quinta-feira, 15 de agosto de 2019

RATINHO E AMIGOS DESCOBREM SAN FRANCISCO E UM ÍNDIO!



Falar um pouco mais de San Francisco, antes de contar as aventuras dos amigos é talvez útil. Desta vez, foram comigo viajar e o que viram - o mesmo que eu vi - deixou-os impressionados. 

Tantas ruas, umas sobem e outras descem, os autocarros eléctricos, os antigos eléctricos que todos vimos no filme do Hitchcock "Vertigo"! Flores, florestas, bairros, casas de madeira, bairros - um nunca acabar de coisas nunca vistas. E gente nova. Novos amigos
Falar um pouco mais de San Francisco, antes de contar as aventuras dos amigos é talvez útil.
Porque San Francisco é uma cidade onde vi coisas positivas e a beleza e o amor à natureza. É a cidade onde existem mais parques, desde o Golden Gate Park, ao Presidio Park - e uma quantidade de árvores e de flores nas ruas que é surpreendente.
Talvez essa natural beleza a torne especial. Quando pensamos começar a conhecê-la, surgem as variações. De bairro para bairro, na escolha das casas, do tipo de estilos e de cores. E de gentes e culturas!
Em subidas e descidas, a perspectiva é sempre diferente. Descobrir subitamente uma rua que desce quase a prumo e ver, lá ao fundo, brilhar o Oceano Pacífico, na Bay, em cintilas prateadas, é uma emoção.
Na sua diversidade e integração das diversidades, espécie de cidade sem fronteiras, onde há convivência entre as pessoas, torna-se infinita, apesar de nos parecer pequena de início. Há muitos mundos ali a viver – que não são  constrangidos a viver todos do mesmo modo.
O bairro mexicano da Misión Dolores, todo ele enfeitado com desenhos de cores fortes, os murais, os cheiros fortes das comidas. Com a sua população que se agita, conversa, vive - nada tem a ver com a “Chinatown”.
Ou com o bairro hippie, de Haight-Ashbury, cheio de memórias do movimento dos "hippies" dos anos 60 que os amigos adoraram.
 janela em Haight-Ashbury

Ou o bairro Castro, com a diversidade de gentes e escolhas de vida, bairro onde se situa o Centro da Gay Pride. 
 Ou, então o mundo infinito da Chinatown!
Na enorme Chinatown há um pouco do mundo todo, muitas galerias de arte e até uma galeria de arte moderna israelita interessantíssima. 


Devo dizer que é a segunda maior Chinatown, só ultrapassada pela de New York. 
É uma “cidade dentro de outra cidade”, dizem, um bairro com grande número de asiáticos de várias origens, de mexicanos, com ruas onde as casas são pintadas de cores muito vivas, onde predomina o vermelho e o dourado. Há lanternas chinesas a cada canto, iluminadas à noite, e um mar de pessoas que se movem em todos os sentidos, completamente à vontade. 
E, claro, este bairro não tem nada que ver com a Japontown, Cidade do Japão, na zona da Fillmore street, perto da Post Street a rua dos restaurantes japoneses. Onde sushis e ramen são “autênticos” e o peixe fresquíssimo.

E, além de supermercados e mercearias japonesas, há a bela Praça, um jardim, onde está o Pagode da Paz com cinco andares, oferecido pela cidade de Osaka. 

Rodeado de cerejeiras, como é de esperar, ali acontece o Festival Nacional das Cerejeiras que, em San Francisco florescem mais cedo.
Também o Japan Centre, pequeno centro comercial com tudo o que é japonês. Lojas, restaurantes e a pequena gelataria com gelados muito bons de tangerina.

Aí, a Gatinha Japonesa não resistiu e disse:
- Como é bonito este centro. Da minha terra...
E ficou a olhar, embasbacada, para os kimonos lindíssimos e as máscaras que estavam na montra, perto da loja de gelados.
- Tens razão por te sentires orgulhosa, disse o Ouricinho que parecia comovido. Tão longe a tua terra.
Li que, muito cedo – em 1860 - se instalara em San Francisco uma colónia de japoneses.
Não muito longe, na Alamo Square, vamos descobrir ao longe, na Steiner street, as casas pintadas, The painted Ladies, em estilo vitoriano, casas que, ao longe, parecem casas de brincar, em tons de cor-de-rosa!
Este bairro de casas baixas e cores suaves agradou ao Ouricinho, claro. O Ouricinho é suave como estas cores e gosta de tudo o que é delicado e perfeito.
- Viste as casinhas ? É o bairro das Pink Ladies, disse-me a Gui.
Como não se deixarem impressionar por San Francisco o Ratinho, o Ouricinho e a Gatinha Japonesa? 

Cada um gostou, em especial, mais “deste” ou “daquele” bairro, com a gatinha a puxar para a Cidade do Japão. O Ratinho, por sua vez, encantou-se com a Chinatown.
- Tanta gente da Ásia!, espantou-se logo.
O Ratinho é sempre “politicamente correcto”, mas o Ouricinho não.
- Tantos chineses, não é? Olha aquele, só lhe falta a trança atrás das costas.
- E o leão de ouro à porta? Impressionante!
Uns amigos tinham-nos levado a dar uma volta de carro e eles quiseram ir. Já andavam há muitos dias a protestar que não saíam do bairro onde estávamos.
- Só vemos os "Guias" de San Francisco! E nada mais...
- Parece que estamos presos! Só flores e flores! E florestas! E o resto? O mar pacífico, as ruas cheias de hippies? Os barcos? E os italianos?
O bairro italiano é italiano mesmo, mas cosmopolita, conservando no entanto a qualidade das suas “pizzas”, os cheiros a orégãos, a basílico e todo o fascínio da comida e das lojas italianas.
Logo o Ratinho, irónico, a corroborar o que ele tinha dito:
- Ah, os "hippies"! Onde estão?
Os "hippies" andavam por perto e fomos ver o bairro deles!




Quando ouvi os desabafos deles, sorri para dentro, estava à espera que começassem os protestos. Para começar, tinham tido uma surpresa que lhes agradou muito: um novo amigo que a Gui encontrou numa viagem pela Clifornia..
Era um pequeno índio “navajo” que tinha aparecido, trazido por alguém que não conhecia, e era para eles uma fonte de conhecimentos enorme.
- Estes é que são os nativos da América, não é? Estavam cá, antes de os outros virem. Os índios...

O  Ratinho sabe sempre mais do que os outros dois.
- Os “outros” quais? Era o Ouricinho, desconfiado. Como é que sabes isso?
- Os americanos de cá! Sei porque li, gosto de me informar...
- Então e os “navajos” porque não mandam eles?, perguntou-me.
- Uma história muito longa, Ouricinho. Talvez o vosso amigo vos possa contar um pouco.
- Mas os filmes das guerras de índios e cowboys eram coisas inventadas, não eram?, continuou o Ouricinho.
-Não...
Era o amigo índio que falara. Ficámos a ouvir.
- Mas então os índios  de onde vieram?! E...
O Ratinho interrompeu-o.
- Não vieram de lado nenhum. Já cá estavam.
- É uma história difícil de se contar, disse, pausadamente, o amigo índio navajo. Se quiseres ouvir, eu conto o que sei.
- Quero! Claro que quero! Todos queremos, não é?
Ouve um murmúrio geral de “sim”.
- São histórias antigas, esquecidas, empurradas para o fundo da memória, mas eu sei que, nesta zona, nós vivíamos há mais de mil anos...
- Mil anos? Isso é muito! E por que se foram embora?
O Ouricinho queria saber tudo. O Ratinho que disse-lhe:
- Não se foram embora. Correram com eles...
- Ah! Quem? Como?
O índio continuou:
- Viemos de todas as partes  da América. Alguns chegaram mesmo da Ásia, da Mongólia e da Sibéria. Atravessaram os Estreito de Bering à procura de caça grossa. 

Parou. Queria explicar melhor. -Nessa altura, os continentes estavam ligados por uma pequena faixa de terra. Vivíamos disso. Éramos caçadores e nós vivíamos da caça e da pesca e dos frutos da natureza.

- Da Mongólia e da Sibéria? Ah! Por isso é que têm os olhos em bico!
- Em bico, como é?
- Como os olhos dos asiáticos, com a chamada “prega mongólica” nas pálpebras, explicou o Ratinho.
E então o "navajo" começou a sua história ou, melhor, a história do seu povo e do mundo perdido... 
Fica para o próximo episódio!

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Morreu a escritora afro-americana, Toni Morrison



Morreu a escritora afro-americana, Toni Morrison. Descendente de escravos, soube sempre de onde vinha e nunca se preocupou em dizer o que realmente pensava do mundo em que vivia e das conquistas que os afro-americanos teriam – ou não conseguido.

Tony Morrison nasceu em 18 de Fevereiro 1931, em Lorrain no Ohio, e passou a infância no ghetto dessa pequena cidade da siderurgia americana, próxima de Clevelland.

Conta-se que, anos depois de receber o Prémio Nobel em 1993, esteve em Londres para apresentar o seu último livro God save the child, em 2015.
Em entrevista ao diário The Telegraph, quando lhe perguntaram se os tempos eram, hoje, diferentes no modo de encarar os afro-americanos, respondeu:
Quero ver um polícia atirar sobre um miúdo branco indefeso. Quero ver um homem branco ser preso por ter violado uma mulher negra. Só, então, se me perguntarem se acabaram as distinções raciais, direi que sim.”
É certo que viu ser eleito um presidente afro-americano, mas também é verdade que, oito anos mais tarde, viu Donald Trump chegar à presidência dos Estados Unidos e, com ele, o regresso de um racismo sem complexos. 
E de ver “uma supremacia branca” ter poder e afirmar-se sem vergonha.


Figura alta, porte imponente era uma guerreira, sabia de onde vinha e nunca se preocupou em choca ou não com a sua “verdade”.

domingo, 4 de agosto de 2019

SAN FRANCISCO!


OH! SAN FRANCISCO 
imagem da net (Lucy)

A vida é feita de ausências, encontros, desencontros e reencontros – quer se trate de pessoas, de lugares, de livros, de coisas. Todos sabemos.
Vem isto a propósito da minha ausência. Estive longe, ausente do que normalmente enche a minha vida - hábitos, obrigações, ritmos. Bem...e longe do meu "blog"!
 Habituei-me a ter este contacto num sítio meu mas que é público, com pessoas que têm a paciência de me acompanhar e que acreditam como eu nas utopias e na possibilidade de fazer alguma coisa para que a vida tenha algum sentido.

Considerando importante o encontro com pessoas de outros mundos - que trazem ideias, novos hábitos, novos conhecimentos.
Sítios onde a vida é outra, se vive de outro modo e muito se aprende – se quisermos. A minha viagem conduziu-me desta vez à costa oriental da América.
Comecei por 'andar para trás' oito horas. Parti num dia 25 e cheguei nesse mesmo dia,  quatro horas antes, depois de uma viagem de doze horas - que me levou a San Francisco! 
Aos lugares por onde andou John Steinbeck, Marc Twain e Henry Miller. 
E -last but not least- um dos meus escritores policiais preferidos, Raymond Chandler...

Vou falar um pouco do que vi em San Francisco, uma cidade enorme que no entanto parece envolver-nos numa atmosfera positiva e acolhedora em cada um dos seus diferentes “bairros”. 

Uma cidade de que recordo as flores nas ruas, os parques perto  - a floresta dentro da cidade!  A cor das casas de tons suaves e as árvores sem fim...



Com árvores altíssimas, variadas, em que cada bocadinho de árvore, cada ramo partido ou raízes sem tronco permanecem no seu lugar e são cobertas por outras plantas a que nós chamamos daninhas e que lhes voltam a dar vida. 

Trepadeiras de florinhas sem nome, ou de brincos de rainha, arbustos rasteiros, ali nada se perde nem destrói. A natureza é respeitada como nunca vi em nenhum lugar do mundo.

Levaram-me a dar muitas voltas, dias e dias seguidos e, apesar de ainda hoje não ter percebido a estrutura da cidade, vivi um pouco o ritmo de cada bairro. E perto, sempre, o mar. O Pacífico com o seu azul especial.
Não vou enumerá-los todos, apenas os que ficaram mais dentro de mim. 
Culturas diversas, cheiros diferentes: os "tacos" e os "burritos" no bairro mexicano, os "sushis" e "sashimis" e os gelados japoneses, no Parque do Japão.
Ou o cheiro das "pizzas" e do orégãos no bairro italiano. A comida coreana ou chinesa com a qualidade perfeita dos lugares habitados pelos próprios. 

De facto, é enorme a comunidade chinesa, muito razoáveis em número a coreana, japonesa ou italiana, imensa a mexicana. Por isso, os restaurantes têm de ser autênticos pois não se destinam "só" aos turistas...

Em primeiro lugar, o bairro que mais me "divertiu" foi o bairro The Haight, por se relacionar com um tempo "vivido" há muito tempo e que deixou na minha geração e nos mais novos uma marca: o movimento dos "hippies".

Quem se não lembra? Tudo o que por ai veio! Um movimento de revolta contra os valores tradicionais, contra o militarismo, o capitalismo e a massificação. Muitos jovens passaram a contestar a sociedade, o poder militar.
Aconteceu nos anos 60. Nessa década, muita gente jovem migraram de todas as partes dos Estados Unidos para San Francisco fazer uma verdadeira revolução no local. 
Uma geração que negava o nacionalismo americano e criticava a guerra no Vietname. Queriam uma vida comunitária livre, por vezes nómada. Defendiam o amor livre e o pacifismo. "Peace and love" era um dos slogans.
A juventude aproximou-se das religiões orientais, hinduísmo, budismo, a meditação. O aparecimento deste movimento foi antecedido pela geração dos "beatniks", a Beat Generation.
imagem da net

Em 1969, realizou-se o famoso festival musical -que ficou conhecido por Woodstock Music and Art Fair - numa quinta em Bethel, não muito longe de Nova Iorque. 
Nomes como Jimmy Hendrix, Janis Joplin ou Jerry Garcia - que encontrei num mural, como se estivessem vivos...
Nada disto é novidade, mas o interessante é ir encontrar todas essas recordações no bairro "The Haight". 
O bairro Haight- Ashbury é um bairro de San Francisco, situado na esquina das ruas  Haight e Ashbury - local ainda famoso por causa do movimento "hippie". 
É um dos bairros mais descontraídos da cidade, com lojas variadíssimas, com imagens ousadas e artigos nas montras que lembram esses anos. Blusões com alamares, blusões de couro, botas à cowboy...
Ainda mantém um certo ar boémio, com artigos de artesanato, livrarias boutiques de roupas usadas e o melhor - e maior - stand de músicas de todos os anos e tipos, em discos Vinyl ou CD. 
Com muitas actividades artísticas, cafés e um estilo de vida livre e anti-convencional. Ou provocatório...

E fico por este bairro, hoje. Até breve!