domingo, 4 de fevereiro de 2018

Benjamin Tammuz e a terra de Israel


Há pouco tempo, li um livro de Benjamin Tammuz, aliás dois: “Il frutteto” e “Requiem per Naama”, uma história belíssima.

Só conhecia o “Minotauro”, um livro magnífico que nunca esqueci. Tammuz escreve -dum modo especial, muito enxuto, mas colorido e poético- sobre o amor de um agente secreto, em Londres, amor obsessivo e impossível. 
Tammuz,  a terra de Israel
Tammuz é um escritor israelita que fala da realidade do que se passou nos inícios do estado de Israel.
Tammuz nasceu em 11 de Julho de 1919, na Rússia Soviética e a família emigrou para a Palestina tinha ele 5 anos. 
Chaim Weizmann e o Rei Faiçal, 1919
Nesse mesmo ano, 1919, Chaim Weizmann e o Rei Faiçal do Iraque assinam um acordo que pretende criar uma cooperação entre árabes e judeus com vista ao estabelecimento de uma Terra de Israel na Palestina (sob Mandato Britânico de 1920 a 1948 )e uma nação árabe em grande parte do Médio Oriente. 
Weizmann, primeiro Presidente de Israel (1948)
O problema surgiu como consequência do desmembramento do Império Otomano, no final da Iª Guerra, que abarcava essa região do Médio Oriente.
Benjamin Tammuz estudou Direito e Economia em Telavive e continua, mais tarde, outros estudos de História de  Arte, na Sorbonne, em Paris
Sorbonne em dia de neve
Além de escritor, foi escultor com obra importante e também diplomata, em Londres. 
dedicada à Paz, Memorial aos Pilotos
Pertenceu ao grupo artístico "Os Canaanitas", com o escultor David Danziger, o escritor e tradutor Aharon Amir e outros.
David Danziger, "Ovelhas", Museu de Telavive
As personagens são rasgadas por sentimentos opostos, o amor pela terra é acima de tudo físico, cada bocadinho tem um valor especial e não se pode largar.
Conhecendo a realidade actual, deixa-me um gosto amargo o livro. Passados anos e anos, continuam a matar-se entre si, judeus e árabes, árabes e árabes e até judeus e judeus, com variadas percepções da mesma realidade.
E assim foi ao longo dos tempos, divididos. Uma grande diversidade existiu e existe em Israel: entre os movimentos políticos de libertação: Irgun (1) e Hagannah (2); entre os judeus sefarditas e os asquenazis; entre os orientais e os marroquinos; entre os religiosos e os ateus. 
Uma mistura explosiva de gentes que tentavam viver juntas na terra  desejada, unidos pelo amor a uma terra que consideravam "prometida". 
Benjamin Tammuz
Vão avante, lutando, discutindo e discutindo, perante a complexidade e a força dos sentimentos que os moviam. 
Dizem, em Israel, que quando se juntam dois judeus, discute-se e aparecem logo três teorias diferentes...
Guerra israelo-árabe (1948-9)
Tammuz fala da morte naquela terra amada por judeus e árabes. A violência da guerra, as matanças, durante a chamada 1ª revolução árabe. O ódio que os inflama a todos, o velho ódio da luta pela terra! 
Tantas mortes sempre. Tanto sofrimento. Tanta ferida. Tanto ressentimento. Tanta dor. Até aos tempos de hoje.
De Tammuz sei sobretudo que era um homem que viveu num Israel mais antigo e que presenciou todos esses movimentos. 
Fala sem hesitação de tudo – do bem e do mal, dos bons e dos maus, da fidelidade e das traições à terra.
Reuven Rubin
É da terra que se trata sobretudo, da terra “física” que deve dar frutos, que tem de ser plantada, defendida: ter pomares e campos cultivados...
E também do desejo de pertença dos homens a algum sítio; da vontade de serem de alguma parte, judeus perseguidos como o foram desde há séculos. Nunca nada foi simples para os judeus.
A terra, sempre. A figura de mulher, a bela Luna, em Il Frutetto (foi em italiano que li o livro), é uma metáfora de Israel: híbrida posso dizer, ambígua, pois Luna é metade árabe, metade judia. Amada por um irmão árabe e outro judeu. 

Quando Minotaur sai, em Inglaterra, o escritor Graham Greene considera-o o melhor livro do ano. De facto, em 1981, Minotaur foi escolhido como “Book of the Year, em Inglaterra. 
Benjamin Tammuz morre em Telavive, a 19 de Julho de 1989. 
Reuven Rubin, Galileia

A Terra de Israel, a antiga Palestina, onde todos -árabes e judeus- vivem - se detestam e se matam. História de amor, de violência, de perda, de procura, de identificação.
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(1) Irgun - movimento sionista para-militar, no tempo da ocupação da Palestina pelos Ingleses, contra os quais cria uma série de ataques terroristas.
Hagannah, 1947

(2) Hagannah - literalmente Defesa B ou Segunda Defesa)- é também um movimento para-militar, com outra orientação
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3 comentários:

  1. Os seus post são sempre tão interessantes!
    Ensinam-nos muito:)

    Gosto da nova imagem que abre o blogue. Transmite uma paz e serenidade muito grande...é o seu Alentejo?
    É linda a foto!

    Beijinhos e boa semana.

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  2. Não li nada do autor, o drama entre Israel e Palestina é uma ferida sempre aberta, crónica, dolorosa e de difícil solução. Nos recantos mais profundos da memória vão fazendo ninho as luzes e sombras das duas partes.
    Que frio hoje!!!!

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  3. Fiquei com curiosidade em ler o autor.
    Apresentado pela Maria João parece apaixonante...
    Um beijinho e bom fim-de-semana.:))

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