segunda-feira, 20 de julho de 2020

Afonso Duarte professor e poeta esquecido e os "barros de Coimbra"

Quero recordar a figura do poeta Afonso Duarte que nasceu em Ereira (Montemor-o-Velho) em 1 de Janeiro de 1884 e morreu em Coimbra em 5 de Março de 1958.

Licenciado na velha Universidade de Coimbra, em Ciências Físico-Naturais, estudou na Escola Normal Primária de Lisboa fundada por Dom Luís em 1862. Como Irene Lisboa interessou-se pelos estudos pedagógicos, esteve em Bruxelas, foi, como ela, professor da Escola Normal e, como ela, afastado pelo Estado Novo.
Afonso Duarte colaborou n’ A Águia, na Litoral, revista mensal de Cultura (entre 1944 e 1945) e escreveu, também, nas revistas Atlântida (1915-1920) e Contemporânea (1915-1926).
 Dirigiu Rajada, entre 1912-1914, uma "revista de Crítica, Arte e Letras” - ligada ao Modernismo.
Leio algures: “Rajada teve como director um poeta importante deste período do modernismo português, ligado a outras revistas, Afonso Duarte, poeta bastante conotado com o universo nortenho do saudosismo e da nostalgia bucólica.”
Essa "nostalgia bucólica" encontra-se facilmente nos seus poemas, na ingenuidade aparente dos seus versos, na forte ligação com a terra e as lides do campo.

Afonso Duarte foi uma figura muito respeitada em Coimbra. Até pelos  mais novos, que em 1927 foram os criadores da revista “presença”  - de que José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca foram os primeiros directores.

 Creio ser curioso saber que é na figura do poeta que se inspira José Régio para criar a importante personagem de “A Velha Casa” -do Ricardo Abrantes, o Mestre, que aparece logo no Iº volume, "Uma Gota de Sangue". 
 Afonso Duarte além de poeta, foi um pedagogo e interessava-se profundamente pela educação, pela etnografia e pela arte popular, pelas crenças e mitos ancestrais. Foi professor de Desenho da Escola Primária.O seu livro "Barros de Coimbra" (lições de Afonso Duarte) era uma espécie de Manual de estudo para a disciplina de Desenho.
Interessavam-lhe os motivos ligados à terra, ao povo, ao campo – de que se encontram referências na sua obra poética e também nos livros que escreveu para a Colecção Desenhos na Escola, como “Barros de Coimbra” (2).

Fala da beleza dos barros, a infinidade dos nomes populares para indicar o "pote", o "vaso, as "bilhas", o moringue, a ânfora. Interessava-lhe a íntima ligação entre as formas dos barros e a figura humana. E tudo explicava da origem ao seu significado desses utensílios. Daí que se encontrem como peças destes vasos "palavras" geralmente usadas para falar do corpo humano. E cita uns versos populares:

"Cala-te aí, boca aberta, 
Gargalo de almotolia"
"As refrescantes bilhas de barro dos oleiros de Coimbra, - bilhas de asas simples, espalmadas, bilhas de asas torcidas, e moringues, - derivam fundamentalmente, todas elas, da mesma curva. De volume abacial em ovoide, qualquer das formas exalta um tal equilíbrio de composição, uma tão bem achada harmonia com o uso que delas fazemos,  que regala os olhos menos regionalistas." (op.cit. pg.9)
Estes oleiros eram verdadeiros artistas e variavam os enfeites conforme a própria sensibilidade. Com uma capacidade criadora diferente de uns para outros. 
bilha cuja forma lembra um peixe
Explicar o autor: "Na figura acima uma bilha de asa singela, vista em silhueta, horisontalmente, desenham-se-me (...) deformadora, com flagrante feitio de peixe." (pg.11)E, no livro, ensina outras formas de utensílios de barro: as infusas (A e C), o pichel (B) e "a popular e humilde almotolia de barro vidrado (D) modelada em bojo pando, elipsoidal, e com o seu gargalo esganado pelos dedos do oleiro".
O livro foi publicado em 1925 e tem muitíssimo interesse inclusivamente do ponto de vista etnográfico pois o autor não se limita a referir a origem e a história dos utensílios de barro, ilustra o que diz acrescentando poesias populares, pequenos contos - até a Cantiga de Camões “Descalça vai pêra a fonte”.
“Descalça vai pêra a fonte
Lianor pela verdura;
vai fermosa e não segura.

Leva na cabeça o pote,
o texto nas mãos de prata.
Cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
Traz a vasquinha de cote
Mais branca que a neve pura;
Vai fermosa, e não segura."

***
O livro é ilustrado com os desenhos de Telles-Machado que mostram as várias formas da Olaria Nacional.
"Em breve apresentarei duas que têm por modelo a própria figura humana. (...) o Cântaro e a Talha de Coimbra - que são nossos semelhantes."
E aqui estão 'elas' nos seus diversos formatos e tamanhos.
 
Cântaros e Talhas de Coimbra
 
Mais adiante escreve : "O mais elegante é o Cântaro ou Asado, como lá lhe chamam. É uma das formas mais voadas e gráceis que têm saído das mãos dos oleiros desta região de Coimbra (Miranda do Corvo), secularmente votadas ao fabrico de vasos cerâmicos."
A dado momento, como que ao correr da  pena, Afonso Duarte insere uma sua poesia, O Cântaro da Água/Canção do Oleiro – do “Cancioneiro das Pedras” (1912) - poesia bem próxima do nosso 'lirismo tradicionale da qual quero copiar alguns versos. 

“Ao pé das águas correntes
De bruços matei a sede:
E, encanto que me faz mágoa,
Nas mãos depois encontrei
A concha de beber água.

Mas o vaso era imperfeito
E a sede não me parava
Por montes de áridas fráguas:
A modo que era de geito
Ter um regato comigo
Pelos desertos das águas.
E vai como era preciso,
Com juízo e longo adrêde
Da terra mãi fiz o vaso
Que bastasse à minha sede.
...
Dum barro côr de sol-pôsto,
- Ora vede que primor!-
Eu fiz o púcaro e o cântaro
À vista do meu amor." 

Descobrimos como esses oleiros eram verdadeiros artistas e variavam os enfeites conforme a própria sensibilidade. Com uma capacidade criadora diferente de uns para outros, conforme a inspiração - ou o modelo.  
Ainda a propósito do Asado ou Cântaro, mostra a arte do oleiro : "As asas são simples fitas de barro que facilmente se arqueiam e ligam. E a obra frágil ainda, erguida pelo milagre da coesão das formas, é levada para o ar livre para secar e endurecer, enquanto não chega o afogueamento da cosedura.
 
O Asado

Está feita a maravilhosa vasilha, tão admirada e cantada dos  poetas e prosadores que indissoluvelmente o ligaram à mulher e à paisagem de Coimbra - o Asado." (pg 25)

Só um poeta, creio, conseguiria falar deste modo dos objectos que acima referi.
Este livro foi para mim uma descoberta importante porque pouco conhecia dessa Olaria de Coimbra - apesar de ter em casa, talvez oferecida pelos meus sogros, uma bela peça que não sei bem como identificar entre estes modelos.

Quero dizer que respeitei integralmente a grafia do tempo em que o livro saiu.
 
NOTAS: 

(1) Os desenhos que ilustram este livrinho são da autoria de Telles-Machado.
“  (2)"A Escola Normal Primária de Lisboa foi fundada por decreto do rei D. Luís, no ano de 1862, manteve-se em funcionamento até ser extinta em 1930 no decurso da reforma educativa conduzido pelo governo da Ditadura Nacional. Era o estabelecimento de referência em Portugal para a formação de professores do antigo ensino primário (...) O regime saído do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 tornou-se numa Ditadura Militar ao suspender a Constituição de 1911” (wikipedia).

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Irene Lisboa a escritora da simplicidade profunda


Irene Lisboa  (Irene do Céu Vieira Lisboa) nasceu no Casal da Murzinheira, na Arruda dos Vinhos, em 25 de Dezembro de 1892 e morreu em Lisboa em 25 de Novembro de 1958.
 Escritora, poetiza, professora e pedagoga Irene Lisboa formou-se na Escola Normal Primária de Lisboa, criada por D. Luís em 1896 (1).
o rei D. Luís

Irene Lisboa continuou a estudar na Suíça, em França e na Bélgica, em Bruxelas, onde encontrou Afonso Duarte e José Rodrigues Miguéis - igualmente estudiosos no campo da Educação. 
De volta a Portugal especializou-se em Ciências da Educação e escreveu várias obras sobre pedagogia.
 Eugène Claparède

Esteve em Genebra com uma bolsa do Instituto de Alta Cultura onde teve oportunidade de conhecer Eugène Claparède e Jean Piaget dois dos nomes mais importantes das "Ciências da Pedagogia e da Psicopedagogia" da época – com quem estudou no Instituto Jean-Jacques Rousseau

Eram os tempos da Iª República Portuguesa e pela primeira vez escola primária  tornou-se uma preocupação, devido ao grande grau de analfabetismo existente.

Irene Lisboa foi professora da educação infantil. Recebeu em 1932 o cargo de Inspectora Orientadora do ensino primário infantil. 
Museu Irene Lisboa

Mas o Estado Novo instala-se e “essas modernidades” não estavam dentro das preocupações dos dirigentes. 
Para os seus escritos pedagógicos usava muitas vezes o nome de Manuel Soares, com receio de a afastarem do lugar que tinha no ensino público. 

Em 1940, Irene Lisboa é definitivamente afastada do Ministério da Educação e de todos os cargos oficiais alegadamente “por ter recusado um lugar em Braga”. 
De facto, a escritora e pedagoga tornara-se uma personalidade incómoda pelas ideias avançadas que trazia e Braga seria uma espécie de exílio.

Em 1942, publica um livro, intitulado “Modernas Tendências da Educação” (3) espécie de “súmula” da sua experiência lá fora – a escola nova - e dos conhecimentos adquiridos.
Anos mais tarde Irene Lisboa é afastada dessa função “o programa de Irene Lisboa que reformulava de alto abaixo as funções de um órgão estatal até aí consagrado apenas ao controlo ideológico, administrativo e disciplinar dos docentes”, como escreveu Rogério Fernandes, na sua Biografia sobre a autora. 
Tantas coisas que Irene escreveu a pensar no ensino das crianças. O ensino infantil era a sua maior preocupação. Por isso, dedicou-se muito do seu tempo a escrever histórias que fossem próprias para as crianças que tanto amava ensinar.

As ilustrações fazia-as a sua amiga Ilda Moreira – amiga de sempre, que com ela estudara na Escola Normal Primária de Lisboa e foram as duas as primeiras mulheres a formarem-se na Escola. 
Foi Ilda quem depois da morte de Irene continuou a luta pela publicação da sua obra. 
Tive a sorte de a conhecer e era uma mulher doce e forte.
Certos ‘contarelos’ como chamou aos seus contos curtos - “Treze contarelos”, por exemplo, têm uma pureza, uma ternura e uma ingenuidade que limpam as tristezas do mundo.

Lembro a história da Rosalina ou a do Joanico que fazem sonhar, sonhar e voltar à realidade da vida sabendo um pouco mais.

Também “A vidinha da Lita” (publicado, póstumo em 1972 por Ilda Moreira) que costumava ilustrar as histórias que Irene escrevia, propositadamente, para as crianças. 
Ou “Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma” (4) um livro maravilhoso com as belas ilustrações de Pitum Keil do Amaral.

Não me alargo mais – havia tanto a dizer sobre esta escritora admirável - só deixo uma “chamada” de atenção para os grandes escritores portugueses que parecem esquecidos. 
Irene Lisboa é uma escritora que devíamos ler - a partir da infância - e "reler" até ao fim da vida.  
Aconselho a leitura atenta dos seus textos de grande beleza e simplicidade a grandes e pequenos.
E já agora ler os contos dela aos meninos e meninas antes de irem dormir. Se não quem os lê?


Quero referir o trabalho importantíssimo que Paula Morão tem desenvolvido desde há muito tempo para a promover. 

E o trabalho que teve para criar o Museu de Irene Lisboa, na Arruda dos Vinhos.
E, ainda, Sara Barbosa que há pouco publicou a sua tese de Mestrado sobre a escritora "O Sujeito e o Tempo".


NOTAS:

(1)     Fundada por decreto do rei D. Luís, no ano de 1862, manteve-se em funcionamento até ser extinta em 1930 no decurso da reforma educativa conduzido pelo governo da Ditadura Nacional (...) O regime saído do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 tornou-se uma Ditadura Militar ao suspender a Constituição de 1911.” (in wikipedia)
(2)    Irene Lisboa, Modernas Tendências da Educação, editora BIBLIOTECA COSMOS, Lisboa, 1942.