o interior da ilha. Ou ir para o Sul até Angolares, à Praia das Sete Ondas, ou a Portalegre, na ponta da ilha... Há lindas praias vulcânicas...”
Agradeceu a informação. Sim, talvez fosse boa ideia arranjar um carro, um jeep como lhe sugeriam.
- “Vai mais seguro, Doutor...”

Não sabia como nem quando entrariam em contacto com ele. Restava-lhe esperar.O “Capitão” mostrara-se muito vago, em Lisboa.
- “Você espere. Alguém o há-de contactar...”, dissera, enquanto o olhava de lado, com o cigarro meio fumado entre os lábios, ou esmagado com força em qualquer sítio que lhe servisse para o apagar.
E depois o bilhete lacónico onde lera:
“Há um voo para S. Tomé na 3ª feira. Espere que o contactem.”

Ninguém o contactara. Começava a duvidar se a viagem ia servir para alguma coisa.
“Ingénuo, acreditei no Zurigo...”- ia pensando.

“Como é que depois de tantos anos vou encontrar as pessoas certas? Esse tal Rodrigues ainda estará vivo?”
“Assisti a tudo”- afirmara Zurigo.
“Mas assistido a quê? Depois de tantos anos!... Quem é que se vai lembrar?!”
Era, no entanto, a única esperança.

Decidiu ir tomar o pequeno almoço. Tabuleiros cheios de frutos exóticos, um cheiro enjoativo a fruta e a bolor. Mas o café não era mau.
-É muito bom o vosso café!...
-Vem lá de cima, da Roça do Monte Café... - dissera logo o empregado, solícito.
A sala era enorme e tinha uma bela vista sobre a estrada Marginal. Lá estavam as colunas brancas formando uma reentrância redonda na balaustrada. E o mar era impressionante de cor e de brilho. O céu azul parecia parado, sem uma nuvem, sem um movimento. Como o mar.

-Ali ao fundo é o Pantufo... -explicou o empregado que o servia.
E continuou, apontando:
-Dali, está a ver?, virando à esquerda, é que se vai para o Sul, para Santana ou para Angolares... Foi o senhor que pediu um jeep, não foi? O meu tio é um bom condutor. Tem muita experiência. Leva sempre dois pneus de reserva... Sabe, as estradas para ali são perigosas, muito buraco, muito pedregulho... Só mesmo rocha, às vezes. Fura-se com muita facilidade, se não se conhece o caminho...
- Obrigado. Creio que vou mesmo alugar esse carro. Como é que se chama o seu tio? ~

Tinha gostado do rapaz e daquela conversa matinal enquanto lhe servia o café e lhe ia perguntando:
- Quer fruta? Gosta de manga, banana ouro, jaca? Temos tudo...
- E o seu tio? - insistiu, sem responder.
- Chama-se Floriano. Floriano Alcântara.

Pensou telefonar a Joan mas desistiu. A verdade é que não tinha nada para lhe dizer. O contacto esperado ainda não se fizera vivo. Mas ainda era cedo, não devia precipitar-se.
- Aguardar...
Pensou que era uma boa ideia ir dar uma volta pela ilha, para enganar o tempo. Talvez no regresso houvesse alguma novidade.

ainda Dashiell Hammett...



































Agora que já despertei a curiosidade para os livros, quero só acrescentar mais umas palavras sobre esta figura que eu acho invulgar.

Dashiell Hammett nasce no Maryland em 27 de Maio de 1894 e morre em New York em 10 de Janeiro de 1961, com um cancro no pulmão. Estuda até aos 14 anos. Faz vários trabalhos sem importância. Depois, entra para a Agência Pinkerton e trabalha como detective e, em 1922, decide começar a escrever para revistas populares, a pulp fiction, na conhecida “pulp magazine”, Black Mask, apoiando-se na sua experiência real de detective.
Hoje é considerado o pai do género policial “hard-boiled”.
(Nota: Na literatura hard-boiled, a acção prescinde dos modos cavalheirescos e da dedução fundamentada na racionalidade que sustentam personagens de obras de mistério como o Sherlock Holmes, de Conan Doyle, o Hercule Poirot, de Agatha Christie ou o Lord Peter Wimsey, de Dorothy L. Sayer . O poder dedutivo da razão é substituído pela ação física e o elemento de mistério é deslocado a favor do suspense. Violência armada, sexualidade exótica ou ilícita, a corrupção das forças sociais da lei e o perigo real ao qual o herói se submete são colocados na dianteira da narrativa. O detective particular – o mais arquetípico de todos os heróis hard-boiled – opera, nesses roteiros, como um mediador entre o submundo do crime e a sociedade respeitável. Ele pode mover-se livremente entre esses dois universos sem pertencer estritamente a nenhum deles. Nas histórias de Dashiell Hammett, a independência do detetive Sam Spade (Humphrey Bogart), protagonista de Relíquia Macabra (The Maltese Falcon, 1941), deriva de seu profissionalismo.)
É considerado o escritor que elevou o género detectivesco a literatura.
Inicia a publicação das histórias do detective Continental Op com o nome de Peter Collinson e, pouco mais tarde, usa o seu próprio nome.
Op é o agente -“the operative”- da Continental Detective Agency, um quase anti-herói: de meia-idade, não muito alto, não muito elegante, mas com alguma coisa do seu detective mais famoso (mas não único, contrariamente ao herói Phillip Marlowe, de Raymond Chandler), Sam Spade, que aparece apenas em três short stories e no famoso O Falcão de malta.
Op e Sam têm alguns aspectos comuns e são os dois muito diferentes do carácter de outros heróis (The thin man): Nick Charles e a mulher, Nora, casal inesquecível, divertido e simpático.

No Posfácio, publicado na edição francesa da “Folio” de Fly paper, (Papier tue-mouche), Lillian Hellman, sua amiga e companheira de muitos anos, escritora (o argumento do filme Julia (1977), com Vanessa Redgrave e Jane Fonda, de Zinnemann, é tirado de um livro dela), conta assim o encontro deles:

“Quando conheci Dash, ele tinha já escrito quatro dos seus livros e era a coqueluche de Hollywood e de New York. Eu tinha 24 anos e ele 36. Na noite em que nos conhecemos, acabara de sair de uma bebedeira de cinco dias, e continuaria a beber durante mais dezoito anos. Depois, um dia, um médico diz-lhe que se continua assim morre, e ele promete não beber mais, promessa que cumpriu, com excepção do último ano em que se habituou a beber um martini antes do jantar. Nessa noite, falámos de T. S. Elliot, de escritores e de livvros e não recordo já o que dissemos. Depois sentámo-nos no carro dele e continuámos a falar de tudo, de nós, da vida até nascer o sol.”

Fala também da forte personalidade de Hammett, do seu sentido da justiça e da sua coragem. Em 1951, durante “a caça às bruxas” do governo de McCarthy, pelas suas convicções políticas de esquerda, esteve cinco meses preso, acusado de ser anti-americano. Recusara-se a revelar o nome dos inscritos na Caixa de Ajuda Mútua do Congresso dos Direitos Cívicos, nomes que, aliás, desconhecia.
Conta Lillian, no Prefácio:
“Perguntei-lhe: “mas por que não disseste no tribunal que não sabias os nomes?
“Ele respondeu: “não sei, sei só que tinha de fazer isto, por uma questão de princípio. Mesmo que não fosse apenas a cadeia, e implicasse a perda da vida, faria o mesmo. Em defesa daquilo que eu acho ser a democracia. Nunca deixaria que nenhum polícia ou juiz me viesse explicar o que eu acho que é a democracia”...

Anti-americano?, interroga-se:
“Hammett estivera na I Guerra, contraíra a gripe espanhola, a que se seguira uma tuberculose, passara anos em hospitais militares a tratar-se.”
E Lillian acrescenta:
“Volta dessa guerra com um enfisema pulmonar e nem percebo como conseguiu participar na II Guerra, com quarenta e oito anos. No dia em que o exército o considerou “apto” telefonou-me, feliz, a dizer que era o mais belo dia da sua vida... E que ia como soldado raso”.
Refere, a seguir, o depoimento de um jovem soldado que estivera com ele, na frente de combate:
"Quando cheguei aquilo era horrível. Mas, felizmente, havia Hammett. Chamávamos-lhe Pop (papá), talvez pela diferença de idades, mas, sobretudo porque o respeitávamos. Tínhamos-lhe mais respeito do que ao nosso coronel e acho que o coronel pensava o mesmo. A sua influência sobre nós era enorme. Era o organizador do jornal e era bom tê-lo connosco. Chegávamos por vezes à tenda do acampamento furiosos, a queixar-nos, aos berros, aos encontrões. Assim que entrávamos, lá estava ele, deitado, a ler um livro. Erguia os olhos, sorria e acalmávamos . Falava connosco, ajudava, muitas vezes com dinheiro, sobretudo, com palavras."

Penso que, por agora, chega... Espero que, com a juda de Lillian Hellman, tenha podido explicar por que razão este autor me fascinou, desde que o comecei a ler.



P.S.1. Agora, para uma amiga, com certeza já impaciente: não, não me esqueci de Agatha Christie! Como poderia? A Lady do Crime! Impossível esquecê-la.

P.S.2. Legendas das imagens que aparecem no início da página:
1. capa do DVD Hammett de Wim Wenders
2. capa do livro "The Mistery of the Continental Op"
3. imagem do filme de Zinnemann, Júlia, com Jane Fonda e Vanessa Redgrave (1977)
4. foto de Lillian Hellman
5. foto do filme Hammett, de Wim Wenders, com o actor Frederic Forrest no papel de D.H.
6. cena do filme de John Huston, O falcão de malta, com Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre
7. capa da edição francesa de Fly paper (Papier tue-mouches) onde vem o referido Prefácio, de L.H.








quarta-feira, 1 de abril de 2009

Continuando...

Dashiell Hammett


Mais algumas capas dos livros de Dashiell Hammett, do lado esquerdo duas edições do Homem Sombra, a da direita, é uma edição russa, para estudantes de inglês, comprada em Moscovo, em 2005. Do lado direito, a capa francesa de O Salário do Crime, e, a contra-capa do livro russo (está escrita em russo a parte sublinhada a verde, mas é uma imagem demasiado pequenina...


De quaquer modo, quero lembrar a edição mais recente d' "O Falcão de Malta", , de que falei`há dias, publicada por uma editora chamada Quinto Selo, que se pode comprar até pela internet (13 euros). Basta clickar na capa...















"O falcão de malta" e outras coisas


Como prometi, vou falar no meu blog de várias leituras e já me tinha referido ao meu interesse pela literatura policial, por isso, sei que não vão estranahar se volto hoje ao "Falcão de Malta" que foi dos meus preferidos ao longo dos tempos.
Li-o em muitas línguas (bem, não exageremos...) porque não resistia a comprá-lo assim que o via e, como vivi em vários sítios, com línguas diferentes, fui fazendo uma colecção.

Mas a capa mais fantástica é, sem dúvida, a do volumezinho da Colecção Vampiro.
"O Falcão de Malta" foi o primeiro livro de Dashiell Hammett a ser publicado nesta colecção. Seguiu-se "A chave de vidro" (The Glass Key), "Estranha maldição" (The Dain curse) e, mais tarde, "O homem sombra" (The thin man).
A capa do "Falcão" da Vampiro foi feita por um dos bons capistas da altura (juntamente com Lima de Freitas), Cândido Costa Pinto, e nela vê-se a estátua do pequeno falcão azul, cheio de arabescos desenhados, as asas fechadas, e as garras pousadas sobre um pequeno pedestal que tem esculpida a estrela de seis pontas, a estrela de David.
Ao lado direito, o perfil de uma mulher de cabelos avermelhados cujos olhos fixam uma estrela vermelha de muitos bicos, que se reflecte no peito do falcão, e a cabeça de um homem, numa corrente de um rio com fumos azulados (muito provavelmente, Sam Spade, o herói -ou anti-herói?- das histórias de Hammett, que tão bem Humphrey Bogart ).
Não tem data de saída da edição portuguesa, com autorização da Editora Globo, Porto Alegre, Brasil...
Mas devo dizer que descobri, há pouco, na internet a nova edição do "Falcão de Malta"-publicado por uma editora nova (o Quinto Selo, www.oquintoseloedicoes.pt) e que tem uma capa muito sugestiva! Vão ver se o encontram!
E, melhor ainda, "prometem" publicar mais do autor: assinalam já "A maldição dos Dain" para breve. Um dia falarei mais destes fantásticos livros e do grande escritor que é Dashiel Hammett (com Raymond Chandler, um dos meus preferidos...)
Por curiosidade, juntei também, a capa da edição francesa da colecção Carré Noir.

domingo, 29 de março de 2009

ela


Original URL Click to Edit
http://www.youtube.com/watch?v=79Wsp9TpIZw&feature=related


Ela



A descer a serra, de carro, ia ouvindo um Nocturno de Chopin, quase sempre o mesmo.
Lembrava-se de a ouvir tocar Chopin e Lizt, na velha casa amarela da sua infância.

Era Verão e via os campos, lá em baixo, dourados, as searas brilhantes, com uma ou outra papoila bem vermelha.

Ia ter com ela, que estava a morrer.

Sabia que ela sofria e que tudo ia acabar em breve. Irremediavelmente, iam ficar separadas, como tinham vivido tanto tempo.

Enquanto fazia e desfazia as curvas da estrada, no meio dos pinhais e dos eucaliptos, a ver as giestas amarelas, pensava que, se calhar, lhe era indiferente vê-la chegar.
Depois, quando entrava no quarto, esquecia tudo, e às vezes deitava-se a seu lado, cantava-lhe baixinho as canções que lhe ensinara, em pequenina.

“Ah! Si j’étais
le rossignol qui chante...
Dans la fôret,
je viendrais près de toi.
Et chanterais
d'une voix si touchante...”

Uma dessas manhãs, ela começou a chorar, de olhos fechados, soluçando como uma criança.
-“O que foi, Mamã?”
Respondeu:
-“Dói-me...”

O que lhe doía? Sabia que não lhe doía o que lhe doía a ela, o afastamento de sempre, mas tinha ainda a esperança que tivesse sentido alguma saudade desses tempos e estivesse agora mais perto nessa recordação.
Daí, a vontade de chorar?...

O mais provável, no entanto, era que lhe doesse a sua dor real, física.
Queixara-se sempre pouco, e aguentava a dor como aguentara a solidão na casa da Serra.
Mas desta vez gemera, protestara.
Deu-lhe a mão e começou a chorar, baixinho, para ela não ouvir.

(Chopin, Nocturno op.9, n.2, tocado por Arthur Rubinstein)
para ouvir clickar em baixo:
http://www.youtube.com/watch?v=YGRO05WcNDk

mais histórias da noite



Acho que era Aldous Huxley quem disse: "A experiência é o que se faz com o que se viveu..." Estou de acordo, pois tudo aquilo que vivi me ensinou o que sei e só sei, profundamente, o que vivi, observei, senti.O que sou, afinal.


Não esqueço a minha experiência do ensino nocturno, que me enriqueceu muito e me deixou a saudade de pessoas inesquecíveis e a recordação das suas vidas, das suas histórias.
A história da Karen, por exemplo...


Bom Ano Novo, professora!

O telemóvel tocou várias vezes. Atendi, ensonada.
- Bom Ano Novo, Professora! Sou eu...
Conheci-lhe a voz. Olhei para o relógio luminoso: três horas.
- Oh! Karen! São três da manhã!
- Professora, desculpe, estamos aqui todos numa festa e, de repente, pensei em si... Apeteceu-me tanto falar-lhe! Desejar-lhe um Bom Ano...
- Bom Ano para ti também!
De repente, a meio da confusão do sono, lembrei-me. Ela tinha-se ido embora!
- Voltaste?!
- Voltei para o Natal...
Senti-me mais acompanhada.
- Que bom que tivesses telefonado!
Ao longe, por detrás da voz de Karen, uma música forte, gritos, gargalhadas. Outras vozes soavam, com risos pelo meio.
- Espera, dôtôra... Ouve...
- “Bom Ano! Bom Ano!”
- Ouviu, dôtôra? Eram os meus amigos...
- Ouvi, Karen, ouvi.
- Professora, desculpe! Estou cá, sim, uns dias... Se puder, apareço...
- Eu gostava... Diz, estás contente?
- Estou... Enfim, mais ou menos... Adeus, dôtôra, depois volto a falar! Era só para desejar Bom Ano!
- Obrigada. Diverte-te! E aparece... Se puderes...
Sentei-me na cama. Não ia conseguir pegar no sono. Arranjei as almofadas, peguei num livro. Mas não lia. Aquele telefonema viera trazer-me um sopro de vida.
- “A Karen... Aquela despistada! E tão sincera, tão espontânea...”
Sim, só ela podia telefonar de madrugada... Não tinha horas, nem regras, tudo nela era afectividade, momentos de euforia, necessidade de comunicar, logo, ali...
Lembrei-me da chegada dela.

Foi a última a apresentar-se. Olhou desconfiada para mim, depois para o resto da turma, e disse muito alto:
- Bôoa nôoite...
Tinha uma maneira de dizer boa noite arrastada e doce.
Interrompi a aula para lhe falar e a pôr à vontade.
- Boa noite. Como te chamas?
- Karen... Karen Caribe...
- De onde vens?
- Da Guiné...
Começara a preencher uma folha da caderneta, devagar, perguntando coisas e ouvindo o que me dizia.
- Depois trazes uma fotografia, está bem?
- Trago amanhã já...
Sentou-se ao pé da janela, na carteira da frente, que não tinha ninguém.

Nunca percebera por que razão escolhiam os lugares nas filas de trás, mas não me opunha, deixava-as escolher. Um dia uma aluna disse-me. “Quando era miúda, punham-me na primeira fila porque era das mais pequeninas... Hoje, quando posso, sento-me lá atrás. É uma sensação diferente ver toda a sala, observar as pessoas, ver como reagem, como se relacionam... Aprende-se muito...”

Mas Karen sentou-se bem junto da secretária, de olhos fixos, a ver o que eu fazia, com o livro aberto mas sem seguir a lição. E foi sempre aquele o seu lugar, a partir desse dia.
Habituara-me a esperá-la e a vê-la chegar. Alta, magra, os cabelos entrançados com fios azuis, pulseira de contas, azuis também, num braço, lenço azul ao pescoço, jeans, ou saias curtas, e botas com solas altas. Sentava-se e, logo:
- Professora, hoje o que vamos dar?

Abria o livro e ficava a olhar para mim, esquecida do que perguntara. Ou então olhava pelos vidros, de rosto apoiado na mão, mas lá fora estava escuro e não se via nada. Fui percebendo que tinha de ter um “tempo” especial para ela. O seu espanto era genuíno quando entendia o que lhe explicava. O francês era uma novidade que a divertia.
- Ah! Quer dizer isso!... É simples...

Repetia a frase que eu lera e ria, com gargalhadas estridentes.
Outras vezes, vinha com trancinhas cor de cobre, espetadas e brilhantes, a condizer com a gola de pele fulva de um casaco preto muito comprido.

- Fui modelo, na Guiné, a Professora sabia?
E mostrava fotografias em que uma figurinha elegante se destacava encostada a uma parede ou uma árvore, algures numa paisagem africana.

Quando ficávamos sozinhas, falava da terra de onde partira, ainda menina.
- Tenho parentes em S. Tomé”..., dizia-me. Falava de terras que eu não conhecia, das comidas, dos frutos, da avó que por lá ficara pela Guiné. Contava como viera ter com a mãe, com meios-irmãos, de outro “pai”, e como tivera que trabalhar num restaurante porque queria estudar.

A escola da noite ensinara-me muito, ao longo dos anos. As alunas – eram sobretudo mulheres- chegavam carregadas de problemas, inseguras, retraídas, caladas. Demorava a estabelecer-se, uma relação, mas, de repente, criava-se uma corrente feita de curiosidade, de carências e de expectativas.

- “Vêm cansadas”, pensava tantas vezes, “é preciso deixá-las recuperar do peso do dia, da passagem em casa, a correr... Dar o jantar aos filhos e ao marido, buscar os livros, comer uma sopa quente, quando podem...”

Agitavam-se e, depois, sorriam timidamente, olhavam-me, como se esperassem que eu lhes pudesse dar alguma coisa.

- “A Professora acha que vou ser capaz?”
- “Ai, hoje sinto-me tão cansada...”
- “A esta hora da noite já nem consigo pensar”...

E as frases soltas giravam no ar, sob as luzes de néon do tecto.
Um dia uma delas entrou, abruptamente, e sentou-se sem dizer nada. Era uma jovem mulher gorda, muito branca, com o cabelo ondeado a cair para um lado. Ainda era bela apesar dos traços cansados. Tinha a cara negra de um lado, um olho roxo e inchado.

- “Caíu-me uma prateleira na cabeça...”, disse.
Espreitou de lado, a ver se acreditava. Pensei que o mais provável era ter sido o marido que lhe dera um murro, e sorri, tentando comunicar-lhe um pouco de ternura.

- “Caíu-te uma prateleira na cabeça?, perguntou logo a Karen, curiosa.
E levantou-se para ir ver. Ela, pura, tinha acreditado na desculpa.
- Mostra lá... Puseste pomada? Está muito negro! Quer dizer, roxo...

As outras mudaram de assunto, querendo disfarçar, talvez, a mágoa e a humilhação que sentiam na outra:
- “A minha tia que viveu em Genève...”
- “Os meus pais foram emigrantes, por isso é que falo um pouco de francês...”
As conversas cruzavam-se, interrompiam-se, recomeçavam.

- “Meu Deus, como é que as vou interessar no estudo?!”, pensava.
- Vá lá, já chega de conversa!, interrompia-as, firmemente. Agora, só em francês! Podem falar, mas em francês...
Esmorecia um pouco o entusiasmo, mas conseguia ir ensinando a pronúncia, algumas regras de gramática, um pouco de conversação simples.
Pensava que o meu papel era dar-lhes confiança. Todos os dias um pouco mais. Acreditarem, ainda, uma vez, outra vez... Era a última oportunidade, não voltariam a ter outra! O que aprendessem era menos importante do que acreditarem nisso mesmo. Voltarem a confiar em si, nas capacidades que, afinal, não tinham perdido.

-“Sim, e reconquistarem uma certa forma de dignidade também...”, repetia-lhes.

Falava, falava e, nesses momentos, entusiasmava-me, acreditava no que dizia. E elas teimavam, repetiam e iam aprendendo.
Karen olhava-me, franzia as sobrancelhas e depois virava-se para trás a observar as outras e não dizia nada. Folheava o livro, ficava à espera que a aula acabasse. Preferia as conversas, só as duas, quando as outras saíam.

- “A professora disse uma coisa certa... Isso de conquistar uma dignidade...”
E ficava pensativa.

Agora, ali deitada, recordava. As férias do Natal estavam a acabar. Depressa recomeçariam as aulas e sabia-me bem esta pausa com os livros, com os pensamentos e a música. Às vezes, ouvia um mocho piar, para lá das árvores. Habituara-me a ouvi-lo. Era uma companhia.
Fui abrir uma fresta da janela e fiquei à espera, no nevoeiro gélido da noite. E lá chegou ele: “Uhh, uhh...”
Ao longe, ouvia o mar, adivinhava as sombras dos salgueiros altos que limitavam a rua, e que vira crescer. Era o mesmo quadro de sempre. Mudava a copa ou a casca do tronco das árvores. Agitando-se, ramagens frágeis de verde vivo, na brisa quente, ou, ramos despidos, esbranquiçados, no Inverno. E mudava a cor do céu: do azul com nuvens passava ao cor de rosa, ao lilás, e quantas vezes, no Verão, ao vermelho vivo e quente do pôr do sol.
Diziam-me em pequena, na minha terra, que essa cor anunciava calor ou vento. Mas isso era lá longe, na minha terra.
Sentei-me à mesa do computador, com o olhar vazio no écran, abri uma página e comecei a tocar com um dedo no teclado.
- “Tenho as minhas histórias para escrever”, pensei.
Juntava as ideias, voltava atrás no tempo, revendo imagens que julgara esquecidas e que surgiam como flashs. Os dedos agitavam-se agora mais depressa, queria escrever, de repente, tudo o que me viesse à cabeça. Depois, ia cortar, cortar, mas agora as palavras sucediam-se, vibravam.

De repente, parei. Voltara-me a voz de Karen. Ouvi-la ao telefone trouxera-me uma emoção esquecida. Sorri, a pensar nela.
Quando o novo ano lectivo começara, não ficou nas minhas turmas e a sala parecera-me, de repente, vazia. Mas, na semana seguinte, Karen entrara pela sala, a protestar:
- Professora, eu tenho que vir para aqui!
Apontava com o dedo para a sua carteira vazia, ao pé da janela.
- Eu e aquela professora da sala ao lado somos o gato e o rato! Fui só a uma aula, mas somos in-com-pa-tí-veis!
Tive de me rir:
- Incompatíveis? Em quê?
- Eu quero aprender francês, a língua, e ela está sempre a falar das modas de Paris e dos perfumes! Enerva-me e sei que não gosta de mim. Vi-a olhar para mim duma maneira, como se estivesse a gozar...
- Não te posso deixar ficar nesta turma, sem autorização do Conselho Execut...
Nem me deixou acabar.
- Já tenho a autorização!
- Tu?!... Como?
- Lá disseram-me que, se a dôtôra não se opusesse, eu podia voltar... Posso ?
- Preciso de um papel da Secretaria..., insisti.
- Eu já trouxe o papel! Consegui... Sabia que a professora ia dizer que sim...
- Oh! Karen...
Ria-se às gargalhadas, a olhar para mim com o papel na mão esticada, contente da sua vitória e da surpresa que me causara. Acabei por me rir também.
E voltaram os olhos a brilhar, fixos e irónicos, as entradas lentas pela sala, a espreitar para todos os lados, arrastando levemente o tacão das botas no chão.
- “Boa nôoite...”
E voltaram as conversas. Agora falava mais à vontade.
- A Professora sabe, eu só faço filho com homem que seja bom!
A que propósito teria vindo esta conversa? Já não me lembrava. Lembrava-me, sim, que as outras se riram, ironizando.
- Também nós queríamos um homem que fosse bom!...
- Vocês são parvas! Bom para os filhos... Vocês não sabem o que as crianças sofrem? Esqueceram-se?
Elas encolhiam os ombros, não insistiam e sorriam com um ar divertido.
- “A Karen é única, pode dizer tudo...”, protestavam às vezes
Aceitavam tudo o que ela dizia. Um dia, uma disse, a brincar:
- “Cada uma de nós tem a sua cruz, quer dizer,... a sua Karen!”
Nos intervalos, ficava a contar-me mais da sua vida. Ela e a mãe, abandonadas pelo pai, tinha ela quatro anos.
-“Um pai que nunca mais voltou!”
Nunca mais o vira, nem se lembrava dele.
- Nem quero! Se o visse, virava-lhe a cara!
E a mãe partira também, a seguir, e deixara-a nos braços da avó. Contava desta avó coisas fabulosas. Venerava-a como uma pessoa especial, forte e meiga, sempre a seu lado.
- O que ela me deu, doutôra!... Educação, juízo... Explicou-me a vida, os perigos, os riscos todos... Melhor que mãe!
- E a tua mãe?... Não vives com ela?
- Sim, mas ela não me ajudou... Quando cheguei a Lisboa, tinha dezoito anos, já sabia tudo... Deu-me casa, é verdade, deu comida e um lugar para dormir... Sim. Uma mais, no meio dos outros filhos, do homem dela, dos primos e de toda a gente que ali vive.
- Isso é muito, não é?
- Não sou ingrata, professora, eu sei que é muito. Mas a minha avó é pessoa diferente!...
- E o restaurante é um trabalho bom?
- É bom. Janto, trago dinheiro para a casa...e para as minhas roupas. Aparece lá muita gente divertida, gostam de mim, riem-se das minhas graças...
- E já sabes cozinhar?
- Claro. Ontem aprendi uma nova salada! Sabe como se chama?
- Não...
- “Salada Romeu e Julieta”!
Não resisti e desatei a rir e ela acompanhava-me, com as suas gargalhadas vivas, a olhar para mim, contente por me ter feito rir.
- É uma salada romântica, dôtora! Cheia de cores! Hei-de trazer a receita para fazer lá em casa!

Um dia, veio preocupada. O primeiro período estava a chegar o fim. Quase não falou durante a aula toda, alheada, a passar as folhas do livro, e, quando ficámos sozinhas, desabafou:
- Eu disse à professora que havia muita gente lá em casa, não disse?
- Disseste...
- A minha mãe tem muitos filhos, há muita gente que entra e sai, come e dorme... Uns têm trabalho, os outros não. Não é simples estarmos ali todos, o dinheiro não dá...
- Calculo...
- E... agora... agora apareceu o meu tio e a mulher que nunca tiveram filhos e gostavam de me levar para casa, a mim mais à Silvana... Aquela minha irmã que já cá trouxe a mostrar à dôtôra, lembra-se?
Lembrava-me mal, recordava uma miúda risonha e gorda, com um sorriso parado nos dentes muito brancos e na boca aberta.
- Ela não é lá muito esperta, ajuda pouco em casa, mas é muito alegre... Acho que a minha mãe nos vai dar aos meus tios...
- “Dar”?!
- Sim... Eles têm dinheiro e nós não temos...
- E onde vivem os teus tios?
- Em Espanha... A Professora acha que é bom para mim? Eles são ricos, têm uma vida normal... Vou estudar! Não acha que é bom?...
Senti o coração bater com força porque sabia que ela ia partir.
- Tu queres ir, Karen?...

Não tinha coragem para a encarar. E ela pedia-me que a ajudasse, que a empurrasse. Custava-me tanto fazê-lo...
- A mim tanto me faz... É uma coisa nova! Passei dois anos com a minha mãe que eu nem conhecia... Posso ir “conhecer” outro pai e outra mãe, não é? Estão sozinhos, precisam de filhos...
- Tens razão... Vai ser bom, Karen! Precisam da tua ternura, vão-te tratar bem! E quando vais?
- Depressa, dôtôra, muito depressa...
Nesse dia pouco mais dissemos. Karen olhava para fora, pensativa, batendo com o lápis na mesa até lhe partir o bico. Eu também não tinha vontade de falar e fingia arrumar uns papéis.
Nas aulas seguintes Karen não aparecera nem viera despedir-se.
- “Não teve coragem”, pensei. “Foi melhor assim...”

O tempo fora passando, os dias tinham sido pesados, cheios de testes, de trabalhos e de reuniões e distraíra-me com muitas coisas.
Chegara o Natal. O fim do ano. E, agora, este telefonema, trouxera-me tudo de novo à memória.
Parecia-me ouvia ao longe as gargalhadas roucas e os tacões das botas a arrastar e via, no meio da noite, os olhos dela a brilhar, mais os cabelos enfeitados com fios azuis...
- Bom Ano Novo, Professora...
- Bom Ano, Karen...



Ou a história da Rosa...

Rosa


Ia falando e olhava-me direito nos olhos, a ver como eu reagia. Aparentava mais idade do que os quarenta e oito que me dissera ter. Era uma mulher marcada. Os olhos de um tom azulado, por debaixo das sobrancelhas claras que formavam um desenho suave, sorriam às vezes, como para se libertarem do corpo e do que ele arrastava e, logo, a seguir, pareciam pisados, como flores murchas. Os cabelos de um louro deslavado tinham um corte simples. Tinha o hábito de os passar por detrás das orelhas, enquanto falava. Rugas vincavam os cantos da boca que, essa, não sorria nunca. As palavras saíam arrancadas, batidas, e o que dizia era brutal.
Continuava:
- Sabe, Professora, eu quis estudar por tudo isto que lhe disse. Para ser livre. Ser eu, finalmente, saber quem sou. Se é que ainda sou alguma coisa, se não sou apenas um lixo...
- É preciso ter muita coragem, eu sei...
Mas não sabia.
- Tenho pago um preço alto, muito alto. Talvez não adivinhasse quanto seria alto. Se soubesse...
- Terias feito o mesmo?
Hesitou.
- Sim, acho que sim... Não tinha escolha... A nossa vida nunca foi simples. Sempre violência, agressões, palavras feias... E agora a nossa relação piorou ainda mais.
- Porquê?
Achei a pergunta estúpida, mas queria dar-lhe um pouco de companhia, nem que fossem sós aquelas palavras que eu sentia inúteis...
- Quem sabe o que se passa na cabeça de um homem?- Tens razão, de qualquer pessoa... De qualquer um de nós... Ciúmes?
- Nem sempre eram ciúmes. Até porque eu não lhe dava razões para isso.
Como se recordasse, foi dizendo, com tristeza:
- Vivi sempre em casa, quase não saía, trabalhei, criei os filhos! Mas sei que não é preciso dar razões...
- O que era, então?
- A vontade de me dominar, de possuir tudo, cada bocadinho de mim.
- Para quê?
Ali estava eu, que não percebia nada da vida dela, a querer ter uma opinião, mas, ao mesmo tempo, a pensar nos meus problemas, no que ia escrever mais tarde, quando acabasse as aulas e voltasse a casa, deserta de sossego. Imaginei umas frases:
“Acordei e fiquei a olhar para fora: o mesmo tufo de árvores a agitarem-se, velhos eucaliptos com as folhas vermelhas no alto, a ver um pouco mais longe os salgueiros com o seu sussurrar, a adivinhar o mar. As árvores e as cores que mudam ao correr das estações: os tons verdes, amarelos, o tom queimado que o sol lhes dá. Secas, sem folhas, com os troncos cinzentos pintalgados...”-“E eu a olhar para a paisagem sem fazer nada ...”, pensava, cansada.
No entanto, respondi-lhe logo, quis mostrar-me interessada. Repeti:
- Mas para quê, Rosa?
- Para ter o poder, acho eu... Mandar, mandar sempre, mandar, ficar por cima...
Espantava-me a lucidez daquela mulher aparentemente vulgar e apagada. Ao falar, iluminavam-se-lhe os olhos inteligentes, tornavam-se expressivas as feições.
Tínhamos conseguido uma certa intimidade, depois de alguns meses. E ela ia-se confessando, e eu ouvindo.

Tudo começara no dia em que me levou um dossiê com os seus poemas. Foi a primeira vez que ficámos sozinhas a conversar no intervalo. Tirou-o da pasta, sempre carregada de livros e papéis, e deu-mo sem me olhar. Tinha umas capas azuis e era volumoso.
- Terá paciência para o ler, Professora? Pode corrigir os erros, se quiser...
- Tenho, com certeza! O que é?
- Coisas que fui escrevendo... Poesias, contos...
Pareceu-me constrangida, julguei que era a sua timidez, conhecíamo-nos há pouco. O ano escolar tinha apenas começado. Quando cheguei a casa e comecei a ler, já deitada, não larguei o tal dossiê até acabar os poemas. Custou-me a adormecer. Era como se tivesse recebido um soco no estômago. Eram versos duros, com uma sensibilidade quase doentia, repetitivos, insistentes e que revelavam sofrimento.

“Sim, dei-te tudo
Porque tudo me pediste
Em troca, deste violência,
Deste dor e medo.
Ergueste o gládio de cristal,
Feriste,
Guardo-o em segredo.
No espelho, a imagem destruída
Do que foi meu rosto.
Eu, batida, os cabelos de oiro,
A ver correr o sangue.”
Fiquei pasmada com o que lia, parecia uma figura tão simples e afinal era uma mulher dentro da tragédia, que se queria mostrar segura de si, mas com tanta fragilidade. Descobria uma mulher forte, sim, mas aterrorizada também. Quase todos os poemas falavam de um quotidiano de horror, perseguição, sofrimento, alternando a ironia fina e a funda amargura.

Foi-se estabelecendo entre nós uma relação de confiança e até de amizade. Contava-me tudo, e eu sentia que ela precisava de dar vazão àquele fluxo de palavras e de sentimentos que a sufocavam.
- Diz ele que o provoco...
- E é verdade? Provocas?
- Talvez inconscientemente... Revolto-me porque quero ser eu e quero que me respeite... Nesses momentos, bate-me.
- Bate-te, como? Por que é que te bate? Como é possível?!, indignava-me.
Olhou-me, agressiva. Por que lhe perguntava estas coisas? Já lhe custava tanto falar-me na sua vida.
- O que é que a professora quer saber?... Pormenores? Como é que bate? Com as mãos, com o que calha...
Devia pensar: "então não leu o que eu escrevi?..."
- Desculpa, Rosa -atalhei. Não quero saber nada. Não tenho nada com a tua vida, não és obrigada a falar !...
- Desculpe, professora!... Descontrolei-me, ando nervosa. Sei que me ouve porque me quer ajudar. Mas é tão difícil, sofro, não me habituo.
Entregava-se, com amargura e resignação.
- Não quero fazer-te sofrer... Não contes mais.
- Prefiro contar, quero libertar-me disto que tenho cá dentro. Nunca posso falar com ninguém. Sim, professora, bate-me. Não sabia que isso acontecia?
- Sabia...
Respirei fundo antes de continuar:
- Toda a gente sabe que isso acontece...

Voltámos aos escritos dela, falei-lhe da grande emoção que me causara aquele poema, e como tantos outros textos me tinham chocado. Ela interrompeu:
- Sim, lembro-me desse poema e do resto... Lembro-me de tudo como se fosse hoje. Nesse dia, tinha-me atirado com um copo à cara, o copo estilhaçou-se e os vidros espetaram-se na cabeça, e cortaram-me.
Falava com simplicidade como se narrasse um acontecimento qualquer.
- E tu, Rosa? O que fizeste?
- Olhe, professora, fugi. Fechei-me na casa de banho! Quando me vi ao espelho pensei que ia morrer esvaída em sangue...
- E depois? Quem te ajudou?
- Ninguém, não pedi ajuda. Meti-me debaixo do chuveiro e estive horas até o sangue parar. E a chorar sempre.
- Meu Deus! E ele?!
- Tinha-se ido embora. Quando ouvi a porta bater, senti um grande alívio. Foi dessa vez que saiu de casa. Pela primeira vez...
- Voltou a casa depois?
- Sim, voltou passado um mês, estava farto de não ter um sítio certo onde comer e dormir...
- E como foi a vossa vida a partir de aí? Não te foste queixar? Há lugares onde as mulheres podem ficar...Ser protegidas...
- Eu sei que há. E depois? Fica-se lá toda a vida? Deixamos de viver uma vida normal? Não preciso que tomem conta de mim.
- Eu percebo... Mas como foi então?
- Foi sempre de mal a pior... Passou o Verão, ignorámo-nos como pudemos em férias, lá na aldeia, para a família não dar por nada... E eu comecei a pensar no sonho que sempre tivera: ir estudar, chegar à Universidade... O meu sogro dizia muitas vezes: “a única que tem cabeça para os estudos é a Rosa!”
Calou-se a olhar para mim, suspirou e continuou:
- Quando lhe disse que tinha decidido fazer o 12º à noite, chamou-me os nomes mais horríveis, desde rameira a ... outras coisas, empurrou-me, deitou-me ao chão, deu-me pontapés...
Eu repetia, inconscientemente:
- Como é possível?...
- No dia seguinte a vizinha de baixo encontrou-me nas escadas e disse-me: “Ó D. Rosa, esta noite foi uma grande sova! Era cá um barulho... Ouvia-se tudo! Coitadinha! Está magoada?” Eu nem lhe respondi, desci as escadas a correr sem me virar.
- Que tristeza! É um horror.
- Horror é pouco. E ela, coitada, nem o disse por mal, se calhar até tinha pena. Imagine a vergonha... A humilhação de ser batida como um animal e de sentir a comiseração, a simpatia, ou a hipocrisia, dos outros que nos lamentam. Percebe isto, Professora?
- Percebo... É muito triste, Rosa.
- Nesse mesmo dia, ele saiu de casa outra vez... Disse às filhas que só voltava quando eu tivesse tirado essas maluqueiras da cabeça e desistisse de ir estudar.
- E tu?
- Eu já estava matriculada e comecei a vir às aulas... Não tinha nada a perder...
- E os teus filhos?
- Filhas... Vivem fora de casa, há muito tempo, felizmente para elas. A mais velha casou, a mais nova saiu de casa aos dezoito anos, porque viu como eu era tratada pelo pai, viu o que sofria... E não me perdoava não abandonar o pai... Estudou, trabalha. É uma independente, pouco me fala... Mas sinto-a perto, sei que quer ser diferente do que eu fui mas que está presa a mim... E depois...
Sorriu.
- Tenho um neto. Da filha mais velha... É um bébé lindo.
Parecia outra, brilhavam-lhe os olhos azuis com ternura.
- Ajuda...
- E a tua vida? Depois da cena que contaste...
- Ele voltou para casa passado uns tempos. Tinha a chave... E queria bater-me!... Peguei numa faca da cozinha, gritei-lhe e ele afastou-se, surpreendido. Viu nos meus olhos que eu era capaza de o matar...Foi para a sala ver a televisão! E nunca mais tentou bater-me.
- Há quanto tempo foi?
- Há quase dois anos... Passei a viver fechada, na minha própria casa, no quarto, só de lá saía quando ele não estav, mas não desisti das aulas.
- É preciso ter muita coragem...
Ela tinha-a.
- Nem abandonei o lar... Se o fizesse, ele metia lá dentro uma qualquer, e eu nunca mais via nada! Perdia tudo! Casa, móveis, pratas...
- E não tens medo de lá estar? E se ele é violento?
- Já não tenho medo. Entra, sai, bebe e dorme e insulta-me do lado de lá. Às vezes dá pontapés na porta... Mas não se atreve a mais. Ameacei-o com a polícia e ele tem medo. Sabe que sou capaz de o fazer. Tenho sempre o telemóvel ao lado... E a faca...
- Meu Deus, que vida a tua! E ele o que faz para viver?
- Deixou de trabalhar há uns tempos. Tem a empresa que era do pai, é o irmão que a tem mantido, ele vai lá quando quer, buscar dinheiro.
- E tu como sobrevives?
- Eu?
Olhou-me, com um meio sorriso, orgulhoso.
- Arranjei um canto na garagem de uns conhecidos, trabalho em contabilidade, ajudo os que me pedem. Os amigos arranjam-me trabalhos para fazer. Agora com os IRS tenho tido muitos...Dá para ir vivendo...
- Mal, não é?
- Sim, é duro, mas aguento. Não quero nada das minhas filhas, nem de ninguém. A garagem é fria, não tem janela. Tenho um computador emprestado, numa mesa, uma luz, um aquecedor a gás para não gelar...
- Mas custa, não é?
- Evito estar em casa. Durante o dia, quando não trabalho, ando de café em café, como uma sandes aqui, um galão ali, vou à biblioteca e ao Museu, onde está quente. Às sete e um quarto já estou na escola à espera do toque...
De facto, lembrava-me que era sempre a primeira a chegar à aula.
- Ganho para viver... E orgulho-me disso. Um pouco de dignidade no meio disto tudo, para me sentir outra...
- E o que dizem as tuas filhas? São adultas...
- Não sabem que vivo com dificuldades... Às vezes, trazem mensagens do pai. No fundo, preferem que eu viva lá em casa... E, talvez por egoísmo, preferem que o pai também lá esteja... Tem um aspecto de normalidade. E como ele já não me bate...

Queria falar e não sabia o que dizer. Falar por falar para quê? Podia realmente perceber o que ela me dizia? Podia imaginar o que esta mulher sofria? O que fora a luta dela? Sentia-me impotente, inútil. Mas fui dizendo:
- Não sejas pessimista, Rosa. Talvez elas não o façam por egoísmo...
- Não as culpo! Longe de mim tal ideia! São o melhor que tenho na vida... Mas, se assim fosse, até podia compreendê-las. Têm a própria vida para viver que não é fácil para ninguém... Por que não hão-de esquecer um pouco a mãe... ?

E os meses foram passando, íamos conversando nos intervalos, mas deixou de me falar no marido. Falava dos livros que líamos, do entusiasmo em aprender coisas novas, adorava os poetas que estudávamos. O ano chegava ao fim. Entregara-se ao estudo, completamente, duramente, queria uma boa nota para realizar o seu sonho: matricular-se em Direito.
Às vezes ainda voltava a contar coisas antigas:
- O meu sogro amparava-me muito. Dizia que eu era a única com miolos, Que podia tirar um curso, tomar conta da empresa um dia mais tarde...
- E o teu marido o que dizia?
- Acho que tinha ciúmes, sentia-se inferiorizado com esta ideia do pai... Mas eu não tinha culpa. Depois de ele morrer, tudo mudou. Nunca mais tive apoio de ninguém e não voltei a pensar em estudar...

Eu animava-a porque a sabia capaz de ir longe, tinha uma grande força de vontade, sabia concentrar-se, era persistente e não perdia tempo com coisas fúteis, ia direita ao essencial. Andava nervosíssima.
- E se não tenho nota para entrar, professora?
- Tens de certeza!
Chegou o final do ano, acabaram as aulas, chegaram os exames escritos. A Rosa telefonou-me logo que soube os resultados. Tinha tido a nota que precisava, uma boa nota a Português. Agitada, esfusiante, chorava e ria, ao telefone.
- Ó professora! Estou tão feliz! A professora ajudou-me tanto, quero-lhe dedicar esta nota...
Eu ri-me, feliz também.
- Obrigada, Rosa! A partir de agora vai correr tudo bem!

Passou um ano já. A Rosa continua no seu curso e os resultados foram bons. Fala-me do marido, diz que tudo parece correr melhor, ele aceitara finalmente a ideia do curso, mas preferia ignorar tudo o que se relacionasse com ele. Era uma coisa àparte.
- Nem me pergunta que notas tive... Mas não me importo, ele anda tranquilo e, sabe, Professora?...Estou a realizar o sonho da minha vida!, disse-me ela há dias.