sábado, 16 de junho de 2018

TELAVIVE, A CIDADE BRANCA E O ESTILO ‘BAUHAUS’



Telavive é a mais bela cidade em estilo Bauhaus (*) do mundo. Em 2003, essa zona foi, justamente, considerada Património Mundial Cultural, pela UNESCO.

Foram contabilizados mais de 1500 edifícios, “sujeitos a diversos planos de restauro e de preservação”. E considerados protegidos, a partir de então. Muitos tinham sido deitados abaixo, mas outros salvaram-se e têm uma perspectiva de restauro em vista.

Há mais casas neste estilo em Telavive do que no resto do mundo. Cidade construída pelos arquitectos, artistas e técnicos - judeus fugidos da Alemanha nazi, na década de 1930.
E ajudaram à construção e à urbanização da “cidade branca”, como lhe chamaram.

Lembro-me de ver esses edifícios, de grande simplicidade arquitectónica, na rehov Bialik, na Rotschild, na Kikar Dizengoff  (com a sua fonte colorida), na rehov Sheinkin, na Ben Yehuda.

Ou, na Sederot Ben Gurion, o edifício do Café Apropo, onde foi deflagrada uma bomba poucos meses depois de termos chegado a Israel. O “Apropo” é um belo Café em estilo Bauhaus onde costumávamos ir – e onde o Manuel passava todos os dias antes de ir almoçar. 

O atentado kamikaze ocorreu no dia 21 de Março de 1997, na véspera do Purim, que é a festa das crianças, espécie de carnaval. Morreram três jovens mulheres uma delas grávida. 
Nunca esqueci a foto de um bebé de 6 meses, vestido de clown que se salvou porque a mãe se deitou por cima dele e o salvou, morrendo. Recordo o jornal do dia seguinte em que uma jovem polícia agarrava o bébé nos braços.
Na manhã seguinte, o Café Apropo, com a esplanada e as vidraças destruídas completamente e parte da mobília lá dentro, abriu normalmente.
Vieram empregados, amigos e clientes e -ou quem passava – e todos varreram vidros, endireitaram as cadeiras, limparam, lavaram, arranjaram o que tinha arranjo, deitaram fora o resto. No final, em copos de papel, bebemos café, chá, sumo de romã e comemos os bolinhos que cada um levou. Hoje existe no jardim em frente um monumento às três vítimas.

A cidade começou a ser construída por volta de 1909 quando sessenta famílias vindas da Europa ocuparam o areal de dunas frente ao mar, nas proximidades da cidade portuária de Jaffa, Era um espaço, vazio e desértico, onde se estende hoje a Promenade junto ao mar o passeio público que vai até Jaffa.

S. J. Agnon (**), grande escritor israelita que ganhou o Prémio Nobel em 1970, conta essa odisseia no seu livro mais famoso, “Tmol Shilshom” : Ontem e Anteontem.

Shmuel Joseph Agnon nasceu em 1887 em Butshatsh, na Galicia oriental, então região da Polónia e morreu em Telavive em 1970. Recebeu o Prémio Nobel em 1967 com a escritora Nelly Sachs.
Em 1908 vai viver para a antiga Palestina ainda pertencente ao Império Otomano. 
 Cerca de sessenta chefes de família reúnem-se e formam uma Sociedade Imobiliária porque todos querem construir uma casa naquela Terra santa para eles. (…)
E continua:
Construiremos belas casas, plantaremos diante de cada uma pequenos jardins, traçaremos ruas largas e direitas. Faremos reinar o nosso espírito de um puro Israel nestes lugares e assim que pudermos, teremos autonomia.”
"o terreno desértico onde constroem a cidade..."
Decidem que cada um dá 20 francos e começam à procura dum terreno. Decidem que a cidade terá de ser criada longe da cidade velha. “Encontrámos o terreno no deserto da cidade; mas não se encontrou dinheiro para o pagar.”

Esse areal de dunas foi, pois, dividido, loteado e sorteado e cada uma das tais famílias de que falei se encarregou de construir, em comunidade, casas, traçar estradas e desenhar ruas.
Como explica Agnon, compraram  “um terreno, formado em parte por colinas de areia e, em parte, de vales e ravinas.”com a ajuda de Kéren Kayémeth." (***)

E a grande tarefa começa. “Arrasam-se as colinas, deita-se a areia nos vales, trazem-se pedras do mar e enterram-na. Partem-se pedras, os martelos soam todo os dia e os rolos compressores aplainam. (…) nivelam-se os fossos. Camelos e burros transportam a areia.”
E a cidade de Telavive cresce em todos os sentidos. Uma das zonas, a central, ainda hoje, vista do alto, no meio dos arranha-céus moderníssimos, distingue-se facilmente das outras: um agrupamento de casas baixas, “pequenos edifícios com formas de caixas e tecto branco” – que reflectem o estilo tradicional da arquitectura modernista  Bauhaus.

São cerca de 3000 os edifícios construídos, entre 1931-1939, num estilo simples e funcional mas “artístico”.

***
O que significa o estilo Bauhaus, ou Escola Arquitectónica Bauhaus? Fundada, em 25 de Abril de 1919, por Walter Gropius - cuja intenção era combinar e juntar arquitectura, artesanato e academias de arte.
Walter Gropius (1883-1969)
estilo Bauhaus, Gropius em Dessau

Cafetaria, em Dessau

Subsidiada, inicialmente, pela República de Weimar (república em democracia representativa semi-presidencial, criada depois do fim da Iª guerra), após a mudança do governo de Weimar, em 1925, a escola desloca-se para Dessau, cujo Município era liberal. 


Em 1932,  fugindo às perseguições nazis, a escola muda para Berlim. Em 1933, os Nazis proíbem a escola Bauhaus - acusada de ser um foco de judaísmo e bolchevismo - e fecham-na, definitivamente. 

Era considerada pelo Nazismo uma 'frente'comunista e judaica porque muitos dos que ali trabalhavam e estudavam eram na maioria judeus alemães e judeus russos.
Art Nouveau

Era um movimento que vinha no seguimento da Art Nouveau e do movimento Arts & Crafts: a tentativa de unir as artes plásticas, consideradas até ali artes superiores, ao artesanato e ao trabalho manual (artes inferiores, dando-lhes a mesma importância).
edifício de Walter Gropius, estilo Bauhaus

Walter Gropius, e um grupo de arquitectos e artistas de vanguarda, conseguem unificar as duas visões com o Bauhaus (‘casa estatal de construção’).
Kandinsky, Composição 8, 1923
Wassily Kandinsky(1866-1944)

Wassily Kandinsky, Paul Klee e outros pintores e artistas de várias nacionalidades estiveram intimamente ligados ao Bauhaus
Kandinsky nasceu em Moscovo mas, em 1928 , nacionalizou-se alemão e foi professor na Escola Bauhaus. Mais tarde, fugido aos nazis nacionalizou-se francês, em 1939. Introdutor da abstracção no campo das artes visuais, foi professor na Universidade Bauhaus.

A cadeira "Wassily"

Marcel Breuer outro arquitecto e designer, inspirado no estilo Bauhaus, desenhou esta bela cadeira a que chamou "Wassily".
 Marcel Breuer, edifício Bauhaus, nos USA


 Marcel Breuer 
Marcel Breuer 

Paul Klee foi amigo de Kandinsky e ensinaram os dois na Escola Bauhaus. Nasceu no cantão suíço, perto de Berna, em  18 de Dezembro de 1879 e morreu em Muralto (Suíça) em 29 de Junho de 1940. Viveu na Alemanha. 
Desenhista nato, Klee realizou experiências sobre a cor e escreveu sobre a teoria da cor. Foi um expoente do cubismo, expressionismo e surrealismo. 

Paul Klee (1879-1940)
Paul Klee, 1931

Walter Gropius (1883-1969)

Foi Gropius que acreditava num ensino experimental e uma visão interdisciplinar e defendia a integração da arte com a técnica que permitiu este 'intercâmbio' de "artes" e nacionalidades. 
O seu movimento Bauhaus e Modernismo no design e na arquitectura, foi a primeira escola de Design no mundo.
Tel Aviv

O Bauhaus teve um impacto fundamental no desenvolvimento não só da arquitectura do ocidente europeu, como, também, em Israel, nos USA e no Brasil onde se exilaram muitos dos que vinham fugidos do regime nazi. 
***

(*) A Escola Arquitectónica Bauhaus  foi fundada, em 25 de Abril de 1919, por Walter Gropius. Escola de design, artes plásticas e arquitectura de vanguarda iniciada na Alemanha, em Weimar. A República de Weimar era uma democracia representativa semi-presidencial, criada depois do fim da Iª Guerra.

 (**) Shai J. Agnon (1888-1970) viveu em Israel de 1909 a 1913 e participou na fundação de Telavive. O livro “Tmol Shilshom” sai em Israel, em 1946. Leio-o na tradução francesa, “Le chien Balak”, Éditions Albin Michel, 1971. 
"O cão Balak" é a segunda personagem principal do livro. “Simboliza o judeu perseguido mas igualmente o homem em geral, na sua procura de verdade de perfeição e de absoluto.” Em inglês, o título é “Only Yesterday”.
(***) Kéren Kayémeth LeIsrael (K.K.L.) é o Fundo Nacional Judaico, fundado em 1902, que provinha das colectas para auxiliar os refugiados, comprando terrenos na Palestina para a criação de um Estado.

3 comentários:

  1. Deve ser uma cidade bonita, os judeos são muito inteligentes e eficazes. Em apenas 100 anos passou de 60 famílias a mais de 400 000 habitantes. As desgraças quando não nos matam fazem-nos mais fortes sem dúvida. Que passes uma semana quentinha e que tudo vá saindo bem por aí. Beijinhos

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  2. Muito interessante, todo o post.
    Gosto do estilo das casas. Muito bonitas, apesar das linhas aparentemente simples.

    Um beijinho grande e uma boa semana:)

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