domingo, 4 de agosto de 2013

Falando do Alentejo, pelos versos de um poeta...


Manuel Ribeiro de Pavia, Alentejanos (1946)

Van Gogh e as searas


Searas de trigo louro
Que o sol fecunda e aquece.
Cada aldeia é um tesouro,
Quem as viu, nunca se esquece.

 (poeta Manuel Parente Trindade)



Sim, é um leitmotiv meu, uma mania,  falar do Alentejo. Os anos que lá vivi marcaram a criança e adolescente que fui. Viajei por lá, nessa altura? Muito pouco, pois o meu pai não tinha carro.

Porém, vi muito na minha cidade e habitei em montinhos, andando pelos campos, com os meus tios. E com eles conheci outro Alentejo bem mais a Sul de Portalegre. Conheci montes e vales, vi terrinhas brancas de risca azul. Vi os alentejanos sentados no Largo.
Café Marquês, Porto Covo (MJF)

Venho falar de um poeta do Alentejo. Um amigo, que conhece bem o Alentejo, emprestou-me o seu livro. Não sei de onde vem, nem onde viveu mas “canta” o Alentejo.

Chama-se Manuel Parente Trindade e chamou “Alentejíadas” aos seus versos. São “Cânticos ao Alentejo”. 

Manuel Trindade (foto do Facebook)

Van Gogh e um campo de papoilas

Cantar em verso o Alentejo, à maneira do grande Camões, e por que não?

"Camões poeta genial
Amaste as musas do Tejo.
Tu cantaste Portugal,
Eu vou cantar Alentejo.”

E assim começa o seu canto:

Alentejo imensidão,
Chão bendito, espaço santo,
Minha Pátria, meu torrão,
Escuta os versos que te canto.

E tudo vem, atrás, desde a proposta para um passeio:

Vem comigo passear
Por esse Alentejo fora,
Há serra, planície e mar,
Sente-se o sol a queimar,
Vamos ver romper a aurora.”

Manuel Trindade escreveu os seus poemas e publicou-os (Oficinas Sograsul). No final, com certa ironia, muito alentejana, termina:


Até si, caro leitor,
Levei a minha ilusão,
Fui poeta e editor;
Diga: se gostou ou não?!...”

Não resisto a copiar um pouco da sua Introdução:


Neste Portugal, situado onde o mar acaba e a Europa começa, há uma enorme planície que ocupa, aproximadamente, um terço do seu território, a que chamam Alentejo. Ali, as coisas são diferentes.
A abóbada celeste junta-se à terra, numa linha horizontal, e o observador que se situe em qualquer ponto da referida planície é como se fosse o eixo de uma enorme cataplana, vendo até perder de vista de todos os lados. (...) 
Portugal é todo ele um país de contrastes e lindo de mais (...) porém não me levem a mal por eu, como bom alentejano que sou, achar que no Alentejo as cidades, as vilas, as aldeias, os montes e os campos têm um encanto especial e são diferentes do resto do país.”

Penso que  os meus leitores me perdoarão o desabafo de “boa alentejana”:

Sim. Ali, as coisas são diferentes...E parece-me sentir o vento soão trazer-me coisas que não esquecerei nunca. Ora ouçam...

Portalegre, "Rua Direita", de Faty Bernardo

Pôr do sol em Portalegre, de José Fernando

Portalegre e a Corredoura (MJF)

"Diz-me lá, ó Portalegre:
Por que corres encosta acima?
Feliz, vaidosa e alegre,
Diz-me lá, ó Portalegre:
Qual a força  que te anima?

Por que te vestes de chita?
Nas Festas dos Aventais
Se tu já és tão bonita,
Por que te vestes de chita
Queres ser ainda mais?”

Ou a voz dos "malteses", de quem tantas histórias ouvi contar.

"Sou um Maltês dos antigos
Durmo debaixo das pontes,
Os lobos são meus amigos,
Repartem comigo aos montes."

Aguarela de Carlos Madeira "Trecho alentejano"

Ou as "cantigas que o povo canta" e os lugares que conheci...

"Portalegre, terra alegre,
Dá de comer a quem passa,
Mas se não levares dinheiro,
Nem água te dão de graça.

Alegrete, ramalhete,
já meu peito foi teu vaso,
Tens agora outros amores
Já de mim não fazes caso.

Alentejo não tem sombra,
Se não a que vem do céu
Abriga-te aqui amor
À sombra do meu chapéu."

Ou uma voz antiga evocar a campina alentejana...



"No Alentejo a campina
Tem algo de diferente,
Cheira a feno e a resina
O sol é muito mais quente.

Tem o caminhos do sul
Por entre terras lavradas
Sob um extenso céu azul,
Soam cantigas passadas."


paisagem alentejana (MJF)

E tantos outros poemas que falam de Manuel da Fonseca, como Carta a Manuel da Fonseca, poema dedicado ao romancista de "Cerromaior" (a capa do livro é do pintor Ribeiro de Pavia), Manuel da Fonseca que tão bem falou da dura realidade alentejana, dos ganhões, dos malteses, dos latifundiários, dos trabalhadores e da terra que não lhes pertencia...

Fala de Florbela, de Vila Viçosa e de Elvas, de Estremoz ou da Ouguela, das mulheres alentejanas, das ceifeiras e  das papoulas mais  as abelhas e do ciclo do trigo. Tudo isso é o Alentejo!
Manuel Ribeiro de Pavia, Ceifeira



Manuel Ribeiro de Pavia, figura feminina

Sem esquecer as anedotas alentejanas - das quais ri, bem humorado, como bom alentejano.

paisagem alentejana (MJF)

Poemas que estão cheios da terra alentejana. 

À pergunta que o poeta põe “Diga: se gostou ou não?”, respondo que gostei e que valeu a pena publicar o livro! 

Levou-me ao meu Alentejo, fez-me sorrir, enternecer. Obrigada, poeta do meu Alentejo!


5 comentários:

  1. Também eu partilho este amor pelo Alentejo. Conheço as pedras do caminho, as dores que tecem poemas, os entardeceres ardentes, os amanheceres envoltos em bruma.
    Beijinhos
    Luísa

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  2. E eu, que nem sou do Alentejo, também gostei muito!
    De tudo!
    Gostei muito dos desenhos de Ribeiro de Pavia, incluindo a capa de Cerromaior.
    Um beijinho grande, querida senhora alentejana!

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  3. Todo o meu sangue é alentejano, sei do que estás a falar, e o Manuel Trindade. Levo no coração as minhas recordações do Alentejo, cuando lá chegava, sobretudo no verão, vinda da Beira Alta, era como descobrir outro mundo, luminoso, limpo, alegre, branco...enfim, uma maravilha!
    Beijinhos

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  4. Maria João,
    Adoro o Alentejo, como sabe. Este post entrou bem fundo e deliciou-me sobremaneira.
    Vejo tudo o que os versos retratam.

    Ao poeta,
    Gostei. :))
    Beijinho grato por esta partilha. :))

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  5. Conheço o Alentejo por fotos que parecem quadros, textos descritivos e versos, que me fazem "ver" como é o Alentejo! E gosto! Gosto das cores do céu e da terra quando se unem no horizonte!

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