sexta-feira, 17 de abril de 2015

O POETA ESPANHOL ANTONIO MACHADO

Para a Isabel, que me pediu que falasse do poeta Antonio Machado.
.
o poeta, retratado por Leandro Oroz (1925)

"Daba el reloj las doce…y eran doce
Golpes de azada en tierra…
-Mi hora! – grite. El silencio
Me respondió: - No temas;
Tú non verás caer la última gota
Que en la clepsidra tiembla.
Dormirás muchas horas todavia
Sobre la orilla vieja
Y encontrarás una manana pura
Amarrada tu barca a outra ribera.”

 clepsidra ou relógio de água

Era bom que a passagem da vida para a morte fosse assim… Simples como apanhar um barco para a outra margem. 
"Mi hora?" Chegou a minha hora, pergunta. "Ainda não", responde o silêncio.
"Dormirás muchas horas todavia
Sobre la orilla vieja
Y encontrarás una manana pura
Amarrada tu barca a outra ribera.”

Tive curiosidade de saber mais sobre o poeta e fui à minha velha “Literatura Espanhola”, de Valbuena (por onde estudei para a cadeira de Literatura Espanhola há tantos anos).
No Tomo III, encontro muito sobre ele, entre as páginas 502-511.

Joaquín Sorolla, Jardins do Alcazar, de Sevilha

“Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla
Y un huerto claro donde madura el limonero.

Joaquín Sorolla

Joaquín Sorolla, Terras de Valência
Nascido em Sevilha - e recorro às belas imagens de Joaquín Sorolla da Andaluzia natal de ambos-, é no entanto muito marcado pela província de Castela. "A sua verdadeira inspiração é castelhana. Nos seus versos perpassa o vento de pessimismo das terras de Castela.”

Em 1883, de facto, a família deixara a Andaluzia e mudara-se para Madrid. Ali, ele e o irmão, o poeta Manuel Machado (1874-1947), frequentam os novos sistemas pedagógicos modernos da Institutión Libre de Ensenaza
Escreve, na sua "Autobiografia": “Me eduque en la Institución Libre de Ensenanza y conservo gran amor a mis maestros.”
Em 1889, os dois irmãos Machado vão para Paris. Encontram Pio Baroja, Ruben Dario e outros poetas que os marcam, simbolistas na maioria, como Verlaine. 
Vão e vêm, viajam e voltam sempre a Madrid. Seguem a vida 'vivendo', criando, frequentando cafés, vendo "corridas" de touros. 
"Caminante, son tus huellas
El camino y nada mas;
Caminante, no hay  camino,
Se hace camino al andar."


Poeta de grande qualidade, pode considerar-se como o representante exclusivamente lírico da Geração de 98”- continuo a ler na Literatura Espanhola.
E faço uma pausa,  para lembrar essa maravilhosa Geração de 98 e dos seus escritores - que adorei ler!

"A Geração de 98 -Generación del 98- é o nome atribuído a um grupo de escritores, ensaístas e poetas espanhóis que se viram profundamente afectados pela crise moral, política e social na Espanha do pós Guerra Hispano-Americana e a consequente perda de Porto Rico, Filipinas, Cuba, em 1898. Todos eles nasceram entre 1864 e 1875. 
Café Principe

Era um grupo que frequentava tertúlias literárias nos cafés, de Madrid. A primeira foi presidida por Ramon Valle-Inclán (*) e instala-se primeiro no Café de Madrid e no Café Principe. Dali, Valle-Inclán passa com Azorín, os irmãos Manuel (1864-1977) e Antonio Machado e Pio Baroja para o  Café de Fornos, e mais tarde ainda para o Café Lyon d’Or e o Café do Levante (Wikipedia)."
 Café de Fornos


Café do Levante 
Pio Baroja (1866-1936), um dos mestres, era um galego transplantado para Madrid onde se desenvolverá a sua carreira literária;
Baroja
Azorín (1873-1967), pseudónimo de José Augusto Martinez Ruiz, novelista e ensaísta, nasce em Alicante e morre em Madrid. Novelista e ensaísta.outro, era um contista extraordinário!  El paraguas rojo é um conto inesquecível; 
Azorín
Ramon Valle-Inclan (*) nasce e morre em Santiago de Compostela mas vive muitos anos em Madrid:  lembro as suas magníficas quatro estações das "Sonatas". 

Perez Galdòs foi outro grande escritor do grupo (1843-1920). E tantos outros!
Perez Galdòs (1890)

Romancistas ou homens de teatro, grandes homens todos eles. Manuel e Antonio Machado, mais novos, acompanham-nos e fazem parte do grupo de intelectuais. 
Machado estuda na Universidade em Madrid onde tira um curso que lhe permite ensinar. É em Madrid que o seu primeiro livro de versos é publicado. E é  em Castela que escolhe viver a sua vida.
Nos poemas fala dessa Castilla que "o moldou": "Tierra immortal, Castilla de la muerte." (El diós ibero) 

Em 1907, Antonio Machado vai ensinar para Soria (província de Leon y Castilla) onde conhece a futura mulher, Leonor Isquierdo, muito novinha, ainda adolescente.
 Antonio Machado e Leonor, no dia da boda

Casam, em 1909, tem ela 15 anos e ele 34! 
Ela vai ser a companheira, a amiga, a amada, a musa. Pouco dura essa felicidade - tão breve: ela morre, em 1912, tuberculosa.

O tempo decorre com altos e baixos. Marcado pela morte  da jovem mulher, deixa Castela. Gostaria de ir ensinar para Madrid mas é colocado numa escola, em Baeza - e volta à sua Andaluzia. 
E tem de reconstruir a vida do princípio...
Joaquín Sorolla


A poesia de Machado é simples e sem arrebiques, evoca os lugares por onde passou, nomeia as pequenas coisas da vida e fala da natureza com palavras simples, de todos os dias. 
Da luna amoratada que ele vê, uma lua cor de violeta, ou cor de amora, ao pôr do sol, "en um campo frío"
"Luna amoratada
De una tarde vieja,
En un campo frio,
Más luna que tierra!"
Machado, pintado por Joaquín Sorolla (1917)

"Oh montes lejanos
De malva y violeta!
En el Aire en sombra
Solo el río suena."

* * *
"Abril florecía
Frente a mi ventana.
Entre los jazmines
Y las rosas brancas
De un balcón florido, 
vi las dos hermanas."
"La menor cosía, la mayor hilaba..."
Sorolla, a Mulher e as filhas, no jardim

"...El limonar florido,
el cipresal del huerto,
el prado verde, el sol, el agua, el iris!...,
el agua en tus cabellos!..."

flores de um limoal, de Malia Poppe

Na "Autobiografia" escreve sobre esse estilo simples que procurou sempre: 
Pensava eu que o elemento poético não era a palavra pelo seu valor fónico, nem pela cor, nem um complexo de situações mas sim um fundo palpitar do espírito; onde põe a alma –se é que põe,  ou o que disse – se é que algo diz, com voz própria, em resposta animada pelo contacto com o mundo.”

Por vezes, evoca a Serra de Guadarrama que tanto amava, os céus violeta e os rios que correm, as paisagens duras da Castela onde as vidas se vivem, difíceis, nessa natureza empedernida.
Os céus violeta onde as estrelas fulguravam e o ar lhe refrescava as fontes."
 Guadarrama 


"En el cárdeno cielo violeta
Alguna clara estrella fulguraba.
El aire ensombrecido
Oreaba mis sienes, y acercaba."

"Numa forma lírica sem virtuosismos estilísticos, funda na intenção e na dignidade humana do cantor”
Evoca as tardes sombrias "destartaladas" -desordenadas- como a sua alma. E os céus cinzentos onde se afogam as imagens das pessoas que trabalham os campos, em imagens que me recordam os quadros de Van Gogh.
desenho de Van Gogh

Es una tarde cenicienta y mustía
Destartalada como el alma mia.
...
"Las figuras del campo sobre el cielo. 
Colinas plateadas,
grises alcoreas, cárdemas roquedas"
El sol va declinando. De la ciudad lejana 
me llega un armonioso tanido de campanas
- Ya iran a su rosario las enlutadas viejas."

Um íntimo monólogo?  Um olhar para dentro? Talvez. Mas ligado ao “mundo” como ele diz, “animado” por esse contacto: daí, atingir os sentimentos universais porque nunca está longe da 'humanidade', nem da natureza.
"Entre cerros de plomo y de ceniza
Manchados de roídos encinares,
Y entre calvas roquedas de caliza."

"Cerros de chumbo e de cinza/manchados de ralos azinhais": a tristeza e o pessimismo atravessam certos dos seus versos. As saudades também. A dor íntima na casa solitária depois da morte da mulher.
"Dolor, yo te conozco,
Tu eres la nostalgia de la vida buena
Y soledad de corazón sombrio."

Outros temas do poeta: o fracasso de certas vidas, a monotonia dos dias, a preocupação com as coisas pequenas, sem importância do dia a dia, o quotidiano, o minúsculo, com comparações simples e quase infantis.
Ou a saudade da Sevilha da sua infância, do sol, das vindimas, da luz e do cheiro dos limoeiros no pátio da casa natal.
Sorolla



“Esta luz de Sevilla…Es el palacio
 donde nací, con su rumor de fuente."

Alguns falaram do “franciscanismo” dos seus versos (p. 505, op.cit) pelo amor que tem a todas as coisas: as moscas de Verão, na salinha onde o pai se sentava; ou a nora, onde “la mula vieja” andava à roda, "al compás de sombra". E a simpatia pelas coisas naturais e (aparentemente) insignificantes da vida, pelos seres mais simples.

"Moscas del primer hastío
en el salón familiar,
las claras tardes de estío
en que yo empecé a donar."
...

"La tarde caía
Triste y polvorienta.
El agua cantaba
Su copla plebeya
En los cangilones
De la noria lenta.
la noria lenta

Sonaba la mula,
Pobre mula vieja!,
Al compás de sombra
Que en el agua suena.

La tarde caía
triste y polvorienta."
...

Durante uns anos, tem uma vaga relação 'platónica' (ou não) com Pilar de Valderrama, poetisa e dramaturga que conhecera numa tertúlia literária em Segóvia e com quem se corresponde muitos anos.

E um dia a Guerra chega. Muitos dos escritores acima referidos vão ser confrontados com a sangrenta  Guerra Civil Espanhola (1936-39). 

Francisco Franco (o futuro ditador que fechará a Espanha com mão de ferro sanguinária) vem subindo do Norte de África, com o seu exército de tropas marroquinas e de falangistas, subindo do Norte de Africa, em direcção às cidades importantes - que vai conquistando uma a uma. 
É a iminente chegada deste ditador que os obriga a partir, cada vez mais longe. 
"Caminante, son tus huellas
El camino y nada mas;
Caminante, no hay  camino,
Se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
Y al volver la vista atrás
Se v ela senda que nunca
Se há de volver a pisar.
Caminante, no hay  camino,
Sino estellas en la mar."

Perto de Barcelona, por essa altura, entre 1938-39, rodava-se o filme "Sierra de Teruel" tirado de um romance de André Malraux (L’ Espoir), que é o realizador do filme. Malraux combateu na guerra de Espanha, como aviador, do lado republicano. 
Antonio Machado e a família, e outros escritores e investigadores republicanos, deixam Valencia e instalam-se em Barcelona. Ficam no Hotel MajesticBarcelona cairá, depressa, sob o comando das tropas franquistas. 
Hotel Majestic

A 22 de Janeiro, um grupo de cerca de 40 pessoas é, pois, obrigado a fugir, através dos Pirinéus, em direcção à fronteira francesa. São transportados em carros da Dirección de la Sanidad, acompanhados pelo doutor José Puche Alvarez. 
No meio da confusão de pessoas pelas estradas, em fuga também, são obrigados a deixar os carros e a seguir a pé. 
Perdem as malas. Dormem nos vagões vazios das estações. Depois apanham um comboio para França. Uma semana passa, entretanto, e, em 28 de Janeiro, chegam a Colliure. 

Antonio Machado, doente e fragilizado pelas dificuldades da viagem, morre a 22 de Fevereiro. 
No dia 25, morre Ana Ruiz, a mãe que o acompanhara sempre. Meses antes, ela dissera: “vou viver só até quando o meu filho António viver.” 
Repousam os dois no cemitério de Colliure.


                       "Caminante, no hay  camino,
Sino estelas en la mar."


Falando de Vallé-Inclan...
(*) Ramon Vallé-Inclan (1866-1936) nasce e morre em Santiago de Compostela. Em 1895, vai para Madrid onde inicia a carreira literária e onde vive muitos anos. De 1914-18 vive em França. Volta à cidade natal onde é catedrático de Estética.


Sonata de Outono, 1902, Sonata de Verão (1903), Sonata de Primavera (1904) e Sonata de Inverno (1905) são pequenas novelas de Valle-Inclán. 

6 comentários:

  1. MUITO OBRIGADA!

    Gostei imenso de ler o seu post, completíssimo.
    Achei a música do vídeo lindíssima.
    Fui espreitar o link do texto de Olavo de Carvalho.

    Andei a ver no site Wook, mas não há nada em português. Gostava de conhecer melhor a poesia de António Machado, mas em espanhol acho que não vou comprar...

    Um beijinho grande e obrigada mais uma vez pelo magnífico post:)

    ResponderEliminar
  2. Maria João,
    Adorei ler esta postagem completa da geração de 98. Conheço alguns nomes mas superficialmente.
    Gostei muito do primeiro poema.
    Beijinho e deixo já os meus parabéns para o blogue.:))

    ResponderEliminar
  3. ~ Uma exposição excelente e impecável, MJ!

    ~ ~ A minha singela homenagem ao poeta...

    ~~~~~~ «La Primavera Besava»

    ~~~~~~~ La primavera besava
    ~~~~~~ suavemente la arboleda,
    ~~~~~~ y e verde nuevo brotaba
    ~~~~~ como una verde humareda.

    ~~~~~~ Las nubes iban pasando
    ~~~~~~ sobre el campo juvenil...
    ~~~~~yo vi en las hojas temblando
    ~~~~~ las frescas lluvias de Abril.

    ~~~~~ Bajo ese almendro florido,
    ~~~~~~~ todo cargado de flor
    ~~~~~~recorde yo he maldecido
    ~~~~~~~ mi juventud sin amor.

    ~~~~~~Hoy, en mitad de la vida,
    ~~~~~~me he parado a meditar
    ~~~~~~ !Juventud nunca vivida
    ~~~~~~quién te volviera a soñar!
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    ~~ «se hace camino al andar» ~~
    ~ ~ Agradável fim de semana.~ ~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
    .

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Majo, por vir sempre pôr o seu comentário - que aprecio sempre! Sei que foi professora, compreenderá esta forma de "loucura"...
      É muito bonito (e triste) o poema que deixou do Antonio Machado. Um Abril chuvoso e de "meditação" quando a vida teima em passar!
      Um beijo e caminhemos sempre...

      Eliminar
  4. Andei a espreitar outra vez no Wook e acabei pedindo dois livros dele, em espanhol. Gostei muito da poesia e tenho pena de não ter nada.
    Mas espero que seja deste António Machado, os livros que estou a pedir, porque há mais "António Machados". Pedi "Poesias Escogidas" de ma editora chamada Castalia...e outro.

    Um beijinho grande e desejo-lhe um bom domingo. Por aqui está sol:)

    ResponderEliminar
  5. Maria João, penso que nunca tinha lido nada sobre António Machado.
    Muito interessante a informação que aqui expõe. Desconhecia.
    E muito bem ilustrada.

    Um beijinho.:))

    ResponderEliminar