quinta-feira, 20 de abril de 2023

70 ANOS: HIROSHIMA E NAGASAKI - PARTE 1

"Em 6 de agosto de 1945, o então presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, autorizou o uso da bomba atómica sobre o Japão para abreviar o conflito e acabar com a guerra, visto que este era o último país do Eixo que ainda resistia às investidas dos Aliados."

 A bomba – chamada Enadola - explodiu a 580 metros do chão. A ponte mais central da cidade foi o local escolhido onde explodiu a primeira bomba destruindo completamente os bairros habitados onde toda a gente morreu.

 Bomba sobre  Hiroshima
 
"A explosão da bomba deu-se a 580 metros do chão. No centro dessa explosão, a temperatura chegou a quase 1.000.000ºC. No solo, o calor chegou a 5.000ºC, o que levou à desintegração de quase tudo num raio de 2 quilómetros."

O Hospital principal da cidade desmoronou-se e dentro ninguém se salvou. Médicos, doentes e familiares.

Li na "Wikipedia". Depois de ter estado a ler o escritor Kenzaburo Oe de quem falarei depois - escritor japonês que, em 1994, recebeu o Prémio Nobel de Literatura e morreu no ano passado, em Março de 2022. (1) Licenciou-se em Literatura Francesa, em 1954, na Universidade de Tóquio e começou a publicar os seus primeiros textos, em 1957 - em revistas literárias.  

Kenzaburo Oe

Por causa dele tive curiosidade fui querer saber mais. Porque a bomba de Hiroshima caiu a cerca de 160 km da aldeia onde ele vivia com a mãe.

O escritor teve uma infância atribulada. Tinha apenas seis anos quando rebentou a Segunda Guerra Mundial que assolou o seu país. O pai morre em combate no Pacífico, em 1944. Tem dez anos quanto o Japão capitulou. 

 E em 1945, a bomba sobre Hiroshima cai a cerca de 160 km da aldeia na floresta onde vivia com a mãe.

Todas essas fatalidades incluindo o desastre nuclear inominável que lhe passou ao lado, transformaram Kenzaburo num activista convicto contra o nuclear. 

***

Nagasaki
 
Num pequeno àparte:  mais intolerável me pareceu que, a seguir à bomba sobre Hiroshima de 6 de Agosto, depois de conhecidos os efeitos da primeira bomba - se lhe seguisse, três dias depois, a 9 de Agosto outra bomba - a Fatman- sobre Nagasaki...

(1)  Kenzaburo Oe nasce no Japão em Ose (hoje Hushiko) em 31 de Janeiro de 1935 e morreu no passado 3 de Março de 2022.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Sergio Endrigo canta "Io che amo solo te"

Sergio Endrigo - compositor e cantor  italiano- nasceu em Pola (1), em 15 de Junho de 1933. Morreu em Roma a 7 de Setembro de 2005.

Quando a cidade de Pola e toda a Ístria foram ocupadas pela Jugoslávia em 1947, a família Endrigo teve que fugir.

Primeiro foram para Veneza onde Sergio comprou a primeira guitarra. Dali foram mandados para um campo de refugiados italianos expulsos da Ístria, em Brindisi, onde fez três anos de escolaridade.

Interrompeu os estudos para ajudar a mãe indo trabalhar como porteiro no Hotel Excelsior de Veneza - e também no "Festival de Veneza".

Começou a tocar guitarra nessa altura. Depois de acabar os estudos voltou a Veneza e com alguns amigos começou a cantar em cabarets venezianos durante sete anos. 

Estavam na moda as canções americanas de Frank Sinatra, Bing Crosby, Johnny Mathis e outros, acompanhando-se à guitarra.

Em 1968, ganhou o Festival de San Remo com a canção “Canzone per te”. Nesse ano também representou a Itália no Festival Eurovisão da Canção com a canção intitulada “Marianne”.

A canção “Io che amo solo te” (1962) é a sua canção mais famosa. Durante a carreira, trabalhou com vários escritores e poetas como Pier Paolo Pasolini, Vinicius de Moraes, Giuseppe Ungaretti e músicos como Toquinho e Luis Bacalov.


(1)Pola é hoje uma cidade croata, situada na península da Ístria. A Ístria é a maior península do mar Adriático, ao sul de Trieste. Está dividida pela Croácia, Eslovénia e Itália. Cidade romana, com imensos templos desse tempo, fez durante um tempo parte da Itália, pertenceu a Veneza, depois à Jugoslávia. Depois em 1945 foi ocupada pelos aliados. Hoje só a chamada Ístria amarela (devido à cor da terra)é que pertence ainda à Itália.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Lembrar Truman Capote, o livro “Ao começo do dia", outros autores americanos e outras histórias...

Reli este livro de Truman Capote com emoção. Fazia parte dos livros que mais amei na juventude. O conto Ao começo do dia - na edição americana, Breakfast at Tiffany’sé o título de um dos quatro contos, o que abre o livro, publicado há muitos anos na ‘Colecção Miniatura’ (1).

Truman Capote

Quem era Truman Capote? Truman Streckfus Persons, de seu nome verdadeiro, nasce em Nova Orléans na Louisiana em 30 de Setembro de 1924. (2)

O pai era um comerciante, filho de uma família respeitada do estado do Alabama, e a mãe era uma jovem de 16 anos, Lillie Mae Faulk, igualmente do Alabama. Truman era ainda adolescente quando a mãe foge de casa.

 

Monroeville

Anos mais tarde os pais divorciam-se e Truman vai viver em casa de uns primos afastados, em Monroeville. A mãe voltara a casar, o marido era um bom homem cubano chamado Joseph “Joe” Capote, que decide adoptar Truman que ficará a chamar-se Truman Capote e vai viver com eles para Nova Iorque.

 Nova Iorque

Capote escreveu muitos livros de contos, romances, textos de ‘não-ficção’ narrativa e artigos de jornalismo colaborando em jornais e revistas.

O livro Breakfast at Tiffany's (Ao começo do dia) sai em 1958 e é, talvez, a obra mais conhecida do autor. A personagem central é uma jovem mulher de vinte anos, Holly Golightly, ingénua e excêntrica ao mesmo tempo.
A 5th Avenue em New York

A história passa-se em Nova Iorque, num bairro popular, à volta da figura de Holly  Golightly. 

Holly cujo passatempo era ir todas as manhãs, de autocarro, olhar para a montra da loja Tiffany, na 5ª Avenida - onde se vendiam os mais belos colares de diamantes - antes de os clientes entrarem.  E, sem tirar os olhos dos diamantes, ia comendo devagar o pequeno almoço que podia ser apenas um gelado.

Acho que todos conhecemos a história – sobretudo pelo sucesso do filme do realizador americano Blake Edwards, em 1961, com Audrey Hepburn no principal papel.
 

 
O enredo é sério e divertido, contado por um narrador que se apaixona por ela - porque todos se apaixonavam por Holly.

Holly era divertida, sedutora, vulnerável e terna, inquietando os que com ela se cruzavam. De cabelo despenteado, pintado de várias cores e de nariz no ar, óculos escuros, passeava-se no bairro com o seu gato ruivo.

Uma jovem mulher independente, que vive à sua maneira, com horários diferentes dos outros, vestindo-se de modo original, uma mulher livre que não ouve ninguém e que quer ser ela própria a escolher a vida e cujo sonho é poder entrar um dia na Tiffany's e comprar um colar de diamantes.
É um conto cheio de beleza e de sonho, de coisas boas e más, que acontecem na casa onde Holly Golightly vive, a ela e aos vizinhos. Tristeza e desilusões muitas, sim, mas a sua vontade de viver consegue que "dê a volta" à vida. Pode chorar, andar à chuva ou cantar à janela. Holly é uma sobrevivente. é teimosa e impulsiva mas tem um grande coração. 
É um belo conto sobre a juventude, a dificuldade de viver e ...a amizade.

Neste volume há mais três histórias curtas. Uma intitula-se Casa de Flores, com a figura pura da indígena Ottilia que vive numa “casa de raparigas” onde o jovem Royal Bonaparte se apaixona por ela. 

 
Gauguin "Jovem mulher com leque branco" (1902)

Antes de se ir embora, Royal pede-lhe que vá ter com ele à floresta. Diz que é "para viverem um grande amor". Ela vai e, com algumas peripécias pelo meio, assim vai acontecer.

Uma viola de diamantes” é um conto de grande humanidade que fala de homens que passam pela prisão e por vezes trazem com eles um sonho - ou apenas uma guitarra enfeitada com diamantes de vidro - o caso de Tico Feo, dono dessa guitarra. Ou Mr. Shaeffer que fabrica bonecas que - depois de vendidas lá fora - lhe dão algum dinheiro para o tabaco. São duas personagens vivas, verdadeiras.

 

  E depois vem Memória do Natal, conto que fecha o livro. Dele quero falar um pouco mais. Uma história simples e banal, porém com uma sensibilidade aguda que nos confrange. Lembra por vezes a poesia de um seu outro livro, Harpa de Ervas (1951).

Ficamos com o doloroso sentimento de que bastam pequenas coisas na vida, pequenos gestos, um olhar, uma conversa - para dar felicidade às pessoas. E no entanto quão depressa são desvalorizados ou apagados como se só os grandes gestos contassem.

Em poucas páginas as duas personagens do livro entram no coração dos leitores. Pela sinceridade e inocência de um miúdo de sete anos e de uma mulher de sessenta que ficou sempre criança. Quem pode esquecer Buddy, o narrador? é ele que recorda e conta:

 Uma mulher de cabelo branco aparado está de pé à janela da cozinha. Calça sapatos de ténis e enverga uma camisola cinzenta informe por cima de um vestido estival de algodão. É baixa e viva como uma pequena galinha (...). O rosto é notável  não é sem parecenças de com o de Lincoln, anguloso, tisnado pelo sol e pelos ventos; mas também delicado, de ossos finamente cinzelados e olhos tímidos cor de cereja madura.

- Ai minha vida! - exclama de hálito a esfumar o vidro da janela – estamos no tempo dos bolos de fruta!

Edouard Manet

A pessoa que está a falar com ela sou eu. Tenho sete anos ela sessenta e tal. Somos primos muito afastados e vivemos juntos...bem! Desde que eu me lembro. (...) Somos os melhores amigos um do outro. Ela chama-me Buddy em recordação de um rapazinho que dantes fora o seu melhor amigo. O outro Buddy morrera em 1880 era ainda uma criança. Ela continua a ser uma criança.” (Col. Miniatura, pg 136) 

Nostalgia, saudade, consciência do tempo passado perdido. Tão belo e triste ao mesmo tempo.

Escrevia o autor: “Encontrar a forma certa para a 'sua' história é simplesmente perceber a maneira mais natural de a contar” E isso Truman Capote sabia.

 
Escreveu outras obras. O romance “Other voices other rooms” (1948) baseado em experiências da sua infância. Ousa falar do racismo sulista - e entre outras coisas conta a história de um estupro colectivo de uma mulher ‘afro-americana’ por brancos, no Alabama. Não era normal aparecer 'escrito' um acontecimento nitidamente racista.

Capote conheceu a escritora Carson McCullers (3) autora de um dos mais belos romances sobre a realidade da América sulista, The Heart is a Lonely Hunter, e de Ballad of the Sad Café onde, como Capote, falava com verdade da realidade “real” e da dura vida de certas camadas sociais da América. Ambos falavam de solidão, de alienação, de desigualdades e de lugares de pobreza; ambos falavam das contradições sulistas, das enormes diferenças e choques de ordem social, do racismo e da marginalidade.

 

Foi nela que encontrou amizade e foi graças a ela que conseguiu um contrato com a editora Random House para publicar Other voices other rooms. O romance teve imediato sucesso literário nacional e internacional. Capote afirma-se como um autor americano entre os mais originais do pós-guerra.

O romance "Outras vozes, outros lugares" (1948) é baseado em experiências da sua infância. Ousa falar do racismo sulista - e, entre outras coisas, conta a história de um estupro colectivo de uma mulher ‘afro-americana’ por brancos, no Alabama. Não era normal aparecer 'escrito' um acontecimento nitidamente racista.

 
Em 1966, publica uma obra controversa em que relata uma situação verdadeira : o assassinato de uma família, no estado do Kansas, numa quinta isolada, em 1959. 

 
Ao ler a notícia, Truman Capote decide escrever sobre o crime. Quase seis anos mais tarde, em 1965, publica a sua história em The New Yorker - em quatro partes.
Este livro transforma-o no pioneiro da arte da reportagem jornalística. Intitula-se In Cold Blood - "A Sangue frio” na tradução portuguesa da Dom Quixote - e teve grande sucesso.

Para o escrever, o autor deslocou-se à prisão onde estavam presos os dois assassinos para falar com eles e, assim, escrever a história ‘sob todos os pontos de vista, como uma reportagem. Uma reportagem dura sobre vidas quebradas e sem sentido nem futuro. A pedido de um dos assassinos  (que se ligou muito ao escritor naquele tempo de espera) foi assistir à sua execução por enforcamento.

Nessas idas, acompanhava-o a amiga e Harper Lee (4) que o ajudava a tomar notas. Eram amigos desde miúdos e por vezes eram personagens um do outro nas histórias sobre a infância comum.   
Harper Lee é autora de um livro fascinante Não matem a cotovia (título original To kill a mockingbird onde Capote é o "pequeno Dill Harris", um dos personagens principais.

 Que dizer mais? Truman Capote era membro do Instituto Nacional das Artes e Letras e recebeu em três anos diferentes o Prémio O. Henry Memorial (5) que premiava os melhores contos do ano.  

 Nos últimos anos dedicou-se a obras mais do tipo jornalístico como "Música para Camaleões" em que critica a sociedade mundana de Nova Iorque e, como era de esperar, cria muitos inimigos. Morre bastante solitário - depois de ter sido muito acompanhado, mas dizer a verdade paga-se...

Aconselho a leitura deste autor – se ainda não o leram. E igualmente a leitura das duas escritoras Carson McCullers e Harper Lee. Para mim todos eles têm o valor enorme no modo como revelam aquela parte da América, tão problemática, antes e depois da Secessão, e a simplicidade e a humanidade com que o fazem.

***

 (1) Foi publicado na Colecção Miniatura, (s/data), com uma bela capa de Bernardo Marques.

(2) Truman Capote nasce em Nova Orleães, na Louisiana, em 30 de Setembro de 1924 e morre em 25 de Agosto de 1984 em Los Angeles, Califórnia.

(3) Carson McCullers nasce em 19 de Fevereiro de 1917e morre em 29 de Setembro de 1967. Escreveu muitos livros entre os quais o livro de contos The Ballad of the Sad Café. “A Balada do Café Triste” está publicada nas edições Presença (2011) e na Relógio d'Água (2017). Existem também traduções de "Coração, Solitário Caçador", nas Edições Cor. A Relógio d’Água publica mais tarde o romance - nova tradução, novo título: "O Coração É Um Caçador Solitário".

(4) Harper Lee nasceu no dia 28 de Abril de 1926 e morreu, em 19 de Fevereiro de 2016 na sua cidade.em Monroeville, no estado do Alabama, onde Capote viveu. Ali passou infância e adolescência. O seu primeiro livro, To kill a mockingbird, ganhou vários prémios, entre eles o Pulitzer de Ficção, em 1961. Em português existem pelo menos duas traduções: Não matem a Cotovia, na Editora Difel e Mataram a Cotovia, na  Relógio d’ Água.

 (5) O Prémio foi criado nos USA, em 1919, com o nome de Prize Stories.

https://www.google.com/search?client=firefox-bd&q=truman+capote+biografia

https://pt.wikipedia.org/wiki/Carson_McCullers

https://www.blogletras.com/2016/02/a-complexa-relacao-entre-truman-capote.html