quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os poemas de Christina Rossetti, modelo dos pré-rafaelitas e escritora...


Christina Rossetti nasceu na época vitoriana, filha de  Gabriele Rossetti, poeta e filósofo italiano exilado em Londres, refugiado político do Reino das Duas Sicílias (Reino de Nápoles e Reino da Sicília). 
Christina nasce em Londres a 5 de Dezembro de 1830 e morre, com um cancro, em Londres, a 29 de Dezembro de 1894.
Na década de 40, o pai tem um colapso mental e permanece incapaz. É Christina quem vai ficar em casa para o tratar. Esforço demasiado para ela, de saúde frágil, que terá um esgotamento. Adoece e nunca mais a sua saúde vai ser boa.
A família Rossetti, por Lewis Carroll

Com a doença do pai, a situação financeira altera-se. Os irmãos William Michael e Dante Gabriele vão estudar apesar dessas dificuldades financeiras e singram no campo das artes, mas Christina e a irmã Maria Francesca, não. 
Christina e Maria Francesca, por Dante Rossetti

Dante Gabriel Rossetti, o mais velho, vai ser um grande pintor e William Rossetti um crítico de arte apreciado.
Dante Rossetti, Auto-retrato

Dante Gabriel Rossetti

William Rossetti

Dante Rossetti, Vida da Virgem Maria

Christina, próxima dos irmãos -e do grupo dos Pré-Rafaelitas- esteve noiva de James Collinson mas o noivado desfez-se, em 1850, por motivos de incompatibilidade religosa: ele, cristão, e ela, anglicana. 
Conta Virginia Woolf: “Amavam-se mas ele era um Católico Romano e ela recusou-o. Ele tornou-se membro da Igreja de Inglaterra, e ela aceitou-o então. Mas ele vacilou porque era sincero na sua fé - e Christina, apesar do coração desfeito, e da vida para sempre sombria, termina o noivado".
 Mais tarde tem um apaixonado mas Carley é um “espírito livre” e ela afasta-se dele. O Deus dela é um Deus duro e rigoroso e ela é um espírito religioso.
Um pouco de amargura terá guardado toda a vida destas experiências
falhadas. Sente-se nos seus versos. 
pintada por Dante Gabriel Rossetti

Dela, diz Virginia Woolf que era “um génio” (1). E o poeta Swinburne acha que ela é a “coroa” dos Pré-Rafaelitas. Os Pré-Rafaelitas (3) preconizavam um regresso ao pormenor e às cores intensas e às complexas composições dos artistas do Quattrocento italiano, os Renascentistas.
Emily Brontë (?)

Há quem aproxime a poesia de Christina da de Emily Brontë: duas jovens mulheres -com pouco saúde e vidas difíceis- escrevem uma poesia muito melancólica, num olhar impregnado de mágoa e de solidão.

 Elisabeth Barrett-Browning

Contemporânea de outras mulheres escritoras que vão criando uma literatura à margem, como as inglesas Elisabeth Barrett-Browning (1806-61) e George Eliot (1819-1880) - ou a americana Emily Dickinson (1830-1894) - estão a par dos modelos literários do tempo, basicamente masculinos. 
George Eliot, aos 30 anos

 Emily Dickinson 

Importante relevar que George Eliot (Mary Anne Evans) escolhe um pseudónimo masculino para publicar os seus romances. Onde se refere à desigualdade de oportunidades entre homens e mulheres, com lucidez e um certo humor.

Com menos de 20 anos, Christina Rossetti inicia-se na literatura,  e escreve o romance 'Maude: A Story for Girls' que sairá, postumamente, publicado pelo irmão William Michael Rossetti.
Christina fotografada por Lewis Carroll

“Pertenceu ao movimento dos Pré-Rafaelitas, publicou na revista 'The Germ' (o primeiro número sai em 1850) com alguns poemas, mas não participava nas reuniões porque se realizavam à noite e o irmão, Dante Gabriel Rossetti, na qualidade de irmão mais velho, não deixava que ela saísse de casa à noite.”(in Prefácio, pág. 23)
The Germ, 1850 

desenho de Dante Rossetti 

Christina Rossetti está, porém, muito avançada em relação ao seu tempo e em relação à atitude dos homens do seu tempo. 
E não aceita os modelos comportamento social, cultural e estético do século XIX, procura transformá-los de acordo com os seus desejos e expectativas  Aquela, para quem a poesia surge da angústia de querer sempre mais, possuía a arte de fazer seu tudo o que existia e que o véu do silenciamento, tecido por uma ancestral cultura masculina, encobrira.” (in Prefácio).

A sua voz poética aparece, de facto,  referida no século XIX como tendo uma perspectiva própria – muito diferente da voz masculina que predominava.
Os pintores que a pintam têm a sua visão própria do ideal feminino: a visão “patriarcal” da mulher em casa, da mulher submissa, angelical e pura, dos quadros deles. Dante Rossetti, por exemplo, escolhe a irmã como modelo dos seus quadros sobre a vida da Virgem.


Dante Rossetti e Christina, The Life of The Virgin Mary 


Como ela, Elisabeth Siddal, mulher de Dante Rossetti, e que foi pintora também (4), ou Jane Morris, modelos, com Christina, dos pré-rafaelitas, elas próprias pintoras, poetisas, mulheres cultas que, no entanto, ficaram “perdidas” na noite dos tempos. 
Elisabeth Siddal, auto-retrato
Elisabeth Siddal, Beatrix, de Dante Rossetti
Jane Morris, Proserpina, Dante Rossetti

Modelos, mulheres que não têm vida própria: são apenas "sujeitos", fixas na imagem de beleza que o espelho deles reflecte...uma mesma mulher/um mesmo rosto nas suas telas/uma figura sempre igual/ em pé ou reclinada/ Ela está escondida detrás desses biombos,/E a imagem que o espelho reflecte é a da eterna beleza".
Dante Rossetti

Como ela escreve no soneto: In an Artist's Studio.

"One  faces looks out from His canvasses,
One selfsame figura sito r walks or leans;
We found her hidden just behind those screens,
That mirror gave back all her lovelines.
Not wan with waiting, not with sorrow dim;
Not as she is, but was when hope shone bright;
Not as she is, but as she fills his dreams."

Dante Rossetti, Elisabeth Siddal

Christina é descoberta nos finais do século XX. E valorizada. Talvez porque houve nesses anos um recrudescimento da valorização da tradição feminina na escrita. E talvez, também, pelo interesse novo que foi dado nessa altura à pintura Pré-rafaelita.

Escreve vários livros de poemas, histórias para crianças, Canções de embalar (A nursery Rhytme Book Common place and others short stories), 1872. Antes, em 1862, escrevera, A Goblin Market and Other Poems, e The Prince’s Progress (1856) e, depois, escreverá Speaking likeness - livro para crianças (1874) que se opõe ao livro Alice no País das Maravilhas

Alguns poemas:
Quando eu morrer, amor, não
cantes canções tristes para mim,
Não plantes rosas na minha campa
Nem ciprestes sombrios.
Deixa a erva por cima de mim
Com aguaceiros e húmidas folhas
E se puderes recorda
 e se puderes esquece.
Eu não vou ver as sombras

Eu não vou sentir a chuva;
Não vou ouvir o rouxinol
Cantar a sua dor:
E a sonhar, no crepúsculo,
Que não nasce nem desce,
Com alegria, posso lembrar
Felizmente, posso esquecer.”
(tentativa de tradução minha)


capa do livro, desenhada por Dante Rossetti

Christina Rossetti descobri-a há pouco tempo - porque a minha amiga Isabel me ofereceu um livrinho com os seus poemas, em edição bilingue. Uma boa tradução (de Margarida Vale de Gato) que é mais uma “versão” pessoal, uma visão um pouco forçada obrigando-se a uma rima, mas que procura respeitar a ideia.
De facto, o que é traduzir, se não encontrar noutra língua o equivalente a uma voz e a um sentimento? Dizia-o Boris Pasternak grande tradutor de poetas, ele mesmo poeta além de romancista.

Confesso que gostei logo dos seus versos. A verdade, insisto, é que Virginia Woolf a considerava um génio… E Virginia Woolf tinha um grande sentido crítico!

“Remember me when I am gone away
Gone far away into the silent land;
when you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you planned:
Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
a vestige of the thougts that once I ghad,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.”

a tradução a pg. 71:

"Recorda-me quando eu te abandonar
Quando me for sob a terra silente;
quando achares a minha mão ausente,
E eu, querendo partir, já não ficar.

Quando já não me puderes contar
planos de um futuro que nos não cabe,
recorda-me somente; tu bem sabes
que então será tarde para rezar.

Mas se me esqueceres entrementes
e depois recordares, não lamentes:
pois se a corrupção te assombrar os dias

Com ideias que eu tinha na cabeça, 
melhor será que esqueças e sorrias
do que minha memória te entristeça."

Resta-me convidar-vos para esta leitura! 
* * *
Sobre ela:
Marsch, Jan "Christina Rossetti: a writer’s life”, New York-Viking Press, 1995
Harrison, Anthony H. (ed) “The letters of Christina Rossetti”, 4 volumes, University Press of Virginia, 1977

Muito interessante este video sobre a sua vida e obra: 
http://www.bl.uk/learning/langlit/poetryperformance/rossetti/josephinehart/aboutrossetti.html
* * *
(1) Christina Rossetti, O Mercado dos Duendes e Outros Poemas, tradução de Margarida Vale de Gato, editora Relógio d’Água, 2001.
(2) Virginia Woolf, “I am Christina Rossetti”, in The Common Reader, Second Series, London, Hogarth Press, 1965)


(3)http://en.wikipedia.org/wiki/Pre-Raphaelite_Brotherhood  
(4)http://en.wikipedia.org/wiki/Elizabeth_Siddal

11 comentários:

  1. Li com muito interesse os textos e os poemas, ambos de muita qualidade, como era diferente o ambiente no sec.XIX, no fundo nem tão distante dos nossos dias, mas a história tem os seus contextos e abrange-nos a todos, mas a qualidade da escrita e a riqueza poética são admiráveis.

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  2. ~ ~
    Não é nada fácil entender o ambiente em viveram estas escritoras e artistas,
    num tempo denominado por «era victoriana», que nós reporta imediatamente
    a moralismo, rigidez de costumes, preconceitos, puritanismo, beatitude...
    ~ ~
    Todos morriam cedo e sabiam do seu destino. Antes da penicilina. qualquer
    infecção matava. A morte serve frequentemente de tema à poesia da época
    e dá-lhe um cariz melancólico, com nuances mórbidas e soturnas.
    ~ ~
    Pela criatividade na escrita de romances ou poesia e na arte, dava-se vazão
    a sentimentos recalcados, como forma de sublimação.
    ~ A genialidade e beleza da obra de Christina Rossetti provém deste facto.

    ~~~~~ Podemos dizer que a poetisa
    é o exemplo perfeito duma intelectual do seu tempo,
    ~ apenas, com um talento muito especial.

    ~~~~~~~~ Abraço amigo. ~~~~~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. ~ Queria dizer: 'que nos reporta'...

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    2. Sim, tudo tão diferente e, no entanto, tão perto. O tempo conta-se mais em séculos do que em anos, mas a Arte vive à parte e não "evolui", felizmente, porque os homens são idênticos nos seus anseios e sofrimentos. Um bom dia 1 de Maio...

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    3. Não posso estar de acordo totalmente, os anseios dos homens têm a mesma base, mas vai mudando a mentalidade e as formas. Penso que a Arte está em constante evolução, hoje era impensável um Rafael, um Velazquez ou um Cervantes, por ex., cada génio a seu tempo. Penso.
      Feliz dia, beijos

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  3. Um post maravilhoso, que adorei ler.
    Gostei muito de todas as pinturas/imagens escolhidas, algumas já conhecia , outras ainda não.

    Fiquei muito contente por ter gostado do livro (pensava que já conhecia) . Já aprendi tanto com a Maria João e aqui no seu blogue, que fico feliz por lhe ter dado esta gotinha de água.

    Um beijinho e desejo-lhe um bom feriado e bom fim-de-semana:)

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    1. Isabel, tu ensinas-me muitas coisas! E este livro e, logo, esta poetisa ter-me-iam escapado... beijinhos e bom weekend comprido!!!

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  4. Esqueci-me: vou agora ver os links que deixou:)

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  5. Li de cima abaixo e apreciei com gosto o texto e as imagens que nos transportam a uma época de convenções sociais, de tal forma severas, que nós não suportaríamos, nem um bocadinho.
    Bom fds.

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  6. Gostei muito da sua Flor de Maio e também já coloquei uma no meu blogue.

    Um beijinho e bom sábado:)

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  7. Muito bonito todo o registo.
    O poema das rosas e do cipreste tocou-me especialmente.
    Que dizer, MJ, é lindo tudo.
    Beijinhos. :))

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