terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Um novo ano vem aí…


a fada com a varinha de condão

Veio o Natal, e passou já, apesar das luzes e balõezinhos que brilham nas árvores ainda enfeitadas e de que não queremos separar-nos, porque é esse pouco de beleza e de alegria que queremos conservar mais uns dias. 

“Até ao Dia da Adoração dos Reis!”, dizemos. Quantas vezes deixo  a minha árvore enfeitada até ao fim de Janeiro!
Adoração dos Reis, de Botticelli

Começou o Inverno, chegaram os dias curtos e cinzentos, houve por aqui um vendaval de ventos ciclónicos e trovoadas de raios e trovões iminentes durante uns minutos sobre a minha casa.
O ano chegou ao fim e penso que tanto ficou para fazer, tantas palavras para dizer, tantos gestos imperfeitos que se deveriam ter corrigido. 
Será possível recomeçar?
O que desejar? Sempre algo de novo, porque o que fica para trás não nos basta e ansiamos mais. Nós, humanos imperfeitos, claro, que sonhamos com a perfeição. A perfeição da pintura, da literatura, da Arte? Sim. 
Adoração dos Reis, de Georges de La Tour
E, logo, a insatisfação da condição humana e a sua sede de absoluto apertam-nos o coração. 
Mais coisas! Mais para quê - se não for o bom? E o que é o bom? Não vou pôr-me a filosofar.

Vão surgir os eternos desafios que vêm do passado e não tiveram solução: escolher uma sociedade melhor e mais justa? Dar uma atenção maior, tão prometida, à pobre Terra doente, incentivando a luta contra o aquecimento climático? 

Ver o final das guerras religiosas e das matanças sem rei nem roque?
Sim, tudo isso vai voltar aos jornais, às televisões, às máquinas publicitárias.
E a nossa velha lenga-lenga que nos desculpa por tudo : “Ai, não depende de mim”, ou, então: “O que posso eu fazer?”
Não acreditamos que se possa fazer algum gesto pelo mundo? Que vai tudo inevitavelmente em direcção do abismo? Que a derrocada total nos aguarda, ou o Apocalipse está ali à porta? Que mais nada se cria?
Lembro António Machado e o poema:
"Dices que nada se crea?
No te importe: con el barro
De la terra, haz una copa para que beba tu hermano!"

Não sei se o mundo vai para o abismo. Sei, apenas, que há muito a mudar na atitude das pessoas. Para quê o ganho, o lucro, os rendimentos de uns - se não houver mais nada a não ser a pobreza dos outros?
Não há milagres, eu sei, nem existe a tal varinha de condão que tanto nos entusiasmou na adolescência: “Toc!” e tudo se resolvia, a princesa acordava do sono profundo, os anõezinhos brincavam com a Branca de Neve e o Polegarzinho encontrava a sua casa, depois do susto.
A princesa adormecida, de Viktor Vasnetsov

Eram Os Contos de Grimm, quem os não recorda? A magia dos contos de fadas e de encantamentos. O medo e a angústia que nos apertava o peito, por causa dos nossos heróis amigos!
Não, não podemos mudar o mundo com a varinha mágica! No entanto, atrevo-me a dizer uma vez mais: há sempre uma parte, na resolução dos problemas, que depende cada um de nós. Parafraseando Machado:

"De la terra, haz una copa
 para que beba tu amigo!"

Porque se falarmos de paz e a tentarmos 'fazer', ao nosso nível, ela pode resultar. Se dissermos palavras de amor e não as que trazem o ódio, a agressividade do outro pode diminuir; se formos altruístas, se dermos um pouco do que temos, alguém pode ganhar com isso, na sua dificuldade de viver, ou na sua pobreza; se tivermos cuidado com o que deitamos fora, no lixo, poderemos contribuir para o melhoramento ecológico. 

Se descobrirmos ‘momentos de graça’, dentro do desespero e desistência de cada um, no cinzento dos dias de que muitos pensam não poder sair, se tivermos esses “momentos que nos incendeiam o espírito” podemos tentar levar esse entusiasmo aos outros, esquecendo o nosso ‘ego’ feroz e infernal. 
E acrescentaria  ao que diz Machado : "del barro de la terra, haz una copa/ para que beban todos!

Como bem escreve Steinbeck:
O homem pode ter vivido uma vida cinzenta num campo de terra escura e de árvores negras, os acontecimentos importantes podem ter passado por ele, alinhados, anónimos, desprovidos de cor. 
Isso não interessa. Porque, nesse minuto de graça, logo o canto de um pássaro lhe encanta o ouvido, o cheiro da terra lhe sobe, agradável, pelas narinas e a luz suave de uma sombra de árvore lhe renova o olhar. Então o homem torna-se uma fonte e é inesgotável.

Por isso, estender a mão quando a nossa alegria pode ajudar o outro é importante. Sem esperar que haja uma paga.
“Dá, sem esperares que se lembrem que deste. Recebe, sem esqueceres quem te deu.
Natividade, de Georges de La Tour
Acreditar é importante. Fazer os gestos é importante. Criar a amizade e mantê-la viva, sem egoísmos, sem esperarmos que seja “devolvida” do mesmo modo, é importante. 
Nunca esperar que nos agradeçam, isso não é importante! Dar as mãos, sim.
Lembro Epicuro que acreditava na felicidade dos momentos passageiros e na nossa possibilidade de tudo poder mudar se não desejássemos mais do que deveríamos:
Não deves corromper o bem presente com o desejo daquilo que não tens.” 
Sabendo apreciar o que soubemos conquistar e preservando os valores importantes. Como a Amizade e os Amigos!
“A amizade dança em volta do mundo, dizendo a todos nós que acordemos para a felicidade.

Bom Ano Novo. Tentando corrigir o que está mal, dentro do que podemos. Tentar rir e cantar em vez de odiar! Seguindo o exemplo dos "Blues Brothers" que vão em missão para ajudar alguém que os ajudou um dia...
John Belushi e Dan Ackroyd com John Lee Hooker

Um ano cheio de amizades e de boas intenções! E de actos! - porque de boas intenções está o Inferno cheio, dizem as má-línguas!
Deixo uma receita fantástica: ouvir os "Blues Brothers" cantar "Everybody needs somebody...to love!"

Blues Brothers (1)

(1) Filme de John Landis com Dan Ackroyd e John Belushi  (1980)

11 comentários:

  1. É muito bonito tudo o que escreve. No fundo, no fundo esperamos que tudo comece a melhorar, connosco, com Portugal, com o Mundo.

    Vamos então fazer o nosso bocadinho e pode ser que o Mundo mude mesmo.

    Quem me dera uma varinha de condão!

    Adorei a imagem da Branca de Neve e os Sete Anões; o que eu gostava dessas histórias!!

    Um beijinho e FELIZ 2016!!!

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  2. Epicuro sabia bem que se todos nos contentássemos com uma "copa" haveria copas para todos, porque cada um necessita a sua...
    Sinto-te cheia de força, oxalá que continues assim todo o 2016 (vamos pedindo ano por ano, que já não está mal!).
    Um beijinho muito grande

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  3. Pensamentos muito bonitos para este final de ano. Resta-nos a esperança que algo possa melhorar no novo ano.
    Feliz Ano Novo. MJ.:))
    Beijinhos. :))

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  4. Querida Maria João, que 2016 traga mais amor ao coração dos homens, mais entrega, mais desejo de partilha, de ajuda, de preocupação com o ambiente, mais responsabilidade!
    Por vezes são gestos simples mas que marcam a diferença!
    Um excelente 2016, com muita Paz e Alegria!

    Um beijinho amigo.:))

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  5. ~~~
    Que seja um Bom Ano

    para nós, para todos os carenciados,

    para Portugal, Europa e Humanidade...

    ~~~ Beijinho, MJ. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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  6. Feliz 2016, com tudo de bom.
    um beijinho
    Gábi

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  7. Um novo ano, que todos desejamos vir a ser
    melhor do que o que passou. Como sempre, este
    post é uma pérola. Gostava de saber se o posso
    recomendar no G+ o que desde já agradeço.
    Aqui deixo uma mensagem de Louis Armstrong ,
    que decerto ficará para a eternidade.
    https://youtu.be/D67lR7Qy_wk
    Feliz ano novo.

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    1. Obrigada! Louis Amstrong é um dos meus preferidos!

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  8. Feliz ano novo, com serenidade, saúde e realizações.
    Um abraço

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  9. Muito obrigada a todos! UM FELIZ NATAL, MEUS AMIGOS!

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