quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Mito de Ulisses...E os bárbaros



Francesco Primaticcio, Ulisses e Penélope

Não sabia que havia um mito de Ulisses. Li-o num artigo, que referia esse "mito".

Na Odisseia, Homero conta a longa jornada de regresso a casa de Ulisses, rei de Ítaca, depois do final da guerra de Tróia. Jornada que demora dez anos, nos quais viaja, conhece, arrosta perigos, ataques, um naufrágio, durante os quais Penélope, sua mulher, o espera...

Seria então o mito do eterno viajante? Do navegador errante? Tinha de ser...

Pensei nas viagens maravilhosas que o herói viveu, viajando, anos e anos, atravessando mares cheios de mistérios desconhecidos, as múltiplas experiências vividas, o perigo afrontado, desde o naufrágio à Maga Circe, que os quer transformar em porcos, à deusa Calipso, ao gigante Cíclope.

E as sereias que o atraem para o fundo do mar. Querendo tudo conhecer da vida, Ulisses manda os outros mareantes encher os ouvidos de cera e pede que o atem ao mastro do navio: para saber, para poder "ouvir" o canto que entontecia os marinheiros e os fazia deitarem-se ao mar e afogarem-se...

Herbert James Drafer, Ulisses e as Sereias


Lembrei Homero e a magnífica capacidade de contar, de manter o leitor (ouvinte, pois que era "literatura oral") preso, na expectativa, à espera de saber o que vem a seguir.
O poder da palavra e da imaginação. As descrições de Tróia a arder, dos fugitivos vencidos, as emoções dos que sofrem, dos que venceram...

Tudo estava já em Homero e nos clássicos gregos, na Grécia Antiga, nos seus trágicos, na comédia. A profundidade dos sentimentos, a ideia de um dever, a consciência de um direito.
Quem foi mais longe do que eles?

O artigo referido era um artigo muito interessante, e foi lá que “descobri” o tal mito de Ulisses...
O articulista referia-se a um grande jornalista, Eugenio Scalfari, jornalista e escritor italiano, fundador do jornal
La Repubblica.

Passava-se num Festival, em Pordenone, na alta Itália, onde fora convidado para falar do seu livro “
Per l’alto mare aperto” (Einaudi, 2010).

A dada altura diz ele:
“É importante retomar o sentido da viagem e do mito de Ulisses, que significa “manter alto o valor do conhecimento”.

Então é "manter alto o valor do conhecimento"!

Voar mais alto.

Como Galileo Galilei afirmando o seu conhecimento, frente à Inquisição, defendendo a sabedoria, as conquistas do saber. Ou Giordano Bruno, queimado por essa mesma Inquisição que desprezava o "conhecimento" desde que não enquadrado nos seus estreitos limites religiosos.

Galileu, por Cristiano Banti

A estátua de Giodano Bruno, no Campo de' Fiori, em Roma

Antes explicara que hoje teme que se “feche uma época”, se abandone o passado “habituados a viver esmagados pela pressa premente do presente”, entregando o esforço do nosso intelecto a “máquinas”.

Kandinsky, Composição

É urgente reflectir atentamente sobre certos problemas, insiste. Quais? O risco de perdermos a língua que falamos, as palavras que têm significados, e que correspondem ao nosso intelecto.

Segundo Scalfari, corremos o risco de “embarbarecermos”: quer dizer, “ficarmos bárbaros”!
Usando um vocabulário reduzido, elementar, primário, "esquelético" -quase reduzida a sons apenas, a sinais cabalísticos nos sms- perdemos certa capacidades...

Uma nova geração que chega e fala uma linguagem totalmente diversa? Pode ser.

Mas falar desse modo reduzido, necessariamente pobre, é para o autor “um processo vergonhosamente corrompido”.

Fala da língua inglesa hoje mundialmente falada. Mas falada como?

Voltamos ao “bárbaro” e ao “esquelético”: existem ainda meio milhão de palavras na língua de Shakespeare, segundo estudos feitos em Oxford. Dessas, são usadas normalmente ainda 10.000; para falar na internet ou
sms, usam-se apenas 1.500. Por cá não sei o que se passa, mas deve ser idêntico...


Continua Eugenio Scalfari:

“O vocabulário reduziu-se às necessidades primárias, sentimentos básicos, à maneira dos títulos das notícias”.

Grave. Perigoso. Porque essa forma de falar “esquelética” suscita também pensamentos igualmente esqueléticos, elementares.

Daí que seja fundamental e urgente “
combater aqueles que inquinam os valores da modernidade verdadeira”.

E retomar...

Retomar o quê? O mito de Ulisses!

Como diz Eugenio Scalfari:

“É importante retomar o sentido da viagem e do mito de Ulisses, que significa manter alto o valor do conhecimento”.

Citando (
livremente) Santo Agostinho, digo eu:


“A vida é um livro, quem não sai do mesmo sítio (não viaja/ não aprende) não lê mais do que uma página ...”

Deixo-vos com uma canção veneziana (em dialecto veneziano) de Alberto d'Amico: "Arriva i barbari" ( e outra versão mais moderna a seguir...)...


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Alan Sillitoe e " A solidão do corredor de longa distância"


Queria falar deste escritor há muito tempo, mas fui adiando. E, como acontece nesses casos, "a vida meteu-se ao meio e o que tinha de vir veio", como diz um verso de Régio.

capa da edição portuguesa de "Sábado à noite, domingo de manhã", do Círculo de Leitores


Ontem, procurando mais coisas sobre ele na internet, dei-me conta que tinha morrido. Encontrei um artigo do El país, de 27 de Abril, contando a sua morte, no Charing Cross Hospital de Londres, com 82 anos.

Demasiado tarde!
Depois pensei que nunca é demasiado tarde para aprender, ou para ensinar, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Assim, continuei a busca e aqui vos deixo umas coisas que aprendi...

“Alan Sillitoe -que faleceu em Londres com 82 anos, em 27 de Abril – pertenceu a essa geração de escritores ingleses cujo nome bastava para se perceber tudo. Os Angry Young Men, aqueles jovens irados, vinham das sombras de um pós-guerra cujas cicatrizes converteram em nada os gestos inúteis de vitória de homens invadidos por um atroz pessimismo e desasossego”, refere o artigo.
Há poucos meses tinha relido "A solidão do corredor de longa distância" (The loneliness of the long-distance runner) e foi nessa altura que pensei escrever sobre Sillitoe. Lembrava-me que os livros dele me tinham impressionado.

Vêm-me à memória os escritores desses anos 50/60, a Beat Generation, os jovens iracundos (ou zangados), contestadores, a juventude provocadora.
A essa literatura vai aliar-se o cinema do tempo, também contestatário e focando esses problemas sociais e humanos.

O realizador Karel Reisz, ou Tony Richardson, por exemplo, ou ainda John Schlesinger.

Os filmes Taste of Honey, O mentiroso, Sábado à noite, domingo de manhã, A Kind of loving, ou Look back in anger marcaram algumas gerações.
Look back in anger, filme tirado do livro de Jonh Osborne, um dos angry young men
Era o início da carreira de muitos actores ingleses, mais tarde famosos: Alan Bates, Albert Finney, Tom Courtney...
Continuo a pensar que os melhores actores são os ingleses...
Têm a melhor escola de actores. A velha escola de teatro do Old Vic (ainda hoje activa em Londres) onde, entre outros, “reinou” o grande Laurence Olivier.

Alan Sillitoe nasceu em Nottingham e era o segundo de quatro filhos de um curtidor de peles analfabeto, desempregado longos anos durante a Depressão de 1930, e que vai trabalhando, saltuariamente, como pedreiro. A mãe está empregada numa fábrica de rendas, ganha pouco.

Vivem com muitas dificuldades. Tudo isto ensombrece a sua infância e adolescência e teria de marcar o jovem Silitoe e as suas escolhas futuras.

“Vivíamos num quarto em Talbot Street e as paredes cheiravam a fugas de gás, a gordura rançosa e a rolos de papel de forrar paredes”, recorda Silitoe.

Aos 14 anos deixa a escola e arranja vários empregos, nos sítios mais diferentes, entre os quais uma loja de bicicletas. Aproveita o tempo livre para ler tudo o que lhe aparece.

Quando rebenta a IIª Guerra, alista-se na Força Aérea, como operador telegráfico.

No final da guerra, adoece com tuberculose e passa 16 meses num hospital da RAF a tratar-se.

"Aí começa a ler tudo: clássicos gregos e latinos e a literatura universal em tradução; literatura inglesa desde Chaucer; muita poesia. Do seu autodidactismo diria depois que começara a escrever aos 20 anos e só aos 30 sentira que era realmente capaz de o fazer."(in Expresso, José Cutileiro -ver o link no final)

Cedo, porém, a descoberta dos livros e da literatura levaram-no a decidir que ia ser escritor. Infelizmente a primeira história, em que falava de uns "selvagens" primos que tinha, foi considerada demasiado verdadeira e reveladora das histórias íntimas da família, e foi destruída pela mãe.


Romancista inglês, escritor de histórias para crianças (com a figura do gato Marmelade Jim), poeta, homem de teatro, encenador e crítico social, Alan Sillitoe fez parte do grupo dos “angry young men” dos anos 50, com figuras como John Osborne, Kingsley Amis, Colin Wilson, entre os mais conhecidos.

Encorajado pelo escritor Robert Graves, que encontra em 1956, começa a escrever o primeiro romance, Saturday night, sunday morning (1958), inspirando-se na vida dos operários de Nottingham, vida que conhecera bem: a das suas origens que nunca renegará.

O seu herói é o jovem Arthur Seaton, que é, no fundo, um herói anti-social, ou um anti-herói...

Sillitoe rejeita uma forma elitismo artístico e, em vez de satirizar a vida da classe média britânica confortável, prefere pôr em foco os indivíduos rebeldes e as pobres gentes que vivem vidas difíceis e sombrias.

Foi Sillitoe quem introduziu, na ficção da Inglaterra do pós-guerra, os heróis pertencentes às classes trabalhadoras que surgem no “Saturday night” e nos outros livros que se seguem.

"(…) the best and bingiest glad-time of the week, one of the fifty-two holidays in the slow-turning Big Wheel of the year, a violent preamble to a prostate Sabbath."

"(...) o melhor e mais embriagador momento de alegria da semana, um dos 52 dias livres no lento girar da Grande Roda do ano " -tradução muito livre minha...)


Em 1960, o livro foi adaptado ao cinema por Karel Reiz (*). Este realizador, nascido na Checoslováquia mas naturalizado britânico, realizou, em 1968, Isadora, com a actriz Vanessa Redgrave e, em 1981, com Harold Pinter, A Mulher do Tenente Francês, com Meryl Streep e Jeremy Irons, grandes sucessos também.

Três anos mais tarde, Sillitoe publica a sequência deste romance, continuando agora com a figura e as histórias do irmão mais velho de Arthur, Brian. Intitula-se Key to the door (1961).

Em 1995, escreve uma autobiografia, intitulada Life without an armour (Vida sem Armadura).
Em 2002, vai voltar com Birthday aos velhos tempos e ao seu herói, Arthur, reunindo desta vez a família toda.



Gostaria de vos falar de “A solidão do corredor de longa distância”, colecção de contos, que aparece no final da década de 50 (The Loneliness of the long-distance Runner, 1959), que é o título da primeira história.

Com este livro ganhou o "Hawthornden Prize".

O conto narra as aventuras -ou desventuras- do jovem Colin Smith.

Apanhado pela polícia, a assaltar uma padaria, Colin, (o narrador e o corredor de fundo da história) vai parar a um Instituto Borstal - escola-prisão, tipo de reformatórios, que ainda existem em Inglaterra hoje com o mesmo nome.

Desadaptado, a vida corre lenta no borstal, até ao dia em que, "empurrado" pelo director do reformatório que o quer incentivar, se prepara para participar numa corrida (espécie de Maratona).

Descobre, então, uma sensação de liberdade nessa solitária actividade de correr. Treina-se, sabe que é capaz de ganhar.

Quer vencer.

Vai à frente durante todo o percurso, tem todas as condições para ganhar a corrida. Perto da meta, porém, pára e deixa passar os outros corredores, sob o olhar perplexo e furioso dos espectadores.

Colin prefere
rebelar-se e mostrar o seu desafio contra a autoridade, que representava tudo o que sofrera na vida de repressão e abusos: escolhendo “perder” a corrida...

Prefere perder e encontra nisso uma liberdade: a de se poder revoltar...
Em 1962, sai o filme homónimo, realizado por Tony Richardson com guião escrito pelo próprio autor.

Tal como o seu herói, Alan Sillitoe era, no fundo, um rebelde e um anarquista, livre dos constrangimentos políticos fossem eles quais fossem.

Os seus valores eram os da classe operária -onde nascera- opostos aos da classe média que, do princípio ao fim da sua vida, nunca procurou nem lhe interessaram.

Foi marxista, conheceu a URSS e denunciou-a quando teve conhecimento do que se passava realmente dentro desse regime, que o homenageara...

Sillitoe apreciava os valores da liberdade, acima de tudo. Viveu e morreu como um homem livre. Como o seu "corredor de longa distância", preferiu a liberdade...


Stars

"Stars, seen through midnight windows

Of earth-grained eyes

Are fullstops ending invisible sentences,

Aphorisms, quips, mottoes of the gods

Indicate what might have been made clear

Had words stayed plain before them.

('Stars' poema de "A Falling Out of Love", Alan Sillitoe, 1964)


Podem ouvir a canção The loneliness of the long-distance runner, cantada pelo grupo heavy metal, "Iron Maiden", dedicada ao herói deste conto .


(*)
Nascido na Checoslováquia, Reisz (Ostrava, 21 de Julho de 1926 - Londres 25 de Novembro de 2002), foi uma das 669 crianças judias salvas do Holocausto e trazidas por Sir Nicholas Winton para a Inglaterra, quando a Alemanha nazi nvadiu aquele país do centro da Europa pouco antes da eclosão da II Guerra Mundial. Entretanto, os seus pais acabariam por ser mortos em Auschwitz.

Artigo saído no Expresso sobre a morte de Alan Sillitoe, da autoria de José Cutileiro

sábado, 16 de outubro de 2010

Uma "versão" muito mais interessante, pelo video que mostra: Simply Red - Holding Back The Years

Hoje faço anos...

Berthe Morisot, o berço

Frase de um amigo israelita (típico humor yiddish...), a desejar-me um bom aniversário:

“Dizem que quem faz muitos aniversários geralmente vive muitos anos!”

Fiquei contente, claro...


Porque eu hoje faço anos.

Com a história do facebook recebi imensos “parabéns”. Virtuais, claro, mas sempre são um “pensamento” (um “pensierino”, diriam os meus amigos italianos).

Como em cada um de nós “vive” uma criança (era horrível se não “vivesse”!), lembro-me de outros dias de aniversário da minha infância...
Gostava muito do dia dos meus anos e gostava que fosse em Outubro, porque o Outono era a minha estação preferida...
Certa melancolia minha dava-se bem com aqueles dias um pouco cinzentos, o céu nublado, às vezes uma chuvinha mesmo não me importava...

Na minha casa amarela ficava sempre à espera que nesse dia me viessem trazer uma prenda...
Podia ser um lencinho de assoar bordado, uns rebuçados, pouca coisa me bastava, mas ficava muito triste se se esqueciam de mim...


Adorava que me dessem cadernos e lápis de cor! Ia logo pôr-me fazer uns rabiscos, uns desenhos, com a minha irmã pequenina ao lado. ìamos muitas vezes para a salinha verde e deitávamo-nos na carpete a desenhar. Um dia até caiu das escadas porque ia a correr atrás de mim...

Ainda hoje não resisto e em todas as papelarias tenho que comprar cadernos, mini-cadernos, e canetas de todos os feitios...

Mais tarde, eram os livros o que eu preferia como prenda...
A verdade é que a mais pequena lembrança me fazia feliz. Juntei uma colecção de lencinhos espantosa, muito bonitos, uns com rosinhas, ou borboletas, ou joaninhas, etc.
esta borboleta azul foi "roubada" no blog Trepadeira, confesso...
E mais... Quando as minhas irmãs faziam anos, os meus pais e todos os amigos traziam uma prenda para mim também. Por quê? Porque eu ia esconder-me num cantinho a chorar, se não me traziam nada...
Ainda me parece ver a cara preocupada da minha irmã mais velha, a olhar para mim, a ver se eu chorava.
Mas quando o dia dos anos corria bem, juntava as prendas em cima da cama, e à noite dormia muito contente...

Confesso que era assim em pequena. Agora mudei.
Mas pensando bem, continuo a adorar fazer anos! O facto de os meus amigos se terem lembrado de mim, fez-me ficar feliz, como dantes...

E deu-me vontade de rir...

Holding back the years, Simply Red live... Como era bom!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

AD AMICOS, soneto de Antero de Quental. Sim, lembrando os Amigos e o tempo que passa e, logo, Apollinaire...


Antero de Quental, pintado por Columbano Bordalo Pinheiro

quadro da pintora Marie Laurencin, grupo de amigos com Apollinaire


OS AMIGOS

Já o Principezinho aprendera com os amigos:

“No teu mundo os homens cultivam mil rosas no mesmo jardim...E não encontram o que procuram...E no entanto o que procuram poderia encontrar-se numa só rosa ..."

"Mas os olhos estão cegos. É necessário procurar com o coração."

"Serás sempre meu amigo"—disse o princepezinho.

E nós perguntamos, ansiosos, também:

“Vais ser sempre meu amigo?”, é esse no fundo o nosso medo...

Na Universidade de Coimbra, num ambiente boémio, Antero de Quental, Eça de Queiroz e Oliveira Martins, entre outros jovens intelectuais, reuniam-se para trocar ideias, livros e formas para a renovação da vida política e cultural portuguesa.

Foram amigos. Foi o início da "Geração de 70".

E o tempo passou, a água correu debaixo das pontes...

« Passent les jours et passent les semaines/ Ni temps passé/ Ni les amours reviennent/ Sous le pont Mirabeau coule la Seine », escreve o grande Apollinaire…

(Passam os dias e passam as semanas/ Nem o tempo passado/ Nem os amores voltam/ sob a ponte Mirabeau o Sena corre...)

Guillaume Apollinaire, pintado por Vlaminck

Passaram os anos... Outros anos, outros amigos.

Lembro a geração do meu pai e dos seus amigos.

Em Portalegre, Manuel Portilheiro, Rui Abreu, Florindo Madeira (pai).

Anos mais tarde, ainda em Portalegre, José Régio, o Eng. Ventura Reis, o capitão Carlos Saraiva, a Luisinha, sua mulher, Arsénio da Ressurreição.

Outros amigos.

Em Lisboa, durante a juventude, na Universidade que fizeram juntos, Marques Cardoso, Cruz Costa, como ele médicos, e Viterbo Moreno, o "eterno estudante", melómano e culto amigo...


Guardo as dedicatórias de Marques Cardoso ao meu pai, em livros de Antero que lhe ofereceu:

Nas “Primaveras Românticas” (Versos dos Vinte Anos, 3ª edição), comprada na Livraria Couto Martins, da Rua da Prata, escreve:


“Eu ponho em ambos o mesmo nimbo claro da minha admiração” (Março de 1943);

Nos “Sonetos” (3ª edição, prefaciada por J. P. Oliveira Martins), diz:


“Querido Amigo, Você e o Poeta teem (sic) para mim um fundo de semelhança que me chama, do seu Marques Cardoso” (dedicatória sem data);


Nas “Odes Modernas” (Nova edição, segundo a 2ª, 1926):


“Meu bom Falcão, um grande Amigo é uma existência dentro da nossa a refulgir” (sem data também)


É, pensando nos amigos de todos os tempos, eternos e imortais, que vos deixo este soneto de Antero:

AD AMICOS

Em vão lutamos. Como névoa baça,

A incerteza das coisas nos envolve.

Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve,

Nas suas próprias redes se embaraça.


O pensamento, que mil planos traça,

É vapor que se esvae e se dissolve;

E a vontade ambiciosa, que resolve,

Como onda entre rochedos se espedaça.


Filhos do Amor, nossa alma é como um hino

À luz, à liberdade, ao bem fecundo,

Prece e clamor d'um presentir divino;


Mas n'um deserto só, árido e fundo,

Ecoam nossas vozes, que o Destino

Paira mudo e impassível sobre o mundo.


(in Sonetos Completos)


E agora deixo, completo, o belo poema de Apollinaire:

"Sous le pont Mirabeau… "


Neste poema, Apollinaire faz alusão à ruptura com a pintora Marie Laurencin, e evoca a passagem do tempo que foge, tal como as águas do Sena, debaixo da ponte Mirabeau…


Sous le pont Mirabeau coule la Seine

Et nos amours

Faut-il qu'il m'en souvienne

La joie venait toujours après la peine

Vienne la nuit sonne l'heure

Les jours s'en vont je demeure

Les mains dans les mains restons face à face

Tandis que sous

Le pont de nos bras passe

Des éternels regards l'onde si lasse

Vienne la nuit sonne l'heure

Les jours s'en vont je demeure

L'amour s'en va comme cette eau courante

L'amour s'en va

Comme la vie est lente

Et comme l'Espérance est violente

Vienne la nuit sonne l'heure

Les jours s'en vont je demeure

Passent les jours et passent les semaines

Ni temps passé

Ni les amours reviennent

Sous le pont Mirabeau coule la Seine

Vienne la nuit sonne l'heure

Les jours s'en vont je demeure


"Le Pont Mirabeau"Apollinaire, Alcools (1912)
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O retrato de Antero, pintado por Columbano, que reproduzo acima, encontra-se no Museu do Chiado, onde actualmente se apresenta uma Exposição das obras do pintor, Exposição essa integrada no Programa das Comemorações do Centenário da República
Columbano, auto-retrato "no meu atelier"

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

"O principezinho" de Saint-Exupéry em Kaboul...

cena d' O Principezinho, em Kaboul, no Centro Cultural Francês, "o acendedor de candeeiros"...

O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, é um dos livros mais belos e mais conhecidos pelo mundo fora.

Um livro que tanto interessa os adultos, como as crianças. Lido nos diversos momentos da nossa vida (como qualquer livro que tenha coisas a dizer...) traz-nos sempre um pensamento bom, uma ideia, ou outra, ajuda-nos, comove-nos, empurra-nos para diante, muda-nos...

A história fala de um rapazinho que vivia num planeta que se chamava "Asteróide B612", e que um dia caiu na Terra.

Por curiosidade, no fundo... Queria aprender outras coisas, ver outras realidades, conhecer o mundo que não tinha visto.
Vai viajando de asteróide em asteróide e encontrando personagens diferentes: um rei sem súbditos para mandar, um homem vaidoso solitário que ninguém elogiava porque não havia lá ninguém, um bêbedo triste, um homem de negócios que só pensava em contas, um acendedor de candeeiros (que decidia se acendia o dia, ou a noite...), etc.

Encontra uma rosa, que logo ama:
"- Como és bela!
- É verdade, não é?, respondeu docemente a flor. E nasci ao mesmo tempo que o sol...
O principezinho percebeu que ela não era nada modesta, mas era tão encantadora!"
E falam, falam, falam... O principezinho gostava muito de falar, de criar novos amigos.
Encontra também uma raposa...E falam, falam e o principezinho aprende. À despedida diz-lhe a raposa:

"- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só vemos bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
- O essencial é invisível aos olhos, repetiu o principezinho, para se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que torna a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que perdi com a minha rosa... diz o principezinho, para se lembrar.
- Os homens esqueceram esta verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tornas-te responsável para sempre daquilo que « prendeste ». És responsável pela tua rosa…
- Sou responsável pela minha rosa, repetiu o principezinho para se lembrar."~
Encontrou ainda um geógrafo que conhecia os mares, as cidades e os rios, mas que nunca os tinha visto... e que lhe diz que procure conhecer o planeta Terra.

Assim, o principezinho foi parar ao deserto do Sahara, onde encontra o escritor desta história, um aviador que ali aterrara...
O Principezinho pede-lhe : "Por favor, desenha-me uma ovelha.”
E conversaram e ficaram amigos.
Quando se separam, o escritor sabe que nessa noite, a estrela do Principezinho vai estar por cima do lugar onde o avião caiu...

Diz-lhe que vai sentir saudades dele...
O Principezinho responde-lhe que, à noite, deve olhar para as estrela todas. Assim, vai sempre poder "vê-lo".
"A minha estrela é pequenina de mais para se ver daqui. Mas, assim é melhor, para ti, a minha estrela vai ser uma qualquer. E gostarás de olhar para as estrelas todas..."


Creio que, sempre que quisermos, podemos ver a estrelinha de onde o principezinho nos observa com ternura e se lembra de nós...
Hoje lembrei-me desta história porque li no Le Monde (de 3 de Outubro, num artigo assinado por Frédéric Bobin, enviado especial do Monde em Kaboul) que O Principezinho passara por Kaboul.

Intitulava-se o artigo: “Lição de humanidade e de compreensão mútuas: Le Petit Prince representado em Kaboul”

Sim, Kaboul. No Afganistão, no meio da guerra, terrorismo etc. Sim, no meio de polícias, entre barragens, montanhas áridas e pedregosas, homens armados e tantos meninos com os olhos abertos que querem aprender!
“Le Petit Prince”, o principezinho da nossa história surge em cena, representado pela Companhia Teatral afgã, AZDAR, posto em cena pelo encenador Arash Absalan, no Centro Cultural Francês.

cena da mesma peça: o "principezinho e a rosa"

Diz o realizador, o iraniano Absalan:

“A mensagem do Petit Prince é mais do que uma mera mensagem de paz, A noção fundamental é a capacidade de “apprivoiser l’autre” e de nos deixarmos “apprivoiser par lui”... É isto que torna o diálogo mais rico.”

E lá está ele, o Principezinho, num palco estrelado, algures no Afganistão, que encontra um rei, uma rosa, uma raposa, um vendedor de estrelas, um acendedor de candeeiros, etc etc.

E, com o seu cachecol amarelo traçado ao pescoço, lá vai ele “apprivoiser” -prender- a assistência, como na história de Saint-Exupéry.

Apprivoiser (*) é difícil de traduzir. Encontro no dicionário da Porto Editora: domesticar, amansar, familiarizar, acostumar-se a, mas não é bem “domesticar”, nem nada disso: tem um sentido mais forte, mais emotivo, afectivo, mais do coração...(*)
“Trazer a si”? "Prender?"
No fundo, é dar aos outros enquanto se traz dos outros o que eles também querem dar...

“O público são os alunos dos dois colégios franceses de Kaboul mas a eles juntaram-se as crianças da rua de Kaboul que uma iniciativa local tenta atrair e associar à criação teatral. O público ri às gargalhadas enquanto se sucedem no palco as coisas absurdas que fazem os adultos empoleirados nos seus planetas”, refere o articulista.

E termina de um modo muito belo: “Durante o espaço de uma manhã 500 principezinhos afgãos entraram no mundo de Saint-Exupéry”.

É bom ler estas notícias! Verdadeira lição de humanidade e de vontade de compreensão do outro que é –necessariamente- diferente de nós!

Deixo-vos algumas "pistas", para continuarem esta "procura".

Como o principezinho, devemos procurar, querer conhecer, encontrar, descobrir...o outro!

(*) Acabo de saber pela minha amiga Amélia Mota (que foi minha colega na Escola de Sintra ...) que a palavra-chave é "cativar"!!!

http://fromkabul.over-blog.com/

(as imagens da peça foram respeitosamente tiradas, por mim, deste blog, acima referido)

Arash Absalan está ligado ao Théâtre du Soleil e trabalhou com a relizadora Ariane Mouchkine. Deixo alguns “videos” com trabalhos dela.

(Este Petit Prince de Kaboul é a manifestação de uma criação teatral no Afghanistão, diz Frédéric Bobin, que quer expandir-se. A troupe Azdar, criada por Guilda Chahverdi, com o apoio da "Association française Hasards d'hasards", de Clichy-la-Garenne (Hauts-de-Seine), já levou à cena, em Kaboul, "L'Histoire du tigre", de Dario Fo, "Ubu roi", d'Alfred Jarry, e "Macbeth", de Shakespeare. )
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Anúncio da peça em Kaboul:
http://www.freedomtocreate.com/default.asp

03 Jun 2010
The Little Prince - Performance by Azdar Theatre
Kabul, Afghanistan: Join Azdar Theatre for an evening of theatre in the garden of Turquoise Mountain. The group will be performing a play called The Little Prince directed by Arash Absalan

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Florbela Espanca e a Natureza, dois sonetos


Camille Pissarro, "effet de neige en Eragny"

Raul Dufy, flores e papoilas



NEURASTENIA


Sinto hoje a alma cheia de tristeza!

Um sino dobra em mim Ave-Marias!

Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,

Faz na vidraça rendas de Veneza...


O vento desgrenhado chora e reza

Por alma dos que estão nas agonias!

E flocos de neve, aves brancas, frias,

Batem as asas pela Natureza...

Chuva...tenho tristeza! Mas porquê?!

Vento...tenho saudades! Mas de quê?!

Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!

Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso !!...



ESFINGE
Sou filha da charneca erma e selvagem:
Os giestais, por entre os rosmaninhos,

Abrindo os olhos de oiro, pelos caminhos,

Desta minh'alma ardente são a imagem.


E ansiosa desejo - ó vã miragem -

Que tu e eu, em beijos e carinhos,

Eu a Charneca, e tu o Sol, sozinhos,

Fôssemos um pedaço da paisagem!

E à noite, à hora doce da ansiedade,

Ouviria da boca do luar

O De Profundis triste da Saudade...


E, à tua espera, enquanto o mundo dorme,

Ficaria, olhos quietos, a cismar...

Esfinge olhando, na planície enorme...