domingo, 9 de fevereiro de 2014

Recordações... Oh! Victoria, "mon amie”!


Victoria e eu...

Recebi a carta de uma amiga que admiro. Tem 90 anos e soube aproveitar cada dia como se fosse o último. Carpe diem foi de certeza a lição que aprendeu e que ensinava aos outros. 

Hoje vive numa casa de repouso, que ela chama "gaiola dourada". "Já não voo por Telavive..."

Ben David Zadock, escultura


Longe do centro da sua Telavive, da Promenade e dos cafés onde ia, das pastelarias que frequentava a comer os deliciosos sufganyot ou o apfelstrudel. Falta-lhe tudo o que amava e sente-se isolada no sítio onde está. 


"Estou bem, não te preocupes, é tudo bom. Mas perdi a minha independência, a minha liberdade de passarinho..."



passarinho (blog Trepadeira)


Sabe que não podia viver sozinha no pequeno apartamento onde vivera tantos anos, agora sem família por perto pois o filho vive em Londres. 

"Sinto-me cansada e não me apetece ir à sala do convívio. Fico por aqui a olhar pela janela...", escreve na sua letra bem desenhada, num francês correcto.


"Lembro-me de ti, Audrey!"


Sim, há  momentos em que a vida sorri como um belo dia de sol e ficamos felizes por ter amigos. Pergunta-me como vão as minhas costas, velhos males... 


"E tu Audrey, o que fazes de belo? Como vão as tuas costas?"

Para ela eu sou Maria mas também "Audrey" porque sempre me achou parecida com a actriz, coisa que não sou de modo nenhum. 
Talvez a franja de “Sabrina” lhe tenha dado essa ideia... No entanto, gosto que me chame assim, é uma coisa nossa, quase infantil. Ela adora a Audrey Hepburn e eu sinto-me um pouco dentro desse amor.

Conheci  Victoria pouco depois de chegar a Telavive. Foi a Susy que ma apresentou. Precisava de arranjar umas bainhas das saias, perguntei-lhe e ela disse-me, no seu modo despachado: 

“Chama a Victoria, "la sarta" (costureira, em italiano, pois a Susanna falava-me sempre em italiano), ela é muito perfeita no trabalho. Trabalhou num atelier em Genève. É séria e não é careira.  ”

Victoria é uma judia da Turquia. E que escolhera a Suíça para viver, com Albert -que conhecia desde jovem. Albert trabalhava já em Genève  e viam-se nas férias, em Istambul. 
Casaram, tiveram um filho. Viveram anos e anos na Suíça e ela trabalhou no tal atelier de alta costura de que me falava a Susy. Um dia, no tarde da vida, reformaram-se e decidiram ir para Israel. 

Albert era um um judeu loiro, um senhor, com um bigode sempre bem tratado, e um sorriso doce. Um perfeito gentleman! Às vezes, via-o, contemplativo, com o seu olhar sempre nostálgico, num dos bancos do Jardim Ben Gourion

O que pensaria Albert? Lembraria a frescura dos verões de Genève? Levantava-se de imediato e vinha cumprimentar-me.


Eu tinha começado as aulas no Ulpan da minha rua, o Gordon. Eu morava na rehov Lassalle, 4 e o Ulpan era no nº 7.


Ulpan Gordon, na rehov Lassalle, 7

É uma escola de língua, tipo full-immersion, onde se ensina hebraico aos judeus imigrantes, vindos de toda a parte, seja da Rússia como da Argentina ou da França, ou do Yemen e da Etiópia.

A minha professora do Ulpan chamava-se Ilana. Era uma mulher inteligente e viva, quase da minha idade, com uma paciência infinita.  
Mais tarde, tive outra professora que me deu lições particulares e que ficou amiga para a vida, a Ruti.  


A Ruti, a Lilit e eu, na Dizengoff

Bebíamos grandes canecas de chá o tempo todo! E eu tinha que explicar o meu dia, em hebraico. A dada altura, tive de contar a história do livro policial que eu me tinha posto a escrever! Confesso que fui inventando coisas que nada tinham a ver, mas num vocabulário mais simples!


Ruti e eu, em casa, durante a lição...

As minhas professoras - a Ilana e a Ruti eram sabras.
Chamam “sabras” aos judeus nascidos em Israel, filhos dos kibutznikim, dos pioneiros, muitos deles sobreviventes do holocausto. A palavra “sabra” tem um sentido duplo, especial.
“Sabra”, em hebraico, é o figo-da-Índia, o fruto selvagem que cresce nos desertos  ou nos terrenos meio-áridos, uma forma de cactus. Como ele, os sabras consideram-se cheios de picos por fora - para se defenderem- mas com toda a doçura do mundo, dentro.
perto deserto do Neguev(foto MJF)

Continuando a minha história... Eu não percebia nada do que me diziam nos primeiros tempos de aulas. Repetia, olhava o quadro, escrevia.

Tu quem és? De onde vens? Eu sou a Ilana, tu como te chamas?  O que  fazes? Eu sou professora. E tu és aluno (a)...”
E eu repetia: “ani Maria, ani  me Portugal, ani shlomi tov, ani talmida ve at morá...”

Tinha nessa altura um problema com os óculos. Já precisava de óculos para ler e tinha outros para guiar... Nunca sonhara na vida ter de usar os dois simultaneamente! Pois na escola, punha os dois pares na testa, ou tinha-os pendurados do pescoço por um fio. 
Ora um par nos olhos, ora o outro, conforme tinha de escrever ou de olhar para a ardósia! E toda a gente se ria da minha aventura.
Claro que depois mandei fazer uns óculos de lentes progressivas ao Sr. Chriqui da Dizengoff, judeu marroquino, o oculista mais divertido que encontrei na vida! 

Para medir o centro óptico mandava-me sair para a rua: “Venha a andar, devagar”... Eu ia. “Mais depressa.” E eu ia mais depressa. Ele apontava o lápis que tinha na mão e “encontrava” o centro. E lá punha uma pinta negra numa lente e depois na outra.

Quando a minha amiga Victoria começou a vir a minha casa era uma alegria para mim. Podia falar em francês e explicar-lhe tudo o que ia sentindo, naquela nova terra. Podia saber mais coisas da vida dela. Também podia  falar espanhol porque os judeus turcos  falam “ladino”, um misto de espanhol e outras línguas, resquícios dos lugares por onde andaram.
Vista de Istambul

Ela falava-me de Istambul, das saudades que tinha, da tranquilidade daquela vida, das comidas orientais perfumadas, das primas que lá ficaram e com quem se escrevia e trocava fotografias que me mostrava. Trazia um saquinho com ela e as fotografias muito arrumadas lá dentro.

“Elas gostavam de cantar e de dançar. E eu também gostava muito!... Ainda gosto!”, e dava uns passos de dança na sala e ria agitando os braços como se tivessem um lencinho. "Agora estamos todas velhas...", e sentou-se ao meu lado.

       Victoria (de vestido amarelo) e as primas e Albert

 Mulher pequenina e muito morena, com olhos de azeitona a brilhar a brilhar, usava uma franja cortada a direito que a tornava mais nova. A verdade é que a sua juventude de espírito era enorme e isso transparecia no olhar e nas atitudes! Ela era jovem...
 Havia sempre uma história divertida para contar. Acima de tudo, apreciava a convivência, o bom viver e os sentimentos profundos.

Sou uma romântica, Audrey querida...” E acrescentava: “Olha, até no casamento. Eu chamo-me Victoria, como a Rainha de Inglaterra, e ele Albert, o Rei...”

Ficámos amigas. Quantas vezes, estava eu sentada no Café Segrafedo, ao fundo da rehov Dizengoff, e via-a passar, a correr, de malinha no braço, toda bem vestida, diria mesmo toda aperaltada, a caminho da pastelaria que está na esquina da rehov Frishman. Muito antes de chegarmos à Kikar Rabin...


Café Segrafedo


interior do Café Segrafedo


Kikar Rabin

Ela nem me via. Sorria, olhando em frente, de cabeça bem erguida, e apressava o passo. Tinha muitas amigas da sua idade e sei que a esperavam à hora do chá. Nunca percebi se ela ia atrasada, creio que era a sua maneira de andar: sempre apressada.

Depois, um dia, o suave Albert morreu, sem uma queixa, sem um suspiro, bom como era. E Victoria pareceu de repente uma flor murcha. Às vezes, chorava e lembro-me do lencinho bordado com que enxugava os olhos.

Vim-me embora. Estive anos sem a ver. Quando voltei a Israel, ela veio ter comigo à Dizengoff, agitada e feliz.



Sentámo-nos em campo  neutro, noutro café que não era nem o Segafredo, nem a sua pastelaria.  Mostrei fotografias recentes dos meus filhos, da casa onde voltara a viver na minha terra. Ela olhava-as com atenção. Ela olhava sempre para tudo com atenção. Abriu a mala e voltou a mostrar-me as velhas fotografias. 

Falámos e rimos, como duas tontas, de tudo e de nada. Porque ela era assim: uma fonte de optimismo e de alegria...

Nesta última carta, disse-me que estava contente porque o Schlomo -o filho que vive em Londres- a ia visitar em breve. Contou muitas coisas, como costuma fazer. E escrevia-me, um pouco desolada:

o selo e o envelope


Sabes, Audrey, minha querida Maria, hoje percebo que fiz mal em não ter aprendido hebraico. Nesta casa de repouso, estou desfasada, sinto-me muito só. Todos conversam e se compreendem e eu fico fora das conversas. Os israelitas são ásperos como o “sabra”: o figo-bravo com espinhos: bruscos e doces. Tu sabes porque viveste cá...Todos falam hebraico e eu sei apenas o trivial. Não é que as pessoas sejam antipáticas, como de início julguei e te disse há tempos. Não sabem que eu não falo hebraico... Falam inglês também, mas eu só  sei francês e espanhol...”

Junto ao lindo postal, que trazia os votos de Bom Ano Novo, atrasados, mandou-me umas folhas do Paris-Match onde se falava de um adolescente francês de 15 anos que queria pertencer à Academia Francesa. Justificava o seu pedido, dizendo: “Eu amo e amei sempre a literatura! E quero ser imortal! ”


Mando-te estes recortes porque sei que tu gostas destas coisas, como eu.”

A juventude desta mulher de 90 anos entusiasma-me! Dá-me vontade de a imitar! 
Proponho que viva até aos 120 anos, como dizem em Israel: “Ad mea esserim!”




Notas:

1. “ O Ladino é uma língua hoje extinta na Península Ibérica. No passado, era a língua das grandes comunidades judaicas nas cidades de Portugal e da Espanha. Foi a língua usada pelos judeus desses países: uma mistura de palavras hebraicas do dia a dia, com a língua da região onde habitavam que tanto podia ser o castelhano, o português, o árabe e até mesmo o catalão”(wikipedia).

Resta-me dizer que essa língua foi “transportada” para outras partes da Europa, chegando à Grécia e à Turquia e outros países, quando os Judeus foram expulsos pela Inquisição. Ou fugiram.  Nos séculos XVI, XVII e XVII.

2. "Sabra" ou figo-da-ìndia: "por ser um fruto áspero e duro por fora, mas macio e doce por dentro foi escolhido para designar os judeus nascidos em Israel, em oposição aos judeus  da Diáspora" (wikipedia).



8 comentários:

  1. Adorei esta história verdadeira.
    Já conheço daqui a sua amiga Victoria e simpatizo com ela. Pessoas fortes que resistiram a uma vida com momentos muito duros, mas que nunca desistiram e souberam caminhar para o futuro, apesar de certamente haver marcas dolorosas do passado. Pessoas admiráveis!

    Obrigada por este post. Gostei muito das fotografias!

    Um beijinho grande :)

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  2. Eu sei que tu entendes tudo isto, com a tua enorme snsibilidade! Boa semaninha...à chuva! espero que sem ciclones! Aqui tem estado terrível!

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  3. Maria João,
    Gostei destas memórias e destas partilhas.
    Beijinho e desejo que venha o bom tempo.
    Ana

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  4. Madame Victoria tal e qual a conheci e vi! Parabéns!

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  5. Um retrato perfeito de Madame Victoria, amiga querida. E uma saudade imensa de Tel Aviv, a roer-me. Those were the years...

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  6. Gostei muito, muito humana como sempre e com um fantástico poder de descrição. A Maria João sempre nos compreendeu bem, mesmo sem palavras, antes de ir aprender hebraico. Aqui sempre esteve em casa e pertencia a nós todos.
    Beijinhos da Gusta e do Inácio

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  7. Obrigada, Inácio, a sua opinião conta muito para mim, como sabe! Foi o nosso primeiro amigo em Telavive, o nosso conselheiro, o "batedor" que me permitiu saber mais e mais de uma realidade que muito me interessou - e interessa: Israel!
    Um beijinho amigo para os dois

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  8. Só hoje tive "assento" para vir visitar-te. Essa mulher estupenda, está a viver agora de uma maneira que para mim não queria, em meio de gente estranha, com outro idioma, sem o seu companheiro e o filho longe. Como é muito forte, saberá concerteza adaptar-se, e tirar partido ao que possa. Nem sequer tu estás perto, para levá-la a tomar um cafézinho e escutá.la com carinho. Oxalá que consiga ter alegria mesmo assim, eu não me imagino...
    Melhor não pensar.
    Beijinhos

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