A 5th Avenue em New York
A história passa-se em Nova Iorque, num bairro popular, à volta da figura de Holly Golightly.
Holly cujo passatempo era ir todas as manhãs, de autocarro, olhar para a montra da loja Tiffany, na 5ª Avenida - onde se vendiam os mais belos colares de diamantes - antes de os clientes entrarem. E, sem tirar os olhos dos diamantes, ia comendo devagar o pequeno almoço que podia ser apenas um gelado.
Acho que todos conhecemos a história – sobretudo pelo sucesso do filme do realizador americano Blake Edwards, em 1961, com
Audrey Hepburn no principal papel. O
enredo é sério e divertido, contado por um narrador que se apaixona por ela - porque todos se apaixonavam por Holly.
Holly
era divertida, sedutora, vulnerável e terna, inquietando os que com ela se cruzavam. De cabelo despenteado, pintado de várias cores e de nariz no ar, óculos escuros, passeava-se no bairro com o seu gato ruivo.
Uma jovem mulher
independente, que vive à sua maneira, com horários diferentes dos outros, vestindo-se de modo original, uma mulher livre que não ouve ninguém e que quer ser ela própria a escolher a vida e cujo sonho é poder entrar um dia na Tiffany's e comprar um colar de diamantes. É um conto cheio de beleza e de sonho, de coisas boas e más, que acontecem na casa onde Holly Golightly vive, a ela e aos vizinhos. Tristeza e desilusões muitas, sim, mas a sua vontade de viver consegue que "dê a volta" à vida. Pode chorar, andar à chuva ou cantar à janela. Holly é uma sobrevivente. é teimosa e impulsiva mas tem um grande coração.
É um belo conto sobre a juventude, a dificuldade de viver e ...a amizade.
Neste volume há mais três
histórias curtas. Uma intitula-se Casa de Flores, com a figura pura da
indígena Ottilia que vive numa “casa de raparigas” onde o jovem Royal Bonaparte se apaixona por ela.
Gauguin "Jovem mulher com leque branco" (1902)
Antes de se ir embora, Royal pede-lhe que vá ter com ele à floresta. Diz que é "para viverem um grande amor". Ela vai e,
com algumas peripécias pelo meio, assim vai acontecer.
“Uma viola de diamantes” é um conto de grande humanidade que fala de homens
que passam pela prisão e por vezes trazem com eles um sonho - ou apenas uma
guitarra enfeitada com diamantes de vidro - o caso de Tico Feo, dono dessa guitarra. Ou Mr.
Shaeffer que fabrica bonecas que - depois de vendidas lá fora - lhe dão algum dinheiro
para o tabaco. São duas personagens vivas, verdadeiras.
E
depois vem Memória do Natal, conto
que fecha o livro. Dele quero falar um pouco mais. Uma história simples e banal,
porém com uma sensibilidade aguda que nos confrange. Lembra por vezes a poesia
de um seu outro livro, Harpa de Ervas
(1951).
Ficamos
com o doloroso sentimento de que bastam pequenas coisas na vida, pequenos
gestos, um olhar, uma conversa - para dar felicidade às pessoas. E no entanto
quão depressa são desvalorizados ou apagados como se só os grandes gestos
contassem.
Em
poucas páginas as duas personagens do livro entram no coração dos leitores. Pela
sinceridade e inocência de um miúdo de sete anos e de uma mulher de sessenta que
ficou sempre criança. Quem pode esquecer Buddy, o narrador? é ele que recorda e conta:
“Uma
mulher de cabelo branco aparado está de pé à janela da cozinha. Calça sapatos
de ténis e enverga uma camisola cinzenta informe por cima de um vestido estival
de algodão. É baixa e viva como uma pequena galinha (...). O rosto é
notável não é sem parecenças de com o de
Lincoln, anguloso, tisnado pelo sol e pelos ventos; mas também delicado, de
ossos finamente cinzelados e olhos tímidos cor de cereja madura.
- Ai minha vida! - exclama de
hálito a esfumar o vidro da janela – estamos no tempo dos bolos de fruta!
Edouard Manet
A pessoa que está a falar com ela
sou eu. Tenho sete anos ela sessenta e tal. Somos primos muito afastados e
vivemos juntos...bem! Desde que eu me lembro. (...) Somos os melhores amigos um
do outro. Ela chama-me Buddy em recordação de um rapazinho que dantes fora o
seu melhor amigo. O outro Buddy morrera em 1880 era ainda uma criança. Ela
continua a ser uma criança.” (Col. Miniatura, pg 136)
Nostalgia,
saudade, consciência do tempo passado perdido. Tão belo e triste ao mesmo tempo.
Escrevia
o autor: “Encontrar a
forma certa para a 'sua' história é simplesmente perceber a maneira mais natural de
a contar” E isso Truman Capote sabia.
Escreveu
outras obras. O romance “Other voices
other rooms” (1948) baseado em experiências da sua infância. Ousa falar do
racismo sulista - e entre outras coisas conta a história de um estupro
colectivo de uma mulher ‘afro-americana’ por brancos, no Alabama. Não era
normal aparecer 'escrito' um acontecimento nitidamente racista.
Capote
conheceu a escritora Carson McCullers (3) autora de um dos mais belos romances sobre a realidade da América sulista, The Heart is a Lonely Hunter, e de Ballad of the Sad Café onde, como Capote, falava com verdade da realidade
“real” e da dura vida de certas camadas sociais da América. Ambos falavam de solidão, de alienação, de
desigualdades e de lugares de pobreza; ambos falavam das contradições sulistas,
das enormes diferenças e choques de ordem social, do racismo e da marginalidade.
Foi nela que encontrou amizade e foi
graças a ela que conseguiu um contrato com a editora
Random House para publicar Other voices
other rooms. O
romance teve imediato sucesso literário nacional e internacional. Capote afirma-se como
um autor americano entre os mais originais do pós-guerra.
O romance "Outras vozes, outros lugares" (1948) é baseado em experiências da sua infância. Ousa falar do
racismo sulista - e, entre outras coisas, conta a história de um estupro
colectivo de uma mulher ‘afro-americana’ por brancos, no Alabama. Não era
normal aparecer 'escrito' um acontecimento nitidamente racista.
Em
1966, publica uma obra controversa em que relata uma situação verdadeira
: o assassinato de uma família, no estado do Kansas, numa quinta
isolada, em 1959.
Ao ler a notícia, Truman Capote
decide escrever sobre o crime. Quase seis anos mais tarde, em 1965, publica a sua história
em The New Yorker - em quatro partes.
Este livro transforma-o no pioneiro da arte da reportagem jornalística. Intitula-se In Cold Blood - "A Sangue frio” na tradução portuguesa da Dom Quixote - e teve grande sucesso.
Para
o escrever, o autor deslocou-se à prisão onde estavam presos os dois assassinos
para falar com eles e, assim, escrever a história ‘sob todos os pontos de
vista, como uma reportagem. Uma reportagem dura sobre vidas quebradas e sem
sentido nem futuro. A pedido de um dos assassinos (que se ligou muito ao escritor naquele
tempo de espera) foi assistir à sua execução por enforcamento.
Nessas
idas, acompanhava-o a amiga e Harper Lee (4) que o ajudava a tomar
notas. Eram amigos desde miúdos e por vezes eram personagens um do outro nas
histórias sobre a infância comum.
Harper
Lee é autora de um livro fascinante Não
matem a cotovia (título original To
kill a mockingbird onde Capote é
o "pequeno Dill Harris", um dos personagens principais.

Que
dizer mais? Truman
Capote era membro do Instituto Nacional das Artes e Letras e recebeu em três anos
diferentes o Prémio O. Henry Memorial (5) que
premiava os melhores contos do ano.
Nos últimos anos dedicou-se a obras mais do tipo jornalístico como "Música para Camaleões" em que critica a sociedade mundana de Nova Iorque e, como era de esperar, cria muitos inimigos. Morre bastante solitário - depois de ter sido muito acompanhado, mas dizer a verdade paga-se...
Aconselho a leitura deste autor – se ainda não o leram. E
igualmente a leitura das duas escritoras Carson McCullers e Harper Lee. Para mim todos eles têm o valor enorme no modo como revelam aquela parte da América,
tão problemática, antes e depois da Secessão, e a simplicidade e a humanidade com que o fazem.
***
(1) Foi publicado na Colecção Miniatura, (s/data), com uma bela
capa de Bernardo Marques.
(2) Truman
Capote nasce em Nova Orleães,
na Louisiana, em 30 de Setembro de 1924 e morre em 25 de Agosto de 1984 em Los
Angeles, Califórnia.
(3) Carson
McCullers nasce em 19 de Fevereiro de 1917e morre em 29 de Setembro de 1967. Escreveu muitos livros entre os quais o livro de contos The Ballad of the Sad Café. “A Balada do Café Triste” está publicada nas edições Presença (2011) e na Relógio d'Água (2017). Existem também traduções de "Coração, Solitário Caçador", nas Edições Cor. A Relógio d’Água publica mais tarde o romance - nova tradução, novo título: "O Coração É Um
Caçador Solitário".
(4) Harper Lee nasceu no dia 28
de Abril de 1926 e morreu, em 19 de Fevereiro de 2016 na sua cidade.em
Monroeville, no estado do Alabama, onde Capote viveu. Ali passou infância e adolescência. O seu primeiro livro, To kill a mockingbird, ganhou vários prémios, entre eles
o Pulitzer de Ficção, em 1961. Em português existem pelo menos duas traduções: Não matem a Cotovia, na Editora
Difel e Mataram a Cotovia, na Relógio d’ Água.
(5) O Prémio foi criado nos USA, em 1919, com o
nome de Prize Stories.
https://www.google.com/search?client=firefox-bd&q=truman+capote+biografia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Carson_McCullers
https://www.blogletras.com/2016/02/a-complexa-relacao-entre-truman-capote.html