sábado, 20 de setembro de 2014

E a Cultura como vai por aí?



A cultura como anda ? Lembrei-me de perguntar… E, na procura,  fui parar a Portalegre! O que é isto da nossa memória selectiva!



Portalegre e a minha rua (2 fotos de Cláudia Ribeiro)

céu de Portalegre com nuvens (foto amiga MAM)

Para mim, acho que anda mal, mas podemos inventá-la todos os dias - e virão outros céus menos nebulosos, dias melhores, ministros melhores, governo melhor...
E o Crato passará só a ser aquela terrinha ali ao pé de Alter do Chão, zona bonita do país, perto da minha cidade -que é Portalegre.

Portalegre, manhã de névoa (Foto José Fernando SP)

Portalegre sempre bela, quer na névoa matinal do Outono, quer debaixo de sol escaldante, rodeada do amarelo das searas. Quer nas tardes de Inverno ao entardecer.
Falando de Portalegre, achei bom ir-vos mostrando fotografias artísticas da minha cidade. 

Como não são minhas, posso chamar-lhes "artísticas" e mostrar orgulho: foram feitas por um conterrâneo que se chama José Fernando e é um grande fotógrafo!
Portalegre, céu de Inverno (MJF)

Bela à noite também...

a noite cai sobre Portalegre, vista da Serra (foto José Fernando SP)

Depois, lembrei-me que tinha passado uma data que eu acho “cultural”: a Feira das Cebolas, em Portalegre!



Portalegre, nublada na memória...(MJF)

Oh, como esquecer a Feira da minha cidade, na infância? Que eram afinal duas: a das Cerejas, em Junho, e a das Cebolas, em Stembro, como é lógico...


Portalegre, vista do Castelo (MJF)

O que significavam para mim aqueles dias de barulho, foguetes, os altifalantes pelas ruas fora, a fazer reclame ao Circo, o carrocel enlouquecido. Ou era eu a vê-lo assim, perdida de alegria agarrada à girafa? Ou ao pescoço do cavalinho?

um carrocel pequenino em Cascais (MJF)

Ia às compras  de barraca em barraca, a fazer a colecção de porta-chaves – das chaves que não tinha- com o emblema do Sporting (aparte: sim, fui do Sporting quando era criança, depois passei a não ter clube, até que um dia “fui filiada” pelos homens da família no Benfica e até já falo da "catedral"…), a inventar o que via, já com um balão na mão.

Havia tanta brincadeira, doces, sorrisos - sei lá como falar disto tudo que tanta marca deixou na minh'alma...


Portalegre, Largo da República, antigo Corro (foto MJF)

A Feira era no campo do Rossio? Na Fontedeira? Vejo ao fundo a Fonte cheia de pedrinhas a subir até ao alto.

Estou a fazer confusão, talvez, mas é assim que eu vejo a minha Feira das Cebolas. Setembro chegara, os dias refrescavam, as noites eram lindas, lindas! Portalegre animava-se!

Portalegre, alegre, pintada por Nadir Afonso

E as luzes acendiam-se por toda a parte logo ao pôr do sol. E a Sé parecia esticar ainda mais as suas torres, bem para o alto.


Portalegre, foto de José Fernando SP

E o Rossio era lindo, na minha ideia. Ainda hoje o é, mesmo diferente como está. Ainda por lá anda o lindo Coreto, que não tem igual para mim: tanta suavidade, a cor da pedra, as escadas que subíamos antes de chegar a Banda! 


o Coreto, em Portalegre (MJF)

A banda? Oh, a banda para mim era toda azul! E tinham muito brilho os instrumentos dourados. 


"E descia a noite" (foto de José Fernando SP)

E descia a noite... E quantas vezes vi a lua lá no alto do céu, azul bem escuro, brilhar sobre a minha cidade.



Alegrava-me. E eu trepava pelas escadas do Coreto acima, e descia e subia, até vir alguém dizer-me para me sentar a ouvir a música. Ouvia, sentadinha? Já não sei se conseguiam pôr-me sentada.



Ouvia, sim, e gostava, mas brincava, sempre, e corria… 


E o tempo mudava e eu crescia. E cada ano trazia coisas diferentes. Era, porém, a mesma sensação de liberdade, de festa contínua, durante poucos dias. Começaram os passeios de braço dado com as amigas, a olhar para a frente, com um certo ar de superioridade: éramos crescidas

De repente, uma puxava para o lado das barracas e lá íamos todas comprar uma bugiganga que nos atraía: o colar de búzios? a malinha de vidro sintético? o porta-moedas mil vezes comprado na feira?

Por detrás da fila de feirantes (seria?), vinham os camponeses vender as réstias de alhos e cebolas que davam o nome à feira. 

Gostava de passar por lá, sabia que a Florinda iria mais tarde comprar as cebolas e os alhos que ficariam dependurados na parede da cozinha, durante todo o Inverno sem se estragarem.

cebolas a serem entrançadas (cf blogo embaixo)

Trabalho artístico esse! As cebolas, acabadas de tirar da terra, eram entrançadas, com perfeição, num cuidado passo a passo, formando uma bela trança que, depois, ficaria dourada e com a pele exterior estaladiça. Encontrei também a palavra "encabar" para referir o processo de conservar as cebolas (blog "uma-fotografia-por-dia").


cebolas in blog "o calor da aprendizagem"

Ainda se fará hoje este trabalho? Creio que certas artes não deviam morrer, por isso escolhi umas fotografias num blog em que se ensina como é esse modo de conservar as cebolas… E os alhos!

Há muitos e muitos anos que não vou à feira das cebolas. Voltarei um dia? Tanta coisa que desapareceu, tanto silêncio, e tanta saudade...

a janela do Hospital, onde o meu pai tinha o laboratório, nesses tempos

Este ano sei que o Orfeão foi lá cantar, ao pé do Tarro, onde a velha fonte já não está… 

o Orfeão na noite (foto de amigo do Orfeão)

Disseram-me que estava uma bela noite, havia cadeiras espalhadas em frente do pequeno lago e as pessoas escutavam as vozes do Orfeão. O que cantaram foi bonito, contou-me alguém....

a ouvir o Orfeão (foto de amigo)

foto do site do Orfeão de Portalegre


Para mim, isto é Cultura. E para vocês?

Feira das Cebolas de Portalegre, 2014

Como entrançar as cebolas:



6 comentários:

  1. "Olhei da Serra a cidade, tão branca estreita e comprida,
    fez-me alegria e saudade, assim de noiva vestida... " ( José Régio )
    Lindo o que escreveste ! Ao contrário de muita gente, eu acho a nossa cidade "ainda de noiva vestida", com a capelinha da Serra da Penha, o Plátano, a sua singela Rua Direita... E o Orfeão, claro, com todo o entusiasmo que o envolve... Obrigada pela alegria que me deste! Um beijo, Mamé

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  2. É cultura, sim senhora! a desfiar recordações da infância e adolescência associadas Portalegre. Não conheço bem a cidade, passei por lá duas vezes mas é necessário sentir-lhe o pulsar e isso só com vagar. Gostei de ver aqui o Nadir Afonso.
    Bom domingo, MJ.

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  3. Isto também é cultura!
    Cultura é também o que é genuinamente do povo, genuinamente português, o que é tradição.

    Vê-se, neste belo retrato, o seu amor pela sua cidade!

    Um beijinho grande:)
    Bom domingo:)

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  4. Para mim, é.
    Gostei muito de recordar a cidade por onde às vezes fugia na minha estadia em Marvão.
    Maria João obrigada.
    Beijinhos.:))

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  5. Cultura: capacidade humana de actuar de forma criativa. Gosto desta definição, entre outras, pois há muitas e variadas. A tradição também é cultura, os usos e costumes, os rituais, desde a forma de arranjar umas cebolas às vivências duma infância bem recordadas, tudo é cultura..
    Beijinho

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  6. Claro que é cultura e da boa, da genuina! São estas recordações, memórias e exposições que não deixam com que a nossa cultura morra.
    Há que lutar por ela... divulgá-la, defendê-la!
    Faz parte de nós!

    Uma bela "reportagem" sobre Portalegre!

    Beijinhos.:))

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