quarta-feira, 8 de agosto de 2012

HISTÓRIAS DO RATINHO POETA: ACABOU O SOSSEGO!



Tinham-se passado uns dias tranquilos cá por casa. 

O Verão não havia meio de chegar, nem o tempo que surgia todas as manhãs era "nada" de conhecido ou previsível. Vivia-se o dia a dia, à espera.

Dias de calor, noites frias. Tudo se misturava desde a Primavera ao Outono.

Não sei com que se entretiveram os dois, mas a verdade é que o Ratinho e o Ouricinho andavam contentes, descobrindo novas brincadeiras e novos objectos - e amigos. O Ouricinho descobriu-se "narcisista", sempre ao espelho...

"Quanto tempo vai durar o sossego?", pensava eu com os meus botões.

Ouvia-os falar no meu escritório.  

Um dia foi mesmo um espanto enorme: era o Ratinho!

- Viste que coisa mais pequenina, ó Dany?
- Onde?

Ouvi os passos saltitantes do ouricinho a treparem pela estante.
- Ah! Que maravilha! É um cão?

- Será um cão, mas eu acho que só pode ser um mini-cão...
Riram-se.

- E simpático! Achas que fala?

O Ratinho observou bem o pequeno animal de vidro veneziano, e comentou, irónico, fingindo-se convencido:

- Fala, fala. Mas fala italiano...

O Ouricinho debruçava-se sobre o ser minúsculo:
- Queres falar, cãozinho? O que é que falas? Hablas italiano...?

O Ratinho desatou a rir:
- Isso é espanhol! Deves perguntar:  “tu parli italiano?”

E para espanto de todos, o cãozinho disse:
- Sì, ma parlo solo venezian...

Foi uma risada. E lá ficaram na brincadeira.
Mas como eu disse acima, ia durar pouco a calma...

Ontem, voltaram da varanda a protestar.

- Queres deixar estragar os tomatitos? Olha que já estão maduros!
Claro que é sempre o Ratinho que começa, mas o Ouricinho não lhe fica atrás. Parecia um relógio de repetição...
- E bem maduros... Tenho aqui outro que tinhas lá na cozinha. Junta-se...
- Se não os colhes, caem e não os aproveitas para uma boa salada!
- Sim, eu gosto de salada!

O Dany repetia tudo. Tinham razão desta vez. É verdade que eles têm razão muitas vezes, devo confessar...
E estava-se ali tão bem na varanda, à sombra... Fui buscar um alguidar de plástico pequenino, mas o Ratinho disse:

- Não! Um cesto é melhor. Ficam mais à vontade...
- Ok, chefe!, respondi, a provocá-lo.
- Não sou teu chefe bem sabes... Nem quero! Mandar em ti deve ser terrível, porque és muito teimosa...

Enquanto trazia o prato da cozinha, mais a tesoura da poda, no bolso do avental vermelho, novinho, ainda me vinha a rir.

- Hihihi! Tanta  coisa no avental, divertia-se o Ratinho.
- Assim não deixa cair as coisas, faz ela muito bem! Não é como tu que andas a espalhar tudo pela casa...

Era o Ouricinho a defender-me. Ou a provocar o seu amigo Ratinho?

Lá organizámos a “colheita”. Três tomates maduros, apenas. Pensei que o ano passado fora bem melhor: tinha colhido logo 5 de uma vez e, pouco depois, os outros dois restantes.

- Um ano “magro” para o tomate!, lamentei-me.
- Bem vês, disse logo o ratinho, é a crise! Quem é que não fala nisso? A crise, a crise... Eu cá acho que a crise serve de desculpa para tudo. E quem pode mais, prejudica o que pouco tem. Foi sempre assim...

Encolhia os ombros pequeninos, resignado. Estávamos na cozinha a preparar a salada. Tínha trazido um belo ramalhete de basílico perfumado. 



Basílico ou manjericão? Tanto fazia... Era tão bom!

- Ó Ratinho Poeta, nada de desanimar! E nada de resignação, que não leva a nada.

O quê? Era o Ouricinho quem falava!

- Ora, ora, Dany! Como é que tu sabes isso?, espantei-me.
- Disseste-mo tu! Indignemo-nos! Nada de resignados, mas sim indignados...
- É verdade! O Ratinho parecia aliviado de um peso. Eu sei, eu sei! Foi até o Hessel que começou a dizer essas coisas e toda a gente foi atrás dele...

Tinha razão o Ratinho. Tinham razão os dois...

- É bem verdade. Não vamos resignarmos e aceitar  a crise sem luta. As coisas dependem do que fizermos com elas!

Sentira-me mais animada com o que os meus amigos diziam.

- Indignemo-nos! E cheiremos este ramo de basílico já agora para tudo esquecer, exclamei.

Eles riram em coro.

- Como o Stéphane Hessel!
 Desataram às gargalhadas.

O Ratinho quis ser o último a falar:
- Que lindo prato de salada! 

E o Ouricinho debruçou-se para cheirar...

9 comentários:

  1. Só faltou o mozzarella...
    Linda história!
    Beijos
    Raul

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois foi... E até a tinha no frigorífico...

      Eliminar
  2. Fartei-me de rir!
    Adorei! Adorei!
    A quinta foto e a sexta estão o MÁXIMO!!
    Aquele olhar do ouricinho em cima do cãozito...está vivo!!

    Adoro estes post. Sabedoria, graça e ternura à mistura...lindo.

    A saladinha está apetitosa!
    Um beijinho grande e obrigada por este post delicioso.
    (Também andava por ali uma galinha...)

    ResponderEliminar
  3. Obrigada Isabel! Agora já não falo mais de tomate! Mas do Ratinho e Ouricinho, sim...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Esero bem que sim!!
      O Ratinho e Ouricinho já são personagens sem as quais não passamos!...

      Eliminar
  4. Maria João, parece que a estou a ver a construir a história... Simplesmente deliciosa!! Brilhante mesmo!! Isto publicado entretinha miúdos e graúdos (aliás como já entretém...)!!
    Os meus parabéns.
    Será que tem consciência do quanto estas histórias são especiais?! Têm mesmo muita qualidade e bom gosto.
    Bravo!! Beijinhos.

    ResponderEliminar
  5. Obrigada, Cláudia! Neste caso, são aqueles dois bichinhos que me "inspiram" e me levam a escrever... Estou sempre a observá-los e eles a fazer coisas...
    beijinhos

    ResponderEliminar
  6. Gosto muito destes posts com o ratinho :) parecem-me de verdade, enternecem-me e fazem-me sorrir e às vezes rir.
    um beijinho
    Gábi

    ResponderEliminar
  7. E quando é que dão sossego???

    Esses dois, vou te contar, sempre as voltas com uma novidade, um cheiro, uma gracinha.
    O pior é que estão lindos.

    bjs nossos

    ResponderEliminar