terça-feira, 2 de Abril de 2013

O POEMA CURTO JAPONÊS, "HAIKU"..







Ouvimos falar desta poesia tipicamente japonesa como sendo algo diferente de tudo.
Haikus, haikis, haikais? 

Ou Haikais, como dantes eram chamados? O que são exactamente? 

Definição encontrada na "wikipedia": 


"Haiku ou haikai é uma forma poética de origem japonesa que valoriza a concisão e a objectividade. Os poemas costumam ter 3 linhas, contendo na primeira e na última cinco caracteres japoneses e 5 na segunda linha".


Mas por que razão gostamos do poema “haiku”? Pela simplicidade e imediateza, talvez.




Trata-se de dois volumes: “Haiku - Anthologie du poème court japonais” (NRF, Gallimard/Poesie, 2002) e "Haiku du XX ème siècle – Le poème court japonais d’aujourd’hui", mesma editora, 2007).



"Porque se ama o haiku?", pergunta Corinne Atlan, que assina o Prefácio da "Antologia" que autora traduziu, com Zémi Bainu, e que estou a ler

"Sem dúvida pela aceitação que encontra em nós, entre o maravilhamento e o mistério. O tempo de um sopro (um haiku, segundo a regra, não deve durar mais do que uma respiração), o poema coincide de repente com a nossa intimidade, provocando o mais subtil dos sismos”.

A actriz de Kobuki, Akuni

Continuo a citar Corinne Atlan:

“Segundo Bashô (o poeta clássico, o mais antigo criador destes poemas), um poema perfeito deve revelar –no mesmo momento- o imutável, a eternidade que nos transborda, (fueki), e o fugitivo, o efémero que nos atravessa (ryûko). 


Ando Hiroshige

O haiku treme e cintila, então, como um instante-poeta, uma fagulha que nasce da confrontação permanente entre  o presente e a eternidade.”


Katsushika Hocusai, ventania

"A eclosão espontânea de uma flor de sentidos”, acrescenta ainda a autora. 

Penso nas sakuras e nas glicínias (wisterias) magníficas, ou as flores de ameixoeira que vão desabrochar por toda a parte, nesta Primavera! No Japão, a Primavera já começou há muitos dias...


Têm o tempo de um respirar. Ou de um suspiro.

É um "attimo”, dizem os italianos, palavra difícil de traduzir que é sopro, momento fugitivo, efemeridade...
Hiroshige, ameixoeira em flor


Isso é o haiku. Como num movimento de respiração, a aproximação sensual do mundo que nos rodeia.


Antigamente chamado “haiki”, é um poema breve de 17 sílabas  (não são exactamente sílabas...) que “canta” a natureza, a comunhão do poeta com as coisas, a relação com o mundo, num indefinível sentimento que só certos poemas nos dão: suavidade, entendimento, o anulamento do ser naquilo que o rodeia. 

Identificação com o exterior, seja ele o luar, uma estação do ano peculiar, uma flor, um insecto, ou mesmo: "este tempo que nos enlouquece".


"susukis" ao luar


A sugestão, a impressão, a cor, a simplicidade.

Nas suas poucas sílabas, o equilíbrio entre o não-dito que se adivinha, o estado de espírito fugaz, o olhar que se perde e se associa a um sentimento é precário e subtil.

Atrás disso, vem tudo: a emoção e a dimensão imprevisível do mundo. A mistura das sensações, as sinestesias suaves, sabiamente escolhidas. Os oxímoros (bem, os paradoxos) delicados. Tudo encontramos na breve música dos versos do haiku.

pormenor da capa da Antologia



Kyioshika, Inverno

Os temas que escolhem os poetas são variados: o Outono; a Primavera; a primeira neve; o Inverno ou o Verão; duas mulheres; o vento que sopra; o nevoeiro e um rosto; o leão no luar; a geada; a garça e o novo ano; o chá. 

Os crisântemos, as flores róseas da cerejeira ou a brancura da flor da ameixoeira, as folhas rubras dos áceres, os pássaros. A imobilidade, a paz e a pureza e o ferver da vida...

Escrevia Bashô estes versos lindos e verdadeiros: 


"Sob as amendoeiras em flor
Agita-se e fervilha
 a humanidade"

Katsushika Hocusai

E tantos outros motivos, temas, na sua simplicidade quase absoluta.

Os nomes dos poetas são muitos. Desde a antiguidade aos tempos modernos...

O mais famoso, entre todos, talvez seja Matsuo Bashô que nasce em 1644 e morre em 1694. Depois,  já no século XVIII, Yosa Buson (1716-1783) e Kobayashi Issa (1763-1827).
casa onde teria nascido Bashô

Kobayashi Issa

túmulo de Buson, em Tóquio

Ando Hiroshige, Tóquio (ou Edo)

No século XIX aparece-nos Masaoka Shiki (1867-1902) considerado o “pai” do haiku moderno. Shiki foi amigo e mestre de Natsume Soseki - grande escritor japonês (1865-1915) que cultiva tanto o haiku como o romance. 


Masaoka Shiki


pormenor da capa da capa do livro "Haikus", de Soseki


o escritor Natsume Soseki

lanterna japonesa, Oda Cregh


"haiku" desenhado por Yosa Buson

Muito há a dizer sobre tudo isto, claro. mas nada como ler estes poemas curtos, que tentei traduzir (do francês, claro) o melhor que soube e que tanto prazer me deu.

Leiam, tentando sentir a atmosfera.

Hiroshige, juncos na neve e pato selvagem


Hiroshige, lua inclinada


Começo pelos mais antigos : Bashô e Kobayashi, talvez os mais amados!




* * *
Anda
vem ver a neve
até ela nos enterrar!

Matsuo Bashô (1644-1694)

*  *  *

Sob as amendoeiras em flor
Agita-se e fervilha
 a humanidade

Matsuo Bashô

*  *  *

Neve que caías sobre nós os dois
És a mesma
este ano?

Matsuo Bashô

*  *  *

Ah cuco!
Aumentas mais ainda
A minha solidão!

Matsuo Bashô

*  *  *

Apaixonado
O gato esquece o arroz
Colado aos bigodes

Tan Taigi (1709-1771)


*  *  *

Juntam-se os ossos do morto –
As violetas 
têm pena

Yosa Buson (1716-1783)

* * *

A libélula vermelha
Abre
A estação do Outono

Kaya Shirao (1738-1791)


* * *

Ei-la a minha 
última morada –
Cinco pés de neve!

Kobayashi Issa (1763-1827)

* * *

A idade da lua?
Diria treze anos -
Mais ou menos!

Kobayashi Issa 


* * *

Com uma voz amarela
O rouxinol
Chama pelos pais

Kobayashi Issa


* * *

Noite de andorinhas –
Amanhã outra vez
não terei nada para fazer

Kobayashi Issa


* * * 

A borboleta volita
Num mundo
Sem esperança

Kobayashi Issa

* * *

Borboleta que bates as asas
Sou como tu –
Poeira de ser!

Kobayashi Issa

* * *

Gafanhoto –
Não pises as pérolas
de orvalho branco

Kobayashi Issa


* * * 

Se pudesse morrer
Antes que o orvalho seque -
Seria perfeito

Ozaki Kôyô (1867-1903)


* * *

Noite breve –
Quantos dias
Me restam para viver?

Masaoka Shiki (1867-1902)

* * *

Passou a meia-noite –
A Via láctea
Inclina-se sobre um bambu

Masaoka Shiki

* * *

A morte chega –
Alguém ri às gargalhadas
Nas ameixoeiras

Masaoka Shiki

* * *

Apagada a  luz
as estrelas frescas
Entram pela janela

Natsume Soseki (1865-1915)


*  *  *  *  *  *  *

Prometo trazer mais poemas! Não me canso de os ler!

8 comentários:

  1. Maria João,
    Adorei, ADOREI. Gosto muito de Haiku.
    Gosto do "sopro" oriental: da arte, da poesia, do ritmo, do chá, da cerimónia... e não digo mais.
    Tenho dois livros de haiku de poesia feminina. Não me lembro se já coloquei algum. Possivelmente sim.
    Parabéns por esta postagem que foca este género poético.
    Beijinho. :))

    ResponderEliminar
  2. Gostei imenso deste post.
    Já tinha algum gosto pelas coisas japonesas, mas tenho aqui aprendido a gostar de muito mais.
    Já conhecia o haiku, mas não há muito, só desde que ando nestas lides blogueiras!
    Lembro-me de ver alguns haiku no blogue da Ana.
    Não tenho nenhum livro, hei-de ver se há em português. Acho muito bonito.
    Um beijinho grande

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Querida Isabel, também vi um "haiku" no blog da Ana, e o Manuel também pôs um há tempos. São admiráveis oela sua simplicidade e por tudo poder ser "tema"...
      A Lumière é bem capaz de ter lá algum, a Cláudia falou de uma boa edição da Assírio & Alvim...
      beijinhos

      Eliminar
    2. Vou já a "correr" perguntar à Cláudia!
      Entretanto vi que a Editora Lincorne tem um, que tenciono pedir.
      Também me lembro de ter visto há pouco tempo um poema no blogue do Manuel, sim!

      Um beijinho grande e obrigada pela informação (preciosa)

      Eliminar
  3. Querida Maria João,
    O Haiku encanta, pois com poucas palavras consegue transmitir muito... beleza, uma cultura, estado de espírito, felicidade, a natureza...
    De Matsuo Bashô, tenho um livro da Assírio & Alvim, intitulado "O Gosto Solitário do Orvalho", traduzido pelo grande poeta Jorge Sousa Braga. Um apaixonado por este género de poesia.

    Bonito post.

    Beijinhos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cláudia! Cláudia! É para mim! É para mim! Guarde-mo por favor!!
      Obrigada!

      Eliminar
  4. Poemas em tres versos, pequenas jóias. Tèm que encerrar um pensamento muito profundo, dito de uma forma que certamente perderá beleza com a tradução, a poesia traduzida perde sempre, é uma forma de expressão um pouco como a música.
    Gostei, muito japonês!
    Um beijinho grande

    Noite de andorinhas—
    Amanhã outra vez
    não terei nada que fazer.

    ResponderEliminar