sábado, 27 de setembro de 2014

"Confissões"...nunca fui além...



Ontem lembrei-me do nosso "cantautore" Vitorino. E dos tempos do LP que se chamava "Leitaria Garrett" em homenagem à antiga Leitaria que tinha já desaparecido. 
No Chiado, na Rua Garrett do lado direito, lá estava a Leitaria, coisa que hoje não faz parte do nosso horizonte de hoje. Já nem do de ontem. 

"Comprar leite? Isso compra-se no supermercado!", dirão.

Nem sei se ainda há leitarias que vendam leite. Recordo algumas da Ucal...

Tempos atrás, no entanto, os amigos encontravam-se na "leitaria" para tomar um café, ler o jornal, fumar o seu cigarrito (que ainda era permitido porque não havia cancros "conhecidos") e estar na conversa toda a tarde. 

Alguns chegavam só depois de comprar o jornal da tarde. E discutia-se e falava-se. Era outro mundo!

Não sou saudosista, sei que o mundo gira todos os dias e traz coisas novas, boas e más, melhores do que a desses tempos umas e piores outras.

Mas não deixo de pensar nas pessoas que ali se reuniam...
Vitorino "recupera" os tempos das leitarias, começando por escrever e cantar a canção "Leitaria Garrett". 

Uma pessoa que eu conheço às vezes quase chorava ao ouvi-la, no "exílio" que até era amado. Saudades? Diz que não...

O que daqui tiramos é que a tal "saudade" que não se sabe explicar (não, não vou ao Fernando Pessoa!) a que o grande Camões chamava "gosto amargo de infelizes" é um contraponto da insatisfação e da viagem que é uma componente portuguesa, descendentes de judeus e de árabes. 

Poemas de nostalgia, de "desengano", da sensação de não se ter conseguido, de "não ter ido além" - são uma parte da "nossa" atitude mental perante a vida.  

Fados e "destino marcado" e a "sina na palma da mão" e as "lágrimas" são aos montes por aqui! 

"Ai os modos de ser lágrima":
ttp://youtu.be/MwgnpoVT4Xs

E toda a tragicomédia do "fado", na "Tragédia da Rua das Gáveas" faz-nos rir, no seu drama de "fadinho":


"De rosa ao peito sobe a rua airoso
 com a cruz ao pescoço
 que a Rosinha lhe ofereceu…
...
Vermelhinho, às tantas,
 vai parar ao Invejoso.
Bate um fadinho
 na rua dos Mouros
mas silêncio é ouro..."

http://youtu.be/MwgnpoVT4Xs

O drama está ali...
Mas há que reagir sem dúvida nenhuma!!!
Quando se parte, sim. E quando se fica também. 

Como bom alentejano, porém, Vitorino começa pelas Saias da Vila do Redondo –uma maravilha! E estamos todos salvos!
Também é bem bonita a canção “Andando pela vida”... Podem ouvir aqui.


Vitorino é um bom poeta e consegue equilibrar tudo isso com a alegria da música e quase uma ponta de ironia na letra. E deixa-nos a esperança...

"Vida dá-me a tua mão/Faz florir sempre o mês de Maio!"

Com outros poetas que o ajudam na sua tarefa: José Bebiano,  por exemplo, e António José Forte.




CONFISSÕES

"Nunca fui além

Do a noitecer em mar de bruma
Ingénua paz do dia
Deixa o sobressalto
Sonho de espuma

E se a brisa for
Vento sem Norte a todo o pano
Vai a bom porto
Vai barquinho de papel
Do desengano

Se este meu braço forte
Não fraqueja no momento
Espada cintilante
Acerta o golpe
Solta o veneno, cai ferrão
Cobre-me luz da Lua
(fada benfazeja)
do escorpião."

 (do disco "Leitaria Garrett")

ANDANDO PELA VIDA

"Passeio-me pela vida
Sem lamento
Malmequerem, bem querendo
Ai madrugada, não me faltes

Ao encontro no tempo
Das margaridas
Desencontros, despedidas
Tanta Primavera triste...

Na boca um gosto
D´Amor deixado
À rosa dos Ventos
No céu estrelado

Coração não me abandones
Na rua de andar sozinha
Deixa-me a força que tinha
Do esplendor da Estrela d´Alva

Cigarro não fumado
Copo no chão,
Vida dá-me a tua mão

Faz florir sempre o mês de Maio!"

5 comentários:

  1. Pegando na "saudade" e deixando de lado o Vitorino - que também gosto muito de ouvir - tenho para mim que esse sentimento enraizado nos portugueses tem muito a ver com os Descobrimentos e, secundariamente, com a cíclica emigração a que foram obrigados.
    Quanto à razão primeira, estou em boa companhia: Francisco Manuel de Melo..:-)
    Um bom próximo domingo!

    ResponderEliminar
  2. Gostei destas 'variações' sobre a Leitaria Garrett, que conheci e onde ainda tomei umas bicas.
    Bom domingo!

    ResponderEliminar
  3. Não ouvi a música. Li este registo primeiro que o anterior. Igualmente ao anterior a sensibilidade tocou-me.
    Beijinho e dias felizes!:))

    ResponderEliminar
  4. Vi lá o Vitorino e o Herberto Hélder.

    ResponderEliminar
  5. Estou convencida de que todos somos influenciáveis, e com uma literatura poética tão saudosista e fatalista, tínhamos que ser tristonhos à força...
    Os grandes contrapontos à melancolia é o sentido do humor e a acção, rir muito e estar activos sempre.
    Saí de Portugal em 1970, estou um pouco "out" das leitarias, e era muito nova para já ter saudades de alguma coisa. Continuo a procurar que "o coração não me abandone na rua de andar sozinha". Bonitos versos.
    Beijinho

    ResponderEliminar