“…pétalas
caindo
E
pó sobre o alaúde –
Os
pássaros estão perplexos.”
(Matsuo Bashô)
(Matsuo Bashô)
Sigrid
Undset foi uma escritora norueguesa que, em 1928, ganhou o Prémio Nobel de
Literatura.
retrato de Carl Larsson, em 1908
Penso que não foram muitas as mulheres que o conseguiram. Injustiças do destino para com as mulheres? Não do destino, mas sim dos homens.
Recordo uma escritora sarda que o ganhou antes de Sigrid Undset, em 1926, Grazia Deledda. Pouco lembrada -se não mesmo esquecida- no entanto falou muito bem da dura realidade da sua ilha
Há algumas semanas, aqui em casa, falei com a minha amiga Dalit Lahav, tradutora e mulher de Cultura telaviviana, judia de várias origens, entre elas triestina, tendo vivido no Brasil antes de ir para Israel.
Nós tínhamos regressado de Trieste no dia anterior e ela, que estava de passagem por Lisboa, veio ter connosco.
A Dalit é a tradutora dos livros do Manuel para hebraico. Liga-nos uma amizade de longos anos.
Começámos a falar do avô dela, que nasceu em Trieste, continuámos pela literatura triestina, -de tradição judaica e mitteleuropeia- e acabámos a falar das mulheres que receberam -ou não- o Prémio Nobel.
Nós tínhamos regressado de Trieste no dia anterior e ela, que estava de passagem por Lisboa, veio ter connosco.
A Dalit é a tradutora dos livros do Manuel para hebraico. Liga-nos uma amizade de longos anos.
Começámos a falar do avô dela, que nasceu em Trieste, continuámos pela literatura triestina, -de tradição judaica e mitteleuropeia- e acabámos a falar das mulheres que receberam -ou não- o Prémio Nobel.
De facto, comentando
o livro que eu estava a ler, “Feliz Idade”, de Sigrid Undset, e lembrando a grande trilogia "Cristina Lavransdatter", andámos à volta das escritoras que tiveram o Prémio Nobel - concluindo que há uma pequena percentagem de mulheres escritoras nobelizadas - num mar de homens.
Até o Prémio concedido a Nelly Sachs, em 1966,
foi partilhado com um homem – por sinal o grande escritor judeu, Y.S.Agnon.
Recordo,
mais recentemente, a escritora afro-americana Toni Morrison, que foi a primeira mulher negra - autora de "Beloved" e de outros bons romances - a receber o Prémio.
Também a inglesa Doris Lessing, que pertenceu ao movimento dos escritores da "Angry Generation" dos anos 50/60, recebeu-o em 2007.
E, mais recente, a canadiana Alice Munro, cujos contos têm muito interesse, em 2013. Voltando atrás no tempo, lembro outra, a escritora chilena Gabriela Mistral
Ou, ainda, em 1991, Nadine Mortimer, sul africana e defensora de Mandela, que dizia que "escrevia como se estivesse morta", sem ligar ao tempo nem ao espaço em que vivia.
Também a inglesa Doris Lessing, que pertenceu ao movimento dos escritores da "Angry Generation" dos anos 50/60, recebeu-o em 2007.
Doris Lessing
Alice Munro
Gabriela Mistral
Nadine Mortimer
***
Voltando à autora de “Feliz Idade” recordo que a novela foi publicada pela Inquérito, em 1940, na colecção ‘As
melhores novelas dos melhores novelistas'. É o sétimo volume da colecção.
Os escritores anteriores revelam por parte da editora uma escolha fantástica: o primeiro
é Dostoievski e a novela “Está Morta” (La
Douce, na tradução francesa), uma das peças de maior dramatismo e poesia
que conheço. Segue-se Tolstoi e “Senhor e Servo”, Flaubert e “Uma alma simples”,
e “Zinaida” de Tourgueniev.
Não se enganaram os organizadores da colecção - entre eles Gaspar Simões, um dos melhores críticos portugueses de sempre, que se caracterizava por um gosto crítico apurado que poucas vezes falhava.
Não se enganaram os organizadores da colecção - entre eles Gaspar Simões, um dos melhores críticos portugueses de sempre, que se caracterizava por um gosto crítico apurado que poucas vezes falhava.
Tudo
isto é passado, podem dizer.
É a partir do passado que se tem de dar um passo em frente, para viver o presente e o futuro. Porque, se o não dermos, arriscamo-nos a ficar 'entre cá e lá', parados, imóveis, sem fazermos mais nada (já o dizia John Steinbeck).
É a partir do passado que se tem de dar um passo em frente, para viver o presente e o futuro. Porque, se o não dermos, arriscamo-nos a ficar 'entre cá e lá', parados, imóveis, sem fazermos mais nada (já o dizia John Steinbeck).
A
novela, comprado na Feira do Livro, um ano depois de o Manuel e eu termos casado, acompanhou-nos nas viagens que fizemos. Encontrei-o há pouco, na estante da entrada - criada dentro do vão de uma porta comunicando com a sala- junto de outros livrinhos da Colecção da Inquérito.
Fomos comprando, depois, outros livros de Sigrid Undset, que teve o condão de me deslumbrar. Não conseguia largar as imensas páginas das suas obras mais conhecidas: "Olav Aundunson" ou “Cristina Lavransdatter”, sagas nórdicas, que falam da vida de figuras de mulheres corajosa e infelizes.
"Cristina" é uma trilogia inesquecível! Que não acabei de ler, reservando algumas páginas do fim para um dia mais tarde. Não tive nunca a coragem de fechar o livro para sempre.
Fomos comprando, depois, outros livros de Sigrid Undset, que teve o condão de me deslumbrar. Não conseguia largar as imensas páginas das suas obras mais conhecidas: "Olav Aundunson" ou “Cristina Lavransdatter”, sagas nórdicas, que falam da vida de figuras de mulheres corajosa e infelizes.
"Cristina" é uma trilogia inesquecível! Que não acabei de ler, reservando algumas páginas do fim para um dia mais tarde. Não tive nunca a coragem de fechar o livro para sempre.
A novelinha “Feliz Idade” está muito bem escrita e sente-se passar a vida viva, pulsando entre
as páginas que se lêem a correr.
No fundo, fala apenas do destino de três amigas jovens : Uni, Carlota e Birgit. E das suas grandes esperanças.
No fundo, fala apenas do destino de três amigas jovens : Uni, Carlota e Birgit. E das suas grandes esperanças.
“Ah!
– dizia-lhes a tia uma personagem de Undset – “é uma feliz idade a vossa, pequenas, tendo toda a vida maravilhosa à
vossa frente.”
Feliz
idade! Seria feliz aquela idade? Não sei.
Foi longo e duro o caminho da protagonista, Uni, e das outras duas e nem sempre a felicidade andou por perto.
Foi longo e duro o caminho da protagonista, Uni, e das outras duas e nem sempre a felicidade andou por perto.
Uni,
a insatisfeita Uni, sonhava ser actriz quando era afinal apenas empregada
de escritório. Ensinava uma catrefada de miúdos, por pouquíssimo dinheiro, para poder frequentar lições de teatro.
Mais tarde, dirá que o tempo passou por cima dela e das amigas sem lhes ter deixado nada.
Mais tarde, dirá que o tempo passou por cima dela e das amigas sem lhes ter deixado nada.
Carlota,
a amiga que tudo ambicionava conseguir, revolta-se contra a vida, contra a rotina do trabalho que abomina – ela
que desejava tantas coisas especiais e elevadas!
Revolta-se contra o tempo que passa, a neve, o frio - a percebe que as expectativas e os sonhos que tivera não se realizariam.
Detesta as noites infindáveis e os dias curtos, e igualmente a insuportável claridade, a luz que dura até à noite.
"Ah, como as noites são curtas!”, lamenta-se - como antes dissera o contrário: "detesto as noites infindáveis!"
Revolta-se contra o tempo que passa, a neve, o frio - a percebe que as expectativas e os sonhos que tivera não se realizariam.
Detesta as noites infindáveis e os dias curtos, e igualmente a insuportável claridade, a luz que dura até à noite.
"Ah, como as noites são curtas!”, lamenta-se - como antes dissera o contrário: "detesto as noites infindáveis!"
Nada de grande acontece às três jovens mulheres. Impacientam-se porque ~tão grande fora o sonho e tão pouco a
vida lhes trazia. O tempo passa e cada dia nada acrescenta ao anterior.
“Existe um destino?” Não sabem, não têm respostas. Queriam mudar de vida, ou, melhor, mudar a vida, queriam ser elas, queriam poder escolher. Exigiam-no.
"Escolher o amor ou a Arte?", é a dúvida de Uni.
“Existe um destino?” Não sabem, não têm respostas. Queriam mudar de vida, ou, melhor, mudar a vida, queriam ser elas, queriam poder escolher. Exigiam-no.
"Escolher o amor ou a Arte?", é a dúvida de Uni.
Feliz
idade? “Vamos ficar assim para sempre?”
queixa-se Uni. “Assim” é o facto de pertencerem a uma classe média mas pobre que não
lhes permite realizar nada do que sonharam.
Carlota
responde: “O tempo passa-nos por cima e
ficamos como cadáveres debaixo de água: não vivemos!”
De facto, o destino de Carlota vai ser trágico.
De facto, o destino de Carlota vai ser trágico.
E Birgit,
a pequena Birgit, prima de Uni? Fugira da aldeia à procura dum destino diverso e vai viver na cidade. Tudo corre mal, apaixona-se, sofre a desilusão de ser abandonada e volta para casa da mãe, ao campo.
Chora no ombro de Uni, dizendo desconsolada e infeliz: “Antes queria não ter nascido…”
Chora no ombro de Uni, dizendo desconsolada e infeliz: “Antes queria não ter nascido…”
Desistências.
Desânimos. Desilusões. Desespero.
***
Lembrou-me
os livros amargos e revoltados da irlandesa Edna O’Brien, “The country girls Trilogy". Só que Sigrid (nascida em 1882) escreve o seu livrinho trágico, em
1940, e Edna (nascida em 1930-) escreve-o muito mais tarde, em 1961-1964.
No
entanto, é o protesto de uma voz de mulher (a mesma voz) que exige a mudança dos costumes, a abertura de um espaço de liberdade para a mulher.
Alguma coisa mudou na situação das mulheres? Sim, com certeza. Mas o Prémio Nobel, durante estes anos todos, continuou a ser ganho na sua grande maioria...por homens.
Edna O’Brien
Alguma coisa mudou na situação das mulheres? Sim, com certeza. Mas o Prémio Nobel, durante estes anos todos, continuou a ser ganho na sua grande maioria...por homens.

































































