segunda-feira, 11 de julho de 2011

Bom dia! Lembrar o Professor Manuel Filipe que nos pôs a plantar árvores!






Por vezes indigno-me, revolto-me, é verdade.

Mas também gosto de me reconciliar depressa com as coisas, os sítios e a vida...

Hoje estive a pensar num passeio por São João, que dei há tempos.
Nessa amanhã, cheia de azul e nuvens branquinhas, descobri que havia recantos perdidos e bonitos, onde as boninas cresciam livremente.

Mas onde se via que alguém se preocupou em renovar a paisagem com árvores, flores, arbustos.

Surgem por todo o lado palmeiras, ibiscos de várias cores, alandros, hortências azuladas ou liláses, e muitas muitas buganvílias!

Salvaram-se alguns pinhais, tufos de matas, há árvores de fruto, limoeiros e nespereiras nos quintais inventados entre os blocos de cimento.

Até as casas me pareceram menos feias...

Descobri que muita gente põe flores nas varandas, vasos à janela, buganvílias à porta.
Que a estação nova -apesar das grades- tem qualquer coisa de filme do Far West, tipo "Ok Corral", e não é assim tão feia.

Enfim...
O tempo passa, ou, como dizia a minha amiga Dalit, nós é que passamos, o tempo permanece...
Cheguei a São João há muitos anos.
Era uma “localidade”, não havia outro nome para lhe dar: nem aldeia, nem vila, nem nada.A velha Quinta da Carreira tinha sido cortada, “lotada", desaparecendo dela tudo o que a aparentava coma palavra ”quinta”, árvores, perfume das flores e dos laranjais, jardins, verdes campos.

Construíram-se prédios, uns mais baixos, outros mais altos, duas ou três torres bonitas, mas tudo ao acaso, desirmanado, sem plano, sem rei nem roque.

A nossa escolha de vir para aqui viver foi feita como quem “mergulha” à procura do ar puro, de horizontes abertos, de um espaço sem as confusões das grandes cidades.

Estávamos cansados de Lisboa, da agitação das ruas, dos autocarros barulhentos e a ideia de estar ao pé do mar seduziu-nos.

Tinha acabado de me formar e decidi concorrer nesse ano para o Liceu de São João.

As árvores que hoje vejo, altas, da janela do meu quarto, são as do liceu.
Árvores que ajudei a plantar, com os meus alunos da ápoca, num “dia da árvore” inventado pelo professor de artes visuais, o professor Manuel Filipe, uma pessoa amorosa.

São plátanos, salgueiros, cedros que cresceram e ficaram altos altos altos.

Nas suas copas cantam os pardais quando chega a Primavera, ao cair da noite. De Inverno, ouço os mochos piar ali à volta.

São João era um sítio onde se respirava bem, o ar era puro, o mar estava a dois passos e a pequena baía da praia da Azarujinha onde ainda íamos apanhar mexilhões, nas rochas, quando a maré estava baixa.

Ao longe, no mar, soava a sirene do barco dos pilotos nas noites de nevoeiro. E o vento que soprava – e sopra - sempre forte, em São João.

Outra maravilha que recordo era o ribeirinho que corria, fresco e ruidoso ao lado da nossa casa, e onde havia uma quantidade de agriões que íamos colher.


Hoje pouca água corre no leito seco do ribeiro, a não ser nos dias de grandes enxurradas, mas os ramos dos eucaliptos descem até ao chão e tudo encobrem.


Estive muitos anos longe, nada ficou igual.

Quando voltei, estranhei o que me pareceu ainda mais pequeno, mais “localidade”, mais dormitório e menos terra, localidade que apenas o velho liceu (escola secundária) continua a animar, com os ruídos de sempre.

Os cabelos das meninas ao vento, os jeans justos ou rasgados e os collants ou as mini-saias, os olhares desafiadores. Eles, o gel nos cabelos curtos e espetados, que dantes eram cabelos compridos, caídos pelos ombros, com franjas mal cortadas.

Eles, os meus alunos do antigo liceu não mudam. As mesmas brincadeiras inconsequentes, os mesmos ares de conquista, com um bom bocado de palavrões à mistura, desagradáveis. Os grupos que se formam à parte, sem dar "confiança" às garotas, elas de cigarro na boca a soprar o fumo para parecerem mais seguras.

Tudo se transforma enquanto nós 'evolvemos' noutros espaços, nos afastamos ou nos aproximamos disto ou daquilo.
Tanta volta que o mundo deu à minha volta...Tantos países, tantas gentes diversas, línguas, culturas.
Alguma coisa teria que mudar em São João. Hoje tem um pouco mais de verde, já que "quinta da carreira" nunca mais será.

Vêem-se bucólicos banquinhos à beira do ribeirinho seco com chorões à volta e sebes de madeira a enfeitar.
Mas confesso que gostei do que vi nesta manhã e reconciliei-me com o passado e com o presente...

E agradeço uma vez mais ao meu colega, Professor Manuel Filipe que nos pôs todos -professores e alunos - a cavar e a plantar arvorezinhas lindas e mimosas. Num "Dia da Árvore", há muitos anos!

sábado, 9 de julho de 2011

Música no blog: Keith B. Brown - que vai vai estar no TMG - canta : "Me And The Devil"(2005)



Ouvindo Keith Brown?...


Keith Brown vai estar no TMG da Guarda, nos próximos dias! Atenção!


Nascido em Memphis, no Tennessee, Keith B. Brown é um músico dotado de um talento grande, um cantor extraordinário de Soul, Pop, Rock, Folk e Blues.
Autor de baladas pop como “Joëlle” e “Emeline” ou de música blues, de acústica profunda, como a canção "Bad Luck Child" ou ainda "Down the line".

Nos últimos anos, Keith Brown tocou com os mais famosos instrumentalistas da cena internacional. Cito apenas alguns como David Johnson ou Francis Cabrel (de quem gosto muito).

Em 2003, Keith é a estrela central do filme de Scorsese (produção) e Wim Wenders (realização), “The soul of a man” (http://youtu.be/yRGl6Twebvc), onde interpreta a figura de Skip James.
Trata-se de um filme-documentário que viria a ser o segundo de uma série de sete filmes do mesmo tipo, com o mesmo tema: “The Blues”.

Produzidos por Martin Scorsese, estes documentários traçam a história das raízes africanas dos blues, seguindo até ao delta do Mississipi e mais para além dele.

Os outros realizadores são, por exemplo, Clint Eastwood e Mike Figgis.

O próprio Scorsese contribui com um filme de 90 minutos intitulado “Feel Like Going Home”.
No caso de "The soul of a man" fala-se de figuras lendária dos blues, de Skip James, que já referi, a outros como Blind Willie Johnson e J.B. Lenoir.

Ouçam Skip James: http://youtu.be/BtZ6DoeimP4

O ratinho anda a fazer yoga...

O ratinho poeta, desde que voltámos a casa, parece-me inquieto. Mais calado, pouco expansivo.
Vejo-o absorto de manhãzinha, à janela, ou a olhar para mim, na mesinha de cabeceira, à noite.











- O que tens, ratinho?


- Nada... Estou a pensar na vida, respondeu-me ontem, muito sério.


E não adiantou mais conversa.

Hoje, ao entrar no quarto, estava ele de patinhas para o ar em cima da minha almofada indiana. - Ó, ratinho, o que estás a fazer? Podes partir o pescoço!



Não respondeu. Mas virou-se e pôs-se de barriga para o ar, a respirar profundamente, ritmicamente, inspirar, expirar...


Sem dar por isso, comecei a contar baixinho para mim: um, dois, um, dois...


De repente, ainda deitado, falou:


- Tenho andado nervoso. Enfim, sinto-me um bocado “desorganizado”...


O ratinho “desorganizado”?!


Lembrei-me logo do Eça e daquela personagem amorosa que era o Craft, o inglês de "Os Maias", a queixar-se daqueles dois "fantásticos", como ele dizia!

- “Desorganizam-me, preciso de ar”, queixava-se ele a Carlos da Maia, a dada altura.


“Eles”, os fantásticos (segundo Craft), eram os portuguesinhos Alencar e Ega...

E imagino-os, antes de irem "por esse Aterro fora", a discutirem encalorados, aos berros e insultando-se - quase chegando “a vias de facto” - e, uns metros mais adiante, abraçados, de lágrima ao canto do olho e lenço na mão, numas pazes à romance russo!


O Craft a olhar e a ouvir, coitado, completamente “desgovernado”...


- Mas desorganizado por quê, ratinho?


- Não interessa, agora já estou melhor...

Estava preocupada.


- O que estavas a fazer ali de cabeça para baixo?, voltei a perguntar.


- A fazer yoga.


E acrescentou:


- É assim que fazem em Mysore.

- Em Mysore?


O que saberá o ratinho de Mysore?

- Então não sabes? É onde vai aquela menina de quem estavas a falar com as tuas amigas...


- Qual menina?


- Não te lembras?


Sim, lembrava-me de uma conversa com umas amigas que me visitaram há dias, mas nunca pensei que o ratinho estivesse ali ao lado, a ouvir...

Este ratinho!...

- Pois é, Mysore. Na Índia.


Deu uma gargalhadinha, coisa que nunca lhe ouvira.


- Naquela terra onde as vacas andam no meio dos automóveis e das motoretas...

Encostado a uma almofada mais pequena, os olhos dele riam. Tive que me rir também.

Mysore... Um dia tenho de ir a Mysore! "E levo o ratinho", pensei ...


As vacas sagradas a atravessar as estradas e os carros a travar bruscamente., As motoretas girando sem controle, às curvas. As buzinas, os ruídos, os cheiros de comida que imaginara, as cores fortes: os laranjas os roxos, os amarelos dourados e os azuis ou verde-esmeralda que vira nas fotografias que “aquela menina” me tinha mandado.
Já estava a imaginar o ratinho com a sua mantinha de yoga a passear-se por Mysore, de motoreta!



Continuou:


- E contaste que havia macacos também. No meio da cidade, e a comerem tudo o que encontravam, não te lembras?


O ratinho gosta imenso destas perguntas: não sabes? não te lembras?


Olhou para mim e acrescentou:


- Tu é que gostas de macacos... Tens para ali tanta fotografia.


Será que o ratinho tem ciúmes dos chimpanzés, gorilas e dos sorrisos deles colados nos vidros da janela do meu “studio”?


- Pois gosto.


Ele ficou calado, ao meu lado. Perguntei-lhe:


- Não sabes uma coisa?


- Não..., disse ele.


- É que eu também gosto de ti...

Desta vez, respirou fundo. Vi que tinha ficado contente.


Que bom é este meu amigo silencioso e atento!






Faz-me lembrar o meu amado cão Zac, a quem eu chamava “ hamud sheli” e que morreu em Telavive...







eu e oZac, na minha varanda de Telavive...

Caetano Veloso -"Sozinho" - mas com flores...


Gilberto Gil and Stevie Wonder


terça-feira, 5 de julho de 2011

Voltámos a casa, eu e o ratinho!

Voltámos, eu e o ratinho. Viagem de pouca dura, dirão...

E ainda bem!, digo eu desta vez...

Mas toda a viagem traz os seus ensinamentos e o da nossa fragilidade é um conhecimento importante.

E que os outros te podem dar a ajuda de que te sentes necessitado, é bom sabê-lo também.


Releio um poema de Régio, das "Encruzilhadas". Com outros olhos.

E, no final, penso: "Ah! Eu cá hoje até lhe mudava estes versos, no final!"

Não sei se vão estar de acordo comigo...

"- Acabaste?

- Meu amor, acabei.


- Apagaste a candeia? Apagaste?


- Meu amor, apaguei.


- E fechaste o postigo? E fechaste?


- Meu amor... sim, fechei.


- Que rumor é aquele? Não sentes?


- Meu amor, que te importa?

É a vida a dar socos na porta.

É lá fora. São eles. É o mundo. São gentes...


- São gentes? Quem são?


- São colegas, amigos, parentes...


- Vai dizer-lhes que não ! Vai dizer-lhes que não !


José Régio, in As Encruzilhadas de Deus, "Meu menino ino-ino", nº3
Eu terminaria assim, hoje:
“- São amigos?
- Vai dizer-lhes que sim! Vai dizer-lhes que sim!”



Continuando...
Pois é, voltámos, o ratinho e eu.
Acho que ficou surpreendido com o que viu. Uma cidade tão diferente!


"Isto é um bairro moderno", diz o ratinho, a citar Cesário. - Já viste os prédios? Parece Hollywood.
E apontava com a patinha cor de rosa.
- Estou a ver...
- E aquela coisa alta que parece uma torre Eiffel com uma ponte atrás em cima da água? Aquela água é o mar?
Olhei para onde apontava a patinha dele.

Sorri.

"A Torre Eiffell, ai este ratinho!"

- É o rio, ratinho! E a ponte sobre o rio. A ponte nova...
- Mas não é o mar? É água...
- Não, ratinho, não é o mar. É o rio Tejo.
- Lá ao fundo tão liso e cinzento? Mas o que é um rio?

Olhava-me, espantado:

- Eu só conheço o mar lá em São João!
- Ah! Sim, claro, o mar de São João... Mas há mais coisas, mares, rios, lagos...
Ele calou-se um bocado.

- Não tens saudades?, perguntou-me de chofre.
Fixei-o. Parecia estar triste.

- O mar de São João é azul, tem ondinhas brancas... Até disseste que lhe chamavas “carneirinhos”.
E ficava a olhar, pensativo, pela grande janela envidraçada, encostado ao vidro altíssimo, a ver o horizonte entre céu e água.
Virava-se para mim:
- Mete medo. É tão escuro aqui o céu! E aquilo que dizes que é o rio parece uma faca. Uma faca de prata...
- É porque está a chover, ratinho, por isso é que o céu está cinzento. Mas ás vezes também é azul.
Virou a cabeça para a janela, desconfiado. Não acreditava que o céu que via ali pudesse ser tão azul como o nosso céu.
- E o que é aquilo ali, com uns pontinhos em cima daquela risca grande de um lado ao outro?
E lá vinha a patinha a apontar. Era a ponte que se divisava entre céu e rio, branca, detrás dos prédios azul-metálico, sempre entre céu e rio.

Cinzentos.
- É uma ponte, já te disse, ratinho.
- E tem nome?
- Sim, é a ponte Vasco da Gama!
- Ah!, disse o ratinho.

“Será que o ratinho já ouviu falar do Vasco da Gama?” Ele sabe tantas coisas...
- Quando é que voltamos para casa?
Pareceu-me impaciente.
- Por quê? Não gostas de estar aqui?

Pensou, olhou pela janela.
- É bonito.
Mas havia certa concessão naquela pequena frase, como se fose quase por favor que o afirmava.

Abanava de um lado para o outro a cabeça e os compridos bigodes brancos, com um ar sério.
Não estava assim tão convencido, pensei. Tinha razão. Aquela zona da cidade é bonita mas fria, desbitada, desumana. Apenas aqui e ali um café, uma loja, mas tudo sem gente, quase deserto. Faltava-lhe a vida que o ratinho sabia amar.

Um deserto dos tártaros na cidade moderna...

- São João tem pássaros! Tem pombas! Tem gaivotas e passarinhos atrevidos. Até bastante! Eu vejo lá da janela do teu quarto.

Estava convencido de que tinha marcado a “diferença”.

Continuou, animado:
- Tem vida! Tem gente! E o liceu?
- Aqui também aparecem gaivotas. Já as vi...
- Eu ainda não vi nada disso...

E virou-se para dentro do quarto.
- Ofereceram-te umas lindas flores! Gostam de ti.

Sorriu e os bigodes pareciam voar.

- E tu gostas?
- Sim, destas flores amarelas gosto...
- Chamam-se margaridas...
- Ai, sim? Como as meninas?

"Que meninas “margaridas” conheceria o ratinho"?
- Sim. Como as meninas.
- Gosto delas...
- Que bom. Eu também...
- São amarelas, justificou-se, envergonhado. E eu gosto do amarelo.

Tive vontade de rir daquele desabafo: “eu gosto do amarelo...”

Não era só ele. Conheço uma menina que sempre gostou do amarelo.

- Tira-me uma fotografia!, pediu.

Tirei-lha, ao pé da jarra, dentro do saco de viagem...

- Quando é que nos vamos embora?, voltou a perguntar no dia seguinte.

Agora estava deitado na caminha dele amarela. Só se lhe via a cabeça e as patinhas a sair.

Os olhos expressivos e um pouco ansiosos pareciam empurrar-me para fora dali.
De facto, tinha trazido de casa o inseparável Dashiell Hammett, mais dois livrinhos policiais da Vampiro do Hartley Howard...

Ah! e ainda tinha comprado um livro da Agatha Christie, sob o nome de Mary Westmacott, na tabacaria ali ao lado! Mas não lia nenhum.

Ele estava preocupado comigo.

Percebi e disse:
- Vamos voltar depressa, ratinho. Depressa.
- É que já tenho saudades do mar...
- Só do mar?
Virou-se para o outro lado.
- E da casa...
- E mais nada?
- Ah, também da raposinha e da gatinha japonesa...

E tinha um ar malandro.
- Só isso, ratinho?
- Já percebi o que queres que eu diga... Também tenho saudades do Manuel.
"Vamos voltar depressa, ratinho", pensei para mim.
- Olha, ratinho, se calhar amanhã vamos para casa!



JAZZ: Charles Mingus - Adagio ma Non Troppo



Flowers for a Lady: thanks, Charles Mingus e Ana!

Obrigada aos meus amigos. Agradeço com esta música maravilhosa (que me ofereceram, pela manhã) e com a simples flor vermelha do meu jardim suspenso...