domingo, 14 de junho de 2009

Histórias da casa amarela: quando passam as cegonhas





Passavam as cegonhas no azul dos céus. Lentas, um delicado bater de asa, e as patas esticadas para trás, e o corpo elegante quase na horizontal.
Sabia que, para os lados da estação, existiam grandes árvores, velhos eucaliptos meio desfolhados, no topo dos quais faziam os ninhos, ou, então, nos postes eléctricos em verdadeiro exercício de equilibristas. Por vezes, no campo, em cima das chaminés das casas abandonadas, víamo-las empinadas nas pernas finas, abrindo e fechando as grandes asas brancas e negras.
A minha irmã pequenina tinha nascido e, para nós, as irmãs mais velhas, era um problema saber como é que ela tinha chegado, sem a gente a ver. De um dia para o outro, ali estava ela deitada ao lado da nossa mãe. Linda, coradinha, como uma verdadeira boneca de loiça ou como aqueles “bébés-chorões” que eu ia sempre espreitar nas lojas de brinquedos, antes do Natal.
Mas não... Era uma boneca de verdade...
O meu tio tinha ido, de manhãzinha, acordar-nos, vestiu-nos e disse que tínhamos uma surpresa. Ficámos excitadas, a pensar nas coisas maravilhosas que ele sempre nos contava: tinha de ser uma surpresa importante!
Mas como tinha chegado o bébé?
Mais tarde, a Florinda explicou-nos o mistério:
-Então as meninas não vêem as cegonhas quando passam? Trazem coisas no bico...Foi uma cegonha que trouxe a pequenina no bico!
Desconfiadas, olhávamos para ela.
- Uma cegonha?!, perguntei eu.
-Não se lembram de ver uma cegonha, ali a voar, na janela da cozinha?
E apontava para lá. O céu azul por cima do quintal e das laranjeiras do nosso vizinho, o lavrador da Mesquita. E o pico da Serra da Penha.
-Eu acho que me lembro!, disse a minha irmã mais velha.
-Não acredito... , replicava eu. Como é que ela podia vir pelo céu?
-Veio pendurada num paninho que a cegonha segurava no bico....
-E não caía?!, tornava eu, incrédula.
-Não, porque as cegonhas voam sempre deitadas. Têm muito cuidado com os bébés.
Entre convencidas e desconfiadas com a explicação, íamos, devagarinho, pé ante pé, espreitar a nossa irmãzinha com atenção, a ver se não teria ficado magoada pelo bico da cegonha. Descíamos com cuidado as escadas da cozinha que levavam ao primeiro andar, ao quarto azul que era o quarto onde todas nascemos.
Empurrávamos a porta, metíamos a cabeça pela fisga, a espreitar. E lá estava ela adormecida nos braços da nossa mãe. Com bochechinhas cor de rosa, um bocadinho suada, apenas com a fralda branca, e mais nada, porque era um dia de Verão muito quente, como nos contou, depois, a minha mãe. Era um daqueles dias de calor terríveis que há no Alentejo em que as casas parecem arder todo o dia, e o fresco vem só durante a madrugada, ou abafado em vento suão.
Muitos anos depois, contemplei o voo ondulante das cegonhas, nos céus de Marrocos, quando partiam em bandos sabe-se lá para onde, agitando lentas, em movimentos profundos e harmoniosos, as asas brancas e negras. Viagem de abalada que se interrompia, por vezes, num voo picado em que uma ou duas das aves baixavam e se atacavam, numa luta cruel, com gritos agudos lá no alto e bicadas que eu imaginava fazerem sangue.

Imagens belas, sim, mas tão distantes da doçura das cegonhas da minha infância que passavam, devagar, nas janelas da cozinha e traziam os bébés no bico esticado, como nos contava a Florinda.
Voando ao pôr do sol, nos céus vermelhos, para o ninho, lá para o lado da estação.

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